Capítulo 04 - Bleeding Me

- Eu não acredito Jensen! – Misha colocou a mão na boca como se fosse para abafar um grito. Na verdade eu achei bastante gay da parte dele dar um grito como aquele, mas afinal, o que eu poderia dizer se eu mesmo estava apaixonado pelo Jared.

- Jen... eu... – Tom estava sem palavras e balançava a cabeça de um lado para outro.

Acendi meu terceiro cigarro e traguei profundamente olhando para meus amigos de queixo caído na minha frente. Eu tinha finalmente contado toda a minha história, sem saber se podia realmente confiar neles, mas eu precisava dividir meus problemas com alguém e eles eram meus melhores amigos, meus únicos amigos. Se eu não confiasse neles, em quem eu iria confiar?

- Mas... você pode ver os pensamentos de qualquer um? – Misha perguntou depois de se acalmar um pouco.

- Só se eu encostar na pessoa – respondi brincando com meus óculos escuros que estavam no chão. Eu estava começando a ficar mais tenso a cada olhar que eu sentia em cima de mim.

- Ok... – Tom falou rindo, concordando com a cabeça – E você pode ver através de qualquer coisa? Até de roupa?

- Posso... – balancei a cabeça sem olhar diretamente para ele.

- Nossa, eu queria ter um poder desse! – Tom assoviou alto – Eu ia ver a calcinha de todas as garotas da escola... ou melhor... o que tem embaixo da calcinha né?

Eu ri da cara de tarado do Tom. Eles ficaram olhando para mim e eu vi seus olhos brilhando enquanto tentavam imaginar como seria poder ver através de qualquer coisa. Mas para mim era normal... Eu já tinha me acostumado com isso.

- E você tem uma super audição? E uma força fora do normal? – Tom continuou.

- Isso aí! – falei tragando meu cigarro, meio sem graça – Tudo muito anormal...

- Ackles! – Misha levantou dando um pulo e ficou na minha frente rindo igual a um idiota – Quer dizer então... que você é um super herói porra?

- Claro que não Misha! – falei tendo um acesso de risos – Por acaso você já me viu com aquelas roupas apertadinhas do super homem?

- Mas se você tem super poderes, você é um super herói não é? – Misha se virou para perguntar ao Tom, que pensou um pouco e depois se virou para mim.

- Claro que é porra! – Tom estava sorrindo de maneira estranha e eu me levantei também, apagando o cigarro no cinzeiro em cima da cômoda.

- Gente... olha só! – comecei a falar passando a mão pelos cabelos – Eu não sou super herói porra nenhuma , ok? Eu tenho essas coisas estranhas, mas isso não quer dizer que sejam super poderes...

- E o que são então? – Misha quis saber.

- Sinceramente eu não sei! – falei dando de ombros – Mas eu precisava contar essas coisas para alguém antes que eu explodisse!

- Fez bem... – Tom se aproximou de mim – Posso te tocar?

- Se quiser que eu saiba o que você está pensando... – falei distraidamente e rindo dele internamente.

- Melhor não né? – ele disse afastando a mão do meu ombro.

- Olha Jensen, eu quero que você saiba que pode contar comigo – Misha falou colocando a mão no meu ombro sem medo e eu pude ver que as palavras dele eram realmente verdade. – O seu segredo está seguro!

- Obrigado Misha... eu sempre soube que podia confiar em você – falei um pouco emocionado e me sentindo meio sem graça também. Eu não estava acostumado com demonstrações de carinho e nem me lembrava a última vez que alguém havia me tocado.

- Pode confiar em mim também Ackles! – Tom falou colocando a mão no meu braço fazendo com que eu soubesse na mesma hora que eles eram realmente meus amigos e que eu podia confiar neles cegamente.

Depois de um tempo respondendo várias perguntas deles, resolvemos pedir uma pizza. Misha ligou e discutimos muito até decidirmos o sabor. Levantei e fui para a janela com Jared em meus pensamentos. Mesmo quando eu não pensava em nada, ele sempre vinha... e agora mais ainda... depois que eu tinha visto tudo que ele estava pensando.

- Também posso adivinhar em que você está pensando... – Misha falou do meu lado, acendendo um cigarro. Não respondi, só assentindo. – E olha que eu nem tenho super poderes...

- Esse pensamento tem um nome feminino... – Tom se jogou na cama e deu uma gargalhada.

- Jared... – quando Misha falou o nome dele, imediatamente eu fechei meus olhos.

- Jared... – eu murmurei – É nele sim que eu estou pensando...

- Jensen... ele é ... mais do que amigo do Murray... Você sabe o que isso quer dizer, não sabe? – Tom falou de forma estranha e eu não gostei, mas relevei.

- Hoje quando aquele idiota barbeiro bateu com o carro, eu fui o primeiro a chegar e tirei a perna dele das ferragens... – falei lembrando do momento em que eu o toquei.

- E ele viu? – Misha perguntou arregalando os olhos.

- Viu... mas o pior não foi isso... – falei passando a mão no rosto – Eu tive que encostar na perna dele para poder tirá-la de debaixo das ferragens e...

- Você viu o que ele estava pensando... – Tom concluiu.

- Exatamente – falei sorrindo, fechando os olhos, lembrando dos pensamentos do Jared.

- E? – Misha estava impaciente e eu sorri abrindo meus olhos.

- E eu vi que ele gosta de mim... – falei com um sorriso idiota no rosto – Eu vi que ele pensa em mim, que ele repara em mim... que ele me quer por perto...

- Caralho! – Tom falou levantando os braços – Eu não acredito Jen!

- E agora? – Misha perguntou curioso.

- E agora nada porra! – falei me virando para encará-los – Vocês, mais do que ninguém sabem que eu nunca vou poder ficar com ele. Eu nunca vou poder sequer chegar perto do Jared.

- E porque não? – Tom perguntou de forma idiota.

- Por causa do óbvio... – falei triste – Eu nunca vou poder ficar com ninguém sem antes ter que contar sobre os meus problemas... e isso eu nunca vou fazer com ele... Eu nunca vou ter coragem de contar que eu sou um anormal.

- Mas você não é nenhum anormal Jen! – Misha falou meio zangado - É difícil mesmo... mas você acha que o Jared não iria entender?

- Não sei... – respondi secamente – Mas não quero e não vou arriscar.

A campainha tocou e desci para atender depois de recolher a grana com eles para pagar a pizza.

Depois que comemos a pizza que nem uns animais, eu resolvi ir embora para casa porque estava preocupado com a minha tia sozinha com aquele psicopata.

Durante todo o percurso de volta para casa, não teve um só momento em que eu não conseguisse pensar no Jared, em como ele era lindo e perfeito, em como eu seria feliz e me sentiria completo se ele estivesse ao meu lado. Mas tudo isso era um sonho. Nada disso aconteceria e eu teria que me conformar com meu destino. Ficar sozinho e ser infeliz para sempre.

Assim que parei no portão, ouvi Alexander falando com a minha tia.

- Olha Beth, eu acho que esse menino tem problemas... – ele dizia calmamente – Talvez fosse melhor mandá-lo para aquela escola que eu te falei...

- Eu não sei Alex – minha tia respondeu – Ele é um garoto tão bom, educado... Eu não sei se seria uma boa mandar o meu Jensen para tão longe!

- Eu sei que você vai sentir falta dele Beth, mas vai ser melhor – Alexander continuou – E além do mais, eu posso ficar aqui com você, não é?

Puta merda! Aquele filho da puta queria me mandar para longe? Eu já sabia o motivo... Só assim ele poderia desfrutar do dinheiro da minha tia sem que eu atrapalhasse. Desgraçado! Mas eu não ia aceitar essa porra! Ele ia ver quem ia sair daquela casa!

Entrei e vi que ele se assustou quando me viu. Na certa ele não esperava que eu aparecesse tão cedo.

- Falando de mim titio? – falei sarcasticamente – Espero que esteja falando bem...

- Eu sempre falo bem de você Jensen! – Alexander me olhou como se estivesse ofendido. Filho da puta!

- Ah sim... esqueci que você só quer o meu bem – falei sentando no sofá e o encarando.

- Jensen pare com isso! – minha tia falou batendo de leve no meu braço. Foi o suficiente. Eu vi que ela pretendia mesmo me mandar para uma escola do outro lado do mundo, mas não porque quisesse se ver livre de mim como meu tio. Mas sim porque estava muito preocupada comigo devido aos comentários maldosos que esse imbecil fazia ao meu respeito.

- Desculpa tia... – falei segurando sua mão sem me importar com o que ia ver – Eu estou ótimo. Não precisa se preocupar com isso, está bem? – falei olhando em seus olhos e de repente ela pareceu entrar em transe, me fazendo soltar suas mãos imediatamente.

- Está com fome Jensen? – ela perguntou como se a sua única preocupação no mundo agora fosse a minha alimentação.

- Um pouco... – respondi automaticamente e ela se virou para sair da sala. Ela parecia hipnotizada, sem expressão no rosto e eu fiquei preocupado enquanto a via entrar na cozinha.

- Aprendemos mais um poder hoje não é meu sobrinho? – Alexander falou debochado.

- Que porra foi essa? – falei quase sufocando.

- Você tem um poder incrível mesmo Jensen... – Alexander levantou da poltrona onde estava e sentou ao meu lado no sofá – Eu sei que você acha que eu sou seu inimigo, mas quero que saiba que sou seu amigo...

- Eu não estou entendendo o que você quer? – falei incrédulo – Depois de tudo que aconteceu, você vem aqui, fica fazendo a cabeça da minha tia contra mim e agora vem com esse papo de que é meu amigo? Vai se foder porra!

Ele esperou que eu me acalmasse um pouco e depois colocou a mão no meu ombro.

- Jensen, além de todos os poderes que você já mostrou que tem, existem muitos outros que você ainda nem conhece – ele falou sorrindo e por alguns segundos eu senti que ele era bom – O que aconteceu agora foi apenas uma poequena amostra do seu poder de persuasão.

- Poder de persuasão?

- Isso! Poder de convencimento... Você olha nos olhos de uma pessoa e toca em sua mão e bum! – ele levantou a mão e sorriu – A pessoa acredita no que você quiser!

- Puta merda! – falei sorrindo fraco – Mais essa agora...

- Pensa bem... Esse poder que você acabou de descobrir é extremamente conveniente – ele disse me olhando nos olhos – Se alguém por acaso descobrir alguma coisa a seu respeito, você tem como fazer a pessoa esquecer o que viu e passar a acreditar em outra coisa... em algo que você queira que ela acredite... entendeu?

Claro que eu tinha entendido. Eu não era burro. Mas isso era uma coisa nova, diferente. Mil coisas vieram na minha cabeça durante aqueles segundos em que eu pensava sobre esse novo poder. Principalmente sobre o Jared...

Balancei a cabeça negativamente e voltei meus pensamentos para a realidade.

- Vou deitar... estou cansado – levantei do sofá e fui em direção a escada.

- Não vai comer Jensen? – minha tia estava parada em frente a porta da cozinha toda sorridente com uma bandeja nas mãos.

- Desculpa tia... perdi a fome... – falei subindo a escada.

- Deixa que eu como Beth – Alexander falou e os dois foram animados para a cozinha.

Nem acendi a luz do quarto quando entrei. Tirei a camisa e o tênis, me jogando na cama. Coloquei os braços sobre o rosto e fiquei pensando em coisas que eu não queria nem devia fazer. Mas se ele gostava de mim, eu só ia dar uma força. Não! Eu não podia fazer isso! Porra! Se um dia ele tivesse que ser meu, teria que ser de maneira natural.

Minha mente vagava inconsciente pelo momento em que ele falou comigo na sala, no momento em que eu o toquei dentro do carro, nas vezes que eu o tinha visto andando pela escola com aquele escroto do Murray... Ele era tão lindo... tão perfeito... Cheiroso...

Porra! Eu estava virando um gay de marca maior e ri de meu pensamento.

O que eu sabia era que eu tinha que tentar conquistar o Jared de forma limpa como qualquer outra pessoa. Mas eu não era uma pessoa como qualquer outra... eu tinha vantagens que o idiota do Murray não tinha. Um sorriso maligno surgiu em meus lábios de repente e eu vi que tinha a oportunidade de pelo menos poder ficar um tempo com o Jared e depois fazê-lo esquecer...

Dormi com esse pensamento sonhando com ele a noite toda e me achando o cara mais foda do mundo.

Continua...