A chuva que fustigava a janela caia agora feito tromba d'água há quinze minutos. Em seu quarto, trancado no banheiro, Troy jazia no chão do box, a água quente caindo por todo o seu corpo dormente estirado no chão frio de azulejo. Embora o céu lá fora ainda estivesse um azul muito escuro, quase negro, o relógio em seu pulso marcava cinco da manhã e sua mente parecia não querer desconectar-se e apagar-se de vez como o seu corpo tão desesperadamente desejava.
Sentou-se no chão com cuidado e fazendo algum esforço esticou um dos braços, cessou a água que caia do largo chuveiro fechando o registro.
Sua cabeça latejava e parecia querer explodir em milhões de pedaços a qualquer segundo, e embora ele soubesse não ter bebido muito, seria capaz de jurar a qualquer um ter bebido a grande vasilha de ponche completamente sozinho.
Não lembrava da última vez que vira Gabriella àquela noite. Muito menos qualquer pessoa do Clube de Teatro, a não ser Ryan. Fechou os olhos levando a franja molhada para longe da testa: viu Ryan parado a um canto, semi-inconsciente, clamando por ajuda, os cadarços de seu tênis desamarrados, viu-o deitado em sua cama soluçando como um garoto perdido e desamparado, sozinho, perturbado e angustiado, viu sua mão pálida aproximar-se de seu pulso, seu nariz pequeno e delicado aproximar-se de seu pescoço...
E ele não quis questionar-se. Não quis entender o porque da súbita e peculiar vontade de desejar Ryan. Não quis indagar-se a respeito do que isso tudo poderia acarretar. Não quis abrir os olhos e deparar-se jogado no chão de seu banheiro ás cinco da manhã, com um sorriso bobo nos lábios, mas foi exatamente essa a realidade que o engolfou quando a luz forte da lâmpada fez contato com suas pupilas.
Como ele nunca vira Ryan antes? Ele sempre estivera lá, ele podia dizer, sempre estivera a um canto, na sombra de sua irmã. Estaria sempre buscando ajuda? Sempre choroso e mimado tentando ser compreendido? Como todo aquela luz, que era Ryan, passara-lhe despercebida há tanto tempo?
A sensação que tomava sua mente gradualmente enquanto levantava-se do box e enrolava-se na toalha, era a de uma nova e desconhecida vida desvendando-se, como se o simples fato de ter encontrado uma fonte de luz o fizesse esquecer-se de todos os seus temores, todos os seus problemas e questionamentos. E de fato, era o mais sensato a acontecer.
Deixou a banheiro e se jogou na cama, uma toalha felpuda agora enrolada na altura da cintura. O sorriso bobo no rosto parecia não querer deixa-lo à medida que o céu lá fora clareava rapidamente, como se apressado a trazer a manhã. Deitado de costas, com os olhos fechados, os braços abertos e as mãos postas sob a cabeça, Troy adormeceu em alguns minutos, um sono inquieto e gostoso.
Á medida que o Domingo avançava sua frustração aumentava consideravelmente. Já pouco depois do almoço, a vontade de fazer algo produtivo era imensa, fazendo-o sentir-se completamente inútil e afetado, como se exilado do resto do mundo enquanto encotrava-se trancado em casa.
Gabriella havia telefonado pela manhã, acordando-o precipitadamente ás dez e meia. Explicara seu repentino sumiço na festa informando que havia juntado-se a Kelsi na esperança de ajudar Sharpay a controlar-se com a bebida em demasia. Aparentemente, problemas com o álcool eram comum na família Evans. Deixou claro ter procurado o garoto assim que deixara Sharpay mais calma sob os cuidados de Kelsi, acreditando que por fim entendera que Troy provavelmente havia deixado a festa um tanto entediado.
Com o fato de Gabriella expressar suas preocupações e dar suas desculpas em relação aos acontecimentos da noite anterior veio uma branda amargura, que o assaltou e o fez indagar-se que espécie de namorado ele estava sendo todos aqueles meses. Ele não tinha em mente ligar para esclarecer as coisas com a namorada até ouvir o som estridente do próprio celular. Pensar na realidade que o violentava agora, de que não estava totalmente entregue, de corpo e alma, como a outra estava na relação o irritou, e a preocupação de Gabriella em dar satisfações enquanto ele encontrava-se mal humorado pensando em não ter tido o mesmo tipo de preocupação, não vinha a colaborar em nada na situação.
Decidiu encher a banheira e passar uns bons longos minutos ali no banho, refletindo, e logo percebeu não estar disposto a ter o mesmo tipo de atitude com os mesmos assuntos que considerara em baixo de uma ducha quente na madrugada passada.
Não seria nada fácil. Havia Gabriella. Muito mais que Gabriella, havia Chad, seu pai, os Wildcats e todo o restante do colégio. Pensar no colégio naquela situação o fazia desejar deitar-se no fundo da transbordante banheira e não levantar mais. Era fácil refletir sobre paz e alcançar conclusões quando a cabeça estava aérea, quando se estava levemente embriagado, mas agora, com a luz da manhã e a sobriedade presentes, a imagem da funda banheira vinha sinistramente a calhar.
Deixou a banheira após duas longas horas com uma refrescante sensação involuntária de inovação e liberdade. Apesar da revoltante verdade ter vindo à tona enquanto relaxava no banho, Troy não podia deixar de sentir-se exultante, como um pequeno garoto que espera ansioso por um presente de aniversário prometido pelos pais. Ele sabia que algo estava para chegar, sabia também que algumas mudanças seriam exigidas, gostasse delas ou não.
Largou a toalha mesmo antes de cruzar a porta do banheiro, deixando-a para trás completamente nu. Seu celular na cômoda indicava algumas chamadas não atendias, as que ele corretamente imaginou serem de Chad ou Gabriella. Fechou a porta do quarto, assim como todas as janelas e cortinas. A temperatura do cômodo não era apropriada para aquilo, mas ele não preocupou-se com isso. Esparramou-se na cama sentindo todo o corpo vibrar com o frio de inverno da tarde. Braços e pernas abertas, olhos fechados. Não conseguiu impedir aquele sorriso que insistia em espalhar-se por seus lábios em qualquer momento agora que pensava em Ryan. Sorriu para o teto, para si mesmo e por uma vida menos anormal, mesmo sabendo que a possibilidade de desejarem destruir o que quer que fosse aquilo que crescia agora em seu peito era terrivelmente imensa, mesmo temendo o quão desconcertante e complicado o dia seguinte prometia ser.
A segunda-feira finalmente amanhecera, chuvosa como todos os dias da semana anterior. A leve sensação de desanimo que parecia percorrer cada centímetro do corpo de Troy às segundas-feiras não fizera-se presente nas primeiras horas daquela manhã. Excitação e nervosismo o atacaram ainda na cama, mesmo antes de seu despertador disparar ás sete. Agora já de pé, olhando a própria imagem no espelho, ele achou todo o projeto de diálogo que construíra na cabeça antes de dormir extremamente insano.
Era o mesmo sentimento de inadequação e euforia em um primeiro dia de aula após as férias de verão. A ansiedade para rever os amigos, a agonia, mesmo que inconsciente, ao tentar impressioná-los.
Tomou um banho rápido e quente e preparou a mochila rapidamente. O café da manhã, como de costume, já fora posto na mesa e seus pais já pareciam acordados há algum tempo.
- Bom dia, querido.
- Bom dia, mamãe.
- Bom dia, Troy.
- Bom dia, papai.
Ele havia entrado na cozinha, a mochila já nas costas e o cabelo perfeitamente penteado. Sentou-se na mesa ao lado dos pais e serviu-se de uma tigela de leite com pequenos cereais açucarados e coloridos.
- Está com uma cara horrível, Troy. Exagerou na festa sábado, não é mesmo? – o senhor Bolton nem ao menos desviara os olhos da sessão de esportes do jornal matutino.
- Desculpe, papai.
- Boa festa?
- Sim, muito boa.
- Não seja chato com o garoto, querido – retrucou a senhora Bolton servindo o marido com mais algumas fatias de bacon – como se você nunca tivesse chegado um pouco mais tarde em casa ou exagerado um pouco nas coisas quando jovem! E mesmo depois de jovem, não é mesmo?
Ela sorriu satisfeita e deixou a cozinha livrando-se de um pequeno avental na cintura, jogando-o sobre o armário ao lado.
Troy gargalhou espalhando um pouco de leite pelo queixo. Limpou-se rapidamente com um guardanapo de pano e levantou-se da cadeira dando um tapinha nas costas do pai.
- Bom dia e estou indo.
- Não quer uma carona?
Ele nem mesmo escutara a oferta do pai. Bateu a porta da cozinha e respirou satisfeito o cheiro de terra molhada que tomara toda a rua. Não se importou em caminhar tranqüilo sob o chuvisco, agora quase imperceptível, que insistia em cair.
A escola não ficava muito longe e a mais de um ano tinha o costume de acompanhar Chad, já que sua casa ficava exatamente no caminho, mais à frente. Enquanto caminhava com a mente borbulhando, perguntou-se se estaria com aquele sorriso bobo no rosto, e se estivesse, o que Chad falaria dele se o notasse. Ele não notaria, pensou Nem mesmo seus pais haviam notado algo diferente. Por que Chad notaria?
O pequeno diálogo que criara em sua mente entrava e saia de foco, fazendo seu sangue pulsar mais rápido em suas veias, aumentando sua adrenalina. Talvez ele não estivesse usando aquele tipo de sorriso abobalhado hoje, estava muito nervoso e isso dificultava as coisas. Estava a salvo, ele achava.
Apertou o paço quando avistou na próxima esquina Chad encostado em um poste alto na calçada de uma confeitaria. Tentou não parecer nervoso e muito menos abobalhado quando aproximou-se.
Caminhavam lado a lado agora, Chad com seu mau humor matutino habitual, a bola de basquete sob um dos braços. Olhava diretamente para o nada, empenhado em demonstrar aversão a qualquer tipo de comunicação com quem quer fosse, principalmente com Troy. Ele não tentaria mais entender absolutamente nada, se o cara está estranho e quer permanecer estranho, que fique estranho e permaneça estranho longe de mim.
Continuaram calados por alguns segundos, aqueles típicos tipos de segundos em que uma vida é contada e recontada, quando o prédio do East High entrara em foco.
- Okay, você está estranho.
Troy gargalhou. Sabia que qualquer que fosse o motivo do silêncio, teriam de conversar antes de chegar na escola. Como de costume, rumaram para o grande campo gramado em frente ao prédio escolar, onde dezenas de garotos corriam apressados ou emaranhavam-se em pequenos grupos.
Sentaram a um canto, Chad ainda parecendo carrancudo e mal humorado.
- E então? – ele repetiu, olhando o horizonte, mesmo que Troy estivesse sentado ao seu lado.
- Então? – indagou Troy.
Chad pareceu indignado. O nada a sua frente parecia cada vez mais eficaz em capturar sua atenção.
- Você não retorna minhas ligações, não tem tempo para sair, anda com essa cara de besta insatisfeita para todos os lados, nunca mais foi o mesmo jogando basquete, confraterniza com esse pessoal bizarro do Grupo de Teatro, e eu assumo, assumo que tenho ciúmes da Gabriella! Olha esse sorriso idiota na sua cara, meu Deus! Essa garota está te detonando!
Ele dissera tudo sem respirar, ainda sem encarar o outro nos olhos, enquanto Troy desatou uma gargalhada desconcertante. Chad pareceu ainda mais mal humorado quando finalmente virara-se para o outro, um olhar fulminante dilacerando Troy por completo.
- Eu sinto muito – começou Troy sem ar - mas essa foi a coisa mais menininha da sua vida. Parabéns!
Ele sorriu tentando apertar as bochechas de Chad. Com a pior cara que conseguira fazer, Chad suspirou e balançou a cabeça negativamente, desapontado.
- Eu sei que ando um pouco diferente, meio desligado e tudo mais –continuou Troy, as mãos umas nas outras enquanto estalava os dedos – as coisas não são tão simples como parecem! Eu estou... estava... não, estou muito confuso, Chad. É o negócio é que... Não posso dizer que não gosto de toda essa atenção, popularidade e perfeição idiota que atribuem a mim. É legal. Até um certo ponto.
- Até o ponto em que você decide que quer participar de um musical infeliz da Darbus, começa a se portar feito um completo babaca e põe a droga da escola de pernas pro ar? - ele questionou.
Troy bufou impaciente. Não sabia nem ao menos como começar a por em palavras o que realmente o afligia.
- Não, Chad! Não! Até o ponto em que as pessoas não te reconhecem mais! Até o ponto em que o seu melhor amigo começa a esquecer a pessoa que você realmente é! Sem essa merda de história de popularidade, garoto de ouro, lances de basquete e o que mais estiver na porra da sua cabeça! Pode parecer idiota e infeliz para qualquer um, mas tudo o que eu quero aqui é poder andar pelos corredores sem esses babacas que eu mal conheço cochicharem uns com os outros, apontarem, darem sorrisos falsos ou me olharem de cara feia como se algum dia eu os tivesse feito alguma droga de coisa! Eu não sou um bonequinho perfeito trancado em uma jaula onde todo mundo possa visitar e bajular, merda! E ser tratado feito um bonequinho de bibelô pode parecer divertido e encorajador para você e para o resto da escola, mas acredite cara, a verdade é que tudo não passa de uma boa bosta!
Chad o olhava feito um menino embasbacado. Titubeou abrindo a boca, mas Troy não o deixaria falar agora.
- Às vezes tudo o que eu mais quero é a paz que o Neil Sand tem quando senta sozinho em uma mesa do refeitório no horário do almoço e lê qualquer porcaria. Não, Chad, você não conhece o Neil, ele não joga basquete e é muito magro e desengonçado para ter qualquer sucesso com as garotas.
- Hey,eu conheço o Neil!
- Então você percebe que ele não gosta da vida que leva? Que é insatisfeito por não ter muitos amigos e não ser popular? Que tenta de todas as maneiras, do seu modo, se adequar aos padrões idiotas da escola, mesmo com toda essa história que você chama de " por a escola de pernas pro ar", hein? Eu sou um Neil, Chad. Por razões contrárias, é óbvio, mas ainda assim um Neil. Entende?
Chad o encarava sem muito interesse, quase como se não acreditasse em uma única palavra de Troy. Tentou dizer algo, agora que o outro parecia finalmente ter acabado de expor seu ponto de vista, mas percebeu que permanecer quieto era muito mais fácil e menos constrangedor do que a tentativa de dizer algo. Alisou a grama de leve com a palma de uma das mãos, a cabeça agora pendendo no pescoço consideravelmente, os olhos grudados nos pés.
- Vamos, Chad. Não é tão difícil de entender, é?
Ambos pareciam desconcertados.
- Você não é um Neil, cara! Não mesmo! Você tem uma vida perfeita, e vai entrar em uma faculdade perfeita graças ao basquete e...
- Hey!
A conversa fora interrompida pela chegada de Tayllor e Gabriella. Sorriam seus melhores sorrisos como de costume e pareciam carregar mais livros nos braços que o necessário, como também era usual.
- Vamos indo? Vamos nos atrasar para a primeira aula – Gabriella alertou. Sentou a lado de Troy e beijou-lhe a bochecha – está tudo bem com você?- perguntou.
Chad lançou um olhar de esguelha para o amigo aceitando a mão estendida de Taylor para que se levantasse. Levantou-se e beijou a garota também nas bochechas.
- A gente se vê mais tarde, cara – ele disse, um dos braços já sobre as costas da garota.
Sentindo que aquele não fora o fim da conversa, Troy concordou, vendo Chad e Taylor darem as costas e rumarem para a entrada principal no East High.
- Troy? - repetiu Gabriella.
- Hum?
- Está tudo bem?
- Sim, claro – ele respondeu aéreo com um beijo em sua testa – tudo bem.
Juntaram-se ao aglomerado de garotos que, atrasados, partiam para suas respectivas aulas. A primeira aula naquela segunda era completamente monótona, sem a companhia de Gabriella ou Chad. Troy respirou amedrontado, o nervosismo, agora juntando-se com uma terrível frustração, voltando a pulsar em suas veias.
Caminharam sem mais nenhuma palavra pelos corredores lotados do primeiro andar, atraindo a maioria dos olhares como havia de ser. A festa particular do clube de Teatro já parecia ser o evento mais comentado do fim de semana passado, e o fato de Troy e Gabriella terem farreado com todos os excêntricos discípulos da senhora Darbus elevava toda a historia para um outro nível de badalação.
Com mais um beijo, ele despedira-se de Gabriella e partiu para o segundo andar, onde a aula de matemática era realizada em um dos últimos corredores, enquanto a garota, ainda no primeiro andar, seguiria um corredor à sua esquerda.
- Até o almoço, certo? – ele sorriu.
O professor Pille era o tipo clássico de mestre que não entendia muito uma sala de aula. Um furacão poderia adentrar sua classe e tudo o que o homem faria, seria continuar a rabiscar seus cálculos furiosamente na lousa, totalmente avesso ao que quer que estivesse acontecendo.
Com o coração apertado, tentando não vomitar, Troy pensou em Ryan e Sharpay, que compartilhavam a mesma primeira aula na segunda-feira, já sentados em seus habituais lugares em carteiras próximas ao início da sala. Sem ao menos olhar para os lados, cruzou mais um corredor e chegou a sala do senhor Pille. Ainda do lado de fora, pelo pequeno retângulo de vidro na porta, localizou um lugar a esquerda extrema, abrindo a porta o mais discretamente possível, cruzando toda a sala e sentando-se bem no fundo.
Seu nervosismo não era gratuito. A turma inteira parecia ciente de sua chegada, ou pior, parecia sinistramente ciente de todos os acontecimentos da festa do Clube de Teatro no sábado. Ou ele estaria imaginando coisas?
Empenhando-se em não pensar muito, abriu a mochila e tirou o bloco de cálculos do fundo, puxando canetas, lápis e borracha para fora. Sentiu as mãos suarem e as pernas tremerem, percebendo ou imaginando alguns olhares.
Á esse ponto, a simples idéia de qualquer tentativa de diálogo com Ryan parecia absurdamente fora de questão. Ele não se prestaria a esse papel, não mesmo. Não daria margem para falarem mais do que deviam, e eles sempre falavam muito mais do que deviam, sem piedade alguma.
Fingiu mirar o quadro negro quando na verdade tentava captar qualquer vestígio de conversa ou menção de seu nome, aguçando os ouvidos ou vislumbrando movimentos com os cantos dos olhos.
Aquilo não estava certo. Ele não se importava com o que diziam a seu respeito. Nunca se importara na verdade e não seria diferente agora. Arriscou um breve olhar para a sua esquerda, onde a algumas fileiras estava sentado Ryan, logo no início da classe, como Troy havia imaginado.
Anotava seus cálculos sem mesmo desgrudar os olhos da lousa, e não usava as roupas pomposas e engomadinhas de sempre.Um casaco moleton azul lhe caia até pelo menos o começo de suas coxas e um boné de YALE da mesma cor sombreava seu rosto. Era como se a bebedeira de sábado o tornasse incapaz de vestir qualquer coisa muito viva ou chamativa, como se Ryan sentisse-se sujo e precisa-se passar despercebido.
Troy teve dificuldades em se concentrar em seus cálculos no restante da aula. Seu coração acelerava a cada segundo que passava e a cada minuto agora virava o pescoço e os olhos lentamente a fim de conseguir uma visão do que o outro estava fazendo, torcendo para que fosse só sua imaginação informando-lhe que toda a classe percebia seus olhares casuais em direção a Ryan.
Os cinqüenta minutos de aula pareceram voar. É engraçado como o tempo parece acelerar quando há qualquer tipo de distração ou diversão em questão. Logo o senhor Pille estava a um canto esclarecendo dúvidas da maioria de alunos cujos lugares em classe assemelhavam-se ao de Ryan e ao de sua irmã, todas as primeiras carteiras de todas as fileiras.
Ryan pareceu suspirar aliviado com o fim da aula e Troy o viu guardar seu bloco de cálculos e todos os outros apetrechos. Seu coração sentiu uma mão imaginaria comprimi-lo quando viu o garoto não juntar-se á irmã em direção ao grupo que rodeava o senhor Pille, mas sim virar-se em sua direção, e com um sorriso no rosto aproximar-se.
- Hey – ele cumprimentou.
Não havia definitivamente mão alguma comprimindo o coração de Troy agora, pois esta embaralhava suas entranhas e o fazia suar frio, desesperado.
- Hey – ele respondeu.
- Será que a gente pode conversar um pouco?
Ele tomara a iniciativa e isso era ótimo. Troy não pode deixar de perceber como ele ficava indefeso com um casaco pelo menos duas vezes maior que o seu número e se torturou por nunca ter percebido Ryan antes. Aquilo era tão estranho e ao mesmo tempo tão natural.
- Uh... claro, conversar.
Ele pegou a mochila e enfiou sem muito cuidado tudo o que jazia sobre a mesa em seu interior. Seguiu Ryan até a porta, até fora da sala.
Sharpay pareceu acompanha-los com os olhos, desviando a atenção das explicações do professor, o que constrangeu os outros dois. Troy perguntou-se se de qualquer modo ela sabia de algo, ou ao menos suspeitava.
Seguiu Ryan até o fim do corredor e esperou ansioso que o outro começasse.
- Hum... eu queria agradecer, pela noite de sábado, Troy. Eu sei que não estou acostumado e bebi um pouco além da conta e isso causou todo o problema, é claro.
Ele tinha o sorriso mais sincero no rosto e mais uma vez Troy se perguntou onde estava por todo aquele tempo quando tudo o que parecia precisar estava ali, na sua frente.
- Eu sinto muito estragar a festa para você e eu sei o quão horrível é cuidar de alguém no estado lastimável em que eu estava sábado, então... obrigado, obrigado cara.
Estragar a festa?Do que é que esse retardado está falando?Meu Deus, por que o sorriso dele tem de brilhar tanto?Por que ele tem de parecer um garotinho de treze anos desprotegido e indefeso? E por que os olhos dele piscam de um modo tão idiota e infantil? E essa vontade de pagá-lo no colo e abraça-lo agora?Por que?
- Está tudo bem, cara, não foi nada. De verdade! – ele disse, tentando corresponder com um outro sorriso – e quanto ao... uh... ao..., não se preocupe, eu...
- Quanto ao...?
As mãos de Troy, ambas dentro do grande bolso no casaco, suavam.
Não! Não, não e não. Definitivamente não. Ele se lembra, não é? Ele se lembra! Como não vai lembrar? Eu não fui o único que passei o domingo com um sorriso idiota no rosto esperando que a segunda chegasse, não é? Eu não fui o único otário que pensou naquilo a droga do domingo inteiro! Ele começou! Foi ele! Ele! Ele me beijou! Ele gosta de garotos! Sempre gostou!
- Ah... – ele não sabia o que dizer. Temia que sua expressão fosse a pior: olhos totalmente perdidos e esbugalhados e boca escancarada em tentativa de falar qualquer besteira.
Ryan, de repente, pareceu agitar-se. Suas mãos procuraram umas as outras e seus olhos não encaravam mais o rosto do outro garoto. Ele gaguejou, assim como Troy, antes de falar.
- Eu... eu... falei alguma coisa?
Ele não se lembra! Não se lembra! Merda! Que porra é essa, aminésia alcoólica? Você não só me contou sobre o seu namoradinho e do chute na bunda que o bastardo te deu como me beijou! Você me beijou, Ryan Evans! ME BEIJOU!
- Não – ele parecia sem graça e desolado, como se um tique horrendo tomasse conta de todo o seu corpo e ele não fosse capaz de esconde-lo – não falou nada, Ryan.
Ryan sorriu. Um sorriso sem graça, mas aos olhos de Troy um sorriso sem graça e encantador. Checou o relógio e suspirou.
- Acho que estou meio atrasado. Tenho um compromisso antes da próxima aula. Então, obrigado – disse.
- Claro, Ryan.
Ele esticou os braços convidando Troy para um abraço e Troy sorriu, concordando com um aceno da cabeça. Sentiu o perfume dos cabelos que pendiam sob o boné de Ryan, e os sentiu roçar em seu pescoço. Sentiu o queixo do outro em seu ombro e suas mãos em suas costas, como se o desafiassem.
- Te vejo amanhã? Na Darbus?
- Claro, Ryan.
Ele permaneceu ali, parado, no final do corredor, vendo-o afastar-se com seu casaco enorme e seus jeans surrados, tão diferente do Ryan de sempre. Ele não podia deixa-lo ir. Não sabia como ou o porque, mas estar perto de Ryan significava ser quem ele era, ou quem ele queria ser. Não o garoto de ouro do basquete ou o bonequinho popular. Ele era apenas Troy, o garoto que o ajudaria quando não estivesse bem. O garoto que o abraçaria quando ele precisasse de um abraço, e o beijaria quando precisasse de um beijo, o acariciaria quando precisasse se acalmar. Não podia deixa-lo ir. Não queria.
Despertou rápido e seus olhos entraram em foco, abandonando o ponto fixo na parede em que estiveram presos. Caminhou apressado pelo corredor esbarrando em todos e não se preocupou com os cumprimentos e os gritos de dores indignados que o seguiram. Desceu as escadas para o primeiro andar e uma maré de pessoas o cobriu. Ele não desistiria agora. Lutaria contra a maré.
Mais gritos e acenos o seguiram e ele os ignorou como nunca fora capaz de ignorar antes. Que todos fossem para o inferno agora! Um casaco azul muito grande deixou o prédio cruzando a porta da frente, e ele soube apara onde deveria remar. Apressou-se entre o fluxo de alunos, tentando não machucar ninguém, o que era difícil já que era praticamente uma espécie de imã humano.
Escancarou a grande porta dupla vermelha esbravejando com um trio de garotas todas sorridentes. O sol agora brilhava no céu e o chão era escorregadio com toda a chuva que caira. Ele vira o casaco cruzar a lateral do prédio e rumar para a rua ao lado. Correu até alcançar a rua, parando quando Ryan, a alguns metros de distancia, parou próximo a uma picape preta.
Ele parecia nervoso, mais nervoso agora quando cara a cara com Troy. Suas mãos foram para dentro do bolso interno, mas antes ajeitara o boné no rosto.
Um rapaz alto, de cabelos pretos e roupas sociais deixou a picape. Era bonito e esguio e sua camisa social preta e justa lhe dava um ar importante, como o ar de um primogênito arrogante e mimado de um grande empresário internacional. Atordoado e olhando para os lados (Troy escondera-se curvado atrás de um pequenino pinheiro), Ryan aceitou os braços que o outro o estendia. Os braços do outro.
Então aquele era o outro. O que tinha a capacidade e a crueldade de deixar Ryan tão atordoado, tão vulnerável. O que tinha o vil dom de faze-lo desesperar-se, embebedar-se, chacotear-se, desprezar-se. O que fizera Ryan em primeiro lugar abrir-se com Troy. Então, aquele era o outro. O outro que chegara primeiro e tornara-se dono da luz que Troy descobrira faltar em sua vida. O outro que certamente o impediria de libertar-se, o impediria de desprender-se da maré, de deixar sua fortaleza que há muito o sufocava e se jogar, se lançar, partir, finalmente sem receios, de alma e peito aberto, para a imensidão do mundo.
