O Big Belly estava cheio, como era de se esperar de um sábado a noite. Famílias aproveitando o fim de noite, casais tendo seu centésimo encontro, enquanto outros tinham o primeiro, grupos de amigos discutindo o último blockbuster ou fazendo uma parada a caminho do melhor show de suas vidas. De uma forma ou de outra, nenhum deles estavam cobrindo um plantão na CCPD. A não ser, claro, Ginny e eu.

Semanas haviam se passado e, apesar de algumas provocações, nós tínhamos conseguido estabelecer uma ótima convivência. Ela tinha os segredos dela e não gostava de falar do passado, mas quem poderia julgá-la? Com certeza eu era a pessoa menos apta para tal tarefa.

"Ainda tô tentando entender o porquê você se voluntariou para esse plantão." Comentei, enquanto aguardávamos na fila para fazer os pedidos.

"Eu gosto da noite." Ela sorriu. "Falando sério, eu não tenho nada para fazer. Eu não conheço ninguém aqui." Ginny encolheu os ombros. "E eu estou começando a ficar sem séries para assistir no Netflix."

"Agora você está falando a minha língua." Salvar a cidade me deixava razoavelmente ocupado, o que havia diminuído drasticamente o número de horas que eu passava em frente a TV.

"Boa noite, o que vão querer?" A atendente perguntou, apática.

"O maior sanduíche que vocês tiverem." Ginny respondeu animada.

"Esse seria o Big Belly Special."

"Vou querer um desses com batata e refrigerante."

"Dois, para a viagem." Completei o pedido, e antes que Ginny pudesse abrir a carteira, eu já estava pagando ambos os lanches.

"Obrigada." Ela sorriu desconcertada.

Ginny era...peculiar. Ela passava a ideia de uma garota sorridente e brincalhona, mas o seu sorriso carregava uma seriedade e uma frieza que só um evento traumático poderia causar. Seus olhos eram inteligentes, observadores e donos de uma experiência que não condiziam com a idade dela. Gestos calculados. Mente e corpo sempre alertas, como se ela tivesse sido treinada.

Sempre alerta.

Quase sempre alerta.

"Hey, B." Alguém sussurrou atrás de nós. Ao meu lado, vi Ginny retesar todo seu corpo. Ela se virou em direção a voz e eu fiz o mesmo. Um homem branco de olhos azuis e cabelos escuros a fitava com algo que eu não soube identificar.

"O que você está fazendo aqui?" Ela disparou entre os dentes.

"Queria saber como você está." O rapaz olhou-a nos olhos. Ele parecia estar preocupado com ela, mas Ginny mantinha-se tesa ao meu lado, rejeitando toda aquela atenção.

"Muito bem, obrigada." Ela respondeu sem sorrir.

"Eu sinto sua falta" Novamente, ele buscou os olhos dela, mas Ginny sempre desviava.

"Para." Ela sussurrou.

"B." O rapaz segurou-a pelo braço.

"Solta ela." Ordenei. Não me importava quem ele era, mas estava claro que ela não queria ele ali.

"Namoradinho novo?" Ele sorriu sarcástico e soltou-a. "Só vim avisar pra você ficar alerta. Você pode estar mais perto de casa do que imagina." Pela primeira vez naquela conversa, Ginny o encarou. Ela assentiu de leve, como se compreendesse aquela mensagem.

"Como você sabia onde me encontrar?"

"Eu sempre sei onde você está." Ele sorriu tristemente e se afastou.

"Você está bem?" Perguntei, quando o estranho misterioso já tinha ido em bora.

"Sim." Ela respondeu, ainda desnorteada.

"Ex-namorado?"

"Algo do tipo."

A atendente chamou o número do nosso pedido e eu fui buscá-lo. Quando voltei, Ginny já estava recomposta. Como se a visita do estranho de olhos azuis não a tivesse afetado em nada.

Com o pedido em mãos, fomos direto para o laboratório. Como a semana andava calma, provavelmente, o nosso plantão seria constituído de fast food (o Big Belly, sendo o primeiro da noite) e uma maratona de qualquer coisa.

"Qual vai ser a próxima?" Perguntei, enquanto subia as escadas que davam para o laboratório, com Ginny atrás de mim.

"A próxima o que?" Ela perguntou confusa.

"A próxima comida." Expliquei. "Nós vamos passar as próximas oito horas juntos. Uma certa quantidade de comida se faz necessária, bem como uma certa variedade."

"Você cuida da comida e eu da diversão."

"O que você tem em mente?"

"Tartarugas Ninjas" Ela falou animada e eu fiz uma careta. "Os filmes dos anos 90, não o atual." Ela esclareceu e eu assenti aliviado.

"Então acho que nossa próxima comida será pizza." Meu riso se transformou num misto de sorriso e surpresa ao ver Caitlin sentada em minha cadeira. "Cait, hey."

"Oi. Desculpa aparecer do nada é que..." Ela parou de falar ao notar Ginny. "Eu estou interrompendo algo?" O rosto de Cait estava tenso.

"Não." Neguei prontamente. "Essa é a Ginny, ela trabalha aqui no laboratório."

"Então você é a famosa Caitlin!" Ginny abriu um sorriso e, largando o lanche em cima da mesa, estendeu a mão para Caitlin. "Prazer em conhecê-la."

"Ficaria estranho se eu falasse que nunca ouvi falar de você?" Cait sorriu sem graça.

"Magoou, Barry." Ginny fez uma careta para mim.

"Como foi a festa?" Perguntei para Cait. Ela tinha ido com Cisco para a festa de aniversário do irmão dele.

"Um desastre. Eu totalmente entendo o Cisco e sua aversão às festas de família." Ela suspirou. "Acho que eu preciso de uma bebida, depois de um dia como esse."

"Isso vai ser interessante." Movimentei as sobrancelhas sugestivo.

"Hahaha! Muito engraçado." Ela me fuzilou com os olhos. E eu sorri. Eu sempre sorria quando ela estava por perto.

"Quer ouvir algo mais engraçado?" Perguntei, me lembrando de algo que há tempos queria fazer. "Deixa só eu pegar meu celular..." Tateei meus bolsos e olhei ao redor, procurando pelo aparelho. "Tem como você ligar para ele?" Pedi. Caitlin pegou o seu telefone e apertou algumas teclas, segundos depois o som de Summer Nights enchia todo o ambiente.

"Barry, você é ridículo!" Caitlin protestou e revirou os olhos, mas eu vi que ela fazia um esforço descomunal para não rir. "Há quanto tempo você está espertando para fazer essa piadinha?"

"Algumas semanas." Admiti.

"Barry, Ginny!" Um policial desconhecido gritou. " Acabem logo o lanchinho de vocês. Temos evidência a caminho."

"Acho que essa é a minha deixa." Caitlin se levantou.

"Você não precisa ir." Eu disse, repentinamente. . Ela já estava mais do que acostumada com todo esse ambiente policial e, tratando-se de crimes, não havia segredos entre nós. Notei que Ginny me olhava.

"É, talvez seus conhecimentos fisiátricos sejam necessários." Ela me ajudou.

"Fica para a próxima." Caitlin sorriu. "Qualquer coisa só me ligar." Assenti. 'Qualquer coisa' era o nosso código para 'desastres e/ou bandidos que precisem do Flash'. "Ah, e Barry?" Ela parou na porta, com um sorriso no rosto.

"Sim."

"O toque do meu celular é o mesmo que o seu." Ela sorriu mais amplamente e meu coração falhou uma batida.

"Seria piegas demais eu estampar uma blusa com a sua foto e a da Caitlin e um coração no meio?" Ginny apareceu ao meu lado.

"Qual é o problema entre você e a minha vida amorosa?" Cruzei meus braços.

"Você é o único amigo que eu tenho por aqui. Só estou querendo ajudar."

"Caitlin é uma amiga."

"Assim com a Iris?" Ela arqueou uma sobrancelha.

"É diferente."

"Como?" Ela questionou. Suspirei. Ginny era uma amiga. E talvez fosse bom ter 'alguém de fora' para conversar.

"Eu sempre fui apaixonado pela Iris, eu nem me lembro de uma época em que eu não a amava." Comecei. "Mas, algo está diferente. É como se o encanto tivesse se quebrado, como se o pedestal tivesse desmoronado. Quer dizer, eu ainda a amo, mas..."

"Pela primeira vez você a ama apenas como amiga? "

"Acho que sim." Encolhi os ombros.

"E Caitlin?"

"Nós somos amigos." Reassegurei. "Ela cuidou de mim depois do meu acidente."

"Eu vi o jeito que vocês se olham." Ela pausou por um momento. "É como se a todo instante vocês partilhassem um segredo que é só de vocês. Eu acho que..." Ginny não conseguiu terminar a frase, já que um policial entrava no laboratório.

"O capitão quer que vocês analisem o conteúdo desse envelope. E façam um relatório de tudo o que encontrar: DNA, amostra de solo, de fibras, não interessa! Ele quer tudo o mais rápido possível" Ele ordenou, entregando o envelope.

Peguei um par de luvas, antes de retirar o envelope de dentro do saco de evidências. Parecia ser um típico envelope de cartas, se não fosse pela cor verde escuro.

"O que tem aí dentro?" Ginny perguntou, antes de eu abrir o envelope.

"Uma carta de baralho." Respondi, retirando-a com cuidado. Um coringa. Nesse momento, Ginny arfou ao meu lado. Seus olhos estavam arregalados e seu peito subia e descia rapidamente com a sua respiração.

"Ginny, você está bem?" Perguntei, preocupado.

"Não, eu só preciso...respirar." Ela se afastou de mim e foi para perto da janela.

"Você já viu isso antes?" Perguntei.

Ela apenas assentiu em resposta.