Capítulo 2 - Unforgiven

Nem podia acreditar que finalmente estava na hora de ir embora daquela tortura. Mais um dia e eu tinha conseguido passar por ele sem nenhuma complicação maior. Pelo menos eu pensava assim.

- Jensen, nós vamos lá pra minha casa... – Misha falou mascando seu inseparável chiclete e encostado num poste quando eu saí – Você quer vir também?

- Não vai dar Misha. Eu combinei de concertar umas coisas para a minha tia – menti descaradamente – Fica para outra vez, ok?

- Se mudar de ideia, me liga tá? – Misha falou se despedindo e entrando no carro que o Tom estava.

- Tchau Ackles! Se cuida hein! – Tom gritou de dentro do carro, acenando exageradamente.

Acenei de volta achando graça do jeito do Tom e eles arrancaram em alta velocidade. Olhei para o céu e ia começar a chover a qualquer minuto, mas como eu não estava a fim de voltar para casa, me sentei numa calçada perto da escola e acendi um cigarro.

Minha mente foi imediatamente para o momento em que o Jared falou comigo dentro da sala de aula. Eu não conseguia entender o motivo daquilo ter acontecido. Por que ele havia falado comigo? Por que havia perguntado se eu iria a tal festa? O que ele queria com aquilo? Era algum tipo de brincadeira?

Balancei a cabeça, dando mais uma tragada no cigarro imaginando que com certeza deveria ser alguma brincadeira daquele idiota do Murray.

Ele me odiava e eu sentia que havia sido desde que eu salvara sua vida naquele dia do acidente no ônibus da escola quando éramos crianças. Ele não aceitava o fato de saber que só continuava vivo por minha causa.

Mas Jared não saía da minha cabeça e isso já estava me deixando louco. Eu precisava tomar uma atitude. Fazer alguma coisa que me impedisse de cometer uma besteira a qualquer momento.

De repente ouvi vozes e fechei os olhos para escutar melhor.

- Eu não quero mais escutar nada sobre isso Jay! – ouvi a voz do Murray – Porra, o que você está esperando? Vamos logo embora dessa merda de escola... Vamos fazer alguma coisa mais interessante...

- Chad, você é um babaca... e não fale comigo desse jeito! – Jared falava e sua voz estava impaciente. - Já te falei que não sou sua vadia!

Na mesma hora levantei da calçada e comecei a ouvir com mais atenção. Eles provavelmente estavam dentro da escola. Eu conseguia ouvir como se eles estivessem ali do outro lado do muro. Era muito estranho isso.

A discussão continuou e logo em seguida eu os vi saindo da escola. Entraram no carro dele e foram embora sem perceber que eu estava li escondido vendo e principalmente ouvindo tudo.

Eu não gostava de escutar as conversas dos outros, na maioria do tempo eu bloqueava isso e tentava me focar em outras coisas, mas a voz dele tinha chamado a minha atenção e eu soube que eles estavam discutindo porque Jared havia contado para Chad que tinha falado comigo e me chamado para a tal festa. Chad não ficou nenhum pouco satisfeito com isso e saiu acelerando o carro mais que o necessário.

Sentei novamente e quando ia acender mais um cigarro, escutei um estrondo muito alto, como se fosse ao meu lado. Dei um pulo, largando o cigarro no chão quando escutei a voz de Jared gemendo e pedindo por ajuda.

Corri o mais rápido que consegui e não havia ninguém na rua. Somente o carro do Chad batido numa árvore. Me desesperei com aquela cena, pensando no que eu poderia fazer para ajudá-los sem despertar nenhuma suspeita. Olhei para os lados e não tinha ninguém. Me aproximei e vi que Jared estava com os olhos fechados e seu rosto todo sujo de sangue, mas pude ver que ele não tinha nada de muito sério, pelo menos nenhuma fratura muito grave e eu suspirei aliviado.

Chad estava com a cabeça tombada para o lado e tinha um corte muito fundo na testa, de onde jorrava uma quantidade enorme de sangue. A perna de Jared estava sendo esmagada e ele gemia baixinho. Com certeza, ele estava sentindo muita dor e eu não podia suportar isso. Eu sabia o que ia acontecer se o tocasse, mas como vê-lo chorando e sentindo dor não estava nos meus planos, abri a porta do carro e levantei com a mão direita a lataria que estava machucando sua perna. Puxei delicadamente a perna dele com minha mão esquerda, tentando ao máximo não machucá-lo mais.

Respirei fundo e assim que toquei nele, uma imensidão de coisas entraram como foguetes na minha cabeça. Tudo o que ele estava pensando, agora e o que tinha pensado no momento em que falou comigo, eu podia ver. Ele gostava de mim, sempre havia reparado em mim de longe. Chad sabia disso e sentia ciúmes do amigo, que pelo jeito não queria ser somente amigo de Jared. Mas pude perceber também que Jared não estava interessado em Chad.

Jared se sentiu inseguro por falar comigo na sala de aula e entendeu o meu comportamento de uma forma que não era a verdade. Ele achou que eu não tinha dado a mínima para nada que ele havia falado e tinha se magoado com isso. Ele me achava um cara diferente, mas tinha alguma coisa em mim que chamava sua atenção. Eram muitos pensamentos confusos, talvez por conta da dor que sentia naquele momento.

Mas no momento em que eu soltei a lataria do carro, vi que ele me olhava espantado.

- Jensen? – ele disse gemendo de dor – Jensen, me ajuda...

Jared parecia tão desesperado, indefeso ali naquela situação que eu daria qualquer coisa para trocar de lugar com ele. Tudo para que ele não sentisse dor, nem medo. Eu podia ver o pânico dele, sentir o desespero e a dor que ele sentia.

Soltei sua perna e as imagens sumiram imediatamente, assim como a dor.

- Calma Jared... – falei puxando o celular e ligando para a emergência – Eles já estão vindo para tirar vocês... se acalme por favor...

Ele, em meio aquilo tudo, ainda conseguiu sorrir para mim, me deixando sem reação e me fazendo sorrir também.

- Obrigada por tirar... minha perna dali... – ele disse para o meu pânico total – Estava doendo muito... Mas como você... conseguiu levantar...

Nesse momento sua cabeça pendeu para o lado e eu tive a confirmação de que ele havia desmaiado. Jared tinha me visto levantar a lataria do carro usando somente a minha mão. Merda!

O barulho das sirenes já estava alto o suficiente para eu saber que eles demorariam mais uns dois minutos para chegar. As pessoas já se aglomeravam em volta do carro e eu aproveitei para me afastar um pouco.

Eles foram colocados na ambulância e eu olhava tudo de longe. Podia ouvir o que os médicos falavam e percebi aliviado que a situação deles não era grave. A perna de Jared havia sido quebrada, infelizmente, mas nada que um gesso não resolvesse. O estado de Chad era um pouco mais sério, mas não corria risco de vida também.

Fui andando para casa devagar e em minha cabeça somente as imagens que eu tinha visto. Ele gostava de mim... ele pensava em mim...

Mas será que eu tinha o direito de entrar assim na vida de alguém? Será que eu poderia me envolver com alguém do jeito como eu queria me envolver com Jared?

Esses conflitos me agoniaram durante todo o percurso até a minha casa e quanto mais eu pensava, mas me dava conta que, talvez, eu estivesse condenado a ficar só. Quem sabe não era esse o meu destino? Ser sozinho, sem amor, sem nada nem ninguém.

Esses poderes que eu tinha me afastavam das pessoas e eu não estava mais suportando essa situação. Eu precisava falar com a única pessoa no mundo que poderia me ajudar, mesmo que eu o odiasse.

Pensei em meus "amigos" Misha e Tom. Eles eram legais, mas eu nunca teria coragem de me abrir e contar tudo. Sem querer, eu já havia tocado neles algumas vezes e em todas pude perceber que eles eram confiáveis e sentiam muita pena de mim por eu ser tão excluído, mas isso não era suficiente para que eu contasse sobre os meus poderes para eles. Não tinha como eu saber qual seria a reação dos dois diante de tantas informações, pois para eles eu era somente um cara estranho, fechado e que deviam temer.

Suspirei quando lembrei que Jared também pensava em mim. Me senti extremamente feliz quando imaginei como seria se ficássemos pelo menos amigos. Eu não poderia querer nada mais do que isso, mas a minha real vontade era abraçá-lo forte e sentir bem de perto aquele cheiro tão bom que ele exalava de seu corpo. Esse pensamento fez coisas estranhas com meu corpo. Senti que tinha ficado duro e balancei a cabeça, desolado.

- O que mais falta me acontecer? – Falei olhando para cima e sorri, me sentindo bem, apesar de tudo.

Entrei em casa com um sorriso idiota no rosto, mas ele sumiu na hora em que eu vi quem estava sentado na poltrona da sala.

- O que você está fazendo aqui? – consegui dizer entre os dentes.

- Mas que falta de educação é essa Jensen? – minha tia saiu da cozinha com um sorriso no rosto – Seu tio nunca vem nos visitar e quando ele aparece, você o trata assim?

- É isso mesmo garoto! - Alexander se levantou e abriu os braços para mim – Não vai me dar um abraço?

O irmão do meu pai era pessoa mais desprezível que eu conhecia na vida. Na frente dos outros ele era o tio perfeito, o irmão perfeito, o pai perfeito, mas pelas costas era o maior filho da puta da face da terra.

Estendi a mão com vontade de esmagar a mão dele, mas me controlei porque senti os olhares da minha tia sobre nós. Eu não podia ler o pensamento dele mesmo se o tocasse e sabia que ele também tinha alguns poderes, o que o tornava muito perigoso, mas também não podia ler os meus. Minha tia voltou para a cozinha e ele voltou a sentar na poltrona em que estava antes, me olhando de forma sarcástica.

- O que você está fazendo aqui? – perguntei mais uma vez.

- Mas que forma de receber a família hein garoto! – ele riu e se levantou novamente ficando na minha frente e colocou o dedo na minha cara – A sua falta de educação e respeito devem estar fazendo meu irmão se revirar no túmulo!

- Lava a sua boca para falar do meu pai! – falei segurando o dedo indicador dele e torcendo-o – Se você falar novamente no meu pai eu juro que eu te mato seu filho da puta desgraçado!

Alexander sorriu abertamente e se soltou facilmente de mim, voltando a se sentar.

- Aconteceu alguma coisa garoto? Você está meio nervoso... – ele me olhava atentamente.

- Não é da sua conta! – me virei e saí da sala.

O que esse cara queria aqui? Pensei que da última vez ele tivesse entendido que a presença dele na nossa vida só trazia problemas. Pelo visto, ELE não tinha percebido...

Minha cabeça estava cheia de problemas e agora esse idiota tinha que aparecer justo nesse momento? Que inferno!

Tomei uma ducha gelada, enquanto escutava toda a conversa da minha tia com Alexander. Ele era um puta dissimulado e eu já estava sem paciência, mas teria que aceitar jantar na mesma mesa que ele para não magoar minha tia.

Pensei na Jared e me preocupei. Será que ele estava bem? Será que o idiota do Chad tinha se machucado muito? Ele podia ser um filho da puta, mas eu não gostava de desejar mal aos outros. Pior que não eu não tinha ninguém para quem eu pudesse ligar e ter notícias dos dois. Fiquei louco com esse pensamento e decidi o que eu ia fazer depois do jantar.

Desci, jantei mudo e saí da mesa calado. Minha tia reclamou muito do meu comportamento, mas eu não podia fazer nada. Eu não gostava de Alexander e tinha os meus motivos.

Minha tia era uma pessoa maravilhosa e não merecia saber tudo o que já havia acontecido entre eu e ele.

Quando eu completei 12 anos, meu tio veio para o meu aniversário e como ele era meu melhor amigo até então, eu confiava muito nele. Nessa época eu já estava desconfiado que eu não era igual aos outros adolescentes e estava um pouco assustado, mas só queria falar se fosse com ele. Eu confiava nele...

Mas quando eu comecei a contar sobre as coisas estranhas que estavam acontecendo comigo, imediatamente ele mudou, começou a me olhar de forma estranha e seus olhos começaram a brilhar.

Fiquei surpreso quando ele me contou que já sabia sobre tudo o que eu estava sentindo e que ele próprio tinha poderes.

Um tempo depois ele passou a me pedir para fazer alguns "favores" sempre que podia, mas isso começou a se tornar uma constante e eu não queria mais fazer isso. Era extremamente incomodo e às vezes era algo ilegal.

E quando eu comentei sobre as "tarefas" que ele me pedia para fazer, na mesma hora ele mudou o seu comportamento dizendo que se eu não fizesse o que ele estava mandando, todos iriam saber que eu era um anormal na escola. O meu medo era tão grande de que alguém soubesse sobre esses tais poderes, que eu acabei aceitando, até que ele me pediu para fazer uma coisa terrível que eu tive que recusar.

A partir desse dia ele começou a me chantagear e logo em seguida eu tomei coragem e o enfrentei. Foi uma briga feia, mas eu consegui me impor e disse que nunca mais faria nada para ele. Alexander me ameaçou, ameaçou até a minha tia, mas eu me mantive firme e disse que se ele quisesse fazer esse tipo de coisa, que ele mesmo fizesse. Com isso nossa relação mudou totalmente e eu passei a vê-lo como meu inimigo.

Desci as escadas correndo mais rápido do que de costume e quando passei pela sala ainda pude sentir o olhar de Alexander em mim. Assim que cheguei na rua peguei um cigarro e acendi, dando uma tragada profunda e sentindo aos poucos que meu corpo relaxava só pelo fato de me sentir longe dele.

Mas eu não podia pensar mais nisso agora. Tinha que colocar em prática meu plano para saber como estava Jared.

Ele sim era importante agora.

Continua...