Capítulo 35 - Julgamento - Recesso & Pesados Elos
Mesmo que sua aparência e a impressão que causava às pessoas fizessem dele um sádico e lunático, no fundo Jonathan Davis era um ser humano ponderado e compreensível. Olhou por algum tempo, observando Nicolai em seu atual estado: completamente diferente do rapaz orgulhoso e frio de vinte anos atrás, que envergava a muito contra-gosto o uniforme de Hogwarts. A face era a mesma. O porte físico também. Embora ainda mantesse a altivez, muita coisa mudou. A terrível provação a que fora submetido durante vinte anos através da maldição Animago Mortis esmantelou seu orgulho e trepidez como se um trator ouvesse passado sobre ele inúmeras vezes. Esse Nicolai Donskoi a sua frente estava mais para um farrapo humano, uma criatura de dar pena, que um altivo bruxo das Trevas. E ele era, sim!, digno de compaixão.
Achou melhor parar de imaginar as tormentas a que o velho garoto passou nas últimas duas décadas e voltar ao seu trabalho, pois, ao contrário de seu cliente, ele não poderia ter o luxo de tirar uma soneca e descançar até à reabertura da seção.
Nicolai estava mesmo acabado, esgotado. Mesmo depois de ter terminado seu sanduiche e seu chá, não se animou sequer a depositar o prato e a xícara sobre a mesa de centro a sua frente, preferindo mantê-las sobre seu colo. Davis torceu o rosto numa lamentação silenciosa, pegou prato e xícara, colocando sobre a mesinha; em seguida segurou com firmeza Nicolai pelo braço, levantando-o e encaminhando-o até um divã no fundo da sala. O animago estava tão prostrado que sequer relutou ou teve a mínima resistência.
—Você precisa estar bem e lúcido, russo! Procure pôr todo o seu esforço em descansar completamente em duas horas, quando irei acordá-lo e voltaremos ao Plenário.
Não era necessário a sugestão ou mesmo uma segunda ordem. Nicolai desabou ao divã e adormeceu instantaneamente, completamente fustigado por todos os acontecimentos das últimas horas. Um momento de repouso não era somente para poupar o corpo e recompor sua energia, era principalmente para manter a lucidez da mente e buscar lenitivos para seu espírito esgotado.
Dizem que basta uma pequena brecha, uma pequena invigilância do corpo para que o Espírito se veja momentaneamente liberto do cárcere carnal. Quanto mais debilitado o corpo, mais frouxo acha o Espírito os laços que o prendem, daí que este pode sair em busca de alívio e conhecimento, visitar entes e lugares queridos, inundar-se no lago sereno de reforços fluídicos para conseguir as forças necessárias para continuar sua caminhada terrena, com a coragem e vontade necessárias.
Infelizmente, o inverso também acontece.
O mau não existe, é apenas a ausência do bem. E quando estamos em estradas turvas e trevosas, nosso caminho se torna perigoso.
Nicolai adormeceu instantaneamente logo que Davis praticamente o jogou no divã. Certamente já estava em estado de vigília desde que terminou seu parco lanche. O seu grande desejo oculto no abismo de seu coração, nas últimas horas, era poder retornar à Lentz, sua cidade natal situada na parte oriental da grandiosa Rússia. Desejava retornar à Lentz em princípios de floradas primaveris, e respirar novamente aquele ar puro e frio, de vento fresco que vinha da Sibéria. Para ele não havia lugar mais belo, pois era ali que seu coração havia sido plantado. O céu de primavera, de azul profundo, e a neve restante, que resistia aos primeiros dias ensolarados, cintilava qual estrelas fulgidias sobre galhos e folhas de pequenos arbustos; o musgo úmido sobre troncos de velhas árvores e pedras desprendia um perfume suave e refrescante ao contato dos mornos raios de sol. Sentia enorme saudade de ver o orvalho evaporando e os pequeninos córregos que se formavam da neve derretida que descia das montanhas, que juntos desaguavam no rio recém descongelado e uma torrente forte que arrastava tudo quanto encontrava a sua frente, mas, por sua vez, levando a prosperidade às margens onde passava, depositando toda forma de sementes e fragmentos orgânicos, gerando vida e beleza.
E ali ele estava, após longos e quase intermináveis vinte e dois anos tortuosos. A sua leveza de pluma era tanta que poderia flutuar no mais leve impulso de sua vontade. Não era a Primavera que tanto desejava, mas o final de um Verão manso que já cedia à entrada do Outono. O cenário não possuía mais as cores vibrantes de verdes e amarelos, mas se desvanecia em ocres e marrons oxidados. A luz branda dava um aspécto ainda mais sereno àquela paisagem intransfigurável e secular. Seu coração estava tão desejoso de estar novamente em sua terra natal que sentia o vento frio em seu corpo e a textura das gramíneas em seus pés descalsos. Viu um túneo de grandes e onipotentes árvores que pareciam guardar a longa estrada de terra batida. Seguiu sem receios a estradinha e após algum tempo de caminhada, encontrou aquilo que supunha encontrar: um belíssimo solar em mármore branco, cujas duas torres terminavam em gotas do mais reluzente ouro.
Sua respiração falhou e lágrimas brotaram em seus olhos.
Longe por mais de duas décadas, finalmente revia o único lugar que pôde chamar de lar, revia a residência de seus amados avós paternos, com quem conviveu os melhores e verdadeiros anos de sua exitência. Onde nasceu, creceu e... de onde fora arrancado para um destino cruel.
Correu até o solar, transpassando como fosse imaterial os arbustos e outros obstáculos, até chegar frente a grande porta de folha dupla em ouro, ornamentada de riquíssimos detalhes impressos no metal. Apenas estendeu sua mão e a porta se abriu suavemente para uma penumbra que lhe era tão conhecida. Logo seus olhos se acostumaram à mudança de luminosidade e pode divisar o interior do palácio, ainda mais opulento que seu exterior, todo em mármore e ouro. O enorme hall de entrada era ornamentado com longas janelas de vultuoso vitrais, cujos topos terminavam na forma de gota; armaduras douradas faziam a "guarda" entre uma janela e outra, sob belíssimas tapeçarias que retratavam as cenas de resistência e vitória russa sobre o jugo tártaro, no século 13; o chão era em lustroso mármore trabalhado que formava desenhos de arte oriental em diversos tons e tipos da pedra; ao centro, como se convidasse a subir aos níveis elevados, uma escadaria igualmente em mármore e corrimãos e balaústres em ouro. Nicolai não se ateve em qualquer detalhe, a ele parecia tudo como era há vinte e tantos anos atrás. E como uma criança que retorna feliz à casa dos avós, subiu correndo a escadaria na esperança de encontrar algo ainda de seu passado.
Chegando ao segundo nível do solar, deparou-se com o longo corredor que levava aos quartos. Os archotes estavam todos apagados e o corredor estava mergulhado na penumbra progressiva, deixando o seu fim totalmente escuro, incapaz de se divisar qualquer coisa. Nicolai segurou seus impetos de ir de quarto em quarto. Não entendia o porque, mas algo o dizia para ser cauteloso - talvez a emoção de rever seu antigo lar. Mas uma força estranha o guiava para aquele lugar sombreado, em direção à escuridão que se adensava conforme avançava em seus passos. O estranho é que sua vista não se acostumava a nova mudança de luminosidade... o que havia ali era mesmo as trevas e percebeu isso quando olhou um dos archotes e viu que havia chamas acesas, mas sua luminosidade não conseguia quebrar as trevas daquele lugar e iluminavam apenas a si próprios. Olhou os outros archotes, apenas pontos de luz na parede; por algum motivo que ainda não havia percebido, as chamas dos archotes não eram capazes de iluminar o lugar.
A alegria de antes cedeu ao temor de que algo não estava bem. Tomou sua antiga postura altiva e séria. Cautelosamente, pé ante pé, andou para a escuridão densa do corredor, como que sendo guiado para um determinado ponto daquele lugar. Seus sentidos estavam todos aguçados, inclusive os instintos felinos que acabaram por impregnarem-se em sua própria personalidade, após todos esses anos vivendo exclusivamente como um gato. O som não havia nenhum. Era tudo escuro, silêncioso e tétrico como o vácuo e apenas os baques abafados de seus pés sobre uma longa tapeçaria indicavam que algo vivo ali estava. Finalmente chegou ao final do longo e tenebroso corredor, parando frente a uma larga porta que, em tempos idos, dava acesso ao grande salão que era usado pela família para o entretenimento, como jogos e leituras.
De alguma forma pressentia que algo terrível se ocultava atrás daquela porta. Fosse por tola coragem, fosse por tola curiosidade felina ("—...e a curiosidade matou o gato" - Nicolai não deixou de pensar...), o rapaz levou sua mão à maçaneta de ouro trabalhado, fechando com firmesa seus dedos em torno dela. Inspirou fundo e, num rompante, abriu de uma vez a porta.
Surpreso, viu que o ambiente estava calmo e levemente iluminado e tudo parecia em ordem, como sempre fora: prateleiras de livros de uma ponta a outra, de alto a baixo, na parede oposta à porta; a lareira crepitante e os estofados ornados e luxuosos ao canto direito da sala; mesa de jogos e cadeiras e poltronas ao lado esquerdo sob enorme janela de vitral representando o brazão e armas da família, o clã Donskoi...
O que ele esperava encontrar, afinal?
Desorientado com seus próprios pensamentos e intuição inconveniente, Nicolai adentrou até o centro do salão, não entendendo o porque de ter sido atraído para ali e nem porque a desconfiança de que algo horrendo o aguardava.
Foi quando a porta se fechou serenamente as suas costas e somente percebeu ao ouvir o clique da fechadura.
Olhou para a porta e viu que ela, aparentemente, se fechou sozinha. Aparentemente...
Neste instante um mal-estar tomou conta de Nicolai. Sentiu um peso sobre sua cabeça, sobre o primeiro chacra, como fosse uma mão gigante e invisível a pressioná-lo para o chão. Um calafrio percorreu seu corpo, desde a sua coluna vertebral até seus pés. Abraçou-se na inútil tentativa de amenizar aquelas sensações horrorosas. Quis corrrer dali, mas seu corpo não lhe obedecia. Quis gritar qualquer coisa, mas a voz saiu arrastada e quase muda. Quis enxergar melhor e com mais precisão, mas o ambiente mergulhou numa penumbra disforme. Foi então que viu finalmente aquilo que sua intuição lhe advertia: vultos como fossem mantos negros esfarrapados rodopiando nervosos em sua volta, por todo o salão!
As chamas da lareira crepitaram mais forte, elevando suas labaredas que serpenteavam nervosas. Nicolai, sob o peso opressor de fluídos negativos e trevosos que tentavam o envolver por completo, centrou sua atenção àquelas chamas que lhe pareciam dubiamente terríveis e salvadoras. Tentou em vão se arrastar até elas, mas o peso invisível fazia com que seu corpo pesasse inconsebíveis toneladas. Todos os seus sentidos estavam obrigatoriamente voltados para as terríveis sensações que sentia e, mesmo tendo a leve consciência de que aquilo era um sonho - ou melhor dizendo: pesadelo! e daqueles mais tétricos! - não conseguiu escapar de volta ao mundo material onde encontrava-se encarcerado. Então soube, como por instinto, de que aquilo não era meramente um sonho fantasioso criado pelo subconsciente durante parte do sono, e sim uma invasão e ataque mental de ocultos e esquecidos verdugos e adversários que acumulou ao longo da vida milenar de seu espírito de trevas, que somente agora buscava ardentemente elevar-se para a luz redentora.
A força da pressão invisível prostou-o ajoelhado ao chão. Nicolai usava toda a sua força para não sucumbir e ser dominado inteiramente pelas Trevas. Mantinha a custo a fronte erguida, não desviando seus olhos em rasos d'água das labaredas serpenteosas da lareira. Foi então que dois vultos pararam a sua frente, transfigurando-se em duas formas que, embora deformadas como fossem argila derretida, Nicolai não teve muita dificuldade para reconhecer quem eram: seu pai e sua mãe!
Arregalou os olhos e suas lágrimas fluiram abundantemente com o que via. Seus pais pareciam formas lamacentas e havia sangue, muito sangue espalhado por seus corpos deformados. Suas expressões eram de ódio e loucura. E seu pai falou, numa voz gutural, mas cujo timbre era o mesmo de Dmitri Donskoi em idos tempos:
—Filho traiçoeiro e ingrato! Agiu apenas em pro domo sua! Vil, torpe, indígno! Maldito infeliz! Você nos traiu! Traiu aos seu próprios genitores, que lhe deram a vida e tudo que eras!
Nicolai estava aturdido, incrédulo, pasmado. Não conseguia pronunciar nada além de um som arrastado e quase inaudível. Ainda lutava penosamente contra a força invisível que o subjugava. Somente as lágrimas abundantes de dor manifestavam aquilo que seu corpo era impedido de fazer.
Sua atenção foi desviada para a figura de sua mãe, tão deformada quanto a de seu pai. O miserável espírito pôs-se a chorar convulsivamente, em desespero, o que só aumentou o ódio que fluía de Dmitri, que se aproximou de Nicolai, na tentativa de machucá-lo, mas uma outra força invisível, que ele não percebeu, o impediu de se aproximar de todo do garoto.
—Maldito sejas, Pavel, filho promíscuo e ingrato! Por sua covardia e traíção, o Lorde nos mandou impiedosamente para o vale das trevas da morte! Por sua culpa, maldito Pavel!, nossos planos foram destruídos, nossas vidas foram roubadas e fomos jogados neste umbral tétrico de trevas eternas! - Vociferava Dmitri, pai de Nicolai.
—Não... - falou debilmente Nicolai, entre as lágrimas de terríveis dores morais que pareciam atravessar seu peito com uma lança dúbia de fogo e gelo.
Nicolai baixou a fronte, fechando fortemente seus olhos. A dor invisível, sentimental, o estraçalhava por dentro. Tentava uma forma de sair daquele lugar, de despertar, de conjurar uma magia qualquer que o libertasse daquele pesadelo terrível! Precisa de força para isso, mas uma força oposta: uma força de Luz, de fluídos positivos. Mas como conseguir isso?! Ele era um bruxo das Trevas, não conhecia outras armas além das Trevas! E apenas as forças opostas anulam uma a outra!
—Pai! Misericórdia! - Conseguiu espelir entre lágrimas e sufocamento.
Imediatamente o peso sobre sua cabeça cedeu e as sombras - e vultos - começaram a se dispersar. Conseguiu então erguer, ainda aturdido, a fronde e viu que seus pais afastavam-se velozmente, flutuando ao solo, e seu rostos estavam lívidos e temerosos. Foi então que Nicolai sentiu como se um manto quente o envolvesse pelas costas, desoprimindo seu peito e deixando-o gradativamente mais leve, até que braços de luz o erguesse do chão, levando-o ao colo.
Assustado - mas profundamente grato por aquele refrigério e salvamento - olhou para o vulto esbranquiçado que o envolvia maternalmente em seu braços, e encontrou um par de olhos dourados, ternos e tristes, que pareciam ver dentro de sua alma. A entidade abraçou-o fortemente e o garoto encontrou-se com longos, finos e lisíssimos cabelos brancos que escorriam feito seda por seu rosto...
—Avó?!!
Nicolai abriu seus olhos, olhando aturdido para o etéreo que ainda se fazia visível diante de si. Arfou o ar abafado daquela sala sisuda do tribunal, como se tivesse corrido milhas até chegar ali. Seu coração estava descompassado, estressado, e seu corpo suava frio. Levantou-se de súbito, levando as mão à testa, sem saber exatamente o porque daquela aflição. Tentava em vão recordar o que havia sonhado, mas apenas a sensação de Trevas e Luz mantinha-se em sua mente. Lembrou-se amarguradamente de seus pais, numa sensação extremamente dolorosa. Lembrou-se por fim de sua querida avó, a Matriarca Maria Ivanóvna, como fosse o calor do débil sol de inverno.
—Você é pontual, heim russo! Sequer precisei te acordar! - Debochava Davis, parado ao lado do divã onde Nicolai havia dormido.
O animago olhou estranhamente para o advogado, quase como se não o reconhecesse. Davis, que havia percebido a aflição de Nicolai enquanto este dormia, nada disse ou perguntou, mas ficou observando o garoto, que não se manifestou quanto a isso.
Nicolai voltou-se para si mesmo, mergulhado em suas conjecturas. Seja lá o que tinha sonhado - que não lembrava com precisão, mas apenas das sensações horríveis e de alívio no final que sentiu - não era um simples sonho, mas, tinha a certeza intuitiva, de que havia sofrido um ataque mental.
Dor, angústia, decepção, tudo se misturava na incerteza de que se encontrava, e do futuro que o aguardava. Apenas havia-lhe uma certeza:
—Preciso sair dessas Trevas. Preciso sair daqui!
Fim do Capítulo 35 - continua...
By Snake Eyes - 2006.
N/A:
pro domo sua - latim, significa "em sua própria causa".
MUITO OBRIGADO PELOS CAROS REVIEWS!! TODOS SÃO MUITOS IMPORTANTES E EDIFICANTES!!
MEUS SINCEROS E FRATERNOS ABRAÇOS A TODOS OS AMIGOS QUE AQUI SE FAZEM PRESENTE LENDO ESTA HUMILDE FANFIC!
E ESPECIAL AGRADECIMENTO AOs AMIGOS DEKA LOPES GRANGER, BRUNO HORTA, LUNNA, NAJ, ALININHA, ALICIA SPINET, LELE POTTER BLACK, CHRIS GRANGER, MIAKA ELA, NIKINHA, SELEN BLACK SNAPE, EMPATIA, PATRICIA VILHENA, MANDY, WENDY, ÉRIKA, KIKIS, SANDY MIONE, AMANDA, TINA GRANGER, ANALE, LU BLACK, MISS H GRANGER, FERNANDO MIAI, FRAMBOESA, KIRINA MALFOY, todos os nobres amigos e amigas que dignificaram suas nobres presenças deixando reviews nos últimos 3 capítulos e não tive a oportunidade de agradecer decentemente. Muitíssimo obrigado, de coração!
E peço desculpas - mais uma vez! - por tão longo sumiço da net. Tento agora retomar as antigas atividades, mas sem atropelos, para que a corroça ande. Portanto, as outras duas fics ainda paradas - Caleidoscópio e Anjo Avernal - continuarão paradas, esperando a conclusão de Animago Mortis, que pretendo - e espero! - levar a termo antes de finalizar 2006. Terminando cada fic de cada vez, a gente encerra nossos débitos, para pode voltar a se dedicar a novos projetos e - desta vez, tb espero! - um de cada vez, para não sobrecarregar e acumular.
Chacoalhar de guizos
Luz & Força!!
