Episódio 17- "Ela vai ter um bebê, eu um ataque!"

Sinopse: Ana-Lucia conta a Sawyer que ele será pai e as coisas desandam entre eles. Sun dá a luz ao filho de Jin.

Censura: T.

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O sol já estava a pino, mas a maioria das pessoas ainda dormia em suas barracas, talvez a história de Charlie na noite anterior as tivesse deixado cansadas. Sun levantara cedo como sempre para ir à sua horta onde costumava ficar até a hora do almoço. Charlie estava tentando sair de sua barraca para ir pescar com Jin e Hurley, mas o pequeno Aaron não o deixava sair, chorando muito agarrado à sua perna.

- Aaron, papai precisa sair. Buscar peixe pra você e a mamãe comerem.

- Papa!- gritava o garotinho.

- Claire, faça alguma coisa!- pediu Charlie. Claire sorria observando a cena.

- Baby, o papai precisa ir trabalhar, tudo bem?- ela carregou o garoto que já estava começando a andar. Ainda assim, era um pingo de gente, seus belos cabelos loiros e cacheados faziam-no parecer um anjinho. Charlie costumava dizer que isso era truque para tentar esconder a verdadeira personalidade do menino, teimoso e peralta.

- Eu volto logo meu filho, prometo.- ele falou acariciando os cabelos do menino, que já parecia mais calmo no colo da mãe.

- Podemos ir, papai?- gracejou Hurley.

- Pode rir, Hurley, mas você também tem seus próprios filhos pra tomar conta, e são dois.

Jin riu e falou algumas coisas em coreano.

- Que seja!- disse Hurley e os três saíram caminhando munidos com suas redes em direção a parte mais baixa da maré, onde as pequenas lagoas se formavam.

Um pouco mais adiante, onde a água era mais funda, Ana-Lucia se banhava. Acordara se sentindo bem melhor, com uma imensa vontade de tomar banho de mar. Emergiu da água como uma sereia, os longos cabelos negros espalhando gotas infinitas pelo corpo dela inteiro. Usava uma camiseta cor de creme e uma calça de moleton branca. Ao vê-la, Charlie cutucou Hurley e Jin:

- Ela pode ter um instinto assassino, mas é muito gata!

Hurley balançou a cabeça: - Pode ser, mas não faz meu tipo mesmo, ao contrário, mulher assim só me assusta.

Jin embora não entendesse exatamente o que estavam dizendo, percebeu do que se tratava: - Olhar Ana-Lucia, Sawyer matar vocês.

Ela percebeu que estava sendo observada, e tentou ser cortês:

- Bom dia!

Os três acenaram para ela com falsos sorrisos. Ela começou a caminhar para fora da água em direção à sua barraca. Não tinha notado que mais alguém a estava olhando. Chegou em sua barraca e começou a se enxugar displicentemente com um pano. O homem que a observava se aproximou, lançando-lhe olhares maliciosos.

- Hey!

- Hey Bradley! O que você quer?- ela perguntou ríspida.

- Essa é uma pergunta a qual posso ter milhões de respostas.

- È mesmo? Mas eu não estou interessada nas suas respostas.

- Ora vamos Ana! Sawyer não deve ser tão bom assim, deveria experimentar coisas novas.- ele falou se aproximando dela e puxando-a.

Ana-Lucia sentiu vontade de socá-lo até a morte, mas não sabia porque faltou coragem para fazê-lo, sentia-se frágil e exposta como no dia em que hesitou matar Henry Gale. Limitou-se a lhe dar um empurrão, o que só serviu para deixar Bradley mais excitado.

- Isso Ana, me empurra assim que eu gosto. Faz bem o seu estilo.

- Me solta!- ela gritou, sentindo nojo daquele homem tão sórdido.

Sawyer ainda estava meio sonolento dentro da barraca, mas ao escutar o grito dela levantou-se de um salto.

- O que diabos você pensa que está fazendo?- esbravejou ao ver Bradley tentando agarrar Ana-Lucia.

- Oras o que eu estou fazendo? Pensa que só você e a sua panelinha é quem pode se divertir nessa ilha? Estou cansado de ouvir os gemidos que saem da barraca de vocês à noite.

Ana-Lucia deu um enorme tapa na cara de Bradley.

- Sua vagabunda!

- Seu desgraçado, eu vou te matar!- Sawyer gritou atirando-se sobre Bradley e enchendo a cara dele de socos. Ana-Lucia não tentou apartá-los, queria mais era que "o seu homem" enchesse aquele maníaco de porrada.

- Me solta, seu idiota!- se debatia Bradley, que a essa altura já se arrependera de ter provocado Sawyer.

Os gritos dos dois chamaram a atenção das pessoas que correram para ver o que estava acontecendo. Sayid foi o primeiro a tentar desapartá-los, seguido de Jack.

- Se tocar num fio de cabelo dela de novo, vai se arrepender de ter nascido.

- Duvido muito disso canalha, essa piranha tá doida pra me dar, um tigre nunca muda suas listras.

Ao ouvir isso Sayid deu um soco certeiro em Bradley que o apagou.

- Não se fala assim de uma dama. Jack concordou e disse:

- È melhor tirarmos ele daqui. Ana vou resolver isso e volto j´s pra saber como passou a noite.

Ana-Lucia não disse nada, seu olhar tinha uma expressão atordoada. Kate, que também tinha sido acordada pela confusão percebeu isso ao olhar para ela, e solidária indagou:

- Está tudo bem Ana?

- Não, mas vai ficar.

Sawyer ficou olhando enfurecido Jack e Sayid levarem Bradley dali. As pessoas se dispersaram. Jin deu um tapinha solidário no ombro de Sawyer e junto com Charlie e Hurley retomaram sua pescaria. Kate se afastou também.

Ana-Lucia se aproximou de Sawyer, ele cuspiu um pouco de sangue no chão. Ela tocou o ferimento dele delicadamente.

- Não foi nada, está tudo bem.- ele disse.

Ela o abraçou carinhosamente junto de si, e sussurrou no ouvido dele:

- Tu eres mi hombre...

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- O que vamos fazer, amarrá-lo?- indagou Sayid para Jack se referindo ao que fazer com Bradley.

- Não.- disse Jack. – Acho que ele já teve o seu castigo merecido. Mesmo assim, vamos deixá-lo na barraca dele e quando acordar teremos uma conversinha sobre como se deve tratar as mulheres por aqui.

- Tudo bem Jack. Mas você acha mesmo prudente deixá-lo lá, livre. Digo isso porque ele atacou a Ana-Lucia, todos nós vimos.

- Bem Sayid, no momento estou mais preocupado em mantê-lo longe do Sawyer. Nunca o vi tão furioso.

- Você reagiria da mesma forma se a Kate tivesse sido atacada.

Jack não respondeu. Os dois colocaram Bradley em sua barraca, deixando-o lá até que acordasse.

- Eu vou falar com o Bernard e o Michael, estamos com um projeto de construir casas mais seguras, feitas com madeira e bambu. Mas vou ficar de olho no Bradley, assim que ele acordar eu te chamo.

- Casas novas? Que interessante!

- Precisamos arranjar algo para passar o tempo e tornar nossa estadia nessa ilha mais confortável.

- Eu concordo, até porque temos crianças a caminho.

- Você disse crianças? Tem mais alguém grávida além da Sun?

- Não tenho certeza ainda, mas estou achando que Ana-Lucia está grávida.

- Isso é sério?- Sayid perguntou divertido. – Sawyer papai? Não imagino!

- Olha Sayid, estou te contando porque sei que não vai comentar com ninguém, sabe como a Ana é difícil, não sei como ela vai encarar essa notícia, muito menos o Sawyer.

- Não se preocupe Jack, não vou dizer nada a ninguém.

- Vou indo vê-la. Até mais.

Sayid assentiu e caminhou em direção à barraca de Bernard e Rose. Jack também seguiu seu caminho, precisava conversar com Ana-Lucia, se ela estivesse mesmo grávida tinha que começar a tomar alguns cuidados dali por diante.

Avistou Kate lavando roupas em uma bacia improvisada, junto com Shannon. Seus olhares se encontraram inconscientemente, transmitindo cumplicidade, estavam muito felizes, era notável. Shannon não perdeu a oportunidade:

- E então? Ele tem mais alguma tatuagem além daquelas visíveis?

Kate franziu as sobrancelhas: - Do que você está falando Shannon?

- Oras, você sabe. Não tenta me enrolar, eu ouvi vocês dois ontem à noite.

Ela baixou a cabeça e espremeu uma camiseta:

- Shannon, gosto muito de você, muito mesmo. Por isso não me leve a mal, mas cuide da sua vida!

E dizendo isso, ela pegou o resto de suas roupas que já estavam lavadas e saiu caminhando em direção ao varal, deixando Shannon sem palavras.

- Toc!Toc!- Jack brincou quando chegou à barraca de Ana-Lucia.

- Hey Jack!- Ana-Lucia falou, sorrindo. Quer entrar?

- Sim, preciso falar com você. Sawyer está aí?

- Não, ele disse que queria dar um mergulho na cachoeira.

- Ok.- Jack entrou na barraca e sentou-se. – Como você está?

- Eu estou bem, o que tive ontem foi só uma indisposição.

- Bem Ana, sou de opinião contrária.

- Por que?- ela indagou.

- Algo me diz que você sabe do que estou falando. Só não quer admitir.

Ela respirou fundo, e decidiu se abrir.

- Já estava desconfiando há algum tempo. Acho que estou grávida.

- Ok.- disse Jack, seu rosto denotando seriedade, suas suspeitas não eram infundadas então.- E há quanto tempo você está achando isso?

- Bem, isso é uma consulta não é? Papo Médico-Paciente?- ela indagou embaraçada.

- Sim, é claro.- ele sorriu, tranqüilizando-a. – Estou te incluindo como dependente no plano de saúde do Sawyer.

Dessa vez foi ela quem sorriu: - E o Sawyer tem plano de saúde?

- Sorte a dele, porque já precisou muitas vezes. Então pode começar a me contar.

- Bem, os enjôos começaram há umas três ou quatro semanas, todos os dias, me tirando a vontade de comer qualquer coisa. Com os enjôos veio também o excesso de sono.

- E a queda de pressão?

- Ontem foi a primeira vez, pelo menos aqui na ilha. Eu já sofro desse mal há algum tempo.

- Além dos enjôos, mais algum sintoma?

- Yeah, estou hipersensível, meus seios estão inchados, a calça está difícil de fechar porque não paro de engordar e ah, o mais significativo, minha menstruação está atrasada umas dez semanas.

Os olhos de Jack se alargaram:

- Dez semanas Ana? Então é 100 positivo. Sei que temos que levar em conta muita coisa, como o stress, mudança de ambiente, etc, mas dez semanas, incluindo todos esses sintomas?

- Eu sei Jack, é tempo demais. Mas mesmo assim eu tinha minhas dúvidas, porque tem uma coisa que ainda não te contei.

Ele indagou o que seria com o olhar.

- Eu não posso ter filhos.

- Como é?

- Isso o que você ouviu. Eu já estive grávida uma vez, mas perdi o bebê com poucos meses de gravidez. Aconteceu porque levei um tiro em serviço, foi quando a minha vida começou a desmoronar. Perdi o filho, o marido, a confiança da minha mãe, o respeito próprio, a sanidade...

Jack estava em silêncio, atento ao que ela dizia.

- O tiro que levei não só me fez abortar, como perfurou o meu útero, o médico foi bem claro comigo, mesmo que eu viesse a conceber uma criança a gravidez não iria pra frente, porque o meu útero não possuía mais a capacidade de abrigar um bebê.

- Mas então, quer dizer que...

- Exato, as chances de eu conceber eram mínimas, assim como as chances desse bebê vir ao mundo são menores ainda.

Jack passou as mãos pela cabeça, preocupado.

- Sawyer faz idéia do que está acontecendo?

- Não.- ela respondeu.

- Ana, você tem que contar a ele. Ontem, quando você passou mal ele me pareceu muito preocupado, se estão juntos ele tem o direito de saber.

- Eu sei Jack. Mas estou receosa de contar, como te disse nem sei se vou conseguir ter esse filho. Tenho medo da reação do Sawyer. Nosso relacionamento começou de uma forma tão absurda que nunca pensei que fosse chegar aonde chegou.- ela hesitou um momento ponderando se contava a ele o que estava em sua mente, mas resolveu contar assim mesmo. – Estou fazendo greve de sexo com ele há umas quatro semanas porque eu queria testá-lo, saber se ele realmente gostava de mim, se não era só sexo.

- E o que descobriu?- perguntou Jack.

- Ele não questionou em nenhum momento o motivo de eu o estar dispensando, mas todas as noites vem até a minha barraca só para dormir comigo, diz que se acostumou a dormir "de costela".

Jack riu: - Então acho que isso responde à sua dúvida. Sei que deve conhecer o Sawyer melhor do que qualquer um aqui nessa ilha, mas te dou um conselho sobre o que aprendi a respeito dele todo esse tempo. Não o subestime, ele pode se comportar como um cara que não está nem aí pra nada, mas é só fachada, Sawyer é uma boa pessoa.

Ana-Lucia ergueu um pouco a camiseta tocando o próprio ventre. Uma leve protuberância já se fazia visível.

Jack alargou os olhos ao notar isso: - Você precisa contar logo já está dando pra perceber.

- Eu estou esperando pela oportunidade perfeita.

- Espero que surja logo. Por ora, como médico digo que você deve se alimentar muito bem, ter boas noites de sono, caminhar um pouco todas as manhãs, beber bastante líquido e evitar o estresse...sua gravidez é de risco e temos que ter cuidado. Mas como amigo digo que vai precisar muito do apoio do Sawyer.- ele se levantou. - Eu preciso ir, não esqueça o que te recomendei e qualquer sintoma estranho me conte imediatamente. Você vai ter esse bebê Ana, vou fazer o que estiver ao meu alcance para garantir isso.

Ana-Lucia sorriu em agradecimento. Jack saiu da barraca dela, no entanto, mal deu dois passos e viu Kate se aproximar correndo dele, vinha esbaforida.

- Kate? O que foi?- assustou-se.

- A Sun está tendo o bebê, anda logo!

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Várias pessoas estavam em cima de Sun quando Jack chegou à sua barraca para vê-la . Jin repetia algumas palavras em coreano para que as pessoas se afastassem.

- Gente, vamos sair daqui. Eu preciso de espaço pra cuidar dela.

As pessoas foram se afastando, permanecendo apenas Jack, Kate e Jin. Sun respirava entrecortadamente, sua expressão denotava que estava sentindo muita dor.

- Sun, de quantos em quantos minutos são as contrações?

- Dois em dois.-ela respondeu com dificuldade. Jin segurava sua mão.

- Ótimo, então estamos bem adiantados. E a bolsa já rompeu?

Ela balançou a cabeça negativamente.

- Certo.- ele voltou-se para Kate. – Consiga água quente, e esterilize a minha tesoura.

Dessa vez não foi preciso Jack falar de novo, ela rapidamente saiu para providenciar tudo.

- Eu estou com medo.- Sun disse em coreano, para Jin apertando a mão dele, seu rosto estava muito suado.

- Quando começaram as contrações?- perguntou Jack.

- As mais fortes há uns vinte minutos, mas eu já estava sentindo uma dorzinha diferente quando cheguei à minha horta.

Kate logo voltou com o que Jack pedira. Não demorou muito, a bolsa de Sun estourou. Jack orientou Kate para que a despisse e depois cobrisse suas pernas com o cobertor. Ele se posicionou, segurando as pernas dela, e disse:

- Sun, agora vou precisar da sua ajuda. Faça toda a força que puder.

Sun assentiu. Jin estava apreensivo, mas não largava a mão dela.

- Kate, quando eu disser já empurre a barriga dela.

Kate se colocou em posição. Jack sorriu, o parto seria tranqüilo, Sun tinha passagem suficiente.

- Vamos Sun, vai dar tudo certo. Empurre!

Sun começou a empurrar com a ajuda de Kate. A dor era lancinante, mas a vontade de ver o filho era muito maior e ela sorria pensando nisso, enquanto fazia força.

Lá fora, as pessoas estavam atentas, aguardando a chegada de mais um habitante da ilha. Eko que já tinha retornado da escotilha, ao saber que Sun estava tendo o bebê pôs-se a fazer suas orações, pedindo a Deus que tudo corresse bem no parto. Ana-Lucia também estava apreensiva enquanto escutava Sun dar à luz, ela própria não sabia se esse momento chegaria para ela.

- Isso Sun, continue. Já estou vendo ele.

Kate sorriu e continuou empurrando a barriga de Sun.

- Acho que não vou agüentar mais...-falou Sun, já estava começando a se sentir muito fraca.

Jin percebeu a mudança de semblante dela, e a encorajou:

- Sun, é o nosso filho. Vamos, você vai conseguir. Eu te amo.- as três últimas palavras ditas em inglês.

Ela fez um último esforço, enorme, se sentia dilacerada por dentro, mas ia conseguir.

- Ele está vindo Sun, está chegando!

Jack retirou o bebê cuidadosamente, limpando sua boca e o nariz de imediato. A criança chorou, desesperada. O choque de quem acaba de chegar a um mundo desconhecido. Kate arregalou os olhos, e falou entusiasmada:

- È um menino, Sun. Um menino.

Toda a dor se esvaiu quando Sun pegou o filho nos braços. Era um lindo menino, saudável, de cabelos muito negros e olhos apertados. Sun aconchegou-o junto de si. Jin tinha lágrimas nos olhos, estatelado diante da cena. Kate deixou uma lágrima escorrer também, um nascimento era sempre um momento mágico.

Quando Jack saiu da barraca seguido por Kate foi aclamado por todos que lá fora se encontravam, as pessoas reconheciam o quanto ele era importante pra aquela comunidade. Jack sorriu, segurava em suas mãos os panos sujo de sangue e a placenta enrolada neles.

Assim que se livrou de tudo, Jack sentou-se não muito longe da barraca de Sun e Jin, e lavou o rosto e as mãos com água que Kate lhe trouxera em um balde.

- Você é lindo!- Kate disse antes de beijá-lo com avidez. Ele só teve tempo de abaixar o balde no chão. O lugar onde estavam tinha algumas árvores que os ocultavam de olhares curiosos.

- Assim vou morrer cedo!- ele gracejou. Estava exausto, depois da tórrida noite de amor com Kate, a confusão com Bradley, o mal-estar de Ana-Lucia e o parto de Sun tudo o que ele queria era poder dormir um pouco. – Você vai me maltratar?

Ela sorriu: - Não, vou ser boazinha agora e te deixar descansar. Mas à noite não vai ter trégua Jack Shephard.

Beijaram-se mais uma vez e ela se afastou lançando-lhe olhares maliciosos. Ele ficou sorrindo sozinho, e pensou em ir para a escotilha e dormir um pouco até a hora do almoço. Mas quando estava colocando sua mochila nas costas, Sayid o chamou.

- Jack, Bradley sumiu da barraca dele.

Jack fez cara de "não acredito". Passou as mãos pela cabeça e falou:

- Então está na hora de tomarmos uma atitude que eu já venho pensando há algum tempo. Chame todos os homens do acampamento, e peça que me encontrem do lado esquerdo da praia, próximo às pedras.

- O que vai fazer?- Sayid indagou.

- Ditar uma regra que servirá para todos.

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Os homens entreolhavam-se desconfiados, não sabiam o motivo pelo qual haviam sido chamados. Sawyer que acabara de voltar da cachoeira, quando soube que Jack queria todos os homens reunidos na praia gracejou:

- O Jack já está organizando a sua despedida de solteiro? Mas onde será que ele arrumou a stripper?

- O caso é sério Sawyer, Jack deve ter nos chamado aqui por causa do Bradley.-falou Michael.

- È muito fácil resolver o problema com o Bradley, basta me deixarem matá-lo, só isso.

- Ninguém vai matar ninguém aqui, Sawyer.- falou Jack se colocando no meio do grupo. – E essa é a primeira regra que será estabelecida.

- Ah tá! Então agora vamos formar a ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda?- debochou Sawyer.

- Sem piadas Sawyer, o negócio é sério.

- Ora doutor. Quer dizer pra mim que o negócio é sério? Minha garota foi atacada, eu sou o mais ofendido daqui. Bradley teve sorte que eu não tinha um 38 nas mãos, senão a essa altura a cara dele já teria virado mingau.

- È por isso mesmo Sawyer que estamos aqui. Todos nós. Precisamos viver civilizadamente, o fato de estarmos nesta ilha não nos transforma em selvagens.

- Tá falando só por você, não é Jack? Pensem comigo, você, o imbecil do Sawyer, Sayid, Charlie, Hurley, Desmond, esqueci alguém mais? Todos vocês tem uma mulher para as horas difíceis. Não tem sobrado nada pra gente, bem que eu tentei conquistar a Aline, mas ela só pensa no Desmond. – falava Craig.

- Sério, brotha?- indagou Desmond que nunca havia notado o interesse de Aline.

- Temos nossas necessidades.- gritou Nilson.

- Necessidades?- questionou Jack. – Isso não nos dá o direito de tomá-las à força. Nossas mulheres devem ser respeitadas.

- Ah, então querem satisfazer suas necessidades? Virem gays, o problema é de vocês, mas fiquem sabendo que ninguém vai mais chegar perto da minha morena.

- E muito menos da minha loura.- falou Sayid.

- A Libby também não está disponível.- avisou Hurley.

- Quem se meter com a Claire vai sentir o peso da minha fúria.- ameaçou Charlie.

Alguns homens riram, debochando da baixa estatura do inglês.

- O ponto aqui não é esse.- anunciou Jack. – Estou aqui para adverti-los que se tentarem alguma coisa contra qualquer mulher daqui, será severamente punido. Bradley desapareceu, mas vai voltar e quando isso acontecer teremos uma conversinha com ele.

Os homens dispersaram. Apenas Eko e Jack permaneceram. O padre se dirigiu ao médico:

- Por quanto tempo pretende controlá-los?

- O tempo que for preciso- respondeu Jack. – Posso contar com sua ajuda para isso?

- Com certeza, aliás, quando Bradley retornar, me deixem falar com ele, garanto que ele não vai querer mais agredir mulher nenhuma.

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Até o fim da tarde, Bradley ainda não havia retornado. Mas Eko e Sayid estavam alertas caso ele chegasse. Sayd começou a pensar que talvez Bradley tivesse muito mais coisa pra esconder do que o ataque à Ana-Lucia, senão porque ele teria fugido? Bradley sempre fora um cara estranho, mas nunca tinha levantado suspeitas até agora. De fato, sempre que alguma confusão acontecia no acampamento, Bradley estava sempre incentivando pro lado da violência. Sayid começou a tecer planos de interrogá-lo, assim que ele retornasse.

Durante o dia inteiro, Ana-Lucia fizera de tudo para se esquivar de Sawyer, estava pensando na melhor forma de contar sobre a sua gravidez. À noitinha, antes do jantar, Sawyer resolveu ir até a barraca dela, estava com saudades, desde que retornara da caçada não tinham tido oportunidade de conversarem direito. Sorriu ao lembrar de que ela dissera que ele era o seu homem, gostara disso, amaciara seu ego.

Quando entrou na barraca, ela estava ocupada dobrando algumas roupas. Ao vê-lo sentiu-se apreensiva, mas disfarçou.

- Hey, cowboy!

- Hey baby.- ele respondeu sorrindo.

Sentou-se atrás dela, puxando-a para si, acomodando-a entre suas pernas. Beijou-lhe o pescoço. Ana-Lucia fechou os olhos ao sentir o carinho dele.

- Ana, tô morrendo de vontade de você. Que tal acabar com essa greve e fazer amor com o seu cowboy, hã? Vai ser tão gostoso...

Ela voltou os olhos negros pra ele e o beijou docemente nos lábios. Ele a apertou contra si, Ana-Lucia estremeceu. Sawyer fez com que ela virasse de frente pra ele e deitou-se sobre ela, que suspirou ao sentir o peso do corpo dele.

Ele começou a beijá-la vorazmente, Ana-Lucia correspondia com vontade. Entretanto, quando ele começou a acariciar os seios dela por debaixo da blusa. Ela o afastou. Sawyer piscou os olhos pra ela:

- Meu dengo, por que não quer mais fazer amor comigo? Está acontecendo alguma coisa?.-ele apertou os olhos, faíscas de ódio saindo deles. – Aquele Bradley fez alguma coisa com você, ou qualquer outro? Me conte Ana-Lucia e eu acabo com o desgraçado!

Ana-Lucia respirou fundo: - Adoraria fazer amor com você, mas não posso agora porque tem algo que você não sabe.

Sawyer fechou os olhos numa expressão de dor, temia muito que ela tivesse sido violentada: - Ana, confie em mim, me conte tudo.

- Está bem.- ela assentiu.

O coração dele começou a bater mais forte, então algum cara sórdido teria mesmo feito alguma coisa com ela? Não importavam as regras de Jack, mataria o sujeito fosse quem fosse.

- Diga, docinho, diga pro seu homem o que fizeram com você.- ele indagou acariciando o rosto dela.

- Você fez, eu estou grávida.- disse por fim.

Sawyer arregalou os olhos azuis pra ela, no rosto uma expressão de espanto e incredulidade.

- Como é que é?

- Isso o que você ouviu James, eu estou grávida.

Ele balançou a cabeça negativamente e se afastou dela ficando de pé:

- Calma aí Billie Jean, que história é essa de gravidez? Como isso foi acontecer? Você me disse uma vez que não podia ter filhos.

- E não podia. Mas o fato é que eu estou esperando um filho seu Sawyer.- ela respondeu com seriedade.

Sawyer sentou-se outra vez, de frente pra ela.

- E você tem idéia de quanto tempo está?

- Uns dois, três meses, sei lá!

- Dois, três meses?- ele indagou quase gritando. – Então é pra valer né?

- Estou com cara de quem está brincando?

Ele levou a mão direita ao rosto: - Não, isso não podia ter acontecido.

- Mas aconteceu, e preciso saber o que você acha disso.

- Eu não acho nada.

- Não acha nada? Sawyer como pode dizer isso numa hora dessas?- Ana-Lucia se exaltou.

- O que você quer que eu diga? Que ótimo, vamos ter um bebê na Ilha da Fantasia! Não Ana, isso não tem nada a ver comigo. Me esquece!

Ana-Lucia estava surpresa e magoada com a atitude de Sawyer, como é que de repente o sujeito cuidadoso e carinhoso por quem se apaixonara tinha se transformado naquele ser insensível que não estava nem aí para os problemas dela. Lembrou das palavras de Jack, de que Sawyer era uma boa pessoa. Pois Jack estava enganado, Sawyer não passava de um covarde.

Ele saiu da barraca, Ana-Lucia o seguiu e seus olhos tristes encontraram os dele, antes que se afastasse caminhando de cabeça baixa. Olhou para o lado, deu de cara com Kate que ninava o pequeno Jung Shon Kwon, para que Sun e Jin descansassem um pouco. Kate notou que havia algo errado, por isso se aproximou de Ana-Lucia antes que ela voltasse para dentro de sua barraca.

- Ana?- chamou. – Está tudo bem?

Seu peito estava comprimido, uma enorme vontade de chorar convulsivamente estava lhe tomando, mas ela respirou fundo e respondeu com o máximo de normalidade que conseguiu:

- Sim, está.

- E o Sawyer?- Kate indagou.

- Acho que ele está bem.- disse sem emoção, levantando a manta do bebê, estava curiosa para vê-lo.

- Ele é lindo não é?- disse Kate embalando-o.

Os olhos de Ana-Lucia brilharam, e ela acariciou os cabelos escuros do menino.

- Como ele se chama?

- Jung Shon Kwon!

- Imagino que esse nome tenha um grande significado.

- Sim, Sun me disse que significa em nossa língua algo como "guerreiro sobrevivente."

- Gostei. E como ela está?

- Está ótima, só precisa repousar. Correu tudo bem no parto.

Kate percebeu o quanto ela parecia hipnotizada olhando para o garoto.

- Quer segurá-lo?

- Ah não, eu não tenho muito jeito...

- Anda, toma.- disse Kate entregando o bebê a ela. – Você pega assim devagarzinho, cuidado com a cabecinha dele, isso.

Ana parecia um pouco desengonçada segurando o bebê, mas ficou feliz em fazer isso.

- Você tem muito jeito com crianças!- ela disse para Kate. – Você tem filhos?

- Não.- Kate respondeu. – Nunca tive uma oportunidade realmente, vida atribulada.

- Sei como é.- Ana-Lucia embalava Jung, encantada. Seu coração cheio de esperanças de poder em breve fazer o mesmo com seu próprio filho.

- E você tem vontade de ter filhos?- perguntou Kate, sondando-a.

Ao ouvir isso, Ana-Lucia entregou o bebê de volta para Kate, e disse, apressada:

- Preciso voltar pra minha barraca.

- Não vai participar da fogueira esta noite?

- Não, eu estou cansada. Boa noite.

Kate assentiu, e se afastou com o bebê. Com certeza tinha algo errado. Achou Ana-Lucia muito apreensiva. Teria a ver com a suposta gravidez dela? Desde antes da hora do almoço não tinha mais falado com Jack, passara o dia inteiro cuidando de Sun e do bebê.

- Kate?- chamou Jin.

Ela sorriu e entregou o bebê de volta pra ele. Iria atrás de Jack na escotilha, queria relatar o estranho comportamento de Ana-Lucia, mas principalmente queria matar saudades, uma noite não tinha sido suficiente para suprir a falta que ele lhe fez durante os últimos três meses.

Continua...