Um conto sobre homens e seus pedestais - Capitulo 2

Obs: Esse capitulo é um interlúdio com um personagem próprio para explorar áspectos morais na história, quem desejar ler corrido ou pular, está avisado.

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No céu, os deuses estavam vivos.

Cada forma de existência nesse mundo é feita de átomos, os mesmos átomos que formam o universo. E mesmo em outros mundos, onde apenas as almas dos homens e deuses podem penetrar, ainda há átomos e mesmo lá o cosmos controla essa energia.

O cosmos não é apenas uma massa composta de estrelas formando uma constelação. Não, isso tudo é simplório demais. Na verdade, as estrelas dessas constelações é que que foram formadas pelos cosmos de heróis antigos. E assim é Áries, a primeira constelação na ordem do zodiaco.

Sua alma era parte dessa constelação, que existia nos primórdios da existência, antes que os corpos fossem formados, e os átomos se juntassem. Ele era também, uma estrela caida.

Mu fechou os olhos e desviou o olhar do céu para encarar o mestre ancião.

-Me fará um favor, Dohko de Libra?

-O que quer Mu de Áries, para que me envie tão intima e seriamente? –Sua vóz rouca trazia uma certa tristeza gêmea, encarando ao menino que agia as vezes tão velho quanto ele, e tão mais sereno do que um dia foi Shion.

-Cuide de meu discipulo para mim enquanto estou longe. Eu não poderei leva-lo dessa vez.

-Pode deixar. Parta em paz Aries, eu lhe desejo sorte.

-Eu também mestre.

As verdades acima citadas sobre Deuses e homens eram conhecidas também por esse menino-homem, que não passava de seus vinte anos e que nunca foi criança.

Monstros ou santos?

Homens ou deuses?

Sim, todos eram formados dos mesmos átomos, os ligando a mesma existência como irmãos. Cada átomo se move a uma velocidade regular, e se atraem mutuamente. Mas é claro, eles eram santos, e alterar essas verdades eram milagres que eles realizavam todos os dias. Alguns poderiam parar completamente o movimento desses átomos, e outros os separar para que viajassem, e uma vez chegado a seu destino, os rejuntar. Essa viajem não demorava tempo nenhum, pois quem a dominava podia tanto quebrar o espaço quanto o tempo. Esses, eram os principios do teletransporte.

Mu fechou os olhos em Rozan, na china, e então abriu seus olhos encarando as ruas claras e mornas de Atenas. Era noite, que horas ele não sabia exatamente, pois não gostava de relógios e no momento não estava interessado em estudar o céu novamente para descobrir.As ruas eram iluminadas de um modo fugaz e irreal com as lampadas artifíciais, e estava quente para ele, com capote sobre o corpo e armadura.

Ele deu um passo para iniciar sua caminhada ao santuário de Atena, e um som grasnante da buzina estourou nas suas orelhas. Estava ele distraido absorvendo todas essas novas informações, pois o cerebro de um santo não era tão veloz , eles usavam muito mais a intuição. Intuição essa que escolheu aquele momento pra falhar. E foi nesse lápso que o carro quase o atropelou, mas uma mão o puxou antes.

Foi bastante chocante, e o magoou também, pois o motorista estava gritando impropérios contra ele, e ele não gostava de agressividade. Por outro lado seu capuz havia caido, e seu salvador via sua façe. Mu não ergueu o rosto para ver a reação. Era muito timido,não gostava de olhar ninguém nos olhos a menos que fosse absolutamente necessário.

-Obrigado. –Murmurou num grego suave sem sotâque, depois de um segundo para localizar o idioma que deveria usar.

-Você é bem vindo. –Foi uma resposta padrão. Sua façe era curiosa, o homem não parecia feio. Parecia velho, passado dos trinta - velho para Mu – mas não feio nada. Ao contrario, era agradável e lhe passava uma aura calma como a dele. O homem sorriu, pois o cosmos de Mu o rodeou também - só um pouco - pelo toque demorado. Mu não sorriu atrás por não confiar em fazer assim.O homem perguntou:

– Você está perdido?

-Sim. Eu parei um pouco antes de onde eu devia estar.-Ele olhou em direção Acrópole onde o Pathernon se erguia iluminado como uma segunda lua bem no coração da Grécia. Era uma visão irreal, digna da criaçãos de deuses-homens, pois só os tempos modernos poderiam trazer essa beleza artificial. O estranho seguiu seu olhar para voltar encara-lo logo depois.

-Você pretendia visitar nosso templo? Ele fica fechado a noite, terá de voltar durante o dia monge.

-Monge?

-Desculpe, você não é monge? Porque com suas roupas, e as marcas na testa e cabelos coloridos... pareçe budista. É uma nova moda?

-Nova não. É a minha moda de ser, eu uso desde que nasci.

-Mas eu não o ofendi, não é?

-Não. Mas eu pretendia ir pra lá mesmo. Mas não pro templo, lá pra perto mesmo. O templo é só um marco.

-É um marco fácil. – O homem simpático concordou, ele parecia muito feliz de ter encontrado Mu, tinha a sensação que melhorou seu dia. Não que fosse religioso dos deuses antigos, nem ortodoxo, estava mais pra um otimista, se é que isso podia ser considerado religião. –Eu vou acompanha-lo por um caminho seguro, se estiver tudo bem para você.

Eram perguntas de confiança e desconfiança. Assuntos importantes nos dias de hoje, mas Mu estava considerando um assunto mais importante ainda: "Dividas". Como podia não confiar no homem a quem ele devia a vida? E olha que era um preço bem alto pra se pagar.

-Eu já lhe devo muito senhor...

-Anagnosi, é meu nome. E o que seria da Grécia sem a hospitalidade?- Perguntou, e já foi respondendo.- Guerra, novamente! É o que digo!. Agora andemos pois mesmo sendo essa uma parte turistica, ainda tem seu lote de perigo. Quer ajuda com a bagagem? Pareçe grande...

O tom era considerado, visto que Mu tinha uma enorme corcunda quadrada pareçendo bem desconfortável atrás de si. Ele teve a descencia de parecer envergonhado e balançar a cabeça em negativa silênciosa, enquanto fazia coro para os passos do guia.

-Agora deve estar pensando: Esse homem ai quer me levar para um beco e me roubar. – E ele riu – Eu não digo que a grécia não tenha seus ladrões, oras, todas as partes do mundo tem. Mas aqui está um homem honesto. E você se pergunta: "O que esse grego ganha com isso? "

Ele esperou que Mu respondesse, mas esse só o olhava vexado com o tagarelar saido do nada. Todos os gregos seriam assim? Seus servos no passado eram tão calados e reservados.

-Mas você é tão quieto, menino monge. Eu vou responder mesmo assim: Ganho a satisfação de saber que sou um bom homem. Um bom homem em seu caminho, mesmo que esse não sejá tão bom.-O homem ergueu as mãos agitado, se desculpando. – Não me entenda mal, é que nem o conheço, e não sou tão ingenuo pra imaginar que todo monge é bom. Deve ter monges corruptos, e que desperdicio de vida. Mas em todo caso, é sempre bom estendermos a mão. Quem sabe como pode afetar as pessoas, não é?

-É verdade.

-Ou talvez eu só estejá alimentando meu orgulho. É disso que nós homens nos alimentamos, afinal: Orgulho.

A palavra ficou batendo na cachola da jovem ovelha, pra lá e pra cá. No final era um pecado que todos eles – os santos – compartilhavam. Pense, o que os impedia de se tornarem homens comuns, de vida simples e pacifica além de orgulho? Orgulho de ter o poder de tomar, e comandar vidas.

"Para as salvar", ele se dizia. Mas no final era apenas uma questão de escolha. E para Mu, se imaginar um homem ordinário como aquele, nas ruas de Atena, envelhecendo e morrendo. Era...revoltante? Revoltante sim, porque revolta eram as voltinhas que faziam borboletas na sua barriga. Nem mesmo ao enfrentar um Titã ele se sentiu assim. E ainda assim...

-Mas nunca se sabe quando você vai ter o poder pra salvar uma vida, você sabe. Médicos afinal salvam vidas todo o dia, e policiais também salvam. Salvam menos do que tiram, está certo, mas...

O homem continuava falando e ele não ouvia.

Para ele, Mu era uma criança distraida,ignorante e frágil, que devia ser protegida, não ouvida.

E para Mu, ele não passava de um pobre inocente que não conhecia seu verdadeiro poder. O orgulho os prendia em mundos diferentes: o mundo de Mu e o mundo de Anagnosi! Onde cada um era mais forte que o outro, mais benevolente e também generoso.

Mas ao menos Anagnosi não fingia para si mesmo ser humilde.

Esse pensamento só lhe revirou mais o estômago, e o fez se sentir mais desconfortável.

Mu se sentia péssimo quando o caminho terminou. Eles pararam em frente a um mercadinho acabrunhado de frutas e quiquilharias, que era a entrada do templo para os servos.

-É aqui.-Ele apontou.

-Aqui, unhh. –O homem não parecia impressionado, pra dizer o menos. Na realidade, estava decepcionado. Imaginava se não ajudou algum carregador de caixas estrangeiro ao invés de um distinto monge hindú ou o que lhe valessem aquelas bolinhas tatuadas.-Nesse caso então eu o deixarei. E como eu posso chama-lo, se não é monge?

-Aries. Me conheçem por esse nome.-Mu falou com uma ponta de orgulho ressurgindo.

-Aries, é um apelido? Ou é nome mesmo?

E lá se foi a pontinha de orgulho morrendo cabisbaixa.

-Meu nome é ainda mais simples, eu temo...-O homem o estava olhando com pena?

-Aries está bem. –Ele tratou de reasegurar logo, pondo uma expressão encorajadora na façe.-Foi bom conheçe-lo, se cuide.

O senhor que tomava conta da lojinha demorou para atender, e quando atendeu estava sonolento. Não o reconheçeu até ele mostrar um lado da caixa de áries, pra a armadura sim, o velho se prostrou e deu passagem.

Mu entrou encafifado e deprimido, dando um último adeus a seu guia, sumindo nos interiores do estabelecimento.

Do outro lado se estendia um mundo novo, onde em uma vila grega os homens viviam como há milenios atrás. Desfrutando da terra e da justiça, um lugar onde o conceito de dinheiro ou propriedades particulares era uma pestilência. Ali, cada um produzia o que precisava e trocava o excesso.

Essas medidas era necessárias. Shion lhe contou que o surgimento da moeda na grécia, há mais de 3000 anos, foi o que levou os homens a tempos de desgraça e lhes despertou o conceito de ganância, estatus não por méritos e sim trarapaça, e avareza. Apenas vivendo nesse pequeno mundo protegido, eles escapariam a essas desgraças.

Mu nem tinha o conhecimento politico pra concordar ou não, apenas sabia o que via. Ali o povo era pacifico, na maioria se davam bem e se sentiam mais satisfeitos – se isso é sinal de felicidade. O mesmo acontecia há muitos dos nomades entre a China e o Tibete, povo simples, sinçero e na medida do possivel feliz.

Esses pensamentos distrairam a subida silênciosa para seu templo, apenas sendo parado duas vezes pelas patrulhas de guardiões. O caminho demorava pouco mais de uma hora, pois ele tinha passo ligeiro e era acostumado a altitudes. Para um homem comum, duraria o dobro.

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Pelas lendas do hipermito a vila secreta de Atena foi construída pouco depois da deusa ganhar sua batalha contra Posseidon. Esse evento ocorre, segundo os escritos de Gilgamesh, entre 4000 e 3000 anos atrás, no nascimento da Grécia propriamente dita.

Até cerca do 700 a.C. a região chamada então de Atica não constituía uma unidade política, sendo dividida em pequenas comunidades. A união destas comunidades é associada à figura mitológica de Teseu.

Creta florescia no período Minóico, e começavam as lendas dos deuses. Isso pode ser visto com mais detalhes na lenda grega que conta como Atena e Posseidon lutaram para serem protetores da cidade de Ática, e Atena ganhou criando a oliveira. A partir daí a cidade foi nomeada em sua homenagem.

O sistema de moeda só surgiu por volta de 700 ªc. e foi a queda da paz e harmonia Grega, além das guerras incentivadas da época. Pode não parecer lógico, mas foi. O caso era que o povo produzia grãos e artigos artesanais pra vender, mas os governantes e nobres que estipulavam o preço pelo qual venderiam aquilo. No final o dinheiro que obtiam de vender suas coisas não pagavam os novos "impostos" que a monarquia inventou pra ganhar seu dinheiro. O que aconteceu foi que a monarquia tomou as terras de quem não pagava impostos e distribuiu entre si e estrangeiros comerciantes. A sociedade ruiu pois os pobres não tinham de onde tirar comida mais, e os ricos só ficavam mais ricos e passaram a usar o próprio povo como "escravos por impostos não pagos". Ai surgiu verdadeira sociedade grega dos livros de história, com eupatridas, servos e homens livres.

Assim seria muito louvável de Atena não permitir propriedade e dinheiro em sua cidade, ancestral tudo isso. Mas esse detalhe eu interpretei livremente baseado na história da Grécia.

Link para a imagem do pathernon descrita açima:

http://farm1.static.