Episódio 14- "Aprendendo a confiar"
Sinopse: Jack está magoado com Kate, acreditando que ela o traiu fazendo um pacto com os Outros, por isso a tranca na Escotiha aos cuidados de Mr. Eko. Kate acaba confessando a Eko que foi sondada pelos Outros na noite em que desapareceu.
Censura: T.
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Não demorou muito e Jack a alcançou apesar da rapidez com que Kate corria. Suas pernas fortes e musculosas acostumadas a correr quilômetros em arquibancadas de estádio não encontraram nenhuma dificuldade para alcançar a esguia Kate.
- Kate, Kate.- ele gritou segurando o braço dela com força, mas sem machucá-la.
- Não, Jack. Me deixa! Me deixa!- ela gritou também, soluçando, o rosto vermelho.
- Não, você vai me ouvir.- ele falou sério, mas dessa vez abaixando a voz.
Ela puxou o braço da mão dele e deu um passo pra frente, pisando em alguma coisa. Gemeu de dor:
- Ai! Que inferno!- queixou-se.
- O que foi?- Jack indagou preocupado.
- Eu não sei!- ela respondeu grosseiramente.
- Me deixa ver isso!- ele pediu com a voz branda.
Kate ficou parada, sem fazer objeção. Não sabia no que tinha pisado, a sensação era de que seu pé estava em chamas. Jack abaixou-se e fez um gesto para que ela se apoiasse nele. Levantou o pé esquerdo dela, estava sangrando e tinha um espinho enfiado.
- Não devia ter saído correndo sem os sapatos, você acaba de furar o pé num espinho.
Ela continuou em silêncio. Jack a surpreendeu levantando-a do chão e carregando-a em seus braços.
- Precisamos lavar isso para que eu possa tirá-lo.
Kate mordeu os lábios, estava sentindo muita dor, mas segurou as lágrimas mesmo assim, não queria parecer fraca aos olhos dele. Jack a carregou de volta até a cachoeira, sentou-a numa pedra e com as mãos em forma de concha trouxe água do lago para lavar o ferimento.
- Agora eu vou puxar o espinho, está atravessado...vou ter que dar uns pontos na escotilha. Mas por ora, vou puxá-lo.- ele a fitou nos olhos. – Vai doer, quer segurar a minha mão?
Ela balançou a cabeça afirmativamente em resposta, como uma menina assustada que tinha acabado de fazer uma travessura e recebia uma bronca do pai. Jack estendeu a mão esquerda pra ela, que a segurou bem forte; com a direita ele pôs-se a puxar o espinho com cuidado. Kate fechou os olhos, estava ardendo bastante. Ele continuou puxando até que o espinho saiu jorrando um pouco de sangue na mão dele. Kate estremeceu. Jack beijou a mão dela:
- Pronto, vai ficar tudo bem agora.- ele disse carinhoso.
Ao vê-lo tratando-a com tanta ternura, Kate desabou de vez e começou a chorar sem controle, não chorava por causa do espinho, e sim porque se sentia culpada. Jack limpou a mão suja de sangue na própria calça e a abraçou bem forte, passando as mãos pelas costas dela, confortando-a. Ficaram assim por alguns momentos, até que ela se acalmou.
Ele então se apressou em calçar os sapatos e vestir sua camisa. Arrumou a arma cuidadosamente no cós da calça e voltou a pegar Kate no colo. Ela ia protestar, mas ele assegurou:
- Nada disso Kate, eu sou o médico aqui. E agora, você vai ficar bem quietinha que eu vou te levar pra escotilha e cuidar do seu ferimento.
- A mochila...- ela pediu apontando para sua mochila escorada em uma das pedras, resolveu não contrariá-lo, não queria que as coisas ficassem piores do que já estavam.
Jack assentiu e a colocou sentada na pedra momentaneamente, apenas para pegar sua mochila e colocá-la nas costas. Depois disso seguiu com ela nos braços para a escotilha.
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O sol estava muito quente na praia, já passavam das três da tarde. Sawyer havia adormecido encostado em uma árvore próxima a barraca de Dylan enquanto vigiavam, nem notou que Ana-Lucia saíra por uns momentos para pegar água e algo para comerem.
As pessoas haviam definitivamente se afastado de lá, a curiosidade já os deixara. Retomaram suas atividades normais do dia. Apenas Tina permanecia soturna em sua barraca, sequer quisera comer apesar da insistência de Aline.
Sayid e os outros ainda não tinham voltado, e Shannon resolvera tomar conta de Aaron para passar o tempo enquanto Claire lavava a fraldas dele. Sawyer estava em sono profundo quando sentiu um carinho gostoso no rosto, esboçou um sorriso:
- Ana? Que jeito bom de me acordar...
O carinho tornou-se mais selvagem e Sawyer sentiu uma língua pegajosa nos lábios, abriu os olhos, assustado: - Mas o que...
Deu de cara com Vincent em cima dele lambendo-o, e Ana-Lucia de pé diante dele, morrendo de rir.
- Uh!- disse Sawyer limpando a boca com nojo. – Acha isso muito engraçado, não é Lulu?
- Hilário!- ela respondeu ainda rindo, afastando Vincent e sentando-se ao lado dele. – Eu trouxe água e peixe pra você.
- Fast Food? O que eu fiz pra merecer tanta bondade, docinho?
Ela franziu as sobrancelhas: - Nada demais, apenas estou começando a gostar da sua companhia.
- Mesmo?- ele indagou debochado, voltando os olhos azuis pra ela. Mas Ana não estava rindo, seu olhar tinha outra expressão. Sawyer sentiu um arrepio involuntário, uma sensação gostosa de ansiedade na boca do estômago. – Passa esse peixe pra cá, acho que estou começando a delirar de fome, já estou até começando a achar que estou apaixonado por você.
Ana-Lucia mordeu a ponta da língua em uma expressão divertida, e sorriu:
- Então talvez o peixe esteja "batizado", porque acho que estou sofrendo do mesmo delírio.
Sawyer a encarou, o coração aos pulos, ia dizer alguma coisa, mas seus pensamentos foram interrompidos pelos gritos de Charlie:
- Gente, Sayid está volta com Desmond e Michael...
Ao ouvir o grito de Charlie, Shannon entregou o bebê para Claire e saiu correndo na direção do marido. Sayid a abraçou e beijou-lhe os lábios ternamente. Desmond comentou consigo mesmo:
- A vida é ingrata, chego e não tenho ninguém pra me receber! Onde está a minha garrafa de uísque?
Michael riu do comentário de Desmond e depois correu para abraçar o filho que já vinha até ele. Os demais também se aproximaram. Sawyer perguntou:
- E então? O que descobriu?
- Por incrível que pareça, Rosseau foi objetiva. Disse que o mais provável é que os culpados pela morte do Dylan sejam os "Outros".- disse Sayid.
- Mas e a contaminação?- questionou Craig.
- Devemos apenas ficar alertas, nada mais. No momento, a contaminação é a última coisa que temos para nos preocupar.
- Então é isso?- esbravejou Tina. – Dylan morreu e ninguém vai fazer nada. Jack fica mentindo que estamos seguros, mas isso não é verdade. Muitos já morreram, quantos mais precisarão morrer para que alguém tome uma atitude?
- Acalme-se Tina.- pediu Aline que estava ao lado dela.
Sayid deu a Tina um olhar de compreensão, e disse: - Não se preocupe Tina, a morte do Dylan não está sendo ignorada, tomaremos providências. Vamos pôr o acampamento sob vigilância outra vez.
- Não importa, só quero enterrá-lo, me despedir dele.- Tina falou, o semblante triste, lágrimas tomando-lhe os olhos.
Aline amparou-a. As pessoas começaram a dispersar novamente.
- Eu vou voltar pra minha barraca.- Tina comentou, enxugando as lágrimas.
- Quer que eu vá com você?- perguntou Aline.
- Não, preciso ficar sozinha. Quero me preparar pro enterro, pensar nas palavras que vou dizer.
Ela saiu andando cabisbaixa, todos a olhando com pena. Aline também estava muito preocupada com ela, no entanto outras coisas passavam por sua cabeça.
- Ele vai beber outra vez?- perguntou para Rose que estava ao seu lado.
- Quem?
Aline apontou para Desmond caçando uísque em sua barraca.
- Será que ele almoçou?
- Provavelmente não Aline. Acabaram de voltar de uma missão.
- Eu vou perguntar se ele quer comer alguma coisa.- ela disse por fim e saiu caminhando na direção de Desmond.
Rose sorriu e comentou consigo mesma: - O amor está no ar nesta ilha estes tempos. E voltou seus olhos para Sawyer e Ana-Lucia que conversavam com Sayid. Ana segurava a ponta dos dedos de Sawyer discretamente, balançando a mão.
- E como serão esses turnos? 4 horas? 6 horas?- indagou Craig.
- Algo assim, temos que decidir quem vai participar, distribuir as armas. Mas só faremos isso depois do enterro do Dylan. Precisamos falar com o Jack, onde ele está?
- Foi pra escotilha com a Kate, Sayid.- disse Ana. – Vai voltar mais tarde pro enterro.
- Está bem, conversaremos sobre isso mais tarde. Posso contar com vocês dois?
- Mas é claro que sim, Alladin.- respondeu Sawyer.
- Comigo também.- assentiu Ana-Lucia.
- Então acho que posso dizer que a guerra está declarada!- anunciou Sayid.
Locke assustou-se ao ver Jack chegar com Kate em seus braços na escotilha. Imaginou logo que ela havia passado mal outra vez. Preocupou-se, suas teorias estariam certas a respeito da contaminação? Jack olhou para Locke, e notando o que se passava em seu semblante foi logo dizendo:
- Ela está bem, apenas furou o pé em um espinho.
Ele a pôs no chão, seus braços estavam cansados de carregá-la. Kate saiu pulando em um pé só até a cadeira mais próxima.
- Está doendo muito?- indagou Locke apontando para o pé ensangüentado dela.
- Vou sobreviver.- disse com um falso sorriso.
Locke percebeu que os olhos dela estavam vermelhos de chorar, mas não fez nenhuma pergunta sobre o motivo.
- Droga!- esbravejou Jack. – Esqueci minha maleta na praia.
- Você quer que eu vá buscar, Jack? Vou num pé e volto e volto em outro.
- Não John, obrigado. O que tem no armário deve dar para cuidar do corte.
- Estão com fome? Eu preparei um pouco de arroz, feijão, peixe e salada com alface da horta da Sun. Está muito bom.
- Sim, Kate precisa comer.- falou Jack separando álcool, gaze, esparadrapo, agulha e linha.
- Você não vai comer?- ela perguntou timidamente, estava envergonhada por ter gritado com ele na cachoeira.
- Não, estou sem fome.- ele respondeu.
Se aproximou dela e começou a curar o ferimento. Estava doendo, mas ela não se queixou, o que doía mais era estar brigada com Jack. Não queria ter reagido daquela forma. Mas odiava quando ele desconfiava dela, tinha culpa no cartório era verdade, mas sua culpa não era um fator de 100. Não se lembrava mesmo de muita coisa daquela noite.
Jack terminou de tratar o corte, suturou-o e fez um curativo. Depois trouxe um copo de água e um comprimido.
- È um anti-inflamatório, por precaução.
Kate aceitou sem objetar. Ele foi até a cozinha, pegou um prato e colocou caldo de feijão, um pouco de arroz e cuidadosamente com um garfo separou as espinhas do peixe e levou até ela.
- Também não tô com fome!- ela disse afastando delicadamente o prato.
- Nada disso. Eu sou o médico aqui, coma, isso é uma ordem.- ele encheu a colher com a comida e levou diretamente em sua boca. Kate comeu, sentindo-se um pouco embaraçada com a presença de Locke, que observava tudo fingindo ler um livro que havia pegado na estante da biblioteca.
Ela comeu mais umas três colheradas e fez sinal com a mão de que estava satisfeita, Jack recolheu o prato e lhe entregou um copo com água. Enquanto ela bebia observou que Jack enchia sua mochila com duas garrafinhas de água.
- Aonde você vai?- ela perguntou.
- Vou voltar pra praia, devem estar precisando de mim por lá.
- Vou com você!- ela disse, não queria ficar longe dele.
- Não Kate, você fica aqui com o Locke. Vai cuidar dela, John?
- Mas é claro.- ele respondeu.
Kate zangou-se: - Eu não preciso que ninguém cuide de mim!
- Tudo bem Kate. Vá em frente, me odeie se quiser. Mas você vai ficar aqui com o John, nem que eu tenha que te amarrar e te trancar no depósito de armas.
Ela elevou a sobrancelha, surpresa com as palavras dele.
- Ainda está achando que eu menti pra você?
- E não mentiu?
Kate não soube o que responder.
- John, vou voltar para a praia. Sayid já deve ter retornado, preciso saber como estão as coisas.
- Certo, Jack.
- Como você sabe que eu não vou sair daqui depois que você for? O Locke não vai me segurar.
- Porque o Locke não vai ficar vigiando você por muito tempo.
Locke sorriu: - Isso mesmo, o próximo turno é do Eko, e ele já deve estar chegando.
Nesse momento, Eko chegou na escotilha e saudou a todos:
- Olá.
- Olá, Eko.- falou Jack.
- Então agora eu sou uma prisioneira?
- O que está acontecendo?- indagou Eko vendo o quanto Kate estava tensa.
- Eko, preciso que tome conta da Kate pra mim. Pode fazer isso? É que ela tem uma tendência natural de se meter em encrencas.
- Se é o para o bem dela, com muito prazer. Te garanto que ela não sai daqui.
- Ótimo.- falou Jack. – Nos vemos mais tarde Kate, não esqueci aquele assunto. Vem comigo John?
Locke o seguiu e os dois saíram da escotilha. Eko sorriu para Kate que respirou fundo, irritada e frustrada.
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- Jack, se importa se eu perguntar o que está acontecendo?
Ele que ia caminhando um pouco a frente de Locke parou e olhou-o:
- Se está falando sobre o Dylan, sei tanto quanto você. A minha esperança é falar com o Sayid pra saber o que descobriu, ter uma idéia sobre com o que estamos lidando.
Locke balançou a cabeça e deu aquele seu sorriso enigmático.
- Não Jack, não estou falando do Dylan. Estou falando da Kate.
- A Kate está bem.- ele respondeu já voltando a caminhar, não queria prolongar aquela conversa.
- Pois não parece Jack.- Locke insistiu. – Se isso fosse verdade você não estaria tão preocupado em mantê-la na escotilha sob vigilância.
Jack parou novamente ao ouvir as palavras de Locke e passou as mãos pela cabeça, apreensivo.
- Acha que estou escondendo algo importante de você John?
- Não estou achando Jack, tenho certeza. Você quer proteger a Kate, mas ao mesmo tempo tem dúvidas se está fazendo a coisa certa. Trancá-la na escotilha foi somente um meio de ganhar tempo. Por que não se abre comigo? Depois de todo esse tempo, por que ainda não confia em mim?
- Discrição John, já conversamos sobre isso. Não creio que eu precise contar pra você sobre os problemas que eu possa ter ou não com a Kate. Isso é pessoal.
- Desde que esses problemas não afetem o grupo, tudo bem. Não estou me intrometendo no seu "romance".
Jack fez cara de desentendido: - Do que está falando John?
- Deixa pra lá Jack, estou apenas te alertando para que não tome decisões pelo grupo, você e a Kate não estão sozinhos nessa ilha.
Locke não falou mais nada, continuou andando em direção à praia. Jack o seguiu, não disse nada também. Mas estava muito zangado e confuso, as palavras de Locke pioraram ainda mais as coisas. Afetar o grupo? E se Kate tivesse mesmo feito algum tipo de acordo com os "Outros"? Ele não sabia do que ela era capaz, por mais que ele negasse eram estranhos um ao outro. "Mas eu a amo", disse em pensamento. O que fazer? Trancou-a na escotilha porque queria protegê-la e também porque precisava de respostas. Estava decidido, logo após resolver tudo o que precisava na praia, voltaria para a escotilha e convenceria Kate a dizer a verdade.
- Certo, então o Steve, Craig e Nilson vão montar guarda do lado direito. Sawyer, Ana Lucia e eu vamos ficar com o esquerdo. Frogurt, Philip e Andrew com a retaguarda.- falava Sayid distribuindo os grupos que ficariam de vigia à noite.
- E quanto a mim? Eu também quero participar.- disse Desmond.
- Que ótimo Forrest Gump.- falou Saywer. – Pode se juntar a nós desde que esteja sóbrio.
- Tudo bem, brotha, eu fico sóbrio, desde que você troque de grupo, vai conseguir vigiar com sua namorada?
Ana-Lucia franziu as sobrancelhas: - Quem é namorada de quem?
Antes que Desmond e Ana-Lucia começassem a discutir, Sayd interveio:
- Vamos nos concentrar em nossa missão, deixemos essas bobagens de lado. Desmond contamos com sua ajuda então, você pode vigiar com Michael e Eko, passarei a informação pra ele quando voltar da escotilha. Os turnos serão de quatro horas, um dorme, dois vigiam depois troca.
Todos assentiram.
- E as armas?- indagou Ana-Lucia.
Sawyer esboçou um sorriso: - Com ela é tudo ou nada.
- Irei à escotilha mais tarde buscá-las para que sejam distribuídas no grupo. Alguém se habilita em ir comigo?
- Eu vou.- falou Ana-Lucia, um sorriso de contentamento no rosto, só se sentia realmente viva quando pegava em armas.
- Então eu vou também!- avisou Sawyer.
- Já estão começando a tomar decisões erradas?- perguntou Locke que vinha chegando na praia com Jack.
- Decisão errada?- questionou Sayid. – Um dos nossos foi morto, precisamos tomar providências para que não aconteça outra vez.
- Encontraram a Rosseau?- indagou Jack.
- Sim, ela não está muito certa que seja contaminação, falou que isso é coisa dos "Outros".
- Então ela deve ter razão, Tom apareceu na cachoeira esta manhã. Acho que estão tentando nos distrair.
Ao ouvir o que Jack dissera, Locke irritou-se:
- Isso foi discrição também, Jack? Por que não me contou sobre o Tom? Tem algo a ver com a Kate?
- Não tem nada a ver com a Kate.- Jack falou irritado. – E pelo que me consta, Sayid tem razão, temos que tomar providências. Lutar pela nossa sobrevivência nessa ilha, nem que para isso tenhamos de iniciar uma guerra.
- Viva a revolução!- gracejou Sawyer. – Pode contar comigo doutor.
Ele estendeu a mão para Jack, que a apertou. Ana-Lucia colocou sua mão sobre a de Sawyer, Sayid colocou a sua sobre a dela e todos os outros fizeram o mesmo, formando um círculo.Os olhares se entrecruzando, todos dispostos a lutarem até o fim por suas vidas.
- Ótimo.- disse Locke batendo palmas. – Fiquem aí brincando de Power Rangers, mas digo que se os "Outros" estiverem mesmo envolvidos nisso, não será assim tão simples derrotá-los, é mais fácil que matemos uns aos outros primeiro.
Kate, apesar do pé machucado, andava de um lado pro outro na escotilha, como um tigre enjaulado no zoológico. Estava furiosa com Jack por tê-la deixado ali como uma prisioneira. Enquanto andava sua mente bolava mil e um planos mirabolantes para enganar Eko e sair dali. Como quem estivesse lendo seus pensamentos, Eko falou com sua costumeira calma, enquanto escrevia mais palavras no seu "Cajado de Jesus".
- Nem pense em tentar nada, Kate.
- Como?- ela indagou.
- Sei que está tentando encontrar um jeito de sair daqui, mas te asseguro que não vai conseguir. Dei minha palavra a Jack que te manteria aqui até que ele voltasse.
Ela fez cara de irritação: - Isso é tão injusto! Jack não pode me prender aqui, não sou propriedade dele. Você que é um padre, jamais deveria ter aceitado isso. Prender alguém assim contra a vontade, com ameaças.
- Não lembro dele ter ameaçado você, acho que está te mantendo aqui por um bom motivo. Jack é um homem bom, não cabe a mim questioná-lo.
- Pode ser, mas ele não tem o direito de me prender!- ela gritou, estava enlouquecendo, odiava se sentir presa era o que mais temia na vida.
- Mas mesmo que saia daqui, Kate, e corra por toda essa ilha, atravessando o oceano até voltar à civilização, você vai continuar presa.
- Do que está falando? Presa? Como?
- Seu coração Kate, você está presa ao Jack e teme por isso. Sua natureza de querer fugir entra em conflito com esse sentimento de se sentir presa a alguém.
Kate puxou uma cadeira e sentou-se próxima de Eko.
- Se sabe tanto ao meu respeito, e é um homem de Deus, pode ouvir minha confissão, Mr. Eko?
Eko sorriu para Kate e falou com ares de um sábio:
- Meu irmão Yemi costumava dizer que a confissão só é válida se o pecador está totalmente arrependido.
Kate estava séria, com um olhar angustiado. Arrependimento? Talvez essa palavra fosse pouco para definir o que realmente sentia em relação aos seus erros.
- È mais do que arrependimento...
- Então é um desejo de mudança. Isso é muito bom. Sinta-se à vontade para me contar o que quiser, tudo o que disser será segredo de confissão, não se preocupe.
Ela respirou fundo e começou: - Me perdoe padre, porque eu pequei. Faz muito tempo que não me confesso...
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(Flashback)
2 dias atrás
Uma voz feminina rouca interrompeu o momento sublime dos dois.
- Doutor?- a mulher indagou ao ver Jack e Kate juntos. – Se estou interrompendo alguma coisa, eu posso...
Antes que Rose terminasse de falar Kate a cortou.
- Não Rose, o Jack já terminou de fazer o curativo no meu braço, eu já estava indo para a praia.
- Ah sim, claro- Rose falou aproximando-se de Jack. – Doutor eu ando com muita dor- de- cabeça , será que o senhor...
Kate deixou a escotilha sorrindo, se sentia flutuando por entre as nuvens. Jack era um dos homens mais maravilhosos que já conhecera, o gentleman que todas as mães sonhavam para suas filhas. Mas o que estava pensando? Kate repreendeu-se mentalmente. Talvez estivesse enxergando coisas onde não existiam, ele só estava sendo gentil, nada demais, ele era médico, tinha que cuidar de todo mundo. Mas e quanto aqueles olhares que ela pegava ele fazendo de vez em quando? Interesse profissional? Longe disso. Kate riu. Jack cuidava de todo mundo, ela queria que ele "cuidasse" dela.
- Mas o que eu estou pensando?- falou para si mesma. – Hum, como eu queria sentir aqueles braços fortes ao redor da minha cintura...aqueles lábios...
Ela caminhava vagarosa e displicente pela mata de volta à praia, fantasiando sobre Jack, nem percebeu que estava sendo seguida. Três homens descalços e maltrapilhos a estavam seguindo já fazia uns dez minutos.
De repente, um farfalhar de folhas a tirou de seus devaneios e deixou-a atenta. Porém, Kate nem teve tempo de se defender, eles chegaram rápido e aplicaram algo na jugular dela com uma seringa, arrastando-a para dentro da floresta.
(Fim do Flashback)
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- E é só disso que você se lembra quando esteve desaparecida?- indagou Eko, muito interessado na história dela.
- Não, depois disso eu me lembro de ter acordado em uma sala ampla, com muitas luzes em cima de mim, amarrada em uma espécie de divã. Me sentia zonza e muito confusa. Foi quando vi Tom e Henry. Eles estavam olhando atentamente pra mim. Eu era como uma cobaia ou algo assim. Tom perguntou pra mim se eu ia colaborar. Eu não sabia do que ele estava falando. Henry disse que ia refrescar a minha memória e falou sobre o trato.
- Então o trato de fato existiu?
- Eko, por favor não pense que eu concordei. Eu estava drogada e...bem, eles ficaram lá fazendo um histórico sobre a minha vida. Eu sou uma criminosa...
Lágrimas começavam a rolar pelos olhos de Kate, Eko tocou o ombro dela, confortando-a: - Todos somos pecadores Kate, mas Deus sempre perdoa os arrependidos de coração.
Ela continuou:
- Henry disse que existiam possibilidades de sermos resgatados, pois foi detectada uma transmissão de rádio não muito longe da ilha, que era só uma questão de tempo. E que se fôssemos resgatados eu seria imediatamente presa. Sei que mereço isso, mas tenho tanto medo da prisão.
Eko a ouvia atentamente, no rosto uma expressão calma e compreensiva. Não questionou em nenhum momento o que ela havia feito, para ele só Deus tinha o direito de julgar sua criação.
- Foi quando eles me propuseram o tal trato. Me tirar daqui dessa ilha com uma ficha limpa, para que eu nunca mais precisasse fugir.
- Eu acredito que isso tinha um preço, estou certo?
Kate respirou fundo: - Sim, tinha. Eles queriam que eu entregasse o Jack pra eles. Que eu arquitetasse um plano para enganá-lo e afastá-lo do acampamento.
- E você aceitou?- perguntou Eko, muito sério.
- Não!- ela respondeu nervosa, quase gritando. – Não faria isso nunca, eu amo...quer dizer, eu gosto do Jack, ele é meu amigo, eu não o trairia, nunca. Mas eles não gostaram da minha negativa, e me drogaram outra vez. Depois disso não lembro de mais nada, só de ter acordado com o Jack em uma caverna. Ele disse que me encontrou na floresta, que eu estava delirando e com muita febre.
- Mas se você não concordou com o trato, por que mentiu para o Jack?
- Por medo. Jack sabe que sou uma criminosa, vive dizendo que não me conhece, que não sabe do que sou capaz. Isso magoa, queria que ele confiasse mais em mim.
- Kate, confiança não é uma coisa que surge do dia para a noite, é tudo uma questão de aprendizado. Quer que o Jack confie em você, confie nele também.
Kate sorriu, as palavras de Eko trouxeram-lhe esperança.
Na praia, as pessoas começavam a preparar o cortejo de Dylan. A tarde estava triste, apesar de ainda serem cinco horas o sol já estava começando a desaparecer. Jack estava quieto, sentado na beira da praia pensando em Kate, as palavras "eu te odeio", ecoando em sua mente, doendo no peito. Tinham um problema, se ela o odiava, ele a amava ainda mais, não conseguia fugir disso. Queria tê-la em seus braços outra vez, amá-la até esquecer de tudo e todos à sua volta. Sayid se aproximou dele:
- Jack, Eko ainda está na escotilha? As pessoas já estão indo para a igreja, ele precisa rezar a missa para que o corpo de Dylan seja enterrado. Você vai até a escotilha avisá-lo? Precisamos pegar as armas também, podemos ir juntos.
- Não Sayid, não quero ir pra escotilha agora. Você vai ter de ir com outra pessoa. Preciso que alguém continue vigiando a Kate durante a cerimônia, não quero que ela saia de lá, de jeito nenhum.
- Está mantendo a Kate prisioneira na escotilha? Por que?
- Sayid, você confia nas minhas decisões?
Ele franziu as sobrancelhas: - Na maioria das vezes sim, mas por que manter a Kate prisioneira? O que ela fez?
- È o que eu quero descobrir. Mas se ela sair de lá, vai arranjar um jeito de não me contar a verdade.
- Bom, se quer manter a Kate na escotilha Eko com certeza era o vigia mais indicado. Não acho que se o Locke ou qualquer podem segurá-la.
- Não estou pensando no Locke.- Jack respondeu.
- E quem você tem em mente para vigiá-la?
- Ana-Lucia.
Depois da conversa com Eko, Kate recolheu-se ao quarto, pensativa. Sabia que se contasse a verdade para Jack, corria o risco de que ele não a perdoasse, que ficasse zangado com ela durante muito tempo, como acontecera uma vez. Entretanto, Eko tinha razão sobre confiança, e ela agora mais do que nunca precisava reconquistar a dele.
A escotilha estava muito silenciosa já fazia uma meia hora, Kate imaginou pelo tempo que fazia que Jack e Locke tinham saído que a noite não tardava, precisava sair dali. Apesar de tudo, continuava achando ridículo aquela história de ficar presa na escotilha, sairia de lá e encararia Jack, ele ia ter que escutá-la. Saiu do quarto e caminhou com dificuldade até a sala do computador, o pé estava doendo, ainda mais porque o tinha forçado andando de um lado para outro antes de resolver aquietar-se. Mas isso não a faria desistir de voltar para a praia, daria um jeito.
Na sala do computador, encontrou Eko cochilando sentado em uma cadeira próximo à saída, segurando seu cajado. Kate sabia ser silenciosa, escorregadia. Sairia de lá sem que ele notasse. Mordeu os lábios apreensiva, se esgueirando pela sala na ponta dos pés. O pé que estava machucado começou a doer ainda mais com o esforço, porém ela agüentou firme e praticamente parou de respirar ao passar na frente de Eko. Deu um passo e sentiu o cajado do padre firme na sua perna. Seus olhos encontraram os dele.
- Posso saber aonde vai?- Eko indagou muito educado, sem tirar o cajado da perna dela.
Kate suspirou: - Eko, agradeço por ter me ouvido, mas preciso ir.
Ele ia começar a dizer alguma coisa quando ambos ouviram passos adentrando a escotilha, seguidos de uma voz feminina rouca e atrevida:
Kate arregalou os olhos e lançou um olhar fulminante de ódio para Ana-Lucia: - O que você está fazendo aqui?
- Eu vim em paz, Barbie. Mas se fizer qualquer gracinha não vou hesitar em usar a força.
Sayid que vinha logo atrás dela, falou:
- Acho que é melhor ficarmos calmos. Eko, vim avisar que todos esperam por você na praia, para a cerimônia de despedida do Dylan.
Eko assentiu com a cabeça e levantou-se da cadeira retirando o cajado que prendia Kate. Antes de sair, disse a ela:
- Lembre-se do que lhe falei sobre arrependimento.
- Eu não acredito no que está acontecendo aqui!- Kate gritou. – Foi o Jack quem te mandou para me vigiar?
- Isso mesmo, e as ordens do patrão eu não questiono- respondeu Ana-Lucia sarcástica.
- Kate, o Jack me disse que quer que você espere por ele aqui, depois do enterro ele virá pra cá e as coisas irão se esclarecer. Tenha calma.
- Não me diga para ter calma, Sayid. Eu não vou ficar aqui trancada na escotilha com essa mulher.
aqui com alguém que tem mais saúde do que você, se é que me entende?
- Pouco me importa.- Kate falou, agressiva. – Eu vou sair daqui, nem que tenha de quebrar a sua cara.
- Pois tente, querida. Irá se arrepender!- ela respondeu no mesmo tom.
Sayid estava vendo faíscas saírem das duas, resolveu nem se meter mais. Foi até o cofre com as armas e retirou algumas pistolas colocando-as na maleta prateada do agente federal. Deixou uma de fora e jogou nas mãos de Ana-Lucia que a apanhou com destreza.
- Se está dando uma arma pra essa desequilibrada Sayid, é melhor dar uma pra mim também. Sei que acredita em lutas justas.- disse Kate.
- Sim, acredito. Mas acontece que não haverá nenhuma luta, você vai ficar aqui esperando pelo Jack. A arma que dei para a Ana não tem o propósito de feri-la, é por outro motivo. Temos uma missão.
- Missão?- ela indagou sem entender.
- Sim, missão. E você não vai participar porque está fora do clube.- disse Ana-Lucia.
- Estou fora? O quê? O Jack...- Kate atropelava as próprias palavras, estava ficando cada vez mais magoada com ele.
- Bem, eu preciso voltar. Vou deixar vocês discutirem suas diferenças a sós.
- Sayid, pensei que fôssemos amigos.- Kate falou com o semblante triste.
- E somos!- ele disse pegando a mão dela e beijando num gesto de amizade.
Em seguida, ele saiu. Kate encarou Ana-Lucia, que a encarou de volta. Pelo jeito as horas iam demorar a passar.
O fim de tarde trouxe uma leve brisa, vinda do mar, aliviando o calor que fizera o dia todo. A população da ilha estava novamente reunida na igreja, mas dessa vez não era por um motivo feliz. Eko lia o salmo 23 diante dos olhares atentos das pessoas.
Jack e Sawyer cavavam a cova de Dylan. O corpo já havia sido embrulhado por Michael e Locke. Jack odiava fazer aquilo, era mais um que enterravam, quem seria o próximo? Naquele momento pensava no quão frágil é a vida humana, talvez Tom estivesse certo, aquela terra era de ninguém, Deus também a havia esquecido.
Tina chorava convulsivamente durante a missa, comovendo a todos. Aline ao seu lado, tentava confortá-la. Desmond, vendo o esforço dela aproximou-se de Tina e passou o braço ao redor de seus ombros, apertando-a junto de si.
- Não fique assim, irmã. Ele deve estar em um lugar melhor do que essa ilha.
- Qualquer lugar é melhor do que essa ilha maldita!- ela respondeu sentida aceitando o conforto dele, e enterrando a cabeça em seu peito, enquanto Aline dava tapinhas reconfortantes em sua costa.
- Cada vida que parte, leva um pedaço de nós consigo. Mas não devemos nunca desistir, pois para essa mesma vida que vai surgem novas vidas que vêm, renovando nossas esperanças por dias melhores. Oremos, irmãos e irmãs.-pediu Eko.
Todos começaram a rezar juntos o Pai Nosso, de mãos dadas. Depois Eko saiu caminhando à frente para fora da igreja, com as pessoas o seguindo até a cova de Dylan. Jack e Sawyer já haviam terminado, depositando o corpo dele dentro da cova.
As pessoas se reuniram em volta dela, com expressões diversas. Olhos lacrimejantes, angustiados, silenciosos, inocentes. Libby segurava no colo o pequeno Zack, e sua irmãzinha Emma se abraçava a ela com olhinhos assustados. Jack perguntou à Tina:
- Gostaria de dizer algumas palavras?
Ela assentiu e se aproximou da beira da cova segurando uma flor:
- Não vou dizer que não conhecia o Dylan muito bem, porque isso seria mentira. Bastaram apenas alguns meses nessa ilha para que o amasse de verdade. Dylan era violinista, tocava na orquestra de Sidney, estava indo para Los Angeles a convite da filarmônica norte-americana para tocar no recital de primavera. Nunca pude ouvi-lo tocar, mas só de ouvi-lo falar pude perceber a capacidade que ele possuía em tocar fundo nas almas das pessoas. Eu te amo Dylan, me perdoe por nunca ter te dito isso.
Tina jogou a flor sobre o corpo e saiu caminhando, silenciosa. As palavras dela emocionaram a todos. Claire começou a chorar e Charlie a abraçou. Shannon aconchegou-se em Sayid, enterrando o rosto no pescoço dele. Hurley abraçou Libby e as crianças. Jack sentiu o coração apertado diante de tão comovente cena, queria abraçar Kate, mas ela não estava lá. Olhou para o lado e se deparou com Sawyer, ele também queria abraçar alguém que não estava presente. Os dois se olharam, finalmente em tanto tempo se entendiam. Jack deu um tapinha amigável no ombro de Sawyer, este o abraçou, surpreendendo-o. Sawyer disse baixinho pra ele:
- Te faço uma promessa agora doutor, enquanto eu estiver vivo sempre ajudarei no que for preciso e o apoiarei. Você é meu amigo.
Jack estava surpreso, mas preferiu não falar nada, apenas assentiu. Aquele era um momento histórico, talvez não se repetisse nunca. Sawyer fazendo juramentos de amizade? Era melhor não questionar.
- Que o Dylan, descanse em paz.- falou Eko, finalizando a cerimônia.
Sawyer pegou uma pá e começou a jogar terra sobre o corpo. Jack fez o mesmo e Sayid os acompanhou. Jack fez uma promessa a si mesmo naquele momento, não deixaria mais acontecer uma coisa dessas com ninguém do acampamento. Iria atrás dos "Outros".
Kate estava sentada no sofá da escotilha, o pé machucado pra cima, no rosto um misto de raiva e mágoa. Ana-Lucia por sua vez, ocupava uma cadeira virada ao contrário, apontando a arma pra ela.
- Vai mesmo ficar aí apontando essa arma pra mim?- Kate perguntou, sua paciência havia chegado ao extremo.
- Ahan!- respondeu Ana-Lucia, monossilábica.
Era uma mulher de poucas palavras e exatamente por isso, por ser uma mulher mais de ação do que de palavras, Ana-Lucia não tinha percebido as verdadeiras intenções de Kate, de distraí-la para que pudesse fugir. Diferente dela, Kate era boa com palavras, sabia exatamente como manipular alguém para chegar aonde queria. È claro que isso não se estendia ao Jack.
- O que o Jack te prometeu pra fazer com que você viesse até aqui me vigiar? Um cargo de delegada? Soube que você é policial.
- Eu fui policial- ela respondeu enquanto brincava de travar e destravar a arma. – E o Jack não me ofereceu nada, apenas me fez esse pedido, acredito que ele tenha as razões dele.- ela parou de falar por um momento, Kate percebeu que ela ia dizer algo importante. – Aceitei porque tinha interesses pessoais pra vir até aqui.
- Que tipo de interesses?- Kate disparou. –As armas? Quer roubá-las daqui? Tente se quiser, mas eu não tenho o código do cofre. Como você mesma disse não faço mais parte do clube.
Ana-Lucia esboçou um sorriso.
- Então você acha que me conhece? Pense novamente! Não vim até aqui falar com você por causa das armas. Estou interessada em outra "coisa".- ela enfatizou as últimas palavras.
- No quê?- Kate indagou, fuzilando-a com o olhar.
- Quero que você me diga tudo o que você sabe sobre o Sawyer.
15
Confissões na Escotilha
Um sorriso maldoso formou-se nos lábios de Kate, e ela indagou debochada:
- Por que quer saber sobre o Sawyer?
Embaraçada, Ana-Lucia respondeu com sua costumeira grosseria:
- Isso não é da sua conta!
- Se não é da minha conta, eu não vou te dizer nada, pode atirar em mim se quiser.-Kate gracejou, percebera o embaraço de Ana-Lucia e estava adorando vê-la desconcertada.
Ana-Lucia respirou fundo e baixou a arma, parecia estar tomando coragem para responder à pergunta de Kate.
- Eu estou interessada nele!- respondeu por fim.
Kate piscou os olhos: - Interessada em que sentido?
- Olha aqui Kate...-Ana-Lucia começou, mas Kate balançou a cabeça negativamente.
- Nada de ofensivas.
- Está bem, está bem! Eu vou contar, mas só se você me prometer que não dirá nada a ninguém ou eu acabo com você.
Ela riu, e respondeu tentando parecer séria: - Vá em frente, pode confiar.
- Bem, eu não estou só interessada, eu estou...
- Apaixonada?- Kate não parava de sorrir, aquela conversa estranha com Ana-Lucia a estava fazendo esquecer-se momentaneamente dos seus problemas.
- Talvez. É uma relação um tanto estranha. Sinto que há algo nele que me cativa, acho que é o som da sua voz, aquele sotaque caipira, sei lá. Os olhos também, eles tem uma profundidade incrível...
- Não se esqueça das "covinhas" no rosto.-Kate falou, espontânea.
O olhar de Ana-Lucia se iluminou quando Kate falou das "covinhas" no rosto de Sawyer. Naquele momento, Kate estava conhecendo uma Ana-Lucia totalmente diferente daquela turrona, essa que agora conversava com ela tinha algo de encantador e muito feminino. Por causa de seu jeito bruto de ser, Kate ás vezes se esquecia de que ela também era uma mulher e que tanto quanto ela possuía desejos e sonhos. E seu interesse por Sawyer a estava fazendo muito mais admirável diante dos olhos de Kate.
Percebendo que Kate lhe observava com olhos inquisidores, Ana-Lucia perguntou:
- Por que está me olhando desse jeito?
- Não é nada!- Kate desculpou-se, havia gostado de que Ana-Lucia tivesse confiado nela para fazer aquela confissão tão importante, não queria quebrar o momento, trazendo a Ana-Lucia dura e insensível de volta. Ao contrário, instigou-a a se abrir mais.
- Então Ana, eu considero que esse é um bom motivo para que eu te conte tudo o que eu sei sobre o Sawyer. O que quer saber primeiro?
Ana-Lucia já havia baixado a guarda, estava muito interessada em ouvir o que Kate tinha a dizer.
- O que ele fazia antes de cairmos aqui nessa ilha, por exemplo?
- Bem, eu acho que você não vai gostar muito de saber já que era policial, mas vou te contar. O Sawyer era um golpista, seduzia mulheres casadas e depois depenava os maridos delas, fugindo com o dinheiro, em busca de novas conquistas.
- Por que isso não me surpreende?- falou Ana.- Acho que eu tenho um chama para sujeito mal-caráter. E quanto ao nome? Por que ele se autodenomina Sawyer?
- Ele tem uma tragédia na vida, quando tinha oito anos o pai dele descobriu que a mãe teve um caso com um homem chamado Sawyer, e que esse homem lhe roubou todo o dinheiro. Daí ele matou a esposa, e se matou em seguida, tudo na frente dele.
Ana-Lucia ficou séria diante daquela revelação, e comentou:
- Então ele assumiu a identidade do tal Sawyer e passou a fazer a mesma coisa.
- Mas isso não é tudo...- Kate advertiu.
- E tem mais?- Ana-Lucia indagou.
- Ele carrega uma carta com ele, que de tanto lê-la está amassada e encardida. Esta carta ele escreveu logo após a morte de seus pais, é uma carta para o verdadeiro Sawyer falando sobre tudo o que ele teve de passar por conta do golpe que o sujeito aplicou na sua mãe. Sawyer diz que quando encontrar esse homem entregará essa carta e depois irá matá-lo.
- Isso o explica o comportamento hostil! Todos temos nossos segredos.
Kate assentiu, ela própria tinha os seus, e não eram poucos. Ana-Lucia ficou em silêncio depois do que Kate lhe contou. Sentindo-se incomodada com o silêncio dela, Kate perguntou:
- È só isso? Não vai me perguntar mais nada?
- Estou pensando se devo mesmo te fazer essa pergunta.
- Pergunte, oras.- a essa altura, Kate já estava mais do que curiosa.
- O que aconteceu entre você e o Sawyer? Sente ou já sentiu algo por ele?
Kate ficou muda. O que poderia responder? Percebeu que Ana-Lucia estava apreensiva com a resposta.
- No início, quando caímos aqui nessa ilha, a primeira pessoa que eu conheci foi o Jack, e depois o Sawyer. Sempre hostil, afastado dos outros, se comportando como um parasita. Primeiro, tive raiva, depois quando descobri isso que eu te contei, passei a ter pena. Da pena surgiu a amizade, e acho que agora é só o que existe. Não vou negar que fiquei balançada várias vezes por causa dele, mas hoje tenho certeza que não é do Sawyer que eu gosto.
Ana-Lucia fez uma expressão de alívio, que não passou desapercebida aos olhos de Kate.
- Mas nunca aconteceu nada?- Ana insistiu, aquilo não importava, mas mesmo assim ela queria essa resposta, precisava dela.
- Quase aconteceu...- Kate disse. – Mas não significou nada, não se preocupe. Mas pelo jeito, acho que não foi o mesmo com você. Aconteceu não foi?
Ana-Lucia deu um meio sorriso. Kate sorriu também.
- Ana-Lucia? Kate?- Jack entrou na escotilha acompanhado de Sawyer, chamando pelas duas.
Ao ouvir a voz dele, Ana-Lucia se levantou da cadeira e apontou novamente a arma pra Kate, gritando com ela:
- E eu acho melhor você calar a boca, ou eu vou ter que te amarrar!
- Cala a boca você, sua vaca!- Kate disse no mesmo tom.
- Que é isso meninas? Cheguei tarde pra luta na lama?- gracejou Sawyer ao ver as duas.
Ana-Lucia sentiu-se inquieta ao ver Sawyer, mas como sempre tentou fazer parecer que a presença dele não fazia diferença nenhuma.
- Eu ia bater nela, mas agora que você chegou posso bater em você.- disse agressiva.
- Então bate!- ele respondeu malicioso.
- O que veio fazer aqui, Sawyer?- indagou Kate.
- Fiquei sabendo que um cirurgião maluco prendeu você aqui, e que até agora você não tinha conseguido fugir. Então vim rir da sua cara.
Kate sorriu: - È só isso mesmo? Veio aqui só pra rir de mim?
- Que nada.- ele respondeu divertido. – Vim atrás da She-Ha também.
Ana-Lucia fez cara feia pra ele: - Veio atrás de mim pra quê?
- Senti saudades, docinho. Por que não posso?
Ela elevou uma sobrancelha e sorriu pra ele.
- Hey!- disse Jack para Kate.
- Hey!- ela respondeu de volta.
- E o pé?- Jack indagou se sentando ao lado dela no sofá e examinando o pé machucado.
- Tá tudo bem!- Kate respondeu tensa.
- Não está não. Você andou forçando ele? Está inchado.
- Olha Jack ,tá tudo bem!- Kate elevou o tom da voz.
Notando o clima pesado, Sawyer falou:
- Lucy, vamos aqui fora um instante, tenho uma coisa importante pra te dizer.
- Sobre o quê?- ela perguntou sem entender.
- Só te digo se você vier comigo.
Sawyer estendeu a mão pra ela que a aceitou, e os dois se retiraram para fora da escotilha.
- Nós vamos voltar pra praia?- Ana-Lucia indagou quando Sawyer abriu o despressurizador.
- Não, Lulu. Vamos apenas ficar aqui fora e deixar o doutor conversar com a sardenta, depois entramos, fomos convidados para jantar.- ele disse sorrindo.
- E você não se importa que eles fiquem conversando sozinhos?
- Não Lu, nem um pouco. Estou mais interessado em outra coisa.- ele falou encostando ela na parede do corredor mal iluminado.
Ana-Lucia suspirou com o gesto dele, e perguntou baixinho: - No quê?
Sawyer não respondeu, assim como ela também era de poucas palavras, por isso ao invés de falar roçou a barba mal feita no pescoço dela, beijando-a em seguida, um beijo intenso, sua língua explorando toda a maciez dos lábios dela.
Ana-Lucia envolveu seus braços ao redor do pescoço de Sawyer e se aconchegou a ele sem parar de beijá-lo. Ele se afastou por um momento e indagou
