Vampira estremeceu ao sentir seu corpo arder, parecia estar explodindo em chamas por dentro enquanto congelava por fora. Era incômodo, inédito e sem sentido.

Sua mente também fervilhava e nas vezes que ficava mais lúcida ouvia ainda que em intensa confusão, as coisas que aconteciam em seu redor, mas estes momentos estavam se tornando cada vez mais raros.

Na maior parte do tempo ela se afogava em agonia, e tudo o que sua mente processava era a dor, que parecia ser a única coisa existente. Furos por todo o seu corpo, líquidos aplicados que ardiam dolorosamente em suas veias, como se todo o sangue houvesse sido substituído por veneno, que corria denso e difícil por elas em um ritmo acelerado tortuoso.

Ouviu uma voz infantil. Não conseguia distinguir quem era. Parecia chamar por ela, mas naquele momento a garota nem ao menos tinha ciência do próprio nome. Ouvindo a aflição crescente na voz da criança, ela se sentiu na obrigação de dizer algo que melhorasse as coisas. Quando seus lábios se entreabriram porém, não foi um consolo que saiu deles. Foi um nome, que não era o seu ou o da pequena angustiada que a sacudia violentamente.

Logan.

Mas que diabos estava acontecendo com ela?

Vozes confusas, ruídos que alternavam de volume como um aparelho de som ruim. Alguém a segurou nos braços, alguém conhecido, ela sabia.

Os músculos fortes delineados pelo tecido da grossa jaqueta, a voz rude e suave ao mesmo tempo. A sensação de estar nos seus braços era familiar, como se ela estivesse onde deveria estar. O cheiro também era algo inesquecível, Vampira sabia que o cheiro dele era mais real do que qualquer outra coisa. Ela queria enterrar o rosto em seu peito, e perguntar se era mesmo ele, mas a escuridão a estava engolindo rápido demais.

Ela apertou os olhos, implorando em silêncio para que fosse real, para que Logan estivesse mesmo ali, que não fosse uma peça pregada por sua mente delirante. Porque ela sabia que tudo ficaria bem se estivesse com ele, nos braços dele.

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Em um estado de semi consciência, Vampira pôde ouvir mais vozes. Desta vez, sentiu-se satisfeita por conseguir reconhecer ao menos duas delas.

A infantil, percebeu, era da menina que estivera fazendo-lhe companhia em seus momentos de cativeiro. A lembrança trouxe um frio gélido que percorreu seu corpo, encontrando refúgio no peito. Então a voz de Logan que ela estava ouvindo desde antes fora, e continuava sendo, uma alucinação, ela percebeu desolada.

Ela continuava presa com Amy, lembrou-se do nome, no mesmo inferno em que se encontrava e sem a força que precisava para lutar e acabar com a raça daqueles desgraçados.

Então porque tudo parecia tão real? A voz de Wolverine, seu cheiro, seus braços estreitos protetoramente ao redor do corpo dela. Droga, Vampira podia sentir o coração dele batendo acelerado. Aquilo não devia, não podia, ser uma simples alucinação.

Ela sentiu quando perdeu o calor do corpo de Wolverine e foi repousada sobre um superfície macia, porém menos confortável. Quis soltar um resmungo de protesto, mas não teve forças para isso.

Ouviu vozes, baixas, confusas, mas a de Wolverine se sobressaiu, ríspida, irritada. Em um canto de sua mente, Vampira registrou que odiava quando ele gritava, o que acontecia com certa freqüência, detestava vê-lo perder o controle, mas nunca evitava afrontá-lo. Era uma característica de seu temperamento, tão difícil quanto o dele. Pensou que, se estivesse mesmo alucinando, deveria estar revivendo momentos de discussões fortes de ambos, pois o Logan de sua alucinação estava mais do que nervoso, estava irado. Ela ouviu o barulho de algo sendo golpeado repetidamente, e vozes indistinguíveis que pareciam tentar acalmá-lo, mas sem muito sucesso.

Ouviu a voz dele novamente próxima, Wolverine estava tão perto que a respiração quente dele acariciava seu rosto. Ela apreciou a proximidade, o calor de seu corpo que parecia carregar o ar ao redor dela.

Sentiu uma mão forte coberta segurar a sua com uma leveza surpreendente, o tecido frio das luvas dele causava uma sensação boa, confortável, em sua pele exposta extremamente sensível. Automaticamente, a mão de Vampira se fechou contra a dele, como que assegurando-se de que ele estava lá. Sabia de quem era aquela mão, o cheiro dele continuava lá. A voz baixa, angustiada que fazia com que seu peito se apertasse também.

"Logan."

Ela sussurrou sem conseguir conter a si mesma. Sentia uma necessidade enorme de consolá-lo, mas também precisava de uma prova. Precisava que ele lhe dissesse que tudo aquilo estava mesmo acontecendo, que ela estava salva com ele. Que não tornaria a sentir a dor e a humilhação de ser tratada daquela maneira.

"Logan."

Tentou falar mais alguma coisa, mas o sussurro breve já havia levado o máximo de suas energias escassas.

"Está tudo bem guria... você vai ficar bem."

A voz dele saiu clara, e vívida, juntamente com os arrepios que a tomaram ao sentir o hálito morno dele tão próximo a sua orelha. Era tudo o que ela precisava ouvir. Uma mão grande, e igualmente suave, retirou alguns fios de seu cabelo, roçando em sua pele. Assim que a mão que segurava a dela começou a soltar-se, Vampira agarrou-a com o máximo de força que pôde reunir naquele momento. Foi puro reflexo. Ela não deixaria que ele se afastasse. Não se permitiria libertar-se daquela ilusão tão vívida, tão real. Não permitiria que Logan desaparecesse. Não agora.

Se Vampira estivesse eu seu estado normal, estaria se repudiando naquele momento. Nunca se permitira sentir com tanta intensidade, suas defesas erguidas jamais ruíam, ela não fraquejava nem por um minuto se quer, jamais demonstrava seus sentimentos.

Às vezes até mesmo ela pensava que não os possuía, de tão fundo que os enterrava. Mas ela não conseguia, não queria, abrir mão de Logan em seu momento de fragilidade. Por mais patético que fosse, ela precisava dele.

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O tempo passava arrastado, e Hank não conseguira notar qualquer sinal que indicasse uma considerável melhora no estado de Rogue. Ele não saía de seu lado, verificando seus sinais vitais a cada momento, aguardando alguma reação que não chegava. Tentava consolar Wolverine, dizendo-lhe que ao menos ela estava estável, mas aquilo era de pouco consolo para todos.

Os x-men, em uma visão geral, ainda não sabiam como se sentir a respeito de Vampira. Mesmo que tudo houvesse sido esclarecido no fim, e sua permanência com a irmandade e conseqüente traição fosse justificada, o companheirismo entre eles parecia haver se extinguido. Eles não conseguiam confiar plenamente nela, as feridas que as atitudes da garota causaram permaneciam, deixando um gosto amargo em suas bocas. Mas todos foram visitá-la por alguns instantes, cumprindo sua obrigação para com uma companheira de equipe, ainda que a ligação entre eles estivesse por um fio.

De todos apenas Logan, Hank, Storm e Amy permaneceram por mais tempo ao seu lado. A última havia sido arrastada há pouco tempo por Ororo, que a levara para tomar um banho e se alimentar, ainda que a pequena protestasse e resistisse, alegando que queria continuar onde estava.

Apenas restaram no quarto um pouco abafado e parcialmente escuro, Fera, Wolverine, as máquinas irritantes e barulhentas. E o corpo da garota que repousava inerte ocupando a única cama que estava posta na enfermaria. E também os pensamentos de Wolverine.

Logan fitou o rosto de Vampira por muito tempo em completo silêncio, não movia um músculo se quer, nem mesmo respirava. Até que, exausto e frustrado, ele se levantou bruscamente, resmungando alto e atraindo imediatamente a atenção de Fera, que tinha nas mãos uma prancheta de metal enquanto analisava os resultados de Rogue, para si.

"Já chega. Essa palhaçada vai acabar agora!"

Ele arrancou as luvas com ímpeto e, assim que ficou livre das mesmas, sua mão fez caminho até a mão nua de Vampira. Com reflexos assustadoramente rápidos, Fera segurou-o antes que sua pele fizesse contato com a da garota.

O olhar que Wolverine lhe lançou foi tão intensamente furioso, que fê-lo hesitar, por um momento Fera acreditou verdadeiramente que ele fosse parti-lo em dois. Porém a fagulha animal nos olhos de Logan se apagou instantes depois de haver surgido e ele se afastou, passando as mãos pelos cabelos, em uma tentativa óbvia de recuperar o controle de si mesmo e conter o impulso, cada vez mais intenso, de dilacerar o amigo.

" Que merda você pensa que está fazendo, peludo? "

" Não pode fazer isso Logan. É muito arriscado... "

"Eu estou me fodendo para os riscos..."

"Para Vampira."

Fera completou a frase como se não houvesse sido interrompido por Logan. Wolverine se calou por um momento, absorvendo as palavras de Hank.

"Em que sentido?"

Exigiu carrancudo, cruzando os braços e olhando para Fera. O mesmo suspirou pesadamente antes de responder.

"Veja, Logan, como eu lhe disse não posso saber a finalidade, muito menos os efeitos, das drogas que aplicaram nela. Pode ser que tenham sido manipuladas para reagir drasticamente com o uso dos poderes de Vampira, talvez uma tentativa de impedi-la de usá-los."

Logan ficou em silêncio, pensando na teoria de Fera. Franziu o cenho.

"Isso não faz sentido algum. Se eles a quisessem morta, ou incapaz, teriam feito enquanto ela estava presa."

"Talvez você os tenha impedido de terminar o que começaram. A julgar pelo estado de Rogue, ela não teria durado muito tempo se você não a houvesse encontrado. E, de acordo com o que você e Amy informaram, eles não pareciam particularmente incomodados com essa perspectiva."

"Você acredita mesmo que isso seja possível? Que eles a tenham como alvo todo este tempo?"

"Não podemos esquecer que estamos falando da organização anti mutantes, Logan. Eles não tem escrúpulos em eliminar qualquer portador do gene x."

"Isso ainda me soa fantasioso, estranho. Não seria pretensão demais imaginar que tudo isso é por causa dela?"

" Você me entendeu mal, não foi o que eu disse. Claro que não acredito que ela seja a única responsável, ainda que indireta, por todo o atentado, mas penso que devemos ser precavidos. Não me soa bem todas coisas que a pequena disse, a maneira como eles exultaram ao capturar Vampira. Eles botaram muitos homens, como você mesmo disse, para emboscá-la. Lembra-se de que ela foi a primeira a ser atacada quando houve a demonstração pública dos sentinelas?"

"Mas isso foi um acaso peludo, poderia ser qualquer um de nós."

"Porque então não foi Warren? Ele estava próximo de lá, talvez até mais que Vampira. Porque não ele?"

Wolverine não respondeu, não sabia o que dizer. Fera continuou teorizando.

" Talvez tudo isso não passe de uma coincidência absurda, mas penso que temos de olhar por todos os ângulos. Sendo assim peço-lhe que se contenha, entendo que queira ajudar Rogue. Mas a melhor coisa que pode fazer por ela neste momento, é não interferir."

Logan fez uma longa pausa, assentindo embora estivesse inconformado. Fez um gesto negativo com a cabeça, os fios castanhos já bagunçados se moveram de um lado a outro furiosamente.

"Não posso acreditar nisso Hank. Se aqueles desgraçados estiverem mesmo de olho nela, as coisas estão mais complicadas do que prevíamos no início."

Fera assentiu, entrando em sua linha de raciocínio.

"Certamente. O fato incontestável é que eles a consideram perigosa, um risco."

Wolverine tornou o olhar para Rogue, tão pálida, tão indefesa e frágil. Ela definitivamente não parecia perigosa naquele momento. Nem mesmo quando ele sabia o que ela era capaz de fazer com um simples toque pele a pele.

A vontade de afagar seu rosto, tocar sua pele macia e clara, quase o consumiu. Ele balançou a cabeça furiosamente, tentando espantar os pensamentos errôneos e absurdos que assaltavam sua mente sem pedir permissão.

O olhar de Logan passeou pelo quarto sem interesse, intencionando despistar o olhar de Fera, que Wolverine sabia estar sobre ele, estudando suas reações.

Com um sorriso quase imperceptível, como se soubesse exatamente o que se passava na mente de Wolverine, Hank tornou o olhar para os resultados de Rogue. Os olhos de Logan voltaram-se imediatamente para ele quando o ouviu soltar uma exclamação alta de surpresa. Ou talvez ele houvesse achado alta pela evidente concentração que mantinha em Rogue e tentava disfarçar sem muito sucesso.

Hank sorriu. Logan franziu o cenho.

"O que é peludo? Alguma novidade?"

"Creio que sim Logan."

"O que é? Ela está melhor? Pior?"

"Acalme-se amigo." Fera olhava o rosto ansioso de Logan com evidente diversão, atitude que fez o mesmo fechar a cara, olhando-o carrancudo, mas aguardando uma resposta mesmo assim. "Ainda é cedo para dizer, mas creio que ela esteja reagindo."

Wolverine sorriu. Embora fosse um sorriso discreto, Hank leu claramente em seus olhos a euforia que a notícia despertou em Logan. Sorrindo também levou as mãos aos ombros do amigo, apertando-os firmemente por um momento, e disse com voz amável.

"Ela vai conseguir Logan. Rogue vai sair bem dessa."

Logan assentiu, sem pronunciar qualquer palavra. Olhou para a garota na cama. Ver os olhos verdes abertos, encarando-o com toda insolência típica de seu temperamento, era tudo o que mais desejava.

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Vampira aos poucos tomou ciência de seu corpo. Sentiu a cama em que repousava, os lençóis que envolviam seu corpo vestido por uma simples camisola de algodão macio.

Sua cabeça pesava dolorida e havia um pressão incômoda por trás de seus orbes firmemente fechados, parecia estar acordando de ressaca depois de haver tomado um porre forte na noite anterior.

Ela se moveu um pouco, sentindo o corpo estressado após muito tempo na mesma posição. Parou de repente, sem conseguir evitar um resmungo de dor, seus membros doíam terrivelmente.

Onde ela estava? O que diabos havia acontecido?

As memórias do que lhe acontecera vieram de uma vez em flashes confusos deixando-a tonta, aumentando sua dor de cabeça já terrivelmente intensa.

Ela não pôde evitar estremecer com o fluxo de memórias desagradáveis que derramavam sem trégua em sua cabeça, as pálpebras tremularam, mas ela não conseguiu abrir os olhos. Franziu o cenho, frustrada por tanta dificuldade em fazer algo tão simples.

"Shi guria, está tudo bem..."

Aquela voz.

Vampira paralisou, a respiração suspensa. Não pôde acreditar em seus ouvidos, deveria ser uma peça, pensou, de seu subconsciente confuso que desejava intensamente estar longe da maldita organização.

Os grandes olhos verdes se abriram com força, fitando chocados os azuis estranhamente angustiados e tão conhecidos de Wolverine.

Ele retribuiu seu olhar incrédulo com um aliviado, que deixou-a ainda mais surpresa. Rogue o encarou sem acreditar, talvez estivesse louca, alucinando, ou não houvesse acordado ainda e tudo não passasse de um sonho, pensou.

Hesitante, arriscou falar, mas sua garganta estava tão seca que a voz não saiu na primeira tentativa.

"Eu... eu estou... sonhando?"

Murmurou rouca, encarando Wolverine com o rosto extremamente confuso. A expressão dele se assemelhou a dela por alguns instantes, até relaxar em um raro sorriso sincero. Ela estava lutando, e conseguindo melhorar. Era o suficiente para tirar-lhe um involuntário sorriso de orgulho.

"Porque acha isso Rogue, sonha comigo com freqüência?"

Questionou maliciosamente, sem conseguir se conter. Ela arregalou os olhos, um fraco rubor de surpresa tomou sua pele. Logan sorriu, nunca a havia visto tão desconcertada, lembraria de provocá-la mais vezes. O sorriso morreu quando ela franziu o cenho.

"O que foi querida? Está sentindo alguma coisa?"

Ele andou alguns passos em direção de Rogue, parando ao lado da cama. Curvou-se para aproximar o rosto do dela em um movimento impulsivo e desesperado que a surpreendeu. Ela pestanejou e arregalou os olhos, mas não os afastou dos orbes de Wolverine.

A proximidade. Isso a apavorava mais do que qualquer coisa. O risco de ferir alguém gravemente era sempre tão grande, estar ao seu lado era tão potencialmente perigoso.

Não ser temida por Logan era assustador e maravilhoso na mesma medida, Vampira não poderia distinguir quais dos sentimentos conflitantes predominavam.

Ele se aproximava sem demonstrar qualquer receio, como se não soubesse que estava cada vez mais perto de algo terrivelmente perigoso. Rogue sabia que Wolverine era, e sempre seria, a pessoa mais inconseqüente e corajosa que ela conheceria.

"Rogue?"

Ele repetiu aparentemente alheio ao efeito que estava causando sobre ela.

"Não é nada."

Ela sussurrou sem encontrar a própria voz. Era sua fragilidade repentina, justificou para si mesma, estava ferida e abalada emocionalmente. Foi por este motivo que se sentiu tão estranha quando ele se aproximou tanto, tinha que ser. Pensou desesperada. Logan leu claramente a aflição nos olhos verdes.

"Porque está mentindo guria? E porque está tão nervosa?"

Wolverine podia ser a pessoa mais esperta e conveniente do mundo, mas também poderia ser exatamente o oposto. Principalmente quando se tratava de lhe dar com sentimentos, seus e de outras pessoas. Como agora.

Merda.

Rogue pensou mordicando os lábios em uma prova do nervosismo que a corroia por dentro. Ela respirou fundo tentando se acalmar, sentiu as costelas doerem no processo, e se ajeitou na cama desconfortavelmente.

Seus olhos não deixaram os de Wolverine. Rogue sabia que tinha de dizer ao menos uma meia verdade, não teria maneira de enganá-lo, mentir para Logan estava fora de questão. Principalmente com aqueles olhos azuis profundos presos aos seus. Mas ficava cada vez mais difícil pensar, principalmente quando nem ela mesma sabia o que se passava dentro de si, o que a levava a reações inéditas e fortes.

Ela já estivera ao lado dele várias vezes antes, mas nunca havia se sentido como agora, nestes minutos de aproximação repentina.

Era inútil tentar negar para si mesma, e quase impossível de admitir, mas Rogue sentiu-se tremendamente atraída por Wolverine.

"É que eu... ainda estou um pouco dolorida."

Murmurou resistindo ao impulso de fugir de seus olhos. Era uma verdade afinal. Ela parecia haver sido atropelada por um trem. Fez uma careta. A expressão preocupada de Logan se suavizou, ele parecia esperar algo pior.

"Não é pra menos querida, é uma surpresa ver você respirando. Se alguém tivesse dúvidas de você ser a maior teimosa de todos os tempos, elas se desvaneceram."

"Eu sou dura na queda Wolvie."

"Eu sei."

Ele sorriu, ela também. Os desentendimentos haviam sido esquecidos por hora, para serem discutidos depois, junto com os novos que ambos sabiam que viriam.

Wolverine se sentou na cadeira que ocupara ao lado da cama de Rogue, o silêncio que seguiu estava pesado, incômodo. Logan revirou sua mente em busca de algo para dizer. Não era bom com palavras, mas queria que ela se sentisse confortável na mansão.

"Sabe, a anã vai ficar feliz em te ver acordada, Storm custou conseguir tirá-la daqui. Amy."

Ele acrescentou como explicação frente ao olhar confuso de Rogue. A mente dela ainda trabalhava com um pouco de dificuldade, ainda estava longe de estar plenamente recuperada, apesar dos avanços incontestáveis que havia feito. Ela fitou surpresa os olhos azuis de Wolverine.

"Vocês a trouxeram?"

Logan hesitou um pouco. Depois assentiu.

"Na verdade ela não me deu muita escolha. Disse que eu só tiraria você de lá se a levasse junto, a pirralha é extremamente desconfiada."

Rogue assentiu em plena compreensão.

"Eu sei. Ela está bem? Aqueles filhos da puta não a feriram?"

Logan arqueou uma sobrancelha interrogativamente ao ouvi a preocupação explícita em seu tom de voz. Rogue sempre fora um tanto fria e distante quando se tratava das pessoas, o que era compreensível considerando que ela conhecera algumas bem ruins no caminho, uma prova disso era o estado em que agora se encontrava. Não imaginava o que a havia levado a se afeiçoar tanto, em um espaço de tempo tão curto, de alguém, principalmente uma criança. Mas manteve os comentários para si mesmo, não era hora para aquilo.

"Ela está ótima, nenhum arranhão. Mas está preocupada com você. "

Rogue suspirou aliviada.

"Diga a ela que não se preocupe, eu estou bem."

Ela fez uma pausa, os olhos passearam pelo quarto distraidamente. Até que uma imagem preocupante cruzou sua mente, seu rosto adquiriu uma seriedade típica de seu temperamento. O brilho de determinação característico apareceu novamente, por uns instantes em que ela agarrou sem pensar, uma das mãos cobertas de Wolverine. Ele a encarou surpreso por seu gesto e repentina sisudez em seu semblante.

"Fique de olho na Am Logan. Não a deixe muito próxima aos outros, nem permita que eles a assuste ou irrite."

Ele franziu o cenho.

"Porque está me pedindo isso?"

"Isso não vem ao caso." Ela murmurou evasiva, desviando o olhar. "Simplesmente faça."

"Não farei." Vampira fitou-o incrédula, mas ele continuou. "As coisas não funcionam assim Vampira. Eu estou na liderança e se essa garota oferece riscos à alguém preciso saber do que se trata."

" Não é para tanto. É só você confiar em mim."

Resmungou sem se sentir a vontade em revelar qualquer coisa relacionada à Amy. Sabia que se entrasse no assunto, acabaria expondo a si mesma inevitavelmente, porque Logan iria questionar seu inegável envolvimento emocional com a criança, era só uma questão de tempo. E isso implicaria revelar mais de si mesma do que Rogue estava disposta a fazer desde sempre. Definitivamente não queria falar a respeito. Mas sabia não ter muita opção.

"Eu confio em você, mas não posso fazer isso. Você precisa me dizer o que ela faz, e o motivo pelo qual está me pedindo para vigiá-la. Não sou um cão de guarda Rogue."

Ela franziu o cenho, sentindo-se exausta demais para se irritar com o comentário insensível de Wolverine.

"Eu sei o que você é Logan, e sei o que Amy é. Assumo completamente a responsabilidade sobre ela. Eu não te pediria isso se tivesse outra opção, mas como eu não posso sair daqui... é apenas temporário Logan, quando eu estiver... melhor poderei resolver o que farei com ela."

Completou amarguradamente, tornando a olhá-lo. Logan vacilou um pouco em sua resposta, a disposição de Rogue para ajudar a menina o desarmou, surpreendeu.

"Ela pode ficar por enquanto Rogue. Mas nós voltaremos a ter essa conversa."

Logan assegurou fitando-a seriamente. Rogue fez uma careta de desagrado, mas não discordou. Já era um grande avanço.

Ela fechou os olhos e coçou as pálpebras. Os orbes verdes ficaram semi cerrados quando tornou a abri-los, pelo cansaço que estava se intensificando. Gesto que Wolverine não deixou passar.

"Está cansada."

Não foi uma pergunta. Mas ainda assim, Vampira assentiu.

"Um pouco."

"Talvez devesse voltar a dormir."

Ele sugeriu embora não gostasse da idéia de ver os olhos dela fechados novamente, depois de tanto tempo que ficou sem vê-los abertos.

Wolverine concluiu que provavelmente seria assim a partir daquele dia, sempre ficaria hesitante ao vê-la desacordada. Sempre se lembraria do estado em que ela ficara, seus ferimentos, a luta incessante que teve de travar contra a morte.

Balançou a cabeça furiosamente tentando expulsar os pensamentos incômodos e a conseqüente culpa que eles traziam.

"Logan."

Ele tornou o olhar, que nem mesmo percebera que havia desviado, à Vampira ao ouvir seu chamado. Os olhos verdes estavam determinados, mas não tinham o brilho característico de força que sempre se destacava. Era uma novidade desagradável para ele, e todos os outros, vê-la tão frágil.

Súbita necessidade de protegê-la tornou a se manifestar dentro de si. Em um gesto automático, ele se aproximou um pouco mais da cama de Rogue, o rosto curioso, esperando que ela falasse.

"O que há guria?"

Rogue ficou levemente desconfortável, vacilou. Por pouco não desistiu do que queria dizer. Mas arranjou coragem para fazê-lo.

"Obrigada... por tudo Logan."

Murmurou grogue, fechando os olhos disposta a se render ao sono. Logan ficou em silêncio, sem conseguir pronunciar qualquer palavra, por um minuto inteiro. Agradecimentos e desculpas, não eram coisas fáceis para Rogue.

Quando a surpresa pelo agradecimento inesperado passou, deixando-o responder, Vampira já parecia haver adormecido, a respiração estava ritmada, tranqüila.

"Sabe que pode contar sempre, querida."

Ele sussurrou acariciando seus cabelos. Rogue sorriu de leve, finalmente escorregando para a inconsciência, guiada pelo afago tão raro e absurdamente confortável de Wolverine.

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Oie. Obrigada pelas reviews. Se vocês não estivessem lendo, eu não teria voltado a postar.

Diogo Gonçalves: Oie, muito obrigada pelo review e pelos elogios (: Não acabou, a fic ainda está no começo, são 24 capítulos, mais epílogo. Espero que você continue acompanhando, apesar de já estar meio aposentada das fanfics, tenho muito carinho por essa história.