Capítulo 4
"O passado não pode ser curado." Rainha Elizabeth I
"Admiro o garoto." Rossi voltou á sala de reuniões segurando uma caneca fumegante de café, em seguida sentou-se em seu lugar e começou a beberica-lo. "Tem que ter muita força de vontade para fazer tudo o que ele fez."
Jennifer Jareau sorriu levemente. Sentia uma pequena pontada de ciúmes por Blake ter ido com Reid, e por passar tanto tempo sem ter o conhecimento de que Tobias ainda estava vivo. Talvez ele tivesse se sentido assim, quando ela e Hotch planejaram a suposta morte de Emily. A agente estava um tanto quanto abalada com tudo o que estava acontecendo e, somado ao fato de ficar fora e longe de Henry, ela sentia-se perdida. Queria estar lá para as festividades na escola do menino.
"Reid escolheu Blake porque ela o ajudou com Maeve, sabe?" Hotchnnet comentou ao ver o olhar distante da agente.
"Eu sei." Soltou um suspiro. "Apenas... Apenas gostaria que isto não exigisse tanto dele." Desabafou.
"Reid admira você, sabia?" David Rossi pôs a caneca sobre a mesa e encarou os olhos claros da agente. "Você cresceu como agente, JJ. E ele admira isso e almeja isso. Em uma conversa há algum tempo, Reid comentou algo que me fez questionar o por quê daquela reflexão, mas mordi a língua e decidi que não dizia a meu respeito e, muito menos, a minha curiosidade." O agente de traços italianos comentou de maneira casual. "Spencer disse-me uma vez, ou disse para si mesmo e eu ouvi, que comparava você a um vaso, foi você foi apenas riscada e não se quebrou ao cair."
"E ele se quebrou." Declarou ela por fim.
"Exato." Rossi assentiu no momento em que Morgan voltava a sala. "Eu não posso dizer pelo que o garoto passou, deve ter sido um inferno especialmente cruel; e ainda ver a moça o qual ele gostava ser assassinada bem a sua frente, também não ajudou."
"Reid vai precisar de você ainda." Hotch sibilou. "De todos nós, embora tenhamos visto o inferno que ele passou naquele dia com Tobias, você é a única que entende na pele, e ele vai precisar disso."
"Eu entendo." Ela assentiu. JJ tinha admiração por Spencer; gostava dele como um irmão e adorava suas explicações dificílimas sobre qualquer fato trivial ou, então, seus truques de mágica. Era um excelente padrinho para Henry, adorado por Will e, porque não, amado por ela, por isso sentia-se no dever de ajuda-lo. "Todas aquelas imagens..." Murmurou de maneira boba. "Oh, Rossi, não tem idéia de como foi ver tudo aquilo e não poder fazer nada."
"Eu não sei quem está fazendo isso, mas eu seria capaz..." Morgan bateu o punho na mesa, tremendo levemente.
"Precisamos encontrar Christine Beauford, e depressa." JJ alertou-os.
"Eu sei, mas precisamos saber o que Tobias sabe. Por hora, tomem um banho, descansem e nos encontramos aqui em uma hora." Hotchnner instruiu.
O percurso até o hospital psiquiátrico em Tobias Hankel estava internado, durou cerca de quarenta minutos, pois o centro de tratamento estava localizado do outro lado da cidade. No carro, enquanto Alex dirigia, Spencer mantinha a cabeça encostada no vidro e seus pensamentos o levavam para um lugar distante.
"Você é muito mais do que pensei que fosse." Declarou Alex Blake. "Há muito mais massa de liga aí, do que apenas tijolos, entende?"
Spencer ouviu e não respondeu.
"Existe uma parábola bíblica que diz para construirmos nossas casas sobre a pedra e não sobre a areia, pois a areia fará a casa afundar porque não tem fundação, e assim deveria ser nossa escolha sobre Jesus." Completou a linguista.
"Devo escolher Jesus, então?" Brincou ele.
"Você é forte, sabia? Está sustentado por muitas experiência melhor para este caso." Ela assinalou. "Mas não pense que deve fazer isso por conta de toda essa pressão. Seja apenas você."
Reid finalmente encarou-a com uma expressão suave. Blake entendeu que havia alcançado seu objetivo de fazê-lo entender e animá-lo.
"Eu ainda tenho cicatrizes, sabe..." Comentou. "Ás vezes esqueço delas, porém tem dias que elas parecem saltar da minha pele. Quando Maeve se foi, foi terrível. Tudo voltou."
Blake assentiu em silencio. Continuou pela saída da cidade até que, finalmente, eles vislumbraram a entrada do hospital psiquiátrico. Reid engoliu seco e preparou-se. Em poucos minutos já passavam pela segurança e identificavam-se, indo logo em seguida para a sala de espera.
Aquele era um hospital excelente que aceitara o caso de personalidade múltipla de Tobias como um desafio a ser cumprido. Nos últimos anos, o tratamento finalmente dera o resultado esperado e o paciente finalmente voltara a sua própria consciência, com seus próprios pensamentos e com a culpa de outras duas pessoas acumuladas. Na biblioteca do hospital, aquela destinada para os pacientes, estava Tobias, um livro e um guarda. Fazia alguns anos que Spencer não o via pessoalmente, fora o contato via telefone.
Tobias ainda mantinha a mesma aparência, mesma barba e olhos pequenos, estreitos que analisavam o ambiente a sua volta. Ele segurou a respiração, fechou as mãos em punhos quando vislumbrou o agente aproximando-se e encolheu-se em sua cadeira. Reid viu a si mesmo ali: um ser humano indefeso, encolhendo-se e evitando o contato visual, pois acreditava que isso acarretaria alguma punição.
— Boa tarde, Tobias. — Reid cumprimentou-o e sentou-se na poltrona a frente. — Essa é Alex Blake, do FBI.
— O que faz aqui? — Perguntou ainda acuado.
— Precisamos da sua ajuda em um caso, senhor Hankel. — Blake comentou. — Está em condições de nos ajudar?
— Talvez se eu ajuda-los a culpa que eu carrego diminua, certo? — Perguntou ele, esboçando um leve sorriso.
— Não tem mais conversado com Raphael e Charles? — Reid perguntou.
— Eles não aparecem mais. Meu pai está morto, descobri isso há alguns anos. — Ele mantinha uma expressão nula em seu rosto. — Não estou triste por isso, sabe? Estou aliviado, na verdade.
— Agora não precisa do dilaudid para se livrar dele, correto? — Spencer dizia casualmente, afinal conhecia Tobias tanto quanto conhecia a si mesmo e Blake não quis interromper aquela conversa.
— Alguém veio te visitar ou entrou em contato nos últimos dias? — Spencer Reid abriu um arquivo e fechou-o novamente. Achou melhor não mostrar as fotos para ele.
— Recebi uma carta de alguém que disse se chamar Raphael e ser meu fã. Disse que iria me tirar daqui e me libertar. — Comentou ele. — Infelizmente não tenho a carta, mas não pretendo deixar este lugar, Spencer Reid. Na carta dizia que em breve ele retornaria o contato.
— O que faremos? — Reid perguntou a Blake. — Precisamos encontrar Christine.
— Um suspeito sequestrou uma aspirante a agente do FBI e, tememos, que ele esteja fazendo o que você fazia. — Blake explicou.
— É uma armadilha. — Tobias arregalou os olhos e algo iluminou-se em seu olhar. — Não! Não! Ele disse que queria conhecer o sobrevivente ao anjo. Disse também que tudo deveria voltar para seus devidos lugares e ele deveria voltar para onde começou. E você vai até ele! Ele vai fazer o que fiz com você. O que fiz com você. Não! Não!
Tobias curvou-se e começou a fazer movimentos de vai e vem, para frente e para trás e, incessantemente, repetia a palavra "não". Os movimentos continuavam e ele tampava os ouvidos, mas só parou quando foi forçado a levantar por dois enfermeiros altos, que o levariam de volta para seu quarto, onde seria medicado. Reid e Blake concluíram que Tobias ainda tinha problemas para lidar com suas ações do passado e que elas causaram um tremendo estrago nele.
—Sobrevivente do anjo? Voltar onde começou? — Morgan ergueu uma sobrancelha quando ouviu tudo o que o mais novo dissera após voltar a central.
— Ele quer Reid. Isso é óbvio. — Rossi assinalou. — Quer você, garoto, provavelmente em troca da menina.
— Ele não vai trocar Reid por ela. — Hotch sibilou e encarou o mais novo. — Ele quer os dois. Quer saber se ele pode sobreviver a Raphael de novo e se consegue salvá-la.
— Mas porquê? — JJ indagou.
— Porque ele sobreviveu ao anjo também.
