Mentiras Brancas
Título Original: White Lies
Autora: Cassis Luna
Rate: T
Disclaimer: Harry Potter pertence a J.K. Rowling e esta fanfic a Cassis Luna
Shipper: HD/HP
Gênero: Romance/Humor
Atenção: Slash, homossexualidade, universo alternativo (o desenrolar dos acontecimentos não acompanham o último livro)
Sumário: Draco toma uma poção que o torna capaz de dizer se uma pessoa está mentindo ou não , Harry, aparentemente culpado por esta situação, é forçado a 'ajuda-lo' com os efeitos colaterais. Pela primeira vez eles terão que lidar um com outro sem poder se esconder atrás de mentiras.
Capítulo 4 - Casos Amorosos
Se Harry esperara dormir pacificamente após um dia exaustivo, ele ficou profundamente decepcionado. Quando acordou ainda estava escuro, o quarto estava congelando e seu ombro doía bastante, indicando o quanto ele havia sido idiota por não ter ido cuidar antes do ferimento. Com teimosia, ele tornou a afundar por debaixo das cobertas, ignorando com ferocidade a dor.
Ou pelo menos ele tentou.
O maldito ombro nem doía muito, era apenas uma… coceira irritante. Uma coceira que ele não podia coçar porque o local só doía quando ele tocava. Ou quando ele se movia.
Insatisfeito, ele se sentou e colocou os óculos, conjurando um rápido Tempus para checar as horas.
Eram quase seis da manhã. Com um grunhido saiu da cama e foi ao banheiro, se esforçando ao máximo para parecer pelo menos apresentável quando entrasse na enfermaria e interrompesse o sono de beleza da Madame Pomfrey.
Ele estava extremamente pálido e muito sonolento, mas isso não era nenhuma novidade. Novidade era apenas o pequeno machucado em sua bochecha direita, que doía bastante quando o tocava. Ele provavelmente havia batido o rosto em algum lugar quando caíra através da parede.
Suspirando, lavou o rosto e já que não havia trocado o uniforme desde a noite passada, resolveu simplesmente se apressar e ir para a enfermaria.
Quando ele graduasse iria fazer um pedestal em homenagem a Madame Pomfrey, a mulher que nunca se cansara de fazer com que seus ossos crescessem todas as semanas por longos oito anos. (Quase oito anos)
Apesar de já estar a caminho da enfermaria, ele não estava conseguindo criar coragem de acordá-la, por isso simplesmente decidiu que iria esperar deitado em uma das camas (e quem sabe não dormiria alguns minutinhos), mas quando finalmente chegou à enfermaria se deu conta de que não iria precisar fazer isso.
Madame Pomfrey já estava acordada e fazendo um estardalhaço por conta de outro estudante deitado em uma das camas, até que ela finalmente o viu, e sua reação foi tão tranquila que só serviu para provar que ele já estivera ali tantas vezes que a bruxa não ficava nem mais surpresa, "Sr. Potter," ela o cumprimentou.
Um grunhido surgiu de uma das camas e ecoou no local. "Potter," o estudante disse com secura, sua voz extremamente rouca. "Suponho que você não tenha conseguido se segurar e precisou desesperadamente me ver de novo."
"Malfoy," Harry respondeu de uma forma tão ríspida quanto a do outro bruxo, apesar de não conseguir disfarçar o tom preocupado a medida que continuava falando. "O que você está fazendo aqui?"
Madame Pomfrey se moveu para o lado para que ele tivesse uma visão melhor da cama. Draco estava de olhos fechados e parecia bastante normal, apesar de Harry não poder dizer com toda certeza se ele estava ou não um pouco mais pálido do que o normal. (O sonserino já era naturalmente tão pálido que ficava difícil dizer se algo mudara)
"Receio que ele teve novamente uma crise," Madame Pomfrey informou, franzindo o cenho na direção de Draco. "Acabei de dar para o Sr. Malfoy uma poção para aliviar sua garganta e já estava indo conversar com o Professor Snape."
Harry começou a tentar falar alguma coisa ao ouvir isso. "Oh, err," murmurou, sentindo que estava sendo inconveniente. "Tudo bem, você pode ir falar com Sn – Professor Snape, eu posso esperar."
Ao ouvir isso os olhos de Draco se abriram, agora ele estava curioso para saber o real motivo para Harry estar na enfermaria.
"Absurdo, Sr. Potter!" ela disse irritada, agora caminhando em sua direção. Ao ver o machucado em sua bochecha ela piscou. "Só foi aí que você se machucou?"
"Oh! Err, não," Harry respondeu, remexendo-se desconfortável devido ao olhar que estava recebendo de Malfoy. "Meu ombro," informou.
Madame Pomfrey concordou com a cabeça enquanto fazia alguns gestos com a varinha. Uma força invisível se chocou contra o ombro de Harry deixando-o sem ar, quase derrubando-o para trás enquanto ele deixava escapar um gemido. Já passara por aquilo tantas vezes, mas não podia evitar sempre ser pego desprevenido.
Mais alguns gestos de varinha e Madame Pomfrey fez um novo movimento com a cabeça, satisfeita. "O inchaço irá desaparecer em alguns minutos. Agora eu quero que você pegue alguma coisa para aliviar sua dor – você sabe onde as poções estão, claro – e depois vá se deitar em uma das camas. Se você não estiver deitado quando eu voltar –"
"Eu vou me deitar," Harry respondeu rapidamente, já sabendo o que esperar. Já contraria-la outras vezes e tinha que admitir que não fora uma de suas decisões mais brilhantes. (Regra básica: Pomfrey era lei… e ele ainda estava com sono)
Madame Pomfrey concordou novamente, lançando em sua direção um último olhar firme antes de sair da enfermaria.
Harry capturou a expressão questionadora de Malfoy e deu de ombros. E então ele se lembrou de que seu ombro não gostava muito dele neste exato momento e rapidamente decidiu ir pegar uma poção analgésica. Ele cruzou o salão em direção ao armário, desejando que Malfoy não perguntasse nada, porque isso seria muito esquisito e muito –
"Okay, Potter o que aconteceu?"
Harry bateu a cabeça no teto do armário que estava vasculhando.
"Ow," deixou escapar.
"Sim, exatamente," Malfoy respondeu.
Harry o olhou de forma raivosa. "Você deveria estar doente. De preferência bastante sonolento e muito fraco para conversar," murmurou.
Malfoy pareceu se divertir com isso. "Então? O que aconteceu?"
Fazendo questão de não olhar para o sonserino, Harry estendeu uma das mãos para apanhar uma poção particularmente nojenta. "Feitiços de tropeçar," respondeu de forma quase que silenciosa.
"Você se esqueceu que eu posso dizer quando você está mentindo," Draco retrucou com prepotência.
E Harry finalmente se lembrou disso, oh, merda. "Eu não quero falar sobre isso," informou de forma neutra. Suspirando, ele se virou na direção de Malfoy, que agora estava sentado na cama avaliando-o como uma expressão indecifrável. "Eu só quero dormir, de verdade."
"Não estou nenhum pouco surpreso. Você está parecendo um troll."
Harry o olhou novamente, com raiva. "Converse menos e haja mais como se estivesse doente. E você? O que aconteceu com você?"
"Você deveria estar doente. De preferência bastante sonolento e muito fraco para conversar," Potter murmurou.
A luz ao redor do grifinório continuou dourada.
Draco resistiu à vontade de sorrir por conta disso, porque aquilo significava que talvez Potter se importasse o suficiente para pelo menos desejar que ele não estivesse doente. Claro, isso era provavelmente culpa de seu complexo de herói, mas ainda sim já era alguma coisa. "Então? O que aconteceu?"
"Feitiços de tropeçar," Potter murmurou finalmente, se afastando do armário que estivera vasculhando.
A luz dourada tremeu na escuridão da enfermaria e rapidamente ficou negra.
"Você se esqueceu que eu posso dizer quando você está mentindo," Draco retrucou com prepotência, nenhum pouco surpreso ao ver que Potter estava mentindo, ele ignorou com determinação a pontada que sentiu ao perceber isso.
"Eu não quero falar sobre isso," Potter respondeu soando cansado.
Dourada. Verdade.
"Eu só quero dormir, de verdade."
Dourada.
Draco estava quase com pena do grifinório. E ele também estava quase preocupado.
Quase.
(…Err.)
"Não estou nenhum pouco surpreso. Você está parecendo um troll."
Bem, se Potter não queria contar para ele o que acontecera, então ele teria que respeitar suas vontades.
Por agora.
O olhar que Potter lhe deu o deixou mais aliviado, porque isso significava que o grifinório não estava assim tão cansado.
"Converse menos e haja mais como se estivesse doente."
Negra.
Draco achou isso divertido.
"E você? O que aconteceu com você?"
"Por quê? Você está preocupado comigo, Potter?" Malfoy provocou, sorrindo como se ele achasse aquilo tudo muito engraçado.
Harry fez uma pausa, seus dedos brincando com o pequeno frasco da poção, e então ele deu de os ombros – encolhendo-se com o gesto. "Sim, eu estou," murmurou, porque de verdade, ele estava.
Ele não podia negar que Malfoy era um completo idiota e que o bruxo também era de alguma forma... – será que ele deveria arriscar supor isso? – seu amigo. Ou, err, pelo menos algo próximo disso. E ele já havia admitido para si mesmo um ou dois dias atrás que ele queria se aproximar de Malfoy agora que reparara que o rapaz não era assim tão insuportável e imbecil.
(Talvez todo mundo mudara um pouco devido a guerra)
O silêncio que envolveu a enfermaria foi inesperado e ele se sentiu levemente desconfortável. Tentando resistir à vontade de começar a se remexer no lugar, se ocupou com a poção, tomando-a em um só gole e se arrependendo amargamente logo depois.
"Potter," ouviu Malfoy dizer em um tom bastante sério.
Desfazendo a careta que dominara seu rosto e engolindo a própria saliva contaminada com o gosto nojento da poção, ele olhou para Malfoy, se sentindo imediatamente desajeitado. "Sim?"
"Pare de dar em cima de mim," Malfoy suspirou com um olhar sonhador carregado de zombaria.
Harry corou e lhe ofereceu o dedo do meio.
Oh, como Harry queria dormir. Ele queria ressonar pacificamente e pular cercas ao lado das ovelhas que estava contando em sua cabeça. Também estava muito frio e ele queria muito ficar debaixo dos cobertores.
Mas Snape tinha outras ideias.
Com um olhar mortal e um monte de grunhidos, Harry empurrou as cobertas e saiu da cama, piscando para tentar afastar o sono de seus olhos. Malfoy estava sentado em uma cama próxima, parecendo tão desgostoso quanto ele. O bruxo provavelmente fora forçado a acordar também.
"O que aconteceu, Sr. Malfoy?" Snape perguntou, quase parecendo estar preocupado. Ele estava todo empertigado como sempre, como se eles não estivessem no meio da madrugada. (E provavelmente não estavam, o café-da-manhã logo seria servido)
"Mesma coisa de ontem," Draco respondeu, murmurando em seu estado quase adormecido. Ele esfregou os olhos para mantê-los aberto.
Ao ver isso Harry precisou esconder um sorriso.
Snape continuou. "E o que foi isso que eu ouvi sobre você... vomitando?"
Draco pausou, encarando seu padrinho que provavelmente já fora informado sobre tudo pela Madame Pomfrey. "Sangue," ele sussurrou.
O sorriso de Harry desapareceu. Ninguém havia dito nada sobre sangue.
Enquanto Snape murmurava mais uma enxurrada de coisas sobre sangue de dragão, baixo o suficiente para que eles não escutassem, Harry olhou abertamente para Malfoy, que retribuiu o gesto com um dar de ombros. Ninguém o informara nada sobre o sangue.
Subitamente Snape se virou em sua direção. "E a onde você estava Sr. Potter?"
Harry abriu a boca para falar, mas foi surpreendido quando Malfoy suspirou de forma exasperada. "Ele estava dormindo, Professor Snape. Claro que você não vai brigar com ele por conta disso, não é mesmo?"
E ainda de uma forma mais surpreendente Snape apenas concordou com um gesto de cabeça e continuou murmurando para si mesmo sobre Fluido Explosivo de Erumpent. (Harry queria poder, pelo menos uma vez, responder Snape daquela forma sem correr o risco de perder pontos para a Grifinória)
Um breve silêncio envolveu a enfermaria e Harry aproveitou a oportunidade para se perguntar quando é que o mundo havia enlouquecido para que Malfoy começasse a defendê-lo.
Finalmente Snape e Madame Pomfrey compartilharam um olhar, que não passou despercebido pelos dois. Draco empalideceu, porque ele provavelmente sabia que seja lá o que fosse, aquilo não poderia ser nada bom.
"Não há mais nada que possamos fazer, Sr. Malfoy," Snape informou, mantendo sua expressão passiva.
"O que?" Draco guinchou e então grunhiu. "O que é que você irá me obrigar a fazer dessa vez?"
"Nós não vamos te deter na enfermaria, mas você terá que dormir aqui à noite," Madame Pomfrey esclareceu com gentileza. "As suas coisas serão trazidas para cá ainda no final da manhã."
Draco a encarou. "Eu não posso nem voltar para o meu quarto?"
Harry ficou com pena dele. Ele sabia o quanto as noites na enfermaria poderiam ser solitárias e entediantes.
"Por mais que isso me incomode também, eu não posso mandar o Potter para a Sonserina para tomar conta –" Snape pausou apenas para apreciar o olhar de horror que ambos os bruxos lançaram em sua direção. "Muito menos posso te mandar para a Grifinória." A expressão de pavor de ambos permaneceu. "A Diretora não permitiria isso. Mas apesar de tudo, precisamos que alguém te monitore –" Aqui ele parou de falar, como se estivesse hesitando.
Draco gesticulou uma das mãos com impaciência. "Caso eu piore, certo?"
Snape concordou rigidamente.
Desta vez foi Harry quem empalideceu, porque ele não esperava que as coisas pudessem piorar, ou que estivessem tão ruins. Eles estavam em Hogwarts! Verrugas purulentas aparecendo por todo o seu corpo e cair das escadas porque elas continuavam se movendo eram acontecimentos normais do dia-a-dia.
Snape pareceu ficar desconfortável e Draco pareceu relaxar ao ver isso. "Tudo bem," disse finalmente, parecendo não se importar. Snape era a coisa mais próxima de uma família que ainda lhe restava, e ele sabia que o mesmo valia para o outro bruxo.
Madame Pomfrey fez um gesto com cabeça ao ouvir sua resposta. "Você continuará frequentando as aulas e comendo as suas refeições no Salão Principal. Tudo que eu peço é que você esteja aqui quando soar o toque de recolher."
Draco concordou.
Snape se virou para Harry. "E você, Potter," começou surpreendentemente sem nenhuma malícia, "irá acompanha-lo."
E Harry se pegou concordando também.
"Bem, tudo certo, você estão liberados!" Madame Pomfrey anunciou gesticulando na direção da porta. "O café-da-manhã já deve ter sido servido e eu posso imaginar que vocês dois estão famintos!"
"Foi realmente algo tão ruim assim?" Harry perguntou subitamente quando eles estavam saindo da enfermaria a caminho do Salão Principal.
À medida que eles passavam em frente a uma armadura, Harry aproveitou a oportunidade para avaliar seu próprio reflexo. Como Madame Pomfrey dissera o inchaço já havia desaparecido e ele tentativamente tocou o próprio ombro, aliviado ao ver que não doía mais. A poção provavelmente fizera efeito enquanto ele estivera deitado, tentando dormir. (E Harry havia se perguntado por que Snape não comentara nada sobre o fato dele estar na enfermaria)
Draco, que ainda estava refletindo sobre o que fora dito, não olhou para ele e respondeu quase que por reflexo. "Por quê? Você está preocupado, Potter?"
Harry o encarou de uma forma confusa e um pouco irritado. "Pensei que já havíamos deixado isso bem claro. Sim, eu estou preocupado com você, Malfoy," disse secamente.
E ao ouvir isso Draco ergueu a cabeça e olhou diretamente para Potter.
Dourada.
Diferente de mais cedo, que Harry estivera determinado em encarar o chão quando fizera esta mesma declaração, dessa vez ele observou a expressão de Malfoy se modificar à medida que suas bochechas pálidas coravam.
"Pare de dar em cima de mim em público, Potter," Malfoy pediu de forma zombeteira, fazendo questão de olhar em outra direção. "Eu tenho uma reputação a preservar."
Com isso Harry apenas encolheu os ombros e sorriu. "Claro que você tem. Draco, a doninha saltitante."
No mesmo instante em que as palavras saíram de sua boca seus olhos se arregalaram e ele pensou, em pânico, que havia ultrapassado os limites.
Draco assistiu o sorriso do moreno se transformar em uma expressão aterrorizada e ele não conseguiu se sentir ofendido... E, bem, Harry havia dito seu nome. (Patético, Draco, sua Pansy interior lhe disse).
"Muito engraçado, Potter," respondeu de forma arrogante. "Mas não se esqueça de que também tem um apelido, Garoto de Outro," retrucou, só para que eles ficassem quites.
E Harry ao percebeu a intenção relaxou visivelmente, porém manteve um olhar envergonhado. "Odeio este nome," disse dando de ombros.
Dourada.
"Oh?" Draco arqueou uma sobrancelha. "Então quer dizer que você não é o nosso amado herói que adora chamar a atenção e monopolizar as mídias?"
Harry corou. Ele encarou o outro bruxo. "Snape iria discordar de você," murmurou.
"De verdade," Draco estava se divertindo. "Pensei que você e o Professor Snape já haviam deixado de lado essa animosidade, Potter."
Harry encolheu os ombros. "Velhos hábitos demoram para morrer," suspirou pesaroso. "Além disso, ele faz questão de transformar a minha vida em um inferno."
Draco não podia discordar disso.
Eles finalmente chegaram na entrada do Salão Principal e abriram as portas, sem se dar conta de que todas as cabeças haviam se virado para olhá-los, ambos estavam ocupados demais se despedindo um do outro. O barulho do lugar chegou até a diminuir antes de voltar a ficar insuportável, mas nenhum deles reparou nisso enquanto caminhavam em direção as próprias mesas.
"Harry," Hermione cumprimento, fazendo um gesto de cabeça para indicar que ele se sentasse ao seu lado.
Foi praticamente automático. Todo mundo próximo dele na mesa da Grifinória passou a observá-lo com o canto dos olhos e a conversação passou a soar muito forçada, como se fosse apenas uma desculpa para serem discretos, mas Harry, claro, continuava sem perceber nada.
"Ei, cara," Ron cumprimentou e fez um gesto de cabeça, apesar de parecer estar um pouco mais tenso do que o normal. Ao seu lado, Ginny pode ter ou não tossido de forma forçada enquanto Harry se servia com uma colherada de purê de batata.
"Onde você estava, Harry?" Hermione perguntou calmamente enquanto servia um copo de suco de abóbora para Ron.
"Enfermaria," ele respondeu, sorrindo de forma envergonhada para ela. "Feitiço de Tropeçar," ofereceu, sabendo que ambos os amigos veriam facilmente que ele estava mentindo, o que era sua intenção. Era também uma mensagem de que ele iria lhes dizer a verdade mais tarde. O problema era: Harry não fazia a menor ideia do que poderia dizer.
Dizer que a escola queria se vingar por ele ter destruído metade do castelo durante a Batalha de Hogwarts e que por isso o lugar agora estava tentando comê-lo não parecia ser a coisa mais apropriada.
Com isso Ron engasgou ao tomar o suco e Hermione o olhou de forma severa. Depois de recuperar o fôlego, o ruivo fez um gesto fraco com a cabeça na direção de Harry, parecendo estar muito pálido.
Harry revirou os olhos. "Não é nada tão ruim assim, Ron." Porque antes da guerra Ron sempre se desesperava quando Harry dizia que tinha alguma coisa para contar, associando isso instantaneamente a Voldemort. (O que bem, na maioria das vezes era verdade).
"Tudo bem, cara," Ron disse de forma obediente, se remexendo um pouco. Hermione lhe deu uma cotovelada. "Ow! Eu-eu quero dizer, tudo bem. Confio em você," acrescentou de forma mais firme dessa vez.
Harry piscou, olhando-o com uma sobrancelha arqueada. "Um, obrigado… Eu acho."
"Então, Harry," Hermione começou de forma descontraída, sorrindo inocentemente para ele. "Você parece estar feliz hoje. Alguma coisa boa aconteceu?"
"Sério?" Harry perguntou dando de ombros. Nada de bom em particular acontecera, levando em conta que ele não dormira direito e que Malfoy tossira sangue, fora o Snape– "Eu descobri algo engraçado," disse de repente, rindo um pouco.
Hermione concordou. "Compartilhe."
"Não pense que eu sou louco ou algo do tipo," Harry continuou, rindo para si mesmo enquanto abaixava o tom de voz. Ron e Hermione precisaram se inclinar na mesa para escutá-lo. "Mas o Malfoy corou hoje mais cedo! Eu posso–"
Ron prontamente começou a engasgar com um pedaço da torta de melado.
Ginny soltou um gritinho, sua face ficando da mesma cor que seus cabelos enquanto ela se esforçava para não olhar para Harry. Hermione suspirou e se ergueu, revirando os olhos enquanto realizava a manobra de Heimlich no próprio namorado.
Harry os encarou. Ele sabia que o que acabara de dizer soava como algo completamente maluco, mas ele não imaginara que Malfoy corando fosse o suficiente para fazer com que uma pessoa engasgasse.
Seus companheiros da Grifinória pareceram ficar irritados por não terem ouvido o que Harry dissera para fazer com que Ron engasgasse até a morte e imediatamente abandonaram toda a discrição e começaram a virar a cabeça para observar a cena.
Respirando ruidosamente, Ron bateu uma das mãos sobre o tampo da mesa e olhou fixamente para a cara de Harry. Ele parecia estar determinado, mas se Harry fosse pensar, parecia também que ele estava prestes a vomitar um monte de lesmas pela segunda vez na vida. "Cara, estou com você cem por cento," ele guinchou, mas foi bastante firme. "Não importa o que acontecer, não importa a onde você for, não importa quem… você–" E neste exato ponto Harry começou a temer que ele fosse começar a engasgar novamente. "— amar," Ron terminou com um grande esforço.
Hermione o olhou com muito orgulho, lágrimas começando a surgir no canto de seus olhos.
Ginny por outro lado variava entre ficar pálida ou corada enquanto continuava se esforçando para Não Olhar Para Ele.
Todas as pessoas que estavam sentadas próximas (até mesmo as que não pertenciam a Grifinória) ficaram em silêncio.
E prontamente começaram a aplaudir.
O problema era, Harry tinha bastante certeza de que eles deveriam estar aplaudindo Ron e não parabenizando ele...
("Parabéns, Harry!"
"Não posso dizer que eu esperava por isso, mas mostre para eles Harry!"
"Eu não sabia que você era um… um…"
"Preciso dizer, eu meio que previ isso."
"Porque vocês demoraram tanto?")
… por seja lá o que fosse que ele tivesse feito.
E então Neville se virou em sua direção, irradiando alegria.
"Eu desejo tudo de bom para você e o Malfoy, Harry."
Os olhos de Harry se arregalaram a ponto de saírem das órbitas enquanto um barulho infernal surgia na direção da mesa da Sonserina.
Ele olhou para cima e capturou o olhar apavorado de Malfoy. Parecia que o loiro havia acabado de descobrir a mesma coisa que ele.
Ele praticamente podia ouvir a voz do outro bruxo ecoando pelo Salão Principal, falando exatamente a mesma coisa que ele.
"Mas que merda está acontecendo?"
"Malfoy e eu não estamos – bem – seja lá o que vocês estejam pensando que nós somos!" Harry balbuciou indignado, seu rosto corando a medida que ele finalmente compreendia a razão de seus amigos estarem agindo de uma forma tão esquisita.
Todos que o ouviram não pareceram ficar tão convencidos.
"Está tudo bem, Harry," Hermione disse rapidamente, tentando lhe passar confiança. "Nós não nos importamos. Na verdade estamos realmente felizes por você –" Ron soltou um guincho, mas rapidamente ergueu uma mão para tampar a boca quando Hermione lhe deu outra cotovelada. "E bem, só queríamos que você tivesse nos contado antes ou algo do tipo–"
"Não," Harry a interrompeu com firmeza, encarando os dois amigos com incredulidade. "Eu juro, Malfoy e eu não somos… Bem, nós não somos nada!"
"Oh, não se preocupe, Harry," Hermione gesticulou com uma das mãos enquanto sorria. "Ron e eu não estamos bravos nem nada! E bem, era bem óbvio, eu suponho, considerando o quanto você era obcecado pelo Malfoy desde os onze anos –"
Diversas pessoas ao redor deles arfaram ao ouvir essa pequena novidade que rapidamente se espalhou pela mesa da Grifinória, eventualmente alcançando os ouvidos do pessoal da Lufa-lufa.
Harry parecia ter sido pego de surpresa. "Oh, deus – não, apenas não."
"Mas –" Ron começou de forma fraca. "Ontem – durante o jantar – e – você não estava na sua cama à noite e os amigos do Malfoy vieram tomar café-da-manhã sem ele, e então nós vimos vocês dois entrando no salão juntos–"
Harry sacudiu a própria cabeça com ferocidade. "Nós temos uma explicação para isso! Nós dois estávamos na enfermaria."
Só foi quando Ron ficou tão vermelho quanto seu cabelo ruivo que Harry se deu conta de como o que dissera poderia ser mal interpretado. Talvez Malfoy estivesse certo, talvez ele realmente precisasse de aulas sobre como falar com as outras pessoas. "Não, não por causa disso, Ron – por favor, não pense nesse tipo de coisa – oh, Merlin, muito menos imagine!" Ron soltou um gemido lamurioso. "Eu quero dizer, nós dois estávamos feridos – por motivos distintos, okay? É por isso que nós estávamos na enfermaria e não por conta de... outra coisa..." Harry gaguejou.
"Mas, ontem –" Ron continuou, parecendo estar menos acometido. "Você e Malfoy foram juntos para a biblioteca e quem é que vai para a biblioteca em outubro? Merlin sabe que o único motivo para as pessoas irem para a biblioteca em outubro é para – para –"
"Ron!" Hermione o olhou de forma irritada. "Fique você sabendo que várias pessoas vão para a biblioteca para estudar."
Ron coçou o próprio nariz, mas foi esperto o suficiente para não discordar da namorada. Ele observou Harry mais de perto. "Então… você não está…?"
"Não!" Harry sibilou com rapidez no que parecia ser a décima vez naquele dia e olha que o café-da-manhã acabara de ser servido.
"Bem," Hermione começou, afastando alguns cabelos de seus olhos com um leve assopro enquanto analisava o amigo. "Mesmo que você estivesse, nós não importaríamos, não é mesmo, Ron?"
Ron concordou rapidamente, parecendo estar muito pálido.
Com seus amigos mais calmos, Harry finalmente se deu conta de toda a atenção que estava recebendo. Em todo o Salão Principal, se as pessoas não estavam olhando para ele, elas estavam olhando para Malfoy. Harry observou discretamente a mesa dos professores e rapidamente desviou os olhos, muito pálido. "Um," começou em sua forma sempre eloquente. "Não me diga que todo mundo está… falando sobre isso… desde…?" guinchou, suas palavras falhando enquanto Ron concordava com uma expressão de simpatia em seu rosto.
"Desde o jantar de ontem," Ron disse de forma pesarosa.
"Oh, deus!"
"Bem, você não pode realmente nos culpar, Draco," Pansy fez uma careta, bufando irritada. "Foi você quem levou o Potter para a biblioteca – sim, a ênfase é proposital – ontem e Blaise aqui me diz hoje ao acordar que você não estava dormindo em sua cama."
"Eu estava na minha cama ontem a noite! Antes mesmo do toque de recolher!" Draco sibilou.
"Não tinha como eu saber disso, durmo mais cedo do que você," Blaise deu de ombros, sorrindo de lado por de trás do copo de suco de abóbora.
"Goyle!" Draco grunhiu, olhando na direção do outro rapaz que estava debruçado sobre o próprio prato.
Goyle deu de ombros. "Ninguém me perguntou nada."
Draco deu um tapa na própria testa. "Nott," exclamou, quase que implorando.
Nott também deu de ombros, parecendo não se importar com a mortificação de Draco. E ele provavelmente não se importava mesmo. "Você poderia muito bem ter dado uma saidinha no meio da noite."
Draco gemeu, enterrando o rosto nas mãos.
"Eu não sei por que você está tão preocupado com isso, Draco, querido," Pansy observou, sorrindo com sarcasmo. Ela deslizou para mais perto dele, passando o braço sobre seu ombro para sussurrar em seu ouvido. "Eu pensei que você estaria dando pulos de alegria por conta disso."
"O quê? Por todo mundo estar pensando que eu estava dando uns amassos no Potter? Oh, sim, muito empolgado," Draco murmurou contra as próprias mãos, pesaroso. "Só tem um problema nisso tudo: nada disso é verdade."
Ele subitamente olhou para cima, encarando o restante da mesa que o observava com curiosidade, os olhos arregalados. "Vão cuidar da própria vida, caramba!", grunhiu.
Todo mundo subitamente pareceu ficar interessado no teto, que mostrava apenas o céu dublado do lado de fora do castelo.
O Salão Principal, assim como na noite passada, permanecia recheado de luzes douradas e negras. Draco não precisava nem perguntar para saber que todos estavam falando dele e do Potter, seja espalhando rumores falsos ou rumores falsos os quais acreditavam ser verdade.
Oh, merda.
"Bem, então a onde você estava?" Blaise perguntou com inocência, mas Draco conhecia o amigo.
"Dando uns amassos no Longbottom," respondeu secamente.
Blaise o olhou irritado.
"Eu estava na enfermaria," Draco acrescentou, dando de ombros com desinteresse.
Pansy imediatamente o olhou com o cenho franzido. "Por quê?" Ela perguntou preocupada.
"Eu teria explicado para vocês o motivo, mas aí todo mundo começou com essa besteira de que eu e o Potter estávamos nos agarrando em algum canto," murmurou com sarcasmo, incapaz de se controlar.
Pansy ergueu uma sobrancelha ao ouvir isso. "Agarrar o Potter é realmente assim uma besteira tão grande?" provocou.
"É quando não sou eu quem realmente está agarrando ele," Draco respondeu com um sussurro irritado.
"Então prense ele naquela maldita mesa da Grifinória e o agarre," Blaise disse revirando os olhos, sem se preocupar em falar baixo.
Dois alunos do quinto ano, que estavam logo ao seu lado, deixaram escapar gritinhos enquanto seus olhos arregalavam. Draco lhes apresentou seu extensivo vocabulário de palavrões enquanto apertava a própria varinha. Os olhos arregalados dos dois quintanistas assumiram um brilho de pânico e em poucos instantes eles se ergueram, mancando para fora do Salão Principal.
Depois disso tudo mundo pareceu se afastar um metro dele. Ou talvez dez metros.
"Sabe, Draco, querido," Pansy começou com suavidade, virando-se para olhá-lo e piscando seus longos cílios. "Você não está fazendo esforço nenhum para negar que," disse com doçura, um sorriso perverso contorcendo sua face, "não está agarrando Harry Potter."
Draco bufou, cutucando o próprio café-da-manhã enquanto olhava para a mesa da Grifinória no exato instante em que Potter parecia bastante ocupado explicando que não estava indo para a biblioteca fazer sexo com Draco Malfoy.
Era uma pena que a luz ao redor dele não tivesse sequer um vestígio de negro.
Ele encolheu os ombros. "Claro que não," disse contrariado. "Qual seria a graça?"
Harry estava quase que com medo de falar novamente com Malfoy, esperando que ele fosse dizer algo desconcertante parecido com 'Potter, seu filho da puta, vou contar tudo para o meu pai, espere só!'
Okay, talvez não. Malfoy não falava mais do próprio pai. Na verdade, quando o loiro passou algum tempo em Grimmauld Place, todas as vezes que a Ordem começava a falar sobre Lucius Malfoy, sua face se contorcia um pouco em uma careta, mas ele mantinha sua expressão de desinteresse. Demorou um pouco para que Harry notasse que a expressão de escárnio não era voltada para a Ordem em si e sim para Lucius.
Harry estava curioso para descobrir porque Malfoy parara de adorar o próprio pai e passara a fazer caretas quando alguém mencionava o seu nome.
O Salão Principal lentamente começou a falar menos sobre 'O Caso de Amor Ilícito de Harry e Draco' (nome dado por Lavender Brown) e as conversas passaram a ficar mais normais, como, por exemplo, sobre o cabelo esquisito de Snape e como Lupin parecia que ia passar mal a qualquer momento. Claro, ainda havia algumas pessoas que não conseguiam parar de fofocar sobre eles e Seamus estava encarando-o de uma forma nada discreta pelo o que já deveriam ser dez minutos.
Ginny continuava Não Olhando Para Ele e Harry não sabia dizer se isso era algo bom ou ruim. Talvez fosse bom porque finalmente a bruxa consideraria o fato dele não querer ficar com ela, mas poderia ser ruim também porque ela era sua amiga, e ele gostava de conversar com seus amigos, o que seria complicado com ela se esforçando para Não Olhar Para Ele. E também por Ginny estar pensando que ele e Draco estavam fazendo algo inapropriado.
O rosto de Harry corou quando ele sem querer pensou sobre isso.
"Potter," uma voz bastante familiar e desagradável soou de algum lugar logo atrás de si.
O Salão Principal imediatamente ficou em silêncio.
"Err," Harry respondeu, sentindo uma coceira na nuca porque Todo Mundo – sim, Todo Mundo – estava olhando para ele. Até mesmo Ginny, que poucos instantes atrás Não Estava Olhando Para Ele, e até o – oh, deus, Merlin, Dumbledore – Professor Snape.
Eu vou matar você, Malfoy, Harry prometeu para si mesmo enquanto deixava escapar um fraco, "Sim?"
"Estou indo para a biblioteca fazer os meus trabalhos," Draco disse com desenvoltura, incapaz de resistir à delicada curva que o canto de seus lábios fez enquanto abria um pequeno sorriso malicioso. "Você vem comigo?"
Todo mundo prendeu a respiração.
Harry queria chorar.
"Umm," ele respondeu.
Snape parecia que queria jogar uma Avada Kedavra nele.
Acompanhar Malfoy e ter Snape – que deus o perdoasse – pensando que ele estava dando uns amassos em seu afilhado ou não acompanhar Malfoy e ter Snape usando Sectusempra nele por ele não estar cumprido com o combinado, que era monitorar o Malfoy 24/7.
Bem, uma decisão bem simples.
Se Harry ia se ferrar, ele iria fazer de tudo para que Snape adquirisse uma úlcera só de imaginar todas as coisas que Harry poderia estar fazendo com seu afilhado.
(Harry ignorou as imagens inapropriadas que surgiram em sua mente quando ele pensou nisso)
"Okay," disse e se levantou em seguida.
Ele quase caiu para trás quando viu Malfoy sorrir de uma forma inesperada em sua direção.
Harry pensou no quanto Malfoy ficava melhor sorrindo.
"O que diabos foi isso?" Harry perguntou de olhos arregalados, acusando o loiro.
"Isso o que?" Draco retrucou, assumindo sua expressão mais inocente.
Harry tropeçou. Controle-se, Harry, disse para si mesmo de forma inflexível. Maldição, toda aquela fofoca do Salão Principal estava afetando-o! Tentou fazer uma careta, mas só conseguiu parecer que estava emburrado. "Você sabe o que eu quis dizer."
Draco deu de ombros, deixando de lado a máscara de inocência para sorrir abertamente. "É só porque eu amo ser o motivo do seu sofrimento, Potter."
Harry apertou os olhos enquanto encarava o loiro. "Isso tudo é culpa sua," murmurou com depressão.
"Mm, oh, sim," Draco concordou.
"Nós realmente estamos indo–" Harry começou, parecendo que iria vomitar a qualquer momento. "- para a biblioteca?" E disse as últimas palavras da mesma forma que Neville dizia 'poções'.
"Para que eu possa revisar os meus trabalhos, sim," Draco respondeu. Ele ergueu uma sobrancelha e olhou para Harry, divertindo-se. "A não ser que você queria fazer outras coisas."
Harry corou. "Eu não estou com o meu material," murmurou se esforçando para ignorar a última parte do que o sonserino dissera. "Então te encontro na biblioteca." E dando uma última olhadela para a expressão alegre de Malfoy, ele tomou outro caminho, indo para cima, para a Torre da Grifinória, em uma última tentativa de evitar passar vergonha.
Draco ficou todo convencido.
Ele também não estava com seus livros já que correra de madrugada para a enfermaria ao acordar passando mal no meio da noite, mas já que as masmorras ficavam mais perto da biblioteca do que a Torre da Grifinória, ele não estava com muita pressa.
Ele não tinha realmente planejado revisar seu dever de casa, mas Potter era muito fácil de provocar, era simplesmente irresistível.
Depois de torturantes vinte minutos na biblioteca, com Draco utilizando todo seu arsenal de insinuações e Harry tentando se controlar para não imaginar as diversas coisas que era para ele não imaginar, finalmente chegou a hora deles irem para a primeira aula.
Para Harry isso significava um alívio já que ele teria Transfiguração, para Draco seria Aritmância, e isso significava mais nenhuma oportunidade para fazer insinuações.
Harry estava aliviado pelo fato de estar a salvo dos olhares e do burburinho do Salão Principal, seus colegas de classe tinham dezoito anos e eram mais maduros do que todo o resto da população da escola. Fora que eles também o conheciam melhor.
Mas apesar de não haver nenhum dedo apontando em sua direção, ainda assim existia uma quantidade dolorosa de franqueza.
"Hiya, Harry," Seamus cumprimentou de uma forma bem animada, balançando suas sobrancelhas à medida que Harry entrava na sala.
Professora Holly Bridgewood olhou para ele apenas uma vez e soltou um guincho, assumindo uma coloração graciosamente avermelhada e prontamente Não Olhando Para Ele. Bem, isso parecia estar se tornando um hobby, essa coisa de Não Olhar Para Ele.
Bridgewood substituíra McGonagall na disciplina de Transfiguração, já que a bruxa se tornara Diretora. Ela era uma senhora alta e magra com o tipo físico da Professora Trewlaney, mas claro, sem os enormes óculos e ao contrário dos cabelos volumosos, seus fios eram lisos e longos.
Muito longos, Harry pensou, notando como eles quase atingiam os joelhos da bruxa.
Ele meio que sentia falta da atmosfera austera e rigorosa das aulas que McGonagall dava.
Afinal, por ser uma aula de Bridgewood, Seamus não via nenhum problema em pular para fora de sua carteira enquanto jogava um dos braços sobre os ombros de Harry e o acompanhava até seu lugar.
Ron e Hermione, ao vê-lo, lhe lançaram um sorriso de simpatia.
"Então, Harry," Seamus disse. "Ouvi dizer que você agora está jogando para o outro time."
(Ron piscou e olhou para Hermione. "Jogando para que time?" ele murmurou.
"Expressão trouxa," Hermione respondeu)
"Não, eu não estou, Seamus," Harry respondeu secamente. Ele suspirou, olhando para seus amigos quase que implorando. "Seja lá o que você andou ouvindo, não é verdade."
"Claro, Harry," Seamus concordou. "Mas só para deixar claro, eu ouvi por aí que o Malfoy beija muito bem."
Harry engasgou.
"Oh, vocês ainda não se beijaram?" Seamus piscou em sua direção, balançando a cabeça logo em seguida, dessa vez sussurrando que compreendia. O rapaz sorriu abertamente para ele. "Bem, agora pelo menos você já sabe pelo o que esperar!" E para a felicidade de Harry ele retornou para o seu lugar.
Harry olhou para Ron, completamente confuso. 'Que merda foi essa?' gesticulou com a boca.
'Aposta,' Ron respondeu da mesma maneira, apontando para Seamus e depois para Dean.
A aula começou com Harry pensando em quão maravilhosos eram os amigos que ele tinha.
"Okay, me conte tudo," Pansy disse assim que o professor começou a falar sobre os mapas que estavam no quadro.
Draco fez uma careta. "Você precisa realmente ficar sabendo de tudo?"
Toda a sala estava dourada, não havia nenhum ponto negro ao seu alcance. Se Draco achara que o Salão Principal ficara bonito com o show de luzes douradas e negras, então o que estava vendo agora era mais maravilhoso ainda. Era até de certa forma relaxante.
Claro, se pelo menos Pansy pudesse parar de incomoda-lo.
"Sou a única amiga mulher que você tem," Pansy deu de ombros. "Então sim."
"Não, você não é," Draco retrucou. "Tem a…" Ele pensou com bastante força. "Millie," disse triunfante.
Pansy ergueu uma delicada sobrancelha. "Então você prefere falar dessas coisas com a Millie?"
O triunfo de Draco foi aniquilado. Ele piscou. "Bem observado."
Pansy se sentiu vitoriosa.
"Não podemos conversar sobre isso outra hora?" Ele tentou novamente. "Estou meio que atrasado com a matéria." E gesticulou em direção à sala onde metade dos alunos ou estavam na ponta das carteiras ouvindo a explicação de forma apática, ou jogados sobre as mesas, piscando os olhos em um quase sono. Alguns poucos estavam conversando como eles, enquanto fingiam tomar notas, exceto por Pansy e Draco que haviam aprimorado a arte de fazer várias coisas ao mesmo tempo no segundo ano.
"Você está mentindo," Pansy respondeu em um piscar de olhos.
Draco fez uma pausa. Ele a observou com suspeita. "Como você sabe?"
"Posso te amarrar na tua cama por uma semana e você ainda será capaz de tirar dez em todos os nossos testes," Pansy explicou enquanto franzia o cenho.
"Oh, certo," Draco respondeu, sentindo-se um pouco idiota. Ele havia pensado que desde que ele se tornara capaz de dizer que as pessoas estavam mentindo, o inverso poderia acontecer. Talvez uma imensa verruga fosse aparecer em sua testa no formado da palavra 'MENTIROSO' ou algo do gênero. Ele franziu o cenho. Esta não era uma boa imagem.
E então ele se deu conta do que Pansy dissera e como a luz ao seu redor não enegrecera. "Fico feliz por você pensar tão bem de mim," agradeceu da forma mais relaxada que pode.
Pansy sorriu para ele de qualquer forma.
Agora, porque é que ele não poderia ter se apaixonado por Pansy? Era conhecimento público que Pansy era afim dele, pelo menos era durante o quinto ano. Ali estava uma garota charmosa, pronta para ouvir qualquer bobagem que ele tivesse para dizer, mas não.
Ele tinha que se interessar pelo Harry Idiota Potter, um dos bruxos que ele mais odiava (okay, talvez ele não o odiasse mais), que nem gay era e que provavelmente iria ignorá-lo pelo resto da vida e viveria feliz para sempre com a Weasley-Fêmea.
Okay, ele estava se colocando para baixo.
Suspirando ele acabou contando tudo para Pansy.
Quando Transfiguração acabou, Harry rapidamente puxou Hermione e Ron de lado para o banheiro da Murta-Que-Geme.
"Okay, antes de qualquer coisa, não quero ouvir mais nada sobre estar saindo com o Malfoy," disse com firmeza.
Hermione e Ron se olharam e então deram de ombros. "Tudo bem."
"E eu arrastei vocês para cá porque não teremos mais tempo sozinhos depois disso," Harry começou, sentindo-se inseguro com relação à pergunta que ele sabia que estava por vir.
"Por quê?"
Foi Hermione quem perguntou e Harry usou isso como uma desculpa para evitar olhar para Ron.
"Porque eu vou estar, uh, em outro lugar."
Harry fechou os olhos e massageou as têmporas. Ele não tinha nenhuma resposta apropriada para isso, exceto – "Onde o Malfoy estiver."
Um guincho soou da sua esquerda, e Harry fez uma nota mental para conversar com o Ron sobre masculinidade e gritinhos. "Vocês se lembram de ontem? Quando eu disse que teria que monitorar o Malfoy depois de terem me responsabilizado por ele ter sido envenenado com a nossa suposta Poção Restaurativa?"
Hermione concordou, captando rapidamente o que ele queria dizer. Ela estava agora curiosa, por isso rapidamente deixou de lado todos os seus pensamentos sobre o suposto caso de amor ilícito de Harry com Malfoy. "Você se esqueceu de nos dizer exatamente o que aconteceu com o Malfoy."
Harry relaxou um pouco, sentindo que estava trilhando um caminho mais confortável, "Snape acha que a nossa Poção Restaurativa acabou se misturando com Veritaserum. E foi isso que o Malfoy acabou bebendo no outro dia e agora ele consegue ver… uma luz esquisita ao redor das pessoas que fica negra quando elas falam alguma mentira."
"Não diga," Hermione murmurou pensativamente.
Ron a encarou. E então olhou implorando para Harry. Ela iria arrastá-lo para a biblioteca depois disso, era algo que não precisava ser dito entre eles para que ficasse claro. Harry o olhou com simpatia.
"Então porque você ficou responsável pelo Malfoy?" Hermione perguntou, sem se dar conta do desespero do namorado.
"Bem," Harry começou, sentindo-se agora um pouco desconfortável. A preocupação que o perseguira mais cedo, ao descobrir que Malfoy tossira sangue como um efeito colateral da poção, ia lentamente desaparecendo. "Snape disse que o sangue de dragão da Veritaserum e o Fluido Explosivo de Erumpent da Poção Restaurativa estão reagindo entre si da pior forma possível," explicou, as sobrancelhas afundando em meio aos seus cabelos à medida que ele tentava se recordar do que Snape ficara murmurando mais cedo. "Por isso Malfoy acaba tendo algumas terríveis crises de tosse. Essa manhã, quando desci para ir para a enfermaria, Malfoy também estava lá porque em meio a uma dessas crises ele acabou vomitando... bem, sangue," disse de uma forma sinistra.
Hermione deixou escapar um arquejo.
Ron franziu o cenho. "Isso é horrível, cara," comentou com honestidade.
Harry concordou.
"Eu irei procurar alguma coisa sobre isso," Hermione informou animada. Harry e Ron deixaram escapar uma risadinha, porque ambos já sabiam que ela iria dizer isso.
E Harry se deu conta de que o tempo que eles haviam passado juntos em Grimmauld Place talvez tivesse acabado aproximando-os de Malfoy mais do que ele havia originalmente imaginado.
"Então," Hermione começou com tranquilidade. "Porque é que você foi para a enfermaria, Harry?"
Harry encolheu. Podia confiar na Hermione para não deixar escapar nenhum detalhe.
Ron cruzou os braços. "Você não estava na sua cama quando eu fui dormir e quando eu acordei você também não estava lá. Se você não estava com o M-Malfoy–" ele fez uma careta e Hermione lhe deu uma cotovelada.
Harry rapidamente interrompeu aquela linha de pensamento. "Lembra que eu disse alguns dias atrás que Hogwarts estava tentando me comer?"
Hermione piscou. "Quando?"
"Outro dia ai," Harry disse, ainda um pouco irritado pelos amigos não o terem levado a sério. Mas não podia culpa-los, até ele não estava se levando a sério. "Bem, não que Hogwarts esteja realmente tentando me devorar, mas eu acho que quando eles reconstruíram o castelo, eles adicionaram algumas... coisas novas ou sei lá."
Ron concordou. "O pai contou isso para gente durante o verão. Mas não adicionaram nada assim muito grande."
"Bem, eu tenho caído em diversas pequenas armadilhas," Harry disse lentamente, sentindo-se envergonhado por admitir isso. "Paredes, pisos," acrescentou, dando de ombros. "Ontem eu cai através de uma parede no sexto andar–" E com isso ele fez uma pausa. "Na verdade, eu tive que explodir a parede para poder sair. A bagunça ainda deve estar no corredor. Não passei por lá mais cedo para ver, então não tenho tanta certeza assim de que o Filch já não limpou tudo."
"Vamos lá checar," Ron disse bastante animado.
"Não," Hermione sibilou, mas parecendo estar bastante indecisa. "Estamos atrasados para a próxima aula e–"
"História da Magia, Hermione," Ron a lembrou. "Você realmente acha que o Binns vai notar a nossa ausência?"
"Claro que ele poderá notar!" Hermione retrucou de forma insolente.
"Ele é um fantasma, Mione –"
"Ei, eu ouvi isso!" Um gemido ressoou acima deles, ameaçando se transformar em soluços e lamentos. "Vocês acham que fantasmas são burros, não acham?"
Hermione empalideceu. Ela abriu seu sorriso mais cativante para Murta-Que-Geme, cuja face gordinha os encarava de forma acusadora. "Claro que não, Murta! Ron aqui estava apenas brincando, não estava, Ron?"
Ron concordou rapidamente, a face também sem cor. "S-sim, claro que eu estava!"
Murta deixou escapar uma grande fungada. "Saibam vocês que fantasmas também têm sentimentos!"
Harry olhou para os amigos sentindo-se perdido. Ele se virou para o fantasma, tentando confortá-la. "Nós sabemos disso, Murta. Acredite, não queríamos ofender ninguém nem nada."
Com isso a face de Murta pareceu desinchar um pouco. Ela mergulhou para baixo, na direção deles, fazendo Harry dar um salto para trás quando ela invadiu seu espaço pessoal. E então ela sorriu de forma tímida. "Se você diz, Harry."
Harry concordou, dando um passo para trás abrindo uma certa distância entre eles.
"Alguma coisa aconteceu com o Draco?" Murta perguntou, ainda flutuando muito próxima deles enquanto limpava algumas lágrimas prateadas que escorriam por sua bochecha. "Não pude evitar escutar, e eu me preocupo bastante com ele. Ele não vem mais aqui me visitar como antes."
"Eu irei, err, dizer isso para ele," Harry respondeu solenemente, apesar de ter sido pego de surpresa com a mudança de assunto. E então se divertiu com a ideia de que Malfoy possuía agora várias pessoas que se preocupavam com seu bem-estar.
Murta concordou com a cabeça, abrindo um pequeno sorriso. "Então, aconteceu alguma coisa?"
Harry capturou os olhares de Ron e Hermione. "Bem," ele começou bastante nervoso. Se ele mentisse para Murta e ela descobrisse, isso faria com que ela inundasse o banheiro com eles ali. Por isso acabou contando a verdade, só que em uma versão menos detalhada.
"Oh, isso é fácil de resolver," Murta disse quando ele acabou. Ela sorriu abertamente, o que parecia muito estranho, mas aparentemente, o fato dela ser capaz de ajudar parecia lhe fazer muito bem. "É só continuar dando para Draco a Poção para Repor Sangue! Pirraça estava falando sobre isso outro dia. Oh! No meu tempo estas poções eram bastante famosas. Todo mundo as estocava, só porque alguém havia sugerido que o monstro da Câmara Secreta era um vampiro," ela fungou, lembrando. "Como se realmente fosse."
"Mas –" Hermione começou, nervosa por ter que discordar da Murta-Que-Geme. Ela olhou para Harry de uma forma questionadora. "A Madame Pomfrey não fez o Malfoy tomar essa poção hoje de manhã?"
"Se ela fez eu não vi," Harry deu de ombros. Mas ele abriu um sorriso, que só aumentou ao notar que Murta estava bastante ocupada encarando Hermione. "Mas essa é uma ótima ideia, Murta! Poderíamos fazer com que o Malfoy estocasse Poção para Repor Sangue como prevenção. Quero dizer, okay, Snape me disse para ficar de olho nele, mas o que é que eu poderia fazer quando começasse a ter um acesso de tosse?"
Murta comemorou e flutuou para bem longe, cantarolando para si mesma com bastante alegria.
"Então, você vai falar com o Snape?" Ron perguntou quando eles finalmente saíram do banheiro e começaram a caminhar em direção a sala de aula do Professor Binn. O ruivo olhava para Harry com simpatia.
Harry congelou. E prontamente bateu na própria testa. "Certo. Snape tem a poção," murmurou.
"Tenho certeza que o Snape ficará feliz em te dar ela, Harry," Hermione tentou confortá-lo. "Vendo que é sobre o Malfoy e tudo mais."
"Oh, não, eu sei que ele me dará a poção," disse de uma forma emburrada. "Só não tenho tanta certeza assim sobre a parte de ficar feliz."
"De verdade, cara," Ron disse de forma pensativa. "Você está realmente levando toda essa coisa do Malfoy muito a sério."
Harry corou.
E então Ron se deu conta do que ele acabara de sugerir e também corou como o amigo. "Eu-eu-eu não quis dizer dessa forma – bem, a não ser – a não ser que você queira, o que você–" ele gaguejou fracamente. "O que você não quer, certo?"
"Oh, honestamente, Ronald!" Hermione bufou, revirando os olhos. "Porque é que o Harry não pode ficar preocupado com os amigos dele? Quero dizer, até você está preocupado, não está?"
Os ombros de Ron caíram e ele começou a grunhir baixinho, mas não fez menção nenhuma de negar o que a namorada dissera.
Hermione ficou triunfante.
À medida que eles continuavam caminhando, Harry se deu conta que sim, talvez ele estivesse mais preocupado com o Malfoy do que imaginara.
Mas isso era algo normal já que eles agora eram meio que amigos e tudo mais, certo?
É, devia ser por causa disso mesmo.
N/A: É, eu sei, demorei para postar este capítulo, mas em minha defesa preciso destacar que ele foi mais longo do que os outros. Hahahaha. De todas as formas, aqui está, com direito a tiradas e fofocas incríveis.
Agradeço mais uma vez todas as reviews do pessoal que continuam acompanhando. Vocês fazem o meu dia.
Tentarei postar a continuação o mais rápido possível, okay?
Bom final de semana para todos ;)
