Episódio 15- "Confissões na Escotilha"

Sinopse: Durante o enterro de Dylan, Jack pede a Ana-Lucia que vá vigiar Kate na escotilha no lugar de Mr. Eko, lá as duas tem uma reveladora conversa.

Censura: T.

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Um sorriso maldoso formou-se nos lábios de Kate, e ela indagou debochada:

- Por que quer saber sobre o Sawyer?

Embaraçada, Ana-Lucia respondeu com sua costumeira grosseria:

- Isso não é da sua conta!

- Se não é da minha conta, eu não vou te dizer nada, pode atirar em mim se quiser.-Kate gracejou, percebera o embaraço de Ana-Lucia e estava adorando vê-la desconcertada.

Ana-Lucia respirou fundo e baixou a arma, parecia estar tomando coragem para responder à pergunta de Kate.

- Eu estou interessada nele!- respondeu por fim.

Kate piscou os olhos: - Interessada em que sentido?

- Olha aqui Kate...-Ana-Lucia começou, mas Kate balançou a cabeça negativamente.

- Nada de ofensivas.

- Está bem, está bem! Eu vou contar, mas só se você me prometer que não dirá nada a ninguém ou eu acabo com você.

Ela riu, e respondeu tentando parecer séria: - Vá em frente, pode confiar.

- Bem, eu não estou só interessada, eu estou...

- Apaixonada?- Kate não parava de sorrir, aquela conversa estranha com Ana-Lucia a estava fazendo esquecer-se momentaneamente dos seus problemas.

- Talvez. É uma relação um tanto estranha. Sinto que há algo nele que me cativa, acho que é o som da sua voz, aquele sotaque caipira, sei lá. Os olhos também, eles tem uma profundidade incrível...

- Não se esqueça das "covinhas" no rosto.-Kate falou, espontânea.

O olhar de Ana-Lucia se iluminou quando Kate falou das "covinhas" no rosto de Sawyer. Naquele momento, Kate estava conhecendo uma Ana-Lucia totalmente diferente daquela turrona, essa que agora conversava com ela tinha algo de encantador e muito feminino. Por causa de seu jeito bruto de ser, Kate ás vezes se esquecia de que ela também era uma mulher e que tanto quanto ela possuía desejos e sonhos. E seu interesse por Sawyer a estava fazendo muito mais admirável diante dos olhos de Kate.

Percebendo que Kate lhe observava com olhos inquisidores, Ana-Lucia perguntou:

- Por que está me olhando desse jeito?

- Não é nada!- Kate desculpou-se, havia gostado de que Ana-Lucia tivesse confiado nela para fazer aquela confissão tão importante, não queria quebrar o momento, trazendo a Ana-Lucia dura e insensível de volta. Ao contrário, instigou-a a se abrir mais.

- Então Ana, eu considero que esse é um bom motivo para que eu te conte tudo o que eu sei sobre o Sawyer. O que quer saber primeiro?

Ana-Lucia já havia baixado a guarda, estava muito interessada em ouvir o que Kate tinha a dizer.

- O que ele fazia antes de cairmos aqui nessa ilha, por exemplo?

- Bem, eu acho que você não vai gostar muito de saber já que era policial, mas vou te contar. O Sawyer era um golpista, seduzia mulheres casadas e depois depenava os maridos delas, fugindo com o dinheiro, em busca de novas conquistas.

- Por que isso não me surpreende?- falou Ana.- Acho que eu tenho um chama para sujeito mal-caráter. E quanto ao nome? Se ele era um golpista, pode estar usando nome falso. Por que "Sawyer"?

- Ele tem uma tragédia na vida, quando tinha oito anos o pai dele descobriu que a mãe teve um caso com um homem chamado Sawyer, e que esse homem lhe roubou todo o dinheiro. Daí ele matou a esposa, e se matou em seguida, tudo na frente dele.

Ana-Lucia ficou séria diante daquela revelação, e comentou:

- Então ele assumiu a identidade do tal Sawyer e passou a fazer a mesma coisa.

- Mas isso não é tudo...- Kate advertiu.

- E tem mais?- Ana-Lucia indagou.

- Ele carrega uma carta com ele, que de tanto lê-la está amassada e encardida. Esta carta ele escreveu logo após a morte de seus pais, é uma carta para o verdadeiro Sawyer falando sobre tudo o que ele teve de passar por conta do golpe que o sujeito aplicou na sua mãe. Sawyer diz que quando encontrar esse homem entregará essa carta e depois irá matá-lo.

- Isso explica o comportamento hostil! Todos temos nossos segredos.

Kate assentiu, ela própria tinha os seus, e não eram poucos. Ana-Lucia ficou em silêncio depois do que Kate lhe contou. Sentindo-se incomodada com o silêncio dela, Kate perguntou:

- È só isso? Não vai me perguntar mais nada?

- Estou pensando se devo mesmo te fazer essa pergunta.

- Pergunte, oras.- a essa altura, Kate já estava mais do que curiosa.

- O que aconteceu entre você e o Sawyer? Sente ou já sentiu algo por ele?

Kate ficou muda. O que poderia responder? Percebeu que Ana-Lucia estava apreensiva com a resposta.

- No início, quando caímos aqui nessa ilha, a primeira pessoa que eu conheci foi o Jack, e depois o Sawyer. Sempre hostil, afastado dos outros, se comportando como um parasita. Primeiro, tive raiva, depois quando descobri isso que eu te contei, passei a ter pena. Da pena surgiu a amizade, e acho que agora é só o que existe. Não vou negar que fiquei balançada várias vezes por causa dele, mas hoje tenho certeza que não é do Sawyer que eu gosto.

Ana-Lucia fez uma expressão de alívio, que não passou desapercebida aos olhos de Kate.

- Mas nunca aconteceu nada?- Ana insistiu, aquilo não importava, mas mesmo assim ela queria essa resposta, precisava dela.

- Quase aconteceu...- Kate disse. – Mas não significou nada, não se preocupe. Mas pelo jeito, acho que não foi o mesmo com você. Aconteceu não foi?

Ana-Lucia deu um meio sorriso. Kate sorriu também.

- Ana-Lucia? Kate?- Jack entrou na escotilha acompanhado de Sawyer, chamando pelas duas.

Ao ouvir a voz dele, Ana-Lucia se levantou da cadeira e apontou novamente a arma para Kate, gritando com ela:

- E eu acho melhor você calar a boca, ou eu vou ter que te amarrar!

- Cala a boca você, sua vaca!- Kate disse no mesmo tom.

- Que é isso meninas? Cheguei tarde pra luta na lama?- gracejou Sawyer ao ver as duas.

Ana-Lucia sentiu-se inquieta ao ver Sawyer, mas como sempre tentou fazer parecer que a presença dele não fazia diferença nenhuma.

- Eu ia bater nela, mas agora que você chegou posso bater em você.- disse agressiva.

- Então bate!- ele respondeu malicioso.

- O que veio fazer aqui, Sawyer?- indagou Kate.

- Fiquei sabendo que um cirurgião maluco prendeu você aqui, e que até agora você não tinha conseguido fugir. Então vim rir da sua cara.

Kate sorriu: - È só isso mesmo? Veio aqui só pra rir de mim?

- Que nada.- ele respondeu divertido. – Vim atrás da She-Ha também.

Ana-Lucia fez cara feia pra ele: - Veio atrás de mim pra quê?

- Senti saudades, docinho. Por que não posso?

Ela elevou uma sobrancelha e sorriu pra ele.

- Hey!- disse Jack para Kate.

- Hey!- ela respondeu de volta.

- E o pé?- Jack indagou se sentando ao lado dela no sofá e examinando o pé machucado.

- Tá tudo bem!- Kate respondeu tensa.

- Não está não. Você andou forçando ele? Está inchado.

- Olha Jack ,tá tudo bem!- Kate elevou o tom da voz.

Notando o clima pesado, Sawyer falou:

- Lucy, vamos aqui fora um instante, tenho uma coisa importante pra te dizer.

- Sobre o quê?- ela perguntou sem entender.

- Só te digo se você vier comigo.

Sawyer estendeu a mão pra ela que a aceitou, e os dois se retiraram para fora da escotilha.

- Nós vamos voltar pra praia?- Ana-Lucia indagou quando Sawyer abriu o despressurizador.

- Não, Lulu. Vamos apenas ficar aqui fora e deixar o doutor conversar com a sardenta, depois entramos, fomos convidados para jantar.- ele disse sorrindo.

- E você não se importa que eles fiquem conversando sozinhos?

- Não Lu, nem um pouco. Estou mais interessado em outra coisa.- ele falou encostando ela na parede do corredor mal iluminado.

Ana-Lucia suspirou com o gesto dele, e perguntou baixinho: - No quê?

Sawyer não respondeu, assim como ela também era de poucas palavras, por isso ao invés de falar roçou a barba mal feita no pescoço dela, beijando-a em seguida, um beijo intenso, sua língua explorando toda a maciez dos lábios dela.

Ana-Lucia envolveu seus braços ao redor do pescoço de Sawyer e se aconchegou a ele sem parar de beijá-lo. Ele se afastou por um momento e indagou buscando os olhos negros dela, testas coladas:

- Me diga o que você quer agora, nesse momento. Não pense, só diga! Me peça e eu te dou.

- Não sei...- ela respondeu, surpresa com as palavras dele.

Sawyer deslizou as mãos pelos lados do corpo dela e pousou-as na cintura, pressionando-a contra seu corpo.

- Então vou te dar a chance de pensar.- disse sorrindo. – O que acha de nós dois juntarmos os trapinhos?

- O quê?- ela questionou erguendo uma sobrancelha.

- Amor, estamos no cenário clássico pra isso, ilha deserta, cheios de amor pra dar, a solidão pode enlouquecer a gente, sabia?

- Espera aí! Você está sugerindo que a gente more junto é isso?

Ele deu de ombros: - De repente Rambina, você não acha que seria interessante? A gente ia poder se divertir todos os dias.

- Hum, eu acho que você está sendo precipitado.

- O que você quer? Que eu faça um pedido oficial? Que eu vá pedir a sua mão ao Jack? Olha querida, é pegar ou largar, não é todo dia que eu faço uma proposta tão séria a alguém.

- Eu vou pensar no assunto.- ela prometeu, se fazendo de difícil.

- Já é um começo.- disse ele. – Mas enquanto você pensa...- Sawyer aproximou seus lábios outra vez dos dela.

Ana-Lucia riu baixinho e deixou-se beijar novamente.

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Dentro da escotilha, Jack refazia o curativo de Kate. Ela evitava olhar nos olhos dele. Jack notou isso, e comentou magoado:

- Sabe, minha mãe costumava dizer que quando uma pessoa não te olha nos olhos é porque está te escondendo alguma coisa.

Kate continuou com a cabeça abaixada. Jack ergueu o rosto dela.

- Até quando vai mentir pra mim, Kate? Não esqueci aquela conversa. Quero saber o que realmente aconteceu com você no dia da tempestade.

Ela se exaltou: - Não importa o que eu te diga Jack, você não vai acreditar em mim mesmo.

Ele balançou a cabeça negativamente:

- Por que não experimenta me contar primeiro antes de ficar prevendo a minha reação. Será que não entende que eu te amo?

Kate tentou abraçá-lo, mas Jack a afastou.

- A verdade Kate!- Jack insistiu.

- Você quer a verdade, Jack? Então você vai ouvi-la, mesmo que me odeie depois de tudo o que eu vou te contar.

- Eu estou pronto pra ouvir!- ele disse, sentando-se novamente no sofá e encarando-a.

Kate passou as mãos pelo rosto, suava bastante, dentro da escotilha estava exageradamente quente. Ela queria contar, mas não sabia por onde começar. Jack continuava encarando-a, o olhar dele a assustava, nunca o tinha visto tão zangado. Finalmente resolveu falar:

- Naquele dia, quando saí daqui da escotilha caminhei até a praia como sempre, porém no caminho percebi muito tarde que estava sendo seguida. Fizeram algo comigo, acho que me doparam.- ela tocou a jugular, onde havia recebido a injeção. Ela continuou:

- Depois disso só me lembro de ter acordado em uma sala muito iluminada, com Tom e Henry Gale olhando pra mim. Eu estava amarrada em uma cama, me sentia zonza, confusa, mas me lembro que disseram algo sobre fazer um trato.

- Em que consistia esse trato?- Jack perguntou com a expressão muito séria.

- Queriam que eu...- ela hesitou. – Traísse você, te enganasse e o levasse até eles. Disseram que eu devia fazer de tudo para conseguir, e que se eu fizesse isso, quando nos resgatassem eu não seria presa.

Jack levantou do sofá e começou a caminhar de um lado para o outro, nervoso.

- Mas Jack, eu não aceitei, não aceitei. Disse que preferia ser morta a fazer uma coisa dessas com você.

Ele balançou a cabeça negativamente e escorou-se no balcão da pia da cozinha. Kate sentiu o peito arder: - Jack, isso é tudo. Te contei tudo. Por favor, diz alguma coisa.

Jack explodiu: - Chega de mentiras Kate! Se isso fosse verdade, Tom nunca teria te deixado sair. Teria matado você!

- Não Jack, estou dizendo a verdade. Por favor, acredita em mim.

- E eu me preocupando com você, que nem um desesperado. Você está fazendo o jogo deles, não é? Esse tempo todo, por isso dormiu comigo, pra me enrolar, pra me fazer de idiota.

Kate tinha os olhos lacrimejantes, aquilo foi como um tiro no peito.

- Como pode duvidar de mim? Amo você!

Jack abaixou a cabeça e chorou. Kate começou a chorar também, e se aproximou dele bem devagar, buscando os seus olhos castanho-esverdeados. Tocou o ombro dele, apreensiva. Ele olhou pra ela:

- Meu amor, não estou mentindo. Por favor, acredita em mim!

- Eu preciso de um tempo...

- Tempo?

- Tempo pra pensar no que você me contou Kate. Não quero ser injusto com você, mas estou magoado, confuso.

Kate aproveitou a deixa e se aproximou ainda mais, aconchegando-se a ele:

- Não Jack, não vá! Fica comigo. Vamos ficar juntos essa noite, quero sentir você outra vez.

Ele mergulhou nos olhos dela, sentiu-se tentado.

- Me beija Jack, me beija!

Jack beijou Kate sofregamente, apertando-a junto de si. A queria mais do que tudo, mas sua consciência não lhe deixava em paz, era como se tivesse um anjo de um lado e um diabinho do outro. O anjo dizia é melhor se afastar antes de qualquer coisa, colocar as idéias no lugar; o diabinho dizia que importa? Você a ama, ela é linda, faça amor com ela e esqueça de tudo. Quem seguiria?

- Não Kate! È melhor não!- ele falou soltando-a com muito sacrifício, mas precisava pensar.

Ele saiu caminhando a passos rápidos para fora da escotilha. O botão começou a apitar. Kate gritou: - Jaaack!

Sawyer e Ana-Lucia entraram ao ouvir o barulho do botão e os gritos de Kate.

- O que aconteceu Jack?- indagou Ana-Lucia ao vê-lo nervoso.

Ele não respondeu e continuou seu caminho até o despressurizador. Sawyer apressou-se em digitar o código e apertar o botão. Kate chorava convulsivamente sentada no sofá, abraçando o próprio corpo. Ao vê-la, Ana-Lucia ficou sentida por ela, e se aproximou acalentando-a. Kate aceitou o conforto dela, não tinha escolha. Seu coração dizia que perdera Jack para sempre.

- O que aconteceu Kate, por que vocês dois estavam brigando?- indagou Ana-Lucia.

Kate se acalmou e enxugou as lágrimas.

- Jack não confia em mim, acha que estou mentindo pra ele.

- Mentindo sobre o quê?

- Talvez seja melhor você perguntar a ele.- ela respondeu se levantando do sofá e entrando no banheiro.

Sawyer olhou pra Ana-Lucia indagando o que estava acontecendo. Ela deu de ombros.

- Eu vou falar com o doutor.-ele disse. – Talvez queira preparar o nosso jantar, benzinho?

Ana-Lucia ergueu a sobrancelha: - Vai sonhando, caipira. Sawyer sorriu.

De frente para o espelho, observando a sua própria imagem, olhos inchados de tanto chorar, o semblante angustiado, Kate refletia. Contara a Jack toda a verdade, e ele sequer acreditara nela. Nem levou em consideração as coisas estranhas que aconteceram com ela, como os delírios e a febre. Só a chamara de mentirosa. Kate estava zangada, muito zangada. Magoada por Jack acreditar que ela se entregara a ele na noite anterior somente para enganá-lo.

- Se é assim...- murmurou para si mesma. Eko estava enganado, ela não estava presa a Jack, nem a ninguém. Era livre, se Jack não a queria ela não correria mais atrás dele. Tudo tinha acabado ali, no momento em que ele a rejeitou.

Continua...

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