O telefone tocava incomodamente (ou seria apenas em sua cabeça?). Tocava sem interrupção, uma, duas, dezenas de vezes. Deitado na cama, de barriga para baixo, o laptop próximo ao rosto, Troy suspirou. Os músculos de seu pescoço começavam a protestar dolorosamente, tanto eram as horas que ficara estirado na cama em uma mesma posição, com a cabeça levemente inclinada, sem qualquer movimento mais flexível.Além da dor, estava cansado e terrivelmente atordoado. Deu graças aos céus pelo Campeonato Intercolegial já ter acontecido meses atrás, simplesmente não suportaria treinos diários somados as reuniões do musical e toda a demanda de testes e exercícios naquela situação tão desgastante.
As aulas daquela manhã haviam sido um tanto peculiar. Embora sua mente estivesse em qualquer outro lugar longínquo, pode sentir a escola presente e mais viva que nunca em seu dia. Não as atividades escolares em si, mais o corpo estudantil e todos os outros presentes. Tudo agora parecia o consumir de uma maneira estranha e delicada, como se todos ao seu redor fossem capazes de ler os seus pensamentos. Afinal, quando foi que todos aqueles pensamentos pareceram brotar dentro dele?
Havia algo forte e desconhecido que o deixava inquieto, em meio à tamanha raiva e, ao mesmo tempo ou tempos alternados, completa felicidade. Seu cérebro era capaz de maquinar horas e horas a fio, pensar em Ryan, em sua vida na escola e na pressão que tudo aquilo fazia em sua cabeça. Tinha esses lapsos de pensamento a todo o tempo e onde quer que estivesse e com quem, de fato, estivesse, ele podia jurar, se conseguisse ver o seu próprio rosto, que suas expressões assumiriam sentimentos distintos a cada intervalo de cinco breves minutos. Ele não sabia ao certo o que pensar e como agir diante da falta de nexo que toda a situação emanava.
Por que afinal se sentia bem? Às vezes era estranho de uma intensa forma lógica pensar que o motivo que o deixava leve e despreocupado, satisfeito e incontrolável, era Ryan, um outro garoto, e por outras vezes, em momentos de contrastes, era tão óbvio, simples e correto pensar assim. Era quando um sorriso se espalhava em seu rosto e ele podia fechar os olhos e desconectar-se de tudo, de todo o mundo, mas então, algo o fazia lembrar-se do outro, e este em si não era o motivo para fazer-lo sentir-se mal. Era o quão bobo e superficial tudo aquilo parecia ser que acabava por arruinar seu estado de espírito.
Ryan era apaixonado pelo outro. Ele, Troy, era um idiota de achar que a possibilidade de sentir algo por Ryan era, de fato, considerável. Por mais que acreditasse que Ryan o fizesse sentir-se diferente, como ninguém antes ousou faze-lo, não havia maneiras para tocar tudo aquilo adiante. Pelo menos ele não enxergava tais maneiras ainda.
E, contudo, ao mesmo tempo tudo era tão claro e simples, como se um mapa ou vídeo desenrolasse em sua mente: tudo o que tinha de fazer era abrir os olhos de Ryan, faze-lo compreender que por mais que o outro o fizesse bem e o tivesse por inteiro, era com ele, Troy, que ele, Ryan, havia de estar. Precisava mostrar a Ryan sob qualquer circunstância, como ele, de uma forma um tanto bizarra, ele admitia, sentiu-se renovado, disposto, esperançoso e finalmente livre, com a repentina sensação de dependência que brotara entre os dois.
Era isso. Agora ele sabia. Uma sensação de dependência. Fora tão forte a vontade de abraçar Ryan quando ele o viu vulnerável, tão forte a vontade de ampara-lo e dizer-lhe que tudo ficaria bem, como se Ryan fosse a primeira e única pessoa em todo o mundo a precisar dele, e assim, conectar-se a ele de uma forma absurda como ninguém jamais conectara-se antes. A dependência de Ryan o fazia também dependente. Dependente de doar atenção, carinho a quem realmente precisasse. E quem sabe tudo realmente ficasse bem, se ele pudesse achar uma forma de alcançar Ryan, faze-lo olhar para ele e com só um toque faze-lo perceber que talvez, tudo que precisasse seria ele, Troy Bolton.
A campainha soou abafada lá embaixo. Troy virou-se na cama, o pescoço estalando dolorosamente, viu as muitas mensagens instantâneas brilharem na tela do laptop como fogos de artifício mortos. Vendo que todos os contatos especiais (separados em um grupo especial em sua lista), estavam agora desconectados, fechou o laptop, sem emoção. Levantou da cama com calma, pensando em um banho, afinal, já passavam das seis e não vira a tarde passar deitado na cama, online. Iria tomar um banho rápido e passaria na casa de Gabriella. Ele queria acreditar que toda aquela história não o estava afastando da garota, mas sabia que as coisas não estavam exatamente da forma como queria acreditar que estivessem.
- Troy! – chamou a senhora Bolton de algum lugar lá embaixo – Gabi está aqui! Desça rápido!
Ele escutou risos e cadeiras arrastando-se no andar de baixo e se apressou em lavar o rosto no banheiro. Desceu as escadas, rápido, um sorriso no rosto, e encontrou a mãe junto de Gabriella, sentadas à mesa da cozinha, ambas risonhas e entretidas.
- Hey! – disse anunciando-se.
- Ah, aí está o nosso menino. Vou deixar-los sozinhos aqui ou preferem ir para a sala?
- Ah, a sala mamãe, obrigada.
Eles deixaram a senhora Bolton e partiram para a sala.
O sorriso no rosto de Gabriella o perturbava de uma forma mágica. Ele queria que a garota sorrisse, sorrisse aquele sorriso perfeito, envolvente e encantador de sempre, mas algo o afetava quando ele a mirava e o via resplandecer.
- O que aconteceu? Não atende mais o telefone? – ela perguntou.
- Ah, então era você... eu, me desculpe, peguei no sono e...
- Tudo bem, relaxa.
Ele pegou suas mãos e a beijou. Sentiu seu corpo colar-se ao seu com os lábios grudados nos dela. Gabriella era a menina mais linda que já vira em toda a vida. Era encantadora e estar com ela era verdadeiramente maravilhoso.
- Hum – ela disse – então estamos animadinhos, hein?
- O que foi? Não posso mimar a menina mais linda desse mundo, é?
Ela sorriu, as mãos ainda nas dele.
- Se essa menina for eu realmente, é claro que pode, bobo.
Um cheiro doce o inebriou quando a abraçou e sentiu seu nariz roçar em sua pele morena delicada. Ele sentia saudades daquele cheiro, daquela pele.
- Estou com saudades, sabe?
Ela sorriu. Naquele jeito singular e especial que deixavam os dentes superiores à mostra, alguns tão pequenos, delicados e infantis como a dona. Ele amava aquele sorriso, sempre o amaria, tão singelo e verdadeiro, como uma flor a desabrochar ao natural. Uma flor graciosa, de pele morena e cheirosa. Uma flor chamada Gabriella.
Talvez aquilo tudo que estava sentindo, ou pensava estar sentindo, fosse besteira, Ryan era um menino tão frágil e sozinho e ele sentia-se obrigado a protege-lo, a doar-lhe carinho por mais que isto soasse ou parecesse estranho. Afinal, que menino em sã consciência não se sentiria completo com aquele sorriso escandalosamente perfeito e todo aquele perfume inebriante de Gabriella?
Quem poderia negar amor a uma alma tão delicada e encantada? Quem ousaria sentir-se incompleto e receoso com a garota mais bela e perfeita de todo o mundo?
Ele não entendia muito bem. Gabriella era tão diferente de Ryan e ao mesmo tempo tão similar. O que de especial o tornava tão atraente como um imã, que tão rápido e inesperado o entrelaçava e o impressionava, fazendo-o não desejar soltar-se?
- Aconteceu alguma coisa? – ela encostara a cabeça em seus ombros, agora confortavelmente recostados no sofá.
- Hum? – ele suspirou. Beijou seus cabelos e sua mão pôs-se a acariciar sua cintura.
- Você anda... um pouco desligado ultimamente. Na verdade, há algumas semanas, Troy.
- Eu... não sei, estou um pouco cansado, acho que é isso.
Ele a abraçou, esperando que o gesto a confortasse e intimamente, desejou que o abraço a recompensasse por aquelas semanas que ele sabia não estar muito bem. Foram naquelas últimas semanas que a magia que permeava seu relacionamento com Gabriella parecera afetada. Algo dentro dele gritava, algo parecia estar faltando e era exatamente isso que o fazia agir de forma diferente. Ryan, nos últimos três dias, tratando-se do relacionamento Troy-Gabriella, viera piorar a situação. Parecia estar presente nele aquilo que justamente faltava em seu namoro. Mas como? E por que afinal Ryan?
- Olha - ele aproximou o rosto ao de Gabriella – eu sei que pareço um pouco confuso e distante esses dias e na verdade, realmente estou. Acho que... é que... eu não sei, muita pressão de todos os lados e na escola as coisas sempre acabam tão difíceis, entende?
Havia compreensão nos olhos de Gabriella. Cada ato seu parecia o envolver cada vez mais, mesmo a certeza de algo ausente batendo clara e rapidamente em cada partícula de seu corpo, enquanto as mesmas partículas vibrantes, gritavam violentamente, o agonizando, o nome de Ryan.
- Vai ficar tudo bem, Troy. Vai ficar tudo bem.
As aulas do dia seguinte foram borrões na mente de Troy: as mãos de Gabriella nas suas, olhares discretos para Ryan, olhares indiscretos de Sharpay, acenos de cabeças nos corredores lotados, encontrões propositais, os Wildcats na hora do almoço, angústia na aula de Inglês, Gabriella ao seu lado, Sharpay e Ryan a sua frente, mais olhares discretos em direção a nuca loira de cabelos lisos repicados a sua esquerda, localizada exatamente ao lado das longas madeixas loiras da irmã, Sharpay, olhares importunos, curiosos e regulares de Kelsi e uma leve sensação contínua de desconforto. O já habitual pensamento de desproteção, como olhos o seguindo e ouvidos espreitando-se para ouvirem os sussurros em sua mente, agora mais presentes que nunca.
Os ensaios para o musical não haviam, de fato, começado Os garotos se encontravam ocupados com a produção de todo o evento juntamente com Darbus; e a aproximação do fim do ano parecia a chegada de uma nuvem negra em um local ensolarado e divertido. As falas deveriam estar decoradas quando Darbus decidisse quando exatamente se iniciariam os ensaios, o cenário, a aparelhagem de som e luz, tudo, devidamente providenciado e bem organizado.
A reunião após as aulas da tarde aquela Terça começou animada. Os participantes do Clube de Teatro mostraram-se imensamente entusiasmados e satisfeitos com o resultado da festa de integração de elenco no Sábado, e todos pareciam comentar, ainda muito excitados, a respeito da mesma coisa: a bebedeira e choradeira de uma das anfitriãs da festa, Sharpay.
Ocupado em tal noite com Ryan em seu quarto, no andar superior a festa, Troy indagou-se se perdera muito da noite de Sábado além do aparente porre de Sharpay. Indagava-se também o porque de todos ali não estarem comentando, ou ao menos parecerem completamente desavisados do porre de Ryan. Era como se a vida de Ryan mal existisse ao lado de sua espalhafatosa irmã.
Os puffs e cadeiras estavam distribuídos em forma de círculo pelo palco do auditório, a Senhora Darbus sorria a um canto, absorta em meio a uma enxurrada de comentários e exclamações.
- Meus queridos, acalmem-se! Acalmem-se!
Ela agitou os braços, um sorrisinho sem graça nos lábios.
- Todos nós sabemos, é claro, que a festa de confraternização do elenco no Sábado passado foi um verdadeiro sucesso! Um verdadeiro sucesso, meus queridos! Tirando alguns... - ela suspirou – acontecimentos desagradáveis.
Sharpay endireitou-se com certo desconforto em um puff próximo a Ryan, uma expressão carrancuda no rosto.
- Bom - continuou a Senhora Darbus - acho que chegou o momento, meus caros. O momento de começarmos com o brilho, a essência, a verdade, meus queridos! Ah, a alma resplandecida no palco, a paixão através da música, o sentimento exposto na mais divina arte, a excitação artística à flor da pele, o verdadeiro e puro instinto...
Enquanto o sermão apelativo costumeiro da Senhora Darbus ecoava pelo auditório trancado, Troy endireitou-se ao lado de Gabriella na roda de puffs e cadeiras. Por mais que tentasse, por mais que desejasse, não conseguia se aproximar de Ryan. Não podia simplesmente fingir que sempre foram amigos e a cada encontro o abraçasse e perguntasse como estavam as coisas. A noite de Sábado não fora o bastante para aproximá-los, ainda mais, levando-se em conta o fato de Ryan não lembrar-se de exatamente tudo o que acontecera em seu quarto.
Ele não recordava como Troy o abraçara e desejara senti-lo perto, apenas tê-lo ali, inexplicavelmente, sem motivo algum, não recordava como ele, Ryan, tentara o outro de forma tão curiosa, acariciando-o, respirando e soluçando próximo demais, como se o testasse.
- Senhor Bolton, senhorita Montez! – exclamou a Senhora Darbus – juntem-se se aos Evans, por favor! Kelsi, os acampanhe! Quero integração no palco entre os quatro, já que têm os papeis de destaque no musical. Kelsi os ajudará com qualquer dúvida nas canções.
- Destaque... hunft! – murmurou Sharpay.
- O que disse, Senhorita Evans?
- Nada, Senhora Darbus. Absolutamente nada.
Troy seguiu Gabriella ao se levantar de um dos puffs e sorriu ao ver Kelsi se aproximar. A menina tinha um sorriso esperto no rosto, como se a encoraja-lo a qualquer coisa que este estivesse disposto a fazer, e Troy não sabia ao certo se gostava daquele sorriso. Parecia esperto em demasia.
Sorriu satisfeito ao ver Gabriella cumprimentar Ryan, Sharpay emburrada logo ao lado.
- Então vamos logo, Bolton, Montez! Kelsi, por favor, nos acompanhe.
Ela os deu as costas, decidida, e não esperou aprovação de ninguém, nem mesmo de Ryan, que olhava de Troy para Kelsi e de Kelsi para Gabriella.
- É melhor não deixá-la esperando, não é mesmo? – riu-se Gabriella. Arrumou as pasta debaixo do braço, a bolsa no ombro e seguiu as escadas que deixavam o palco, onde o circulo de assentos fora formado, seguindo Sharpay até as primeiras cadeiras acolchoadas das intermináveis filas onde situaria-se a platéia em um dia normal de apresentações.
- Hey! – cumprimentou Ryan seguindo há alguns passos Gabriella e Kelsi, Troy logo ao seu lado.
- Hey!
Silêncio.
- Então... uh, é, aquela história da Sharpay estar aprontando... uh, algo?
- Ah! - riu-se Ryan – você viu o quão bem humorada ela está, é melhor não apostar nada.
Ele sorriu. Sorriu e seus olhos se estreitaram, como duas pequenas fendas delicadas determinadas em esconder um azul claro incrível e sinistramente perturbador. Troy teve a repentina vontade de tocar-lhe os cabelos, os bagunçando e dizer-lhe que o seu senso de humor para com a irmã era estupidamente atraente. Ao invés disso, ele sorriu, tocou-lhe o ombro e balançou a cabeça.
- Andem logo, vocês dois aí! Não temos a tarde inteira, Ryan! - Sharpay já acomodara-se em uma das cadeiras acolchoadas e rosnava com as pernas cruzadas, a bolsa enorme em seu colo. – Vamos! Vamos! Sentem-se vocês duas também!
Gabriella e Kelsi sentaram-se juntas, lado a lado, lutando contra a vontade de rirem do tom mandão de Sharpay.
- O que? Qual é a graça? - ela perguntou olhando ao redor, retirando a bolsa o colo e voltando a recoloca-la ali.
- Nada! Nada, Sharpay... – Gabriella respondeu com um sorriso sem graça - Vamos, Troy!
Troy os alcançara, Ryan ainda sorrindo muito próximo, sentou-se ao lado de Gabriella enquanto o outro, acomodou-se ao lado da irmã.
- Bem – começou Sharpay, uma ponta de irritação em sua voz – então, o que tem para nós, kelsi?
Kelsi, ao ouvir a menção de seu nome, pulou da cadeira e abriu a bolsa vermelha que carregava nos braços. Um bolo de fichas amarelas estava preso em uma prancheta de madeira, muito parecida com a qual a Senhora Darbus carregava.
- Hum... as canções! – ela começou meio insegura – como Troy e Gabriella têm os papéis principais ficam com seis das treze canções e...
- SEIS? – exclamou Sharpay. Lançara a bolsa para a cadeira próxima e tinha os olhos arregalados.
- Shar, por favor! Vá em frente, kelsi...
- Obrigada, Ryan. As canções restantes são interpretadas pelo resto do elenco, sendo uma, solo do Ryan e outra, para a Sharpay...
- O que? Como é? Repita isso, kelsi! UMA canção? UM solo? E o resto tenho que dividir com os outros ?
- Shar, não comece...
- Ryan, não comece você, okay? Está tudo errado! Tudo!
Ela levantara-se da cadeira e estava agora, embora falasse com Kelsi, de frente para Troy e Gabriella.
- Eu concordei com essa história de papel secundário e você sabe muito bem kelsi, que é por isso que não sou a protagonista! É uma questão de não concordar mais e tudo se ajeita! Um solo? A Senhora Darbus sabe disso? Ela definitivamente não concordaria com tal coisa! UM SOLO!
- Sharpay, a Senhora Darbus faz a divisão das canções assim como escolhe os papéis, eu não tenho muito a ver com isso, você sabe - Kelsi se encolhia na cadeira, desajeitada e nervosa.
A essa altura, o resto do elenco, que trabalhava aos pares ainda no palco, sob a supervisão de uma aflita Darbus, deslocara toda a atenção para o grupo ao lado, devido ao tom alto e dramático de Sharpay.
- Sei bem quem escolhe os papéis aqui, Kelsi! A Senhora Darbus tem me escolhido como protagonista há anos, casa não tenha percebido! E a culpa é sua – ela apontou discretamente para Gabriella – e sua também, Bolton – um dedo esticado na cara de Troy, que encolhera-se em sua cadeira – se eu não estou mais entre os papéis principais.
Ela bufou e atirou-se na cadeira, tendo total consciência de que seu tom de voz elevara-se o bastante para todos ali a escutarem, seus olhos eram estreitos e a boca estava torcida, completa e visivelmente irritada.
- O que está acontecendo? O que está acontecendo aqui?
A Senhora Darbus deixara o palco. Sua expressão a mais afobada possível.
- Sharpay, uh, não parece estar... de acordo, novamente, com a distribuição dos papéis, Senhora Darbus.
Darbus olhou para Gabriella, que após dar o motivo do pequeno carnaval de Sharpay, abraçara-se discretamente ao namorado. Ryan e Kelsi agora lado a lado, pareciam apreensivos.
- Minha querida, já conversamos o bastante sobre isso, não? O que é desta vez?
Sharpay tinha as pernas e os braços cruzados. Sua expressão, de irritada, mudara agilmente para magoada com a aproximação da Senhora Darbus: seus olhos estavam úmidos e seus lábios juntavam-se inclinados em um perfeito beicinho.
- Senhora Darbus!- ela começou em uma voz pastosa - Tenho um solo! Apenas um! Não posso ter um solo, o que todos vão dizer? O que os meus pais irão dizer?
- Eles dirão o que já lhe disse milhares de vezes, meu anjo: a Senhorita Montez é mais adequada para o papel! Todos perceberão isso, queria você ou não! Além disso, o fato de o Senhor Bolton aqui, ser o namorado da protagonista, contribui muito para a química do casal, você há de concordar, não é mesmo? Agora pare com essas besteiras e contente-se com o seu número de solos!
- Mas Senhora Darbus...
- Se a Senhorita não está de acordo com o seu papel, posso assegurar-lhe que candidatas não faltarão para a vaga em aberto, caso você decida abandonar o musical, é claro!
O fluxo de sangue, a mostra no rosto pálido de Sharpay, aumentava desesperadamente, como se cada palavra de Darbus agitasse e fervesse todo o sangue de suas veias. Ela abrira a boca, como descrente das palavras profanadas por sua professora. Rapidamente, pegou sua bolsa na cadeira ao lado, jogou-a sob um dos braços, e ainda muito vermelha e carrancuda, seguiu decidida em direção a Darbus, que já dera as costas e com um ar satisfeito, rumara de volta ao palco.
- O meu papel está definitivamente em aberto, Senhora Darbus, assim como o patrocínio do musical se eu não o estiver estrelando ao lado de Bolton – ela disse em sussurro quando alcançara as costas da professora.
O sorriso nervoso em seu rosto transformava suas feições. Tinha as narinas arfantes e os olhos levemente esbugalhados, como se prazerosa ao imaginar o choque de Darbus, ainda de costas.
- Como? Como é? – a professora virou-se, e Sharpay pode comprovar cada sinal de choque em seu rosto excessivamente maquiado.
- Foi o que ouviu Senhora Darbus – ela continuou em não mais que um sussuro – ou eu ocupo o papel de protagonista ao lado de Bolton, ou o patrocínio para o musical morre no papel. E espero, realmente, que encontrem uma substituta razoável para a mesquinharia de personagem que me ofereceram.Até logo!
Ela dera as costas ao palco, desceu a pequena escada que dava acesso à saída, a bolsa branca, quase a metade de seu comprimento, sacudindo graciosamente ao seu lado.
Darbus era uma estátua paralisada, completamente em choque, seus olhos estavam vidrados na figura esguia que era Sharpay afastando-se.
- Volte aqui, mocinha! Como ousa dar as costas a uma professora? Isso foi uma ameaça? Está ameaçando a por o meu trabalho de meses em risco, é isso? Volte aqui, imediatamente, Senhorita Evans.
Ryan, boquiaberto, tomou a dianteira de Darbus, mas ao passar afobado pela professora, levara aos ares a pequena prancheta de madeira antes frouxamente presa na mão da mulher. Folhas amarelas voaram em todas as direções, para o fundo do palco, para as laterais e para a platéia, inundando todo o auditório, lotado de expressões confusas, de borrões amarelos.
- Eu... arrumo, eu, me perdoe, Senhora Darbus.
- A sua irmã... – Darbus arfava – ela... ela quer por tudo, tudo que construímos a perder! Quer o papel de estrela a qualquer custo, meu querido!
Sua mão tremia na direção do peito, sua face, se era possível, empalidecia ainda mais e seu autocontrole parecia amplamente abalado.
- Levem-na daqui! – gritou Kelsi ao ver as mãos da professora tremerem e a cor de seu rosto assim como e a de suas mãos esvair-se mais e mais - para enfermaria! Rápido!
Ryan, agachado com uma das folhas amarelas nas mãos, abriu passagem para Gabriella e meia dúzia de meninos, todos auxiliando uma Senhora Darbus agora aos prantos.
- Ela quer acabar com o musical – ela gemia – sem o patrocínio estamos arruinados, não haverá mais projeto, minha reputação... meu Deus, minha reputação!
O resto do Grupo de Teatro, ainda paralisado no palco, despertou de uma só vez quando Darbus, auxiliada por Gabriella e os demais alunos, cruzara as portas duplas de metal do auditório: dispararam, todos, em direção a porta, causando uma pequena algazarra nos corredores.
Ryan continuou onde estava, agachado, a folha de papel amarelo ainda em sua mão quando viu todos, rapidamente, seguirem a professora aos prantos.
- Wow! Isso definitivamente é algo!
Troy ainda estava sentado, completamente atordoado, há alguns metros do palco.
- Perdão? – perguntou Ryan, virando o pescoço para encarar o outro.
Troy levantou-se e subiu as escadinhas para o palco.
- Você estava certo! Online ontem, entende? – ele explicava – disse que Sharpay talvez aprontaria algo, e isso, meu camarada, definitivamente é algo! O que foi que ela fez? Que história é essa de patrocínio? – ele agachara-se ao lado de Ryan, ajeitando os jeans.
- Sharpay conseguiu um patrocínio para o musical, com papai, e pelo que entendi, está usando isso para conseguir o que quer, o papel de protagonista.
Ele começara a catar as folhas de papel espalhadas pelo piso do palco.
- Ela é totalmente biruta! – Troy continuou – não quero ofender a sua família, Ryan, mas isso é ir longe demais – ele começara a catar os papéis próximos junto a Ryan.
- Ela é um pouco sem limites, certamente, mas não faz por mal, não é uma pessoa realmente má.
- É, eu sei.
- Como?
- Você me contou isso no Sábado, não se lembra? Quando estávamos no seu quarto.
As bochechas de Ryan coraram levemente e ele abaixou a cabeça um pouco mais, ainda agachado ao lado de Troy, juntando as folhas soltas.
-Não se lembra? – repetiu Troy.
- Na verdade... na verdade não. Eu não estava muito sóbrio no Sábado, não é mesmo? Releve o que eu disse, cara.
- Então você quer que eu pense que a Sharpay, de fato, é uma pessoa realmente má. É isso?
- Não! – ele riu – quanto a isso continue com a sua opinião. Estou me referindo aos montes de bobagens que eu provavelmente falei. A gente não consegue ficar de boca fechada quando bebe, é sempre a mesma coisa! Fala-se demais!
Foi a vez de Troy rir. Ryan realmente não lembrava-se de nada da noite de Sábado.
- Às vezes não é demais o que falamos. Às vezes, tudo o que queremos é alguém para desabafar, alguém para conversar.
- É, talvez.
Ryan continuou curvado, a cabeça baixa, engatinhando pelo palco inundado de folhas. Não olhava o outro nos olhos e Troy percebeu, fazia questão de não aprofundar-se em uma conversa decente.
- Ryan?
- Oi.
- Você gosta tanto dele assim?
Ryan congelara. Não tinha a expressão surpresa, os olhos esbugalhados ou a boca aberta, estava apenas parado, absorvendo o que quer que fosse.
- Eu falei dele, não foi? – ele virou-se para Troy largando um punhado de folhas, sentando-se.
- Não se preocupe, está tudo bem.
- Não, não está tudo bem, cara! Eu... me desculpe, eu estava mal e você estava lá e...
- Por que ele?
Agora sim Ryan arregalara os olhos. Sentado ao lado de Troy, ele enrijecera-se como uma pedra.
- Eu já disse, está tudo bem, cara! Por que ele?
- O – o que mais eu lhe disse, Troy? No Sábado a noite?
Troy suspirou.
- Além de dizer que a Sharpay não é uma má pessoa, você mencionou que ela gosta de mim e que fez algo para ajuda-lo a esquecer o fato de ser abandonado por alguém, o que não saiu muito certo... É ele não, é? O garoto francês das revistas?
- Troy...
- Está tudo bem, Ryan, eu já disse! Não quero te julgar ou coisa parecida, só estou tentando ser seu amigo... por favor!
As lágrimas nos olhos de Ryan vieram silenciosas, manchando-lhe o rosto, aos olhos de Troy, de uma maneira bonita.
- Ryan... não, não chore! – ele se aproximou do outro, passou a mão por seu rosto, secando-o – se você quiser, não precisar falar disso, está tudo bem!
- Não está tudo bem, Troy. Ele não sai da minha cabeça! Está em tudo o que eu olho e em tudo o que eu penso!
As palavras de Ryan o comoviam e o entorpeciam, como uma droga tranqüilizante muito forte. Mesmo entorpecido, mesmo intimamente aborrecido, ele não se afastou, continuou muito próximo do outro, a mão ainda em seu rosto.
- Por que ele?
- O que?
- Ele não é exatamente o que poderíamos chamar de "ideal", não é?
Ryan pareceu um pouco mais triste. Uma lágrima solitária percorreu sua bochecha, indo se aconchegar na mão de Troy.
- Se Drake Mutande não é ideal, então o que seria ideal?
Troy suspirou. Respirou fundo em seguida, como se finalmente decidido.
- Você não se lembra mesmo da noite de Sábado?
- Já lhe disse, Troy. Não lembro... de nada, quase nada.
- Pergunte o que seria ideal, novamente.
- O que?
- Pergunte o que seria ideal novamente, Ryan!
- Não estou entendendo, Troy.
- Apenas pergunte. Por favor, Ryan.
Ryan sorriu. Sorriu sem saber o que se passava na mente de Troy, sem saber que cada partícula de seu corpo estava prestes a formigar e derreter.
- Então - ele repetiu - o que seria ideal?
- Isso.
Com um sorriso no rosto, Troy repôs a mão no rosto de Ryan, dessa vez as duas, em ambas as bochechas; e se aproximou, sem medo de senti-lo desta vez, sem medo do que a situação poderia parecer. A explosão em seus sentidos que se seguiu pareceu não desapertá-lo para onde estavam, para o que poderia acontecer se alguém, eventualmente, entrasse no auditório inundado de folhas amarelas e pegasse Troy Bolton com os lábios colados nos de outro menino.
Estava com os lábios nos lábios de Ryan, suas mãos em seu rosto e o perfume do garoto, tão singular, perdido em suas narinas. Ele surpreendera-se ao ver a mão de Ryan acariciar o seu rosto, e mais ainda quando a língua do outro buscou a sua, delicada e lentamente. Seus peitos tocaram-se quando ambos ajoelharam-se no chão de carpete do palco, seus corações batendo violentamente, um violento gostoso que mandava adrenalina para todo o resto o corpo.
- Troy...
- Não, Ryan... por favor...
Eles continuaram entrelaçados, as mãos de um no rosto do outro; e um sorriso perpassou o rosto de Troy, mesmo com os lábios agora no rosto de Ryan.
- Eu acho que estou te amando – suspirou Troy próximo ao ouvido de Ryan – Estou te amando, cara.
Ele o abraçou mais forte. Um estampido fraco ecoou a direita, despertando Troy e fazendo Ryan sobressaltar-se: a porta dupla de metal fora fechada delicadamente, alguém os vira.
- Kelsi? – gritou Troy – Kelsi? É você?
Ryan levantou-se, abobalhado, quando uma mãozinha trêmula apareceu, tocando uma das portas.
- Kelsi? – perguntou Troy novamente.
Um sorriso sem graça seguiu a mão à porta.
- Eu não queria... me desculpem, tentei sair novamente sem chamar atenção.
Ryan estava vermelho, as mãos estavam entrelaçadas aos cabelos e seu rosto estava enrugado de preocupação. Olhou rapidamente para Troy e balançou a cabeça, antes de sair abalado pela porta do auditório, esbarrando em Kelsi sem ao menos olha-la.
- Ryan! – gritou Troy.
A porta batera lenta e teatralmente. Kelsi, já dentro do auditório, sustentou seu olhar em direção ao amigo, o sorriso carregado de verdade estampado no rosto, desta vez um tanto sem graça, mas infalivelmente ainda sincero, ainda encorajador.
