Em Seus Olhos

Parte II

Isso é impossível!

O que é bem bizarro vindo de mim, eu sei. Impossível não é uma palavra usada com frequência no meu vocabulário, mas é bem preciso para o momento (ou não, já que está acontecendo então não é impossível).

Há, na minha frente, um lugar de contos de fadas.

Eu estou sendo bem literal.

Há, realmente, fadas aqui. Não aquele tipo do meu mundo, não mesmo. As fadas aqui são o tipo Disney. Pequenas mulheres e pequenos homens alados que brilham, voando sobre um campo de flores, que são belíssimas, mas não consigo identificar o tipo. As flores são coloridas e também brilham.

Atrás das flores e na minha frente há uma cachoeira, mas não é qualquer cachoeira. A água brilha e é tão transparente que posso ver os animais e plantas sob ela, todos multicoloridos. Um pequeno lago se estende em vários braços menores como um tapete de água entre cada fileira de flores. No entanto, o mais especial dessa cachoeira não é nada disso. Ela não cai de um monte mais alto, a água brilhante e cristalina cai direto do céu. Cai formando um lago a frente, estende-se nos tapetes entre as flores e deles saem pequenas linhas de água que chegam até as flores.

Essa clareira está cercada de árvores grandes, grossas e bem antigas. É como um paraíso em meio a um buraco de escuridão.

O Doutor está apontando para tudo com sua varinha high-tech, animado e saltitando (sério, saltitando). O garoto corria brincando com as fadas, que riam ao redor dele. Eu fiquei aqui, parado e olhando para tudo isso, perguntando para mim mesmo o motivo deste lugar estar aqui, em um mundo onde ninguém pode vê-lo.

Meus pensamentos acabam de ser interrompidos por uma sensação estranha. Uma das fadas está no meu cabelo, brincando com os fios, fazendo ele ficar mais confuso. Outras estão se juntando a ela, algumas outras estão vindo até meu braço e me puxando.

Eu não me importo muito. Eu nem mesmo quero entender agora. Tudo que vou fazer é sorrir e aproveitar a brincadeira nesse lugar iluminado.

HPDWHPDWHPDWHPDWHPDWHPDW

Depois de muito tempo em diversão. Becondo vem até mim e me abraça. Não sei o que foi mais estranho: o ato espontâneo ou as oito mãos nas minhas costas.

-Obrigado! Se não fosse vocês eu nunca teria vivido esse momento tão bonito.

Ele me soltou e abraçou o Doutor apertado. Logo o soltou também, então se virou e saiu correndo da clareira direto para as outras pessoas da vila que estavam lá fora esperando. Pelo menos, foi o que vimos por termos corrido atrás dele logo depois.

Eu já estava pronto para pegar o garoto de novo quando ele se virou sorrindo para nós...

Ele não tem mais olhos.

HPDWHPDWHPDWHPDWHPDWHPDW

As pessoas da vila ficaram agradecidas por não terem que ferir o garoto para livrá-lo da "maldição", mas era óbvio que estavam irritados por termos ido a um local que eles consideravam o mal depois de sequestrarmos o garoto. Tanto que nos proibiram de sair da clareira, nem mesmo para chegar a TARDIS.

Becondo ficou quieto durante toda a discussão e, depois, percebi o motivo: ele não podia mais falar.

O Doutor e eu não estávamos entendendo nada, ele só me puxou para a clareira onde as fadas ainda brincavam cuidando das flores brilhantes.

-Fique tranquilo.

Foi o que ele me disse antes de fazer alguma coisa que fez a TARDIS aparecer na clareira piscando e com um barulho bem característico.

Eu não me movi.

-O que aconteceu?

-Acho que nossos amigos alados podem nos dizer.

Uma das fadas estava perto e respondeu a questão indireta:

-Ele bebeu a água e seu desejo se realizou, mas o preço da luz, que ele queria perder, foi perder o som para não poder nada sobre nós contar.

-Mas...vocês afastam os outros...por que nos deixou entrar se nesse lugar tem tal poder?

-Eles não são dignos. Se não podem apreciar a luz, não podem vir até ela.

-Isso não é meio preconceituoso?-Ou totalmente, mas deixei essa parte fora da pergunta, afinal a fadinha já pareceu bem ofendida com minha questão e saiu voando emburrada.

O Doutor sorriu e disse:

-É bom ver alguém com menos sutileza do que eu.

Eu virei as costas para ele e cruzei os braços, emburrado.

Mas, agora que ele entrou na TARDIS, resolvi segui-lo para lá. Tive de perguntar quando a porta se fechou:

-Não entendo em absoluto. Ele é só uma criança. Por que os adultos não podiam superar uma pequena diferença e só cuidar dele?

-A verdade é que nós não podemos culpar alguém por ter medo, seja esse medo responsável por perseguir um inocente ou por destruir em nós mesmos o que nos faz especial. Tanto porque, em todos os mundos, em todos os tempos, em todas as raças, todos estão vulneráveis a fazer más decisões com base no medo.

-Vou parecer uma criança se disser que nada disso é justo?

-Sim. E também vai parecer que tem um bom coração.

-Olha quem fala! O cara que tem dois deles... Você já quis ser...sabe, como todos os outros?

O Doutor apenas me olhou em silêncio, ajeitou sua gravata borboleta, sorriu e respondeu:

-Por que eu iria? Eu sou tão legal!

Eu ri.

-Como sua gravata?

-Exatamente!

Ele disse antes de dançar animadamente ao redor do controle da TARDIS.

-Então Sexy, já está pronta para partir?

A TARDIS respondeu se apagando totalmente.

-Mas, o que?

O Doutor acaba de entrar em desespero, batendo e girando o controle sem parar de falar sobre tudo que eu não conseguia entender. Ele pareceu espantado quando algo piscou em uma tela e aumentou o ritmo (o que eu não sabia que era possível, já que ele parecia estar em 100 % o tempo todo).

-Sabe, ela não vai sair enquanto eu estiver nela.

Doutor parou e me olhou.

-Eu não pertenço a esse mundo e ela sabe disso.

Ele veio até mim parecendo muito sério.

-Eu não posso te deixar aqui de jeito nenhum.

-Por que não? Você mal me conhece!

-Pois porque!-Ele gritou mexendo as mãos desenfreadamente e indo até o controle da TARDIS, apontando para a tela. -Aqui diz que é o ano de 5632, dia 25 de janeiro e estamos em Bic, é por isso!

-Continuo sem entender o motivo de não poder ficar.

-O motivo é que há pontos na história que não podem ser mudados e daqui a 4 horas, às 2 e 40 do dia 26 vai acontecer um deles.

-O que vai acontecer?

Então, com a expressão mais sombria possível, o Doutor me respondeu:

-Bic vai deixar de existir!

HPDWHPDWHPDWHPDWHPDWHPDW

-Como assim, deixar de existir?

-Exatamente assim, ninguém sabe direito o que aconteceu, mas o planeta desapareceu do universo.

Algo no que ele disse soava estranho, como se ele estivesse escondendo alguma coisa dentro daquilo que ele disse. No entanto, resolvi questionar o que estava me preocupando mais.

-E o que aconteceu com as pessoas que estavam nele?

O Doutor me olhou de forma triste e balançou a cabeça.

-E isso está bem para você? Deixar isso acontecer a um planeta inteiro?-Eu perguntei bem exaltado.

Ele parecia esvaziar bem diante de meus olhos, mas respondeu mesmo sem me olhar:

-É claro que não, mas há circunstâncias. Coisas importantes começam a acontecer com o sumiço de Bic, coisas boas.

-Diga uma que valha a pena a destruição de um planeta inteiro!

Ele parecia mais e mais desconfortável e eu estou mais e mais assustado:

-É complicado explicar, envolve uma rede de eventos, eventos rápidos e complexos que levam o universo a não se autodestruir.

-Como assim, autodestruir?

-Exatamente assim.

Ele estava bem cansado, como se carregasse um grande peso nos ombros.

-O fato de Bic continuar existindo causa o fim da vida no universo.

-Como você pode saber?

-Porque um humano já salvou Bic uma vez.

Eu fiquei chocado. Calado, o esperei continuar. Esperei vários minutos.

-É parte da história do universo que eu estudei amplamente. Um humano descobriu a causa da destruição de Bic e foi ao passado salvar essa civilização. Ele conseguiu, mas logo coisas ruins começaram a acontecer. Planetas inteiros começaram a desaparecer, corpos sem vida ficavam navegando em pleno espaço.

Ele estremeceu, olhando com olhos assombrados para um ponto que eu não conseguia enxergar como sabia que ele enxergava.

-No fim, quase cem anos depois, descobriram que os habitantes de Bic estavam construindo armas e destruindo os planetas que conseguiam alcançar. Isso em vingança do que o humano que os salvou fez quando esteve em seu planeta. Ninguém sabe bem o que foi. Então, um dos últimos humanos dessa realidade quebrada voltou ao passado para impedir que seu antepassado cometesse o mesmo erro e salvasse Bic. O encontro dos dois, provavelmente armados com bombas poderosas, causou uma enorme explosão de energia que não só os matou, mas causou algo terrível.

-O que?

-A destruição de Bic.

-O quê?

Eu pareço um disco arranhado.

-Quero dizer, como você pode saber o que aconteceu se o tempo mudou?

-Através de pistas reunidas pelos Senhores do Tempo, antes de...

Ele parou, mas continuou mudando um pouco o assunto. Não discuti com essa escolha.

-Pontos fixos no tempo. Por mais que tentemos não podemos alterar. Eu mesmo já fui arrogante o suficiente para tentar salvar algumas vidas antes.

Novamente o olhar assombrado.

-E o que aconteceu?

-Eles morreram de novo, só que de forma diferente e muito mais dolorosa.

-Isso é... é...

Não sei mais o que dizer. Estou perplexo. Mas não deveria estar. Mexer com um vira tempo me mostrou que, em meu mundo, não podemos mudar o passado, só podemos garantir que ele aconteça.

De repente, decidi.

-Eu vou ficar!

-Não!

A voz do Doutor foi firme, mas a minha também.

-Eu não posso salvá-los, mas eu posso salvar você!

-Mas eu vou ficar, posso tentar...

-Não, não e não!

-VOCÊ NÃO DECIDE POR MIM! -Gritei em desespero.

-Quer apostar?-Ele disse puxando uma alavanca.

De repente, a TARDIS parecia colaborar com o Doutor e nós começamos a partir.

Só então fiz o que, possivelmente, foi a coisa mais idiota da minha vida (todas elas): eu aparatei direto para a clareira das fadas.

Consegui chegar onde queria, a tempo de ver a caixa azul ir embora, levando dentro dela o seu Doutor.

HPDWHPDWHPDWHPDWHPDWHPDW

Fiquei ali por um tempo e questionei as fadas sobre salvar o povo de Bic, ou alguns deles.

Não foi como imaginei que iria.

Elas não pareciam se importar sobre a vida e a morte deles...nem delas.

Tudo que elas faziam era brincar com a água, as flores e o meu cabelo. Pensei em sair da clareira, mas algo me impediu.

Não havia nada além da clareira.

A clareira estava fora de Bic, que eu conseguia ver, longe de nós.

Eu não podia aparatar para lá. Não consegui ver com nitidez os lugares pelos quais passei. Então, continuei a olhar.

Olhei, imóvel, como a clareira se afastava, ainda rodeada de árvores, olhei como uma força nos empurrou para mais longe e olhei quando não havia mais Bic.

As fadas em meu cabelo pararam por um segundo, saíram dele e foram até o lago.

Eu olhei para lá.

Outras fadas saíram do lago, muitas delas. Coloridas e diversas, brilhantes e cheias de ânimo.

Uma delas veio a mim.

-Oi!

Era a voz de Becondo. Agora menor, mais colorido, com asas, apenas duas mãos e, novamente, com os olhos parecidos com os de Teddy.

-Não se preocupe! Vamos ficar bem!-Disse com um sorriso.- Mas você não pode vir com a gente.

E isso foi tudo que eu soube, antes que a clareira desapareceu e eu estava, novamente, solto no espaço. Em segundos, vi uma caixa azul vindo em minha direção.

Sorri!

Todos vão ficar bem!

A porta da caixa se abriu, o Doutor apareceu nela e estendeu a mão dizendo algo que não ouvi.

A última coisa que vi foram seus olhos.

HPDWHPDWHPDWHPDWHPDWHPDW

Quando abri meus olhos, não eram os tristes do Doutor que olhavam para mim, mas sim os inteligentes de Morte.

Eu fiquei em silêncio por um tempo, sem saber direito o que dizer. Morte pareceu entender e também se calou.

Ainda estávamos em um ambiente de estrelas e planetas.

Olhando para eles, eu perguntei a primeira coisa que me veio a mente, sem saber bem como perguntar.

-Aquela clareira...?

-Há respostas que você não deve conhecer.

-Mas... e seu eu acreditar que é uma coisa mesmo sem você confirmar?

-Você acaba de resumir o que é fé.

Isso me calou novamente e me fez pensar. Não sabia o que dizer. Então algo urgente me veio a mente:

-O Doutor...

-Vai ficar bem. Ele sempre fica. Há pessoas que estarão com ele logo e, mesmo quando se forem, outras virão.

-Isso parece tão triste.

-Não é muito diferente da sua atual situação.

A verdade disso me fez ficar em silêncio, novamente, mas pensei que não era bom continuar lamentando agora.

-Sabe, já faz um tempo que quero te perguntar...Em todos os lugares que eu vou, todo mundo fala inglês?

Morte deu um breve sorrisinho assustador.

-Estive me perguntando quando você ia perceber esse detalhe. Não, nem sempre falam inglês, mas até agora você teve muita sorte sim. No mundo do anel, por exemplo, nenhum deles falava inglês.

-Mas eu os compreendi.

-De nada.

-Hein?

-Eu lhe dei um presente, você sempre vai entender os diferentes idiomas e sempre vai conseguir falá-los, mesmo sem pensar nisso.

-Como a língua das...?

-Sim.

-E eles não notam ...?

-Não.

-Você não precisa mais que eu termine minhas...?

-São previsíveis, portanto esperar que as termine é desnecessário.

Eu cruzei os braços, chateado. Olhei tudo a nossa volta, tentando ignorá-lo. Podia senti-lo sorrir sinistramente.

Isso não é bom.

Esse é o sinal.

Virei para ele o mais rápido que pude, mas tudo que vi foi ele dando um arrogante e cínico tchau com a mão direita.

Sério, acho que o sorriso sinistro é O portal para outras dimensões!

Continua no próximo mundo...

Não sou boa em ficção científica, acabei misturando com fantasia, mas se pararem para pensar é a junção perfeita de Doctor Who e Harry Potter.

Desculpem pelos problemas, comentem o que acharam. Mesmo se for ruim. Não tenho como melhorar sem receber um retorno.

Obrigada por lerem!

Tchauzinho!