ẲתּỉΩẳģở ΩợЯŧįﻱ
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Capítulo XVI –
Pela Primeira Vez Com Olhos Humanos
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
_AHÁ! Xeque-mate! Desista Potter! Você nunca será páreo para o grande campeão
nacional de xadrez bruxo! – Vangloriava-se Rony, balançando a rainha lentamente
na cara de Harry, que parecia muito entediado.
_Bem.. como você mesmo falou... VOCÊ é o campeão nacional! Pelo menos tenho a
honra de perder pro primeirão! – Harry levantava-se, lançando um sorriso forçado
para Rony.
Seamus que presenciava o final da partida, dá alguns tapinhas no ombro esquerdo
de Harry, troçando com um sorrisinho afetado e alegre.
_Cara, você é tão ruim em xadrez que perderia até pra Hermione, mas como você só
joga com o campeão nacional... é uma boa desculpa, não?
A menção do nome de Hermione fez com que Harry fechasse a cara de vez, olhando
de esguelha para Seamus que tomava o lugar antes ocupado por ele. Desde o jantar
a garota não saia de seus pensamentos enquanto aquele sentimento dúbio flamejava
em seu peito.
_Eu tenho melhorado, é sério! Mas Rony sempre se supera na mesma medida, aí fica
difícil, né?
Harry se retirava um tanto apressado quando foi interrompido por Rony, já
próximo ao pé da escadaria. O garoto virou-se para o amigo, com uma expressão
mordaz, esperando que ele não lhe tomasse ainda mais tempo.
_Qual é, Harry? Não vai ficar pra ver Seamus apanhar feio também? – Rony ria em
direção ao seu novo oponente.
_É ruim de eu apanhar feio, Weasley! Só não sou campeão porque não gosto de
competir, valeu?! – Seamus retrucava numa falsa brabeza.
_Ah, tá legal, Finnigan... você não passaria nem das eliminatórias. E aí Harry,
vai ficar ou não?
_Pô, cara, tô cansadão! Vou pro chuveiro e depois vou me esticar na cama. Amanhã
a gente se vê, falô?
Harry subia às pressas a escadaria circular que levava aos dormitórios dos
garotos. Chegando em seu quarto, bate a porta às suas costas, apoiando-se contra
ela. Definitivamente os acontecimentos do dia não saiam de sua cabeça. Não era,
nem de longe, a primeira vez que se desentendia com Hermione, mas desta vez o
fato o estava incomodando muito. E o pior é que ele próprio não entendia o
porquê! E isso vinha inflando dentro de si desde o ocorrido em Hogsmeade.
Ele queria protegê-la e não permitir que nunca mais lhe acontecesse qualquer
coisa ruim. Queria embrulhá-la num manto e mantê-la em seus braços como se faz
com um bebê recém-nascido, para não deixá-lo sentir medo, solidão, frio ou que
se machuque. Sentia uma amarga culpa por tê-la deixado em segundo plano nos
últimos tempos. O fato de ela estar deprimida e estressada talvez se devesse a
isso. Eram grandes amigos, quase irmãos, e ele estava deixando Hermione sempre
pra depois... mas, se ele se preocupava tanto assim com ela, por que aquela
mágoa e raiva em seu peito?
Retirou os óculos redondos para massagear os olhos enquanto analisava a si
próprio... talvez, o mais certo era que ele sabia o porque daquilo, mas tinha
certo pavor de encarar o que estava lhe acontecendo.
Correu até seu baú. Retirou de lá sua capa de invisibilidade. Precisava
conversar novamente com Hermione, mas num ambiente um pouco mais neutro para
ambos. Ele não conseguiria dormir até resolver esse impasse... ele não ficaria
em paz até acertar a situação com a menina. Não podia ficar alimentando aquela
raiva irracional e sequer podia conceber a idéia de que ela mantivesse uma raiva
permanente de si, se afastando ainda mais dele.
_Seja homem, Harry! Admita que foi você que se afastou de Mione! Agora desfrute
da sua covardia em encarar certas coisas! – Disse para si num sussurro, jogando
a capa por sobre a cabeça, camuflando-se ao ambiente.
*
_Oh, Merlin! Crookshanks?!
Hermione abria um largo sorriso ao ver seu gatinho de estimação descansando no
parapeito da longa janela de vitral. A luz intensa do luar que adentrava o
corredor era suficiente para distinguir as formas e até enxergar alguma cor.
Quantas e quantas vezes o gato vinha recepcioná-la ali mesmo, naquele corredor,
em suas rondas noturnas. Parece que tudo estava mesmo de volta a seu devido
lugar. Talvez tudo tenha sido um sonho ruim...
Shanks sentiu sua garganta secar e o coração batia descompassado. Sua cabeça
girava. Não era essa reação que esperava de Hermione, embora um lado seu
sentia-se no céu por rever aquele sorriso tão caloroso e sincero. Talvez os
fatos dos últimos dias tivessem sido um mero delírio pregado por sua mente que
devia já está sofrendo algum desequilíbrio... talvez ele jamais tenha conseguido
vencer a maldição... talvez Hermione jamais tenha sido ferida e aquele sábado
jamais tenha existido... talvez ele finalmente estivesse surtando.
A menina aproximou-se em passos apressados até a janela onde o gato descansava.
Mantinha um sorriso extasiante no rosto, totalmente alienada a qualquer fato
recente e as suas próprias memórias do ocorrido. Crookshanks a encara um pouco
assustado e surpreso, enquanto Hermione leva as duas mãos à cabeça do bichano,
acariciando-a com vigor.
_Shanks! Que bom que apareceu! Por onde andou, gatinho? Estava preocupada com
você!
Sem que Shanks tivesse a oportunidade de esboçar qualquer atitude, Hermione
pega-o no colo abraçando-o como se fosse um bebê, como sempre costumava fazer. A
princípio o gato estava um pouco assustado, mas assim que encontrou o pescoço da
menina e seus pulmões se encheram com a fragrância de lírios que vinha de seus
cabelos, acalmou-se de imediato. Fechou seus olhinhos já marejados pela emoção,
enquanto Hermione o embalava, acariciando suas costas.
Tudo estava perfeito. Tudo estava como antes. Nada daquilo havia acontecido...
_Ah, Shanks! Você sumiu por quase uma semana, gato! Papai e mamãe ficariam muito
chateados se você não voltasse pra casa comigo nas próximas férias.
Shanks se afastou para poder encarar Hermione. Não, tudo aquilo tinha acontecido
mesmo, não era surto ou delírio. Mas será que ela não sabia do que tinha
acontecido a ele? Será que Hermione não chegou a saber que ele era um animago?
Isso, de certa forma, seria bom demais...
Ainda com uma expressão feliz, Hermione encara o gato devido ao súbito movimento
em seu colo. Achou engraçada a forma como Shanks a olhava, parecia que não a
estava reconhecendo. Mas ele era o Crookshanks sim, isso ela tinha certeza. Foi
quando olhou diretamente nos olhos do gato que finalmente se deu conta da
realidade. Havia uma expressão humana nos olhos dele.
Hermione respirou profundamente de forma falha. O frio que surgiu em seu peito
parecia tê-la congelado por inteiro. De forma um pouco trêmula, coloca o gato no
chão. Levando as duas mãos ao rosto, a menina se afasta de ré de Shanks, até
dar-lhe as costas e se apressar até uma das janelas, distante em alguns passos,
apoiando-se no batente. "_Oh, meu deus!!"
Sua cabeça girava. Ela perdera completamente a noção da realidade no momento.
Isso era muito constrangedor! Não era Crookshanks que estava ali! Ele não
existia mais, não existia mais!! Aquele era o rapaz animago! Como ela pôde se
prestar a uma situação ridícula e constrangedora como essa?! Como ela foi capaz
de esquecer completamente uma coisa que não saia de sua cabeça desde o sábado
passado e que vinha pensando durante todo o caminho pelo castelo?!
Shanks respirou fundo enquanto mantinha os olhos fechados procurando dentro de
si toda a coragem para enfrentar tal momento. A hora havia finalmente chegado.
Hermione apenas havia se esquecido do que aconteceu... ela devia estar sofrendo
muita pressão por causa disso... devia estar encarando tudo isso sozinha...
havia cheiro de lágrimas em sua pele.
_Perdão... – Hermione dizia num tom um pouco mais alto que um sussurro, ainda
apoiada no batente da janela, sem se virar para Crookshanks. Estava se sentindo
estúpida. Estava muito envergonhada para encará-lo de imediato.
Coloca-se numa posição ereta, acertando sua postura, mas ainda mantinha suas
costas voltadas ao bichano enquanto olhava o corredor sumir dentro da escuridão
ao fundo.
_Desculpe.. eu esqueci completamente de que você..... Isso foi ridículo! Eu...
Eu não tive a intenção de...
_Não há pelo que se desculpar, Hermione... sei que é uma situação delicada...
para nós dois...
Hermione vira-se abruptamente, levando novamente as mãos ao rosto, tentando
conter alguma possível exclamativa. Seus olhos estavam arregalados pela
surpresa. Seu coração havia disparado ainda mais ao ouvir aquela voz grave e
macia que lhe falava de forma baixa e pausada.
No lugar de Crookshanks havia um rapaz alto e robusto trajando roupas negras.
Entre a luz e a sombra não era possível distinguir muita coisa de si, mas ele
parecia tão sem jeito quanto ela estava se sentindo.
Tentando se acalmar, Nicolai levava a mão aos cabelos, enterrando seus dedos nos
fios. De repente as formas distorcidas do exterior do castelo vistas pelo vitral
lhe pareceu muito mais interessantes do que continuar a encarar Hermione. Ele
que sempre teve um temperamento frio acabou deixando que a ansiedade em querer
revê-la tomasse conta de si e tal atitude tola poderia ter posto definitivamente
tudo a perder. Preferia uma cruciatus a fazer Hermione passar por uma situação
como a de agora... e ele acabava de fazer exatamente isso!
_Eu que lhe devo desculpas... fui incauto, eu queria tanto lhe falar, lhe
agradecer e... me desculpe...
Reunindo toda a coragem que lhe conferia o direito de pertencer à Grifinória,
Hermione aproxima-se cautelosamente de Nicolai, que apenas a observa de forma
tensa. É provável que em nenhum momento de sua vida sua mente tenha ficado tão
liberta de qualquer pensamento. Tudo que queria era aproximar-se daquela pessoa
pela qual tinha a íntima impressão de que a conhecia há muitos anos... não o
fato de ele ter sido Crookshanks, mas como se já tivesse estado em algum momento
com essa pessoa, como se fosse um velho amigo que há muito tempo não via.
Hermione estancou o movimento em pouco mais de um metro de distância do rapaz...
seja lá o que seu subconsciente tenha imaginado a respeito do animago,
definitivamente não era nada do que ele aparentava. Ele era muito jovem, quase
um garoto. Os olhos eram os mesmos de Shanks, a mesma expressão que viu por
diversas vezes, a mesma expressão humana de tensão ou angústia... as íris
claras, pareciam douradas, a mesma cor dos olhos do gato. Os cabelos claros e
finos que caiam levemente sobre o rosto...
Mais uma vez a respiração de Hermione falhou.
*
Harry descia correndo as escadarias do castelo, pouco se importando com o
barulho que fazia com seus sapatos contra o piso de pedra. No atual estado em
que Hermione se encontrava, era muito provável que ela fosse lhe dar alguma
detenção e até descontar pontos da própria Casa, por ele estar fora do Salão
Comunal em horário indevido. Mas qualquer coisa valeria o sacrifício. Precisava
tirar esse peso dos ombros. Necessitava ficar bem novamente com a menina. E não
podia deixar isso para amanhã. Ele tinha que ser adulto o suficiente para
encarar a situação de frente, de cabeça erguida, sem relutar. Eles eram grandes
amigos há sete anos. Não podia deixar essa amizade se apagar aos poucos e cada
dia que passasse sem resolver as questões pendentes poderia ser irreversível.
Ele não apenas estava perdendo tempo saindo com outras garotas desprovidas de
qualquer conteúdo, tentando se enganar de que uma ou outra o interessava, quando
poderia estar perdendo também a mais perfeita que um cara como ele poderia
querer e que era a sua melhor amiga... e talvez pudesse, algum dia, ser mais...
Droga! Que diabos ele estava pensando afinal?!
Sem perceber, Harry já havia alcançado o corredor principal. Um pouco ofegante
pela corrida, caminhava em direção ao saguão de entrada, se auto-excomungando
por sua confusão mental em relação à Hermione. Ele devia ser um grande idiota
por estar misturando coisas sem sentido algum. De alguma forma, o ocorrido em
Hogsmeade o deixou mesmo muito transtornado e estava inventando coisas que
realmente não existiam, nem de sua parte e menos ainda da parte dela.
Ao longe, mesmo com a pouca luminosidade, consegue perceber um vulto parado
próximo aos vitrais. Começa a andar cautelosamente, evitando fazer qualquer
ruído mais audível. O silêncio quase mórbido do local não colaborava muito e
mesmo com a capa de invisibilidade ele poderia ser percebido. Teve a súbita e
idéia brilhante de enfeitiçar sua capa com um feitiço silenciador. O sorriso que
se formou em seu rosto involuntariamente diante da aparente grande idéia
desapareceu lentamente ao chegar mais próximo do vulto.
Quando viu de quem se tratava e que não estava sozinha, instintivamente Harry
procurou a sombra densa de uma pilastra próxima, para poder observar melhor e se
manter o mais incógnito possível.
Era Hermione que estava ali. E em sua companhia, afastado apenas alguns poucos
passos de si, um rapaz alto, de cabelos louros...
"_Donskoi?!!"
Harry levou a mão à própria boca para impedir que soltasse aquilo que deveria
ficar apenas em sua mente. Uma raiva repentina surgiu queimando em seu peito e
sua vontade era gritar e esmurrar o tal Donskoi. Fechou as mãos em punho,
mordendo o nó dos dedos da mão direita a fim de conter essa raiva irracional que
havia surgido do nada.
Como ele poderia estar sendo tão imbecil a ponto de sentir coisas totalmente sem
nexo? Quando foi que ele desenvolveu tal antipatia por uma pessoa que vira
apenas uma vez e que jamais trocou qualquer palavra... alguém que talvez nem
soubesse que ele existia?
Pior: como ele poderia sentir raiva do cara que, de certa forma, ajudou a salvar
a vida da sua melhor amiga? Será que, intimamente, ele preferia que ela não
tivesse sido salva?
Harry chacoalhou com raiva a cabeça, a fim de espantar aqueles pensamentos
absurdos dali! Que idéia mais sem propósito pensar em coisas tão sem sentido. Os
balaços que tem levado nos jogos de Quadribol talvez estejam começando a surtir
efeito nele.
Fixou novamente seu olhar nos dois personagens e apurou bem os ouvidos para
tentar escutar algo do que falavam.
"_Quando foi que esse cara saiu da enfermaria? Se Hermione já sabia, por que
está se encontrando as escondidas com ele?! E por que ela teria que se encontrar
com ele?! Maldição! Nada faz sentido?!"
*
Distantes em alguns passos, mas próximos o suficiente para perceberem a feição
de um e de outro, o olhar de ambos mantinha-se preso diante de si quase como um
transe. A tensão era tanta que parecia que o mundo tinha parado, parecia não
haver mais qualquer brisa, qualquer ruído, tempo ou espaço.
Uma lembrança que julgava não possuir veio como um raio a sua mente ao ver
aquele rapaz parado diante de si. E essa lembrança a remeteu novamente ao sábado
passado em Hogsmeade, horas antes de ser atacada...
Como isso foi capaz de acontecer ela não sabia, mas ela conhecia essa pessoa
diante de si, já esteve em sua presença... o rapaz diante de si é o mesmo que
apareceu como uma imagem em sua mente, quando Crookshanks a confortava do
incidente com Malfoy, na plataforma. Naquele sábado, em Hogsmeade, quando
chorava sob uma árvore e Shanks veio até ela...
O que sentiu naquele momento foi a sensação nítida e palpável de alguém a
abraçando e a beijando, e a imagem daquele garoto que se formou em sua mente...
os mesmos cabelos, o mesmo porte físico... e logo em seguida, quando apenas
encarou Shanks... era o mesmo rosto.
Aquele momento fora assim tão intenso que conseguira perceber sua essência?!
Hermione ficou ainda mais desconcertada, mas manteve-se firme, não deixando
transparecer mais do que já demonstrou. Uma reação pela surpresa é aceitável,
mas não poderia demonstrar o medo que começava a se intensificar naquele
momento. Era medo, sim, mesmo sem saber exatamente o porquê.
Quanto à Nicolai, ele apenas a observava, seu rosto estava inexpressivo, mas por
dentro ia a tensão que o momento exigia. Agora a menina estava agindo como ele
havia suposto que agiria, mas não estava gostado do que via em seus olhos...
parecia medo?
Estar tensa e ansiosa era até normal, mas por que ela teria medo dele? Fechou os
olhos por breves instantes para raciocinar melhor... provavelmente ela já sabia
tudo ao seu respeito, é quase certo que os professores já conversaram com ela
sobre isso.
Ele sendo um puro-sangue, comensal da morte e ela, uma nascida em família
não-mágica... talvez ela o enxergasse como um Malfoy, embora ela não tivesse
qualquer medo daquele moleque, mas ela conhecia Draco, bem ou mal era um
colega... quanto a ele...
"_Eu sou totalmente estranho a ela..."
Virou-se para a janela, apoiando as duas mãos no parapeito. Antes de qualquer
coisa precisava desviar o olhar da menina, deixar de intimidá-la com isso e,
mesmo a muito contragosto, teria que ser breve. Poderia – e queria – falar um
milhão de coisas, por si passaria toda a noite e mais um pouco conversando com
Hermione, mas, obviamente, isso não era nem possível e nem prudente.
Harry quase mordia a pilastra de tensão. Aquele silêncio sepulcral parecia
eterno. Ele queria e precisava ver até onde ia a "conversa" daqueles dois. Se o
cara fizesse qualquer gracinha contra Hermione, ele já estaria preparado até pra
lançar um imperdoável naquele infeliz! Mas enquanto isso precisava se agüentar
firme, pois tinha certeza que a amiga não o perdoaria em nenhuma hipótese a sua
intromissão, principalmente quando ele nem sequer deveria estar ali.
Nicolai respirou fundo, controlando seus impulsos. O perfume de Hermione parecia
dançar entorno de si, o envolvendo. E precisava resolver isso rápido antes que
perdesse a cabeça e cometesse uma grave tolice. Queria tê-la em seus braços,
senti-la pela primeira vez com aquele corpo, retribuir todo o carinho que
recebeu dela nos últimos quatro anos... mas isso sim era totalmente impossível
neste momento.
_ Estarei partindo amanhã e queria lhe agradecer... e me despedir... – com a voz
quase falha, Nicolai finalmente conseguiu quebrar aquele silêncio que durava já
alguns minutos. Mesmo com toda a tensão, estava feliz por, finalmente, poder
falar com Hermione... o seu maior desejo enquanto Crookshanks.
_Pa-partir? – Hermione sentiu seu peito se comprimir com aquilo... ele iria
embora de Hogwarts? Por Merlin! Será que ele seria levado mesmo para Azkaban?!
Nicolai virou o rosto em direção a menina. O tom de voz dela demonstrava alguma
preocupação e isso o deixou, de certa forma, feliz. Não conseguiu disfarçar o
sorriso ao lhe responder.
_Tenho que dar algumas explicações ao Ministério, mas isso não importa! Eu só
quero agradecer por esses quatro anos em que cuidou de Shanks.. e por tê-lo
tirado daquela loja de animais horrorosa! Foram quase dez anos lá.
Ele lhe agradecendo? Pensara coisas tão ruins a respeito da situação que sequer
cogitou a possibilidade de Shanks.. ou Donskoi, que seja, ser uma pessoa gentil
e bondosa a ponto de agradecer por algo que ela tenha feito sem a mínima noção
da realidade... não, não era verdade, havia falado sobre isso hoje mesmo com
Gina, no fim da tarde lá no lago... mas apenas havia dito para confortar a
menina, ela própria não se convenceria disso.
Mas... isso remete a outro fato: ele tinha realmente plena consciência enquanto
Crookshanks. Então esta pessoa a sua frente sabe sobre seus segredos, a conhece
intimamente! Isso fez com que Hermione congelasse novamente, fazendo desaparecer
de imediato a frágil chama de algum otimismo que havia surgido instantes atrás.
_Então.. você tinha plena consciência de tudo, não é mesmo? Você era uma mente
humana presa no corpo de um animal?
O tom de voz de Hermione saiu mais seco e mordaz do que ela gostaria. Nicolai se
sobressaltou com aquele tom e sabia o que poderia vir depois daquilo...
precisava desfazer rapidamente qualquer mal entendido, ou melhor, não poderia
deixá-la ter uma má interpretação sobre isso. Então, será que era esse o motivo
do medo que viu em seus olhos?
_É isso sim, Hermione. A idéia é essa, afinal. A Animago Mortis é uma maldição
imperdoável, uma grande tortura psicológica. Voldemort não me pouparia disso.
Voldemort? Ele disse Voldemort?! Então fora ele que o amaldiçoara?! McGonagall,
Dumbledore ou mesmo Snape não mencionara qualquer coisa a respeito... e ela,
justo ELA, fora burra o suficiente pra não perguntar quem fizera isso a ele!
Tudo bem, decerto nem mesmo eles sabiam. Mas isso só poderia significar uma
coisa...
Hermione afasta-se do garoto, dando-lhe as costas. Sua garganta estava seca e
seu coração pulsava de forma demorada e forte, lhe doendo o peito. Uma raiva
subia a cabeça igualmente com uma conclusão que não gostaria de ter e menos
ainda gostaria que fosse verdade! Se ele fora amaldiçoado por Voldemort, só
havia duas possibilidades: ou ele era um comensal que vacilou em algo ou ele
havia se recusado a seguir as trevas... neste caso, por que ele não fora
simplesmente morto? Havia algo muito maior por trás disso, com certeza! E ele
era um sonserino, logo um puro-sangue e, provavelmente, vindo de uma família das
trevas!?
Nicolai fechou a mão em punho, socando a própria testa. Fora imbecil o
suficiente para falar exatamente o que não devia ter dito. Certamente que ela
não sabia muito sobre si, Dumbledore jamais teria dito à Hermione de que ele
fora um seguidor de Voldemort. Mas agora ela iria associá-lo a isso. Maldição!
Não é o momento para se dizer nada a respeito de sua vida, isso só poderia ser
feito futuramente, quando ela não tivesse mais quaisquer receios sobre si! Mas
agora ele quase acabou de estragar tudo e sequer tinham começado qualquer coisa.
Ao lado da pilastra, Harry agachava-se, segurando as próprias pernas, para
impedir a si mesmo de partir pra cima do tal Donskoi. A raiva transformava-se em
ódio, pois, pra ele ter sido amaldiçoado por Voldemort, devia ser um dos seus
malditos comensais, como foram quase todos os sonserinos da época em que ele
estudou em Hogwarts! Deve ter dado algum mole e seu mestre quis brincar com ele.
Com a varinha em punho, Harry estava totalmente pronto para qualquer coisa que
poderia vir dali.
_Ouça, Hermione... não dê qualquer importância a isso, isso realmente não
importa, não mais.. – a menina olhava para Nicolai por sobre os ombros, mas
havia um fio de raiva em seus olhos. O rapaz apenas engoliu a seco, precisava
finalizar aquilo antes que terminasse em desastre total. Quando ele voltasse do
Ministério e SE voltasse, ele teria tempo de sobra para consertar as coisas.
_Amanhã serei levado para o Ministério sob custódia e talvez eu não retorne...
só quero que saiba que estou muito agradecido por tudo que fez por mim e.. peço
desculpas por todo o transtorno que Shanks lhe causou...
Hermione virava-se, encarando Nicolai de forma um tanto surpresa. O animago era
muito decidido e de pulso firme, sabia como contornar uma situação... muito
diferente de todos os seus colegas, incluindo aí Rony e Harry.
_Tudo bem, boa sorte, então... – a menina falava secamente, estendendo sua mão
direita para cumprimentar o rapaz. Nicolai olhava surpreso, embora aquela frieza
e desdenho da menina o machucasse.
Com certa relutância, Nicolai aproxima-se da menina em alguns passos, estendendo
também a sua mão direita, aceitando o cumprimento. O calor que vinha da mão de
Hermione pareceu preencher de ar quente seu interior. Ao contrário dela, suas
mãos estavam muito frias.
Seus olhos estavam fixos em suas mãos entrelaçadas. Aquele momento que parecia
apenas um sonho era mesmo real. Um momento totalmente inconcebível até poucos
dias atrás. Algo tão singelo, mas tão especial para si. Uma sensação de calor e
aconchego enchia seu coração. Um leve sorriso formou em seu rosto e levou sua
outra mão à mão de Hermione, envolvendo-a com delicadeza.
Levanta seu olhar ao rosto da menina, que o olhava com curiosidade. Seu rosto
estava suave sob a luz leitosa e levemente colorida pelos vitrais, que lhe
conferia um brilho extra aos olhos e cabelos encacheados que caiam sobre os
ombros. Ela respirava pela boca entreaberta, os lábios e faces muito coradas
devido ao momento... ela realmente era muito mais linda vista através de olhos
humanos.
Ainda segurando a mão da menina entre as suas, Nicolai levou a pequena e
delicada mão de Hermione sobre seu peito, a encarando com doçura. Esta podia ser
sua única vez... talvez jamais voltasse a vê-la e nunca mais partilharia daquele
momento tão precioso para si.
_Hermione... mesmo eu estando preso no corpo de um gato, esses quatro anos foram
os melhores de minha vida.. de toda ela. Você é muito importante para mim,
jamais duvide disso...
Nicolai levou a mão de Hermione até os lábios, beijando-a com muita suavidade.
Manteve os olhos fechados para sorver cada instante daquele momento ainda mais
precioso. A menina o olhava com surpresa e incredulidade, e sua respiração se
tornou ofegante.
Muito relutante, Nicolai solta a mão de Hermione, que permanece estática, sem
forças para pronunciar qualquer palavra, a respiração ainda alterada. Com um
olhar que transmitia muito carinho, o rapaz despede-se:
_Adeus...
Passando por Hermione, em direção às escadarias, desaparece na escuridão adentro
no fim do corredor. A menina, um pouco trêmula, apóia-se na janela esperando que
sua respiração se normalize. Olhando para a mão direita, sem conseguir pôr os
pensamentos em ordem, esboça um sorriso.
Esquecer. Refletir. Colocar idéias em ordem. Decidir quais atitudes iria tomar.
Tentar reencontrar-se. Tentar voltar a ser como antes era... ao menos era essa a
sua intensão, e agora... Que conclusão tirar daquilo?
Afinal, foi um dia e tanto. Um dia muito diferente.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Fim do Capítulo XVI – continua...
By Snake Eyes – 2004
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
