III-Onde está Danonel?
Fui então tomar café da manhã e arrumar-me para ir para o colégio. Havia de fazê-lo com agilidade, pois chegara tarde demais em casa e teria que sair logo para não perder o ônibus para o colégio. Eu moro em um local deveras afastado, e se perdesse aquele ônibus, não iria conseguir outro para chegar a tempo no colégio.
Realmente, não fiquei para trás. Eu mal conseguia conter meus ânimos para ir ao colégio e encontrar com os Decrépitos. Talvez essa fora a primeira vez em minha vida que eu me senti feliz por ir ao colégio. Ou até mesmo verdadeiramente feliz durante minha vida inteira, tirando o momento que descobri o podcast. É impressionante como pequenas coisas podem mudar nossa vida para sempre e nos mostrar que na verdade nós podemos ser psicopatas latentes em prol de defender algo que realmente amamos. Acho que os jovens de hoje em dia chamam isso de yandere.
De qualquer forma, tomei meu café e vesti meu uniforme de colegial japonesa que está super em alta hoje em dia. Botei lacinhos vermelhos em meus cabelos e fui para o ponto de ônibus, claro, ouvindo o podcast.
Chegando lá, havia um grupo de garotas e todas olhavam para mim. Riam de minhas meias com o logo do Decrépitos estampado. Perdoem-nas mestres, elas não sabem o que fazem. Se ao menos ouvissem um episódio, saberiam que isto que faço por vocês é pouco, comparado com o que muitos outros fãos fazem. O ônibus demorava a chegar e eu só tinha que aguentar mais comentários maldosos daquelas meninas. Eu já estava a um fio de perder a calma e mandar links das princesas Disney para elas, mas então o ônibus chegou e eu entrei, enquanto elas ficaram de fora, pois o motorista quis bolinar somente a mim e não elas.
Chegando ao colégio, corri para a sala e sentei-me no mesmo lugar de antes, esperando que meus musos chegassem e me tirassem da eterna tristeza de minha vida e me parabenizassem pelo sacrifício que eu fizera para eles. Infelizmente, isso não ocorreu. Eu fiquei em meu canto, sem ninguém para me animar. Acho que eles nunca passaram por aquela porta, era tudo somente um delírio juvenil que eu tivera, após escutar o podcast por noventa e três horas consecutivas.
Botei então meus fones de ouvido, dei play no podcast e pus-me a olhar pela janela. Engoli o choro. Sabia que eu deveria ser forte, e não queria novamente tornar-me a chacota do colégio. Fiquei assim por quase todas as aulas, refletindo sobre a vida e esperando que miraculosamente, eles chegassem juntos, atrasados. Com aquela quente risada do Mordente que enchia meu peito de calor e esperança, e ao mesmo tempo, meus genitais de sentimentos jovens e impossíveis de serem ditos na televisão aberta.
Foi então que por um lapso de tempo, ou melhor, um fim de episódio, que eu virei-me para frente e pus-me a assistir a aula. Era história. E tinha certeza de que o João poderia falar da Mesopotâmia de uma forma bem mais interessante. Resolvi então copiar a matéria, e foi neste momento que eu então me lembrei da borracha com o número do zap zap do João.
Peguei a borracha e o número continuava lá, intacto. Isso prova que não foi delírio, e que eu não estava precisando ir procurar neurologistas. Rapidamente saquei meu celular de meu bolso e adicionei o número de João em meus contatos, mas infelizmente, eu não sabia como escrevê-lo uma mensagem. Eu ficava escrevendo mensagens longas, mas acaba julgando-as bobas e as apagava e começava a escrever outra. Queria morrer neste momento. Odeio esta ansiedade besta. No final, acabei mandando somente uma mensagem escrita:
-Esse número é do Sir João Carvalho mesmo? – E por pouco eu quase não enviara, mas eu senti que precisara fazer isto logo. Após cerca de dez minutos recebi a seguinte resposta:
-Aqui é o Daniel. Desculpa o incômodo, o João tem o hábito de zoar comigo e passar o meu telefone para todos fingindo que é o dele. – Por poucos instantes, eu não conseguia respirar, meu coração palpitava e as palmas de minhas mãos suavam. Como assim o Daniel havia me respondido? E de forma tão agradável! – Esse é o número dele de verdade. – E então me mandou o número do João. Embora eu tentasse começar a puxar assuntos com ele, ele não respondeu mais.
As aulas acabaram e eu fui para casa. Passei a tarde então tentando falar com Daniel e mandando mensagens sem respostas para o João. Parecia até que estavam querendo brincar com a minha cara, mas eu os amo, e insistirei para ter o amor deles, como um bom personagem maníaco. Após algumas horas, finalmente tive uma resposta do João, perguntando-me:
- De quem é este número? – Novamente eu não conseguia respirar, comecei a ter palpitações e as palmas de minhas mãos pareciam mais certas lagoas. Comecei a novamente escrever mensagens e apagar também, até que finalmente o respondi:
- Eu admiro muito você e os outros Decrépitos. Estou na turma de vocês no colégio. – E no mesmo momento que eu enviei minha mensagem chegou outra dele:
- Olha, me desculpa, eu estou procurando um amigo meu e estou meio nervoso, não dá para falar direito agora. – Eu então comecei a desenvolver certa preocupação. Acabei por perguntar:
-Quem sumiu? Fora alguém do Decrépitos? O Zaro? Maurício? Gus? Zamiliano? – Até que por fim ele me respondera com um áudio, soando muito fatigado e preocupado:
-O Daniel sumiu e ninguém sabe por que. Ele não falou com ninguém e nem deixou avisos, estamos todos preocupados e à procura dele. Não haverá mais podcast se ele não aparecer. Desculpa se eu acabar não respondendo suas mensagens.
Fiquei então em posição fetal por alguns minutos e não sabia o que fazer. Como assim o Daniel havia sumido? Ele havia me respondido hoje mais cedo! Levantei-me então, penteei meus cabelos e mandei uma mensagem:
- Onde estás procurando por ele? Irei até o local ajuda-los. Preciso de Decrépitos na minha vida.
E após alguns momentos João me respondeu:
- Estamos indo em direção à casa de swing favorita dele para nos reunir. Fica meio afastada do centro, mas eu irei te mandar um print do mapa. O nome é a Dama da Pica de Borracha.
Quando João mandou aquele nome, eu já sabia para onde ir, era a cerca de vinte minutos de minha casa e em um passado não muito distante eu havia trabalhado lá, limpando tubos de enema.
Fui correndo ao local indicado e chegando lá, explodi-me em lágrimas. Estava mais feliz do que pinto no lixo, ou em uma bunda apertadinha mesmo, pois havia finalmente tocado no João e no Mordente. Também conheci uma galerinha bem interessante que estava ajudando eles, que se intitulavam os illumigavs, e sua marca era o V de vacilo. Conheci o menino vaporwave, Liro. O metaleiro de madeixas curtas Gabriel, e a pessoa mais overrated na pracinha, a Marimil. Mas este não era, infelizmente, um momento para comemorações, precisávamos achar o Daniel, e cada minuto poderia ser decisivo, que nem num episódio de 24 horas.
Dividimo-nos em grupos e fomos à procura de Daniel. Saímos berrando o nome dele por aí que nem como em filmes de cachorro quando o cachorro some, e enchendo o saco dele possivelmente travando suas redes sociais e seu celular de tantas mensagens enviadas.
O desespero tomava a todos.
Queríamos somente que o Decrépitos continuasse operando e postando episódios maravilhosos todas as terças-feiras.
Fora então que houve a ideia genial! Sentamo-nos no meio fio e começamos a olhar na pracinha todas as hashtags que haviam postado se referindo ao Daniel. Sabíamos que em algum momento, assim como um astrólogo acha respostas sem sentido, mas que batem com alguma coisa olhando estrelas, que nós iríamos achar alguma resposta nas hashtags. Após cerca de vinte minutos, achamos uma trilha virtual de pozinho de Doritos e resolvemos lambê-la do dedo da internet.
No final, acabamos nos encontrando com uma figura incrivelmente enigmática. Era um ser polimorfo e transdimensional, que passava frases de sabedoria em momentos aleatórios. Refiro-me à Verdiscleide Oliveira. A representação do saber máximo presente na pracinha.
Acabamos recebendo certas dicas, levemente disléxicas, de onde encontrar o menino Daniel Bayer. Eu estava em estase. Imaginava o momento que aquele belo sorriso colgate iria se virar em minha direção e que eu poderia falar de todo meu amor para ele.
Foi então que Mordente recebeu um áudio no zap zap dele, algo que soava como gemidos abafados.
Ficamos todos assustados, com medo de Daniel ter sido raptado e poder estar sendo sexualmente abusado por algum louco quaisquer. Foi então que com ferramentas de hacker, conseguimos rastrear o sinal que enviou aquela mensagem, tipo naqueles filmes de ação que não são nada realistas, e isso nos levou até a casa dele.
A porta estava aberta. Entramos todos juntos, e até mesmo, como em filme de comédia, ficamos imprensados na porta, no melhor nível de o gordo e o magro. Após todos estarem dentro, começamos a vasculhar a casa inteira, desde embaixo de móveis, dentro de armários e até mesmo, dentro de ralos. Nunca se sabe quando alguém é o homem-formiga e encolheu seu tamanho, não é mesmo?
Novamente começamos a ouvir aqueles gemidos abafados, mas dessa vez não proviam de celular algum, e sim do porão. Ficamos todos assustados e com medo de algum malfeitor estar machucando o Daniel. Todos então se armaram com o que podiam. Alguns mandaram a hashtags bençãoDalesteeterno para poder receber proteção. E o mais bem armado era João, que agora estava descalço e estava utilizando suas chinelas raider como armas de destruição em massa.
Em certo ímpeto, como criaturas no magic, assim que entrei em campo corri em direção à porta do porão e a abri, enquanto em minha outra mão eu segurava uma vassoura. Dei um grito imenso lá para dentro então todos desceram as escadas arremessando tudo que possuíam em mãos.
Por um minuto o silêncio pairou no ar.
Todos então se retiraram do porão e ficaram esperando Daniel ir para o quintal da casa, assim como nós fomos.
Após alguns minutos, quando Daniel finalmente saiu, estava furioso conosco. Ele já havia editado o episódio e o bastidor da semana e iria postar ainda na segunda-feira por causa disso, e já que ele não tinha trabalho, estava aproveitando para ter um momento mais íntimo com vídeos adultos e nós havíamos estragado isso. Tenho medo de ele estar me odiando por causa disso agora, visto que entrei antes de todos os outros. Entretanto, não posso negar minha vontade de ter começado uma orgia cerimonial para Baco naquele momento.
Espero que ele ainda volte para a pracinha depois disso.
