Episódio 19- Vivendo um dia de cada vez.

Sinopse: Jack reúne todos na praia e diz que precisam estabelecer leis na comunidade para viverem melhor. Um estranho container surge do mar.

Censura: M.

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Todos estavam reunidos na beira da praia olhando atentamente para Jack, Kate ao seu lado. Haviam largado suas tarefas quando Hurley e Charlie apareceram anunciando que Jack tinha algo importante a dizer.O tinham como um líder e cada vez que ele solicitava algo a alguém da comunidade obedeciam sem pestanejar. Ao perceber que já estavam todos lá, exceto Locke que permanecera na escotilha, e Sayid que acabara de ir para lá ajudá-lo com o prisioneiro, Jack foi direto ao ponto.

- Bradley morreu ontem à noite.

As pessoas se entreolharam assustadas, mais uma morte no acampamento. O que poderia ter sido? Craig indagou:

- Como ele morreu? Contaminação outra vez?

- Ai meu Deus!- exclamou Aline. – Então essa história de contaminação é verdade?

Nesse momento, todo mundo começou a falar ao mesmo tempo, uns diziam que a contaminação não existia outros insistiam que estavam condenados. Jack apressou-se em explicar:

- Não está havendo contaminação nenhuma, o que aconteceu foi...

- Eu o matei!- disse Sawyer.

As atenções se voltaram para ele. Steve falou:

- Você o matou por causa da Ana-Lucia? Tudo bem que o cara tava errado, mas não precisava matar ele.

Ana-Lucia ficou surpresa com a notícia da morte de Bradley. Seus olhos encontraram os de Sawyer, ele continuou:

- O matei porque ele representava um perigo para as mulheres, ontem à noite depois de ter atacado a Ana-Lucia, Bradley tentou estuprar a Kate na mata.

As palavras de Sawyer surtiram efeito nas mulheres, elas olhavam-se com expressões do tipo: "E se tivesse sido eu?"

- Isso mesmo.- concordou Jack. – Se eu e o Sawyer não tivéssemos chegado a tempo, Kate não estaria viva agora.

As pessoas começaram a balançar as cabeças assentindo, Jack ficou um pouco aliviado ao ver que aparentemente ninguém iria crucificá-lo pela morte de Bradley.

- Quero que saibam também.- continuou Jack. – Que não estou feliz com o rumo que as coisas estão tomando aqui na comunidade. Ontem eu chamei os homens para conversar sobre as regras que precisam ser estabelecidas para melhorar nossa convivência aqui.

- E quem irá estabelecê-las? Você Jack?- indagou Bernard. – O que entende sobre isso? Você é médico, não advogado.

- Cala a boca Bernard, você é um dentista.- zangou-se Rose cochichando ao pé da orelha do marido.

- Não, não estou aqui para impor nada. Vamos decidir juntos. Tudo o que for melhor para todos, e depois disso vamos tratar de obedecer nossas regras, sem burlá-las ou essa reunião não teria nenhum sentido. Não sabemos por quanto tempo ainda viveremos nessa ilha, mas apesar disso, resgatados ou não, a vida continua. Relacionamentos se firmando.- ele deu um olhar discreto para Kate que sorriu. - Crianças que estão nascendo ou que ainda vão nascer. Sawyer olhou para Ana-Lucia novamente. – Então vamos fazer isso e tornar nossa estadia nessa ilha mais suportável. Idéias e sugestões são bem vindas.

Todos começaram a se manifestar aos poucos e grandes coisas foram decididas, alguns cargos criados. Passaram a manhã inteira nisso. Jack já estava exausto na hora do almoço, quando resolveu que já era hora de voltar para a escotilha, ver como estava o desconhecido. Lembrou que ainda não conversara com Ana-Lucia, foi até ela que estava organizando algumas coisas próxima a sua barraca. Quando a discussão sobre as regras da ilha começaram, ela se distanciou, não tinha a menor intenção de se meter nisso, o que decidissem estava bom.

- Hey Ana- Jack saudou.

- Hey!- ela respondeu.

- Como você está? E os enjôos, melhoraram?

- Tudo na mesma, de manhã me sinto bem, mas as noites tem sido um tormento.

- Mesmo assim tem se alimentado direito?

- Estou seguindo suas ordens doutor.-ela respondeu sorrindo.

Jack sorriu também e comentou: - Pelo jeito o Sawyer reagiu bem à novidade, estou te achando com uma cara bem melhor que ontem.

- Isso depende.- ela limitou-se a dizer.

Ele tocou o ombro dela amigavelmente: - Já sabe, qualquer coisa é só me procurar. Ana-Lucia assentiu. Jack se afastou, a mochila já nas costas. Procurou Kate com os olhos, a viu conversando animadamente com Sun e Claire, Aaron em seu colo. Queria levá-la com ele, mas decidiu que voltaria para pegá-la mais tarde, era melhor dar-lhe espaço, estava ficando muito possessivo.

Virou as costas em direção à floresta quando escutou ela chamando-o:

- Jack! Jack!

Uma imensa felicidade invadiu-lhe naquele momento e ele voltou-se para ela que correu até ele, e sem dizer uma palavra o beijou na frente de toda a ilha pela primeira vez. Um beijo terno, mas intenso. Claire cochichou com Sun:

- Eu sempre desconfiei, e você Sun?

- Não, eu não desconfiava, pra mim sempre esteve na cara.

Quando se afastaram, Jack tinha uma expressão interrogativa em seu rosto. Kate sorriu, divertida e disse:

- Hoje você vem aqui pra praia ficar comigo, amanhã eu vou pra escotilha ficar com você. Assim a gente não discute.- ela aproximou seus lábios do ouvido dele. – E você me ama todas as noites, aqui na praia, lá na escotilha...

- O que é isso, uma nova regra?- ele indagou.

- Não Jack, é mais do que isso é uma lei, algo que não pode ser mudado.

Jack beijou a mão dela e saiu caminhando, sorria como um bobo. – Por que tenho que voltar à escotilha mesmo?- pensou consigo.

Kate voltou toda sorridente para onde estavam Sun e Claire. Esta pigarreou, fazendo Kate rir.

- Então, a Srta. está saindo com o Jack e não nos contou nada?

- Saindo?- ela indagou, achando graça da expressão, afinal estavam numa ilha e este não era o termo adequado.

- Desculpe.- Claire riu de si mesma. – È a força do hábito, ás vezes esqueço que estamos numa ilha. Mas de qualquer forma, quer dizer que você e o Jack...

Kate ia começar a dizer algo quando Shannon apareceu com cara de poucos amigos.

- Ah, quer dizer que você pode contar pra elas, mas não pode contar pra mim? Achei que fôssemos amigas, esqueceu que eu te ajudei no momento em que mais precisou quando te dei aquele teste de gravidez?

Ela falou um pouco alto, Kate fez um sinal com a mão para que ela falasse mais baixo. Olhou para trás e viu que Debbie e Tina estavam perto, esperou que elas não tivessem escutado.

- Shannon, por favor, não comente sobre assunto assim...- Kate pediu, apreensiva.

Claire tinha os olhos arregalados, surpresa: - Você fez um teste de gravidez? Está esperando um filho do Jack?- perguntou falando baixinho.

- Não, não é nada disso. Não estou grávida, pensei que estava, mas não estou e isso foi há três meses atrás.

- Já estava com o Jack há três meses atrás?- Claire insistiu.

Kate começou a ficar nervosa, não queria que Claire e Shannon soubessem do seu rápido envolvimento com Sawyer. Sun ajudou-a a sair do sufoco:

- Meninas, vamos parar de interrogar a Kate. Se ela está dizendo que não está grávida, é porque não está.-ela ajeitou Jung no colo, o bebê dormia a sono solto, mesmo com a tagarelice delas. Aaron brincava com algumas conchinhas aos pés de sua mãe. – Mas eu sei de uma pessoa que está grávida.

Ávidas pela fofoca, Claire e Shannon tiraram Kate da berlinda e se aproximaram de Sun para ouvir o nome da próxima futura mamãe.

- Quem Sun?- indagou Shannon.

- Ana-Lucia.- ela respondeu voltando seus olhos para a própria que estava sentada na beira da praia, jogando pedaços de manga para Vincent.

- Isso é sério?- espantou-se Claire.

- Sim, é verdade. Foi Sawyer quem me contou.

- Eu não acredito nisso!- falou Shannon, irritada. – Como é que pode uma criatura dessas "mãe"? Não consigo imaginar a mal amada cuidando de um bebê, ela não tem nada a ver com isso.

- Shannon, por que sempre age assim quando se refere a Ana-Lucia?

- Sei lá Kate, será que é porque ela me deu um tiro quando chegou aqui nessa ilha? Um tiro que quase me matou?

- Mas foi um acidente Shannon.- disse Sun.

- Um acidente? É assim que vocês vêem as inconseqüências dessa mulher? Ela vai ter um filho e eu não, por que será?

Shannon se afastou magoada. Kate foi atrás dela:

- Shannon, espera!

Ela se voltou para Kate: - O que você quer?

- Conversar com você. Percebi que tem alguma coisa te incomodando, quero te ajudar, nós somos amigas.

- Deixou de ser minha amiga quando me mandou ficar fora da sua vida.- ela respondeu indo para sua barraca, lágrimas ameaçando tomar-lhe os olhos.

Kate sentiu-se mal por ter destratado Shannon no dia anterior. Mas é que ela às vezes costumava ser muito incoveniente, e Kate não queria ficar contando detalhes de seu romance com Jack, acreditava que isso era muito pessoal.

- O que será que está acontecendo com ela?- indagou Claire, ela tem me parecido triste e abatida esses dias.

- Eu não sei, acho que vou falar com o Sayid, não gosto de vê-la assim.- falou Kate.

A maré estava enchendo, as ondas quebravam com violência nas pedras arrastando para a praia um pequeno container. Ana-Lucia molhava os pés na beira da água quando avistou o estranho objeto que se aproximava.

- Mas que diabos é isso?- indagou para si mesma. Voltou seus olhos para trás, viu Claire, Sun e Kate conversando. Chamou-as, apontando para o container que já estava bem próximo: - Ei, vejam isso!

Kate foi a primeira a correr até lá, seguida por Claire que pegou Aaron ao colo e Sun que caminhava mais devagar por causa de seu bebê. Aline e Debbie também foram para lá. As seis mulheres ficaram paradas esperando que a maré trouxesse o container mais para perto. Quando isso aconteceu, Ana-Lucia e Kate entraram na água, curiosas para explorar o objeto de perto.

- O que acham que é isso?- perguntou Aline.

Sun balançou a cabeça negativamente, não fazia a menor idéia. Debbie comentou:

- Será que é o novo jeito "Deles" de nos mandarem comida?

Quando o container estava bem próximo à beira, devido ao seu peso encalhou na areia. Kate tocou a superfície de metal do objeto procurando alguma inscrição que indicasse a sua procedência.

- Será que conseguimos tirar ele daqui de dentro?- questionou Ana-Lucia.

- Ana, não dá é muito pesado. Além do mais, você não pode fazer esse tipo de esforço.-Kate advertiu.

- Então o Jack já te contou?- ela perguntou.

- Na verdade.- Kate sorriu triunfante. – Foi o Sawyer.

- Sawyer?

- Mas o que vocês duas estão fazendo?- o próprio apareceu, seguido de Jin, Eko e Charlie. Claire os tinha chamado para que ajudassem com o container. – Ana, você não pode estar fazendo esse tipo de coisa.

- Eu não estou morta, Sawyer!- ela bradou, grosseira.

Jin falou várias palavras em coreano, mas ninguém entendeu. Charlie deu de ombros, e falou: - Sim, vamos ou não vamos tirar essa banheira da água? De repente tem um estéreo aí dentro.

- Ou armas!- disse Ana-Lucia.

- Ana, rapa fora daqui, anda! Nos deixe fazer o nosso trabalho.- falou Sawyer em tom autoritário.

Ela fechou a cara e saiu da água, indo esperar na beira. Sawyer, Charlie, Eko, Jin e Kate se posicionaram fazendo um esforço sobre-humano para arrastar o container para a beira.

- È nessas horas que eu queria ser o Superman!- comentou Sawyer.

- Gente, vamos lá de novo, no três!- disse Kate.

Eko contou: - 1, 2, 3!

Se esforçaram ainda mais e conseguiram levar a pesada caixa de metal para a beira. Aquela altura, várias pessoas haviam se aglomerado para ver o que estava acontecendo. Correram para cima do container quando o viram.

- Como vamos abri-lo?- indagou Bernard.

- Cara, eu acho que a gente não devia abrir isso aí não!- esbravejou Hurley ao ver os números de sempre (4, 8, 15, 16, 23, 42) gravados com tinta lascada na superfície do container.

- Ai Hurley, não começa!- falou Kate. – Você também não queria que abríssemos a escotilha, e não encontramos nada demais lá.

- Ah não cara, não encontramos nada. Só um sujeito morando lá dentro, apertando um botão de 108 em 108 minutos para essa ilha não explodir.

Desmond olhou para Hurley com ar de riso.

- O único jeito de abrirmos isso é usando um pé de cabra.- disse Michael.

- Ah sim claro Bob Construtor, e onde vamos arrumar um?- perguntou Sawyer sarcástico.

- Na caixa de ferramentas da escotilha existe um, e por coincidência eu o trouxe ontem aqui pra praia.

- Então vá buscá-lo.- pediu Charlie, estava ansioso para saber o que tinha dentro do container.

Michael logo o trouxe, e com a pressão certa sobre o container, conseguiu abri-lo sem nenhuma dificuldade.

- È isso aí cara, mandou bem!- disse Steve.

Michael sorriu e comentou: - Não é só o Sayid que tem boas idéias por aqui.

A tampa era muito pesada, precisou que Sawyer, Michael e Jin a carregassem para poder destampar o container. Todos os olhos se voltaram para dentro.

- Mas o que é isso?- indagou Debbie.

Dentro do container havia diversas caixas de papelão com nomes escritos nelas. Kate avistou o seu e pegou a caixa, removendo o lacre. Seus olhos alargaram-se ao ver que seu conteúdo era de roupas novas.

- Bizarro, cara!- exclamou Hurley.

- Mas o que é isso?- indagou Sawyer abrindo a caixa com o nome James Ford. – A nova coleção primavera/verão da Dharma Initiative?

- Que coisa mais absurda!- exclamou Bernard, procurando a caixa com seu nome, não demorou muito para encontrar.

Empolgados com a descoberta, todos começaram a remexer dentro do container procurando as caixas que continham seus nomes. Eram como patinhos á beira de um lago felizes por estarem jogando farelos de pão para eles. Kate pousou sua caixa no chão e procurou pela de Jack. Quando a encontrou saiu carregando as duas em direção à sua barraca, estava muito curiosa para ver tudo o que continham. Ana-Lucia agarrou sua caixa e se afastou para olhar melhor seu conteúdo.

Logo todos já tinham encontrado suas caixas e começaram a abri-las ali mesmo na beira da praia se maravilhando com cada peça de roupa que encontravam. Debbie comentou ao vislumbrar o conteúdo de sua caixa:

- Oh meu Deus, não é só roupa, tem um tênis novo também e uma sandália de usar na praia.

Sun arregalou os olhos ao descobrir que entre suas roupas havia também na caixa, roupas para Jung, uma manta, fraldas e sapatinhos. Bernard falou segurando uma camisa de mangas compridas listradas que havia tirado de sua caixa:

- Isso é mesmo muito estranho, essas roupas são exatamente dos nossos tamanhos.

- E não possuem etiquetas!.- observou Libby enquanto segurava uma bermuda jeans.

- Eu acho que nós devíamos juntar todas essas coisas e jogar fora. Já não basta estarmos sendo alimentados por essa tal associação como se fôssemos seus bichinhos? Agora também estão nos vestindo e calçando? O que mais falta?

- Ótima idéia!- ironizou Sawyer. – Se você quiser jogar as suas roupas fora, fique à vontade. Mas saiba que eu já estou cansado de usar cuecas furadas.

- O que você acha disso, Eko?- indagou Claire maravilhada com as roupinhas que havia na caixa para o filho. Ela sempre gostava de ouvir a opinião do padre, sentia-se mais segura.

- Eu acho que não devemos questionar as dádivas que nos são concedidas.- ele respondeu calmamente, seus olhos castanhos brilhando ao descobrir que entre seus pertences havia uma batina ricamente confeccionada.

- Ei, aqui tem uma camiseta da minha banda, Drive Shaft!- anunciou Charlie, empolgado.

- Cara, olha essa jaqueta psicodélica que fizeram pra mim?- disse Hurley sorrindo. – Ei Libby, não acha que eu vou ficar um gatão com essa jaqueta? Olha, tem até uns óculos escuros aqui pra combinar.

Libby riu e beijou Hurley docemente nos lábios, antes de começar a vasculhar as caixas de roupas de Emma e Zack.

Não muito longe dali, Ana-Lucia também observava o conteúdo de sua caixa. Nela havia algumas camisetas de alça, umas duas calças jeans, bermudas, alguns vestidos soltos e o mais intrigante, roupas de bebê. Seus olhos se iluminaram quando segurou um sapatinho de lã de cor azul entre seus dedos. Levou-o ao rosto, sentindo-lhe a maciez. Se tinha alguma dúvida sobre se teria ou não seu filho, achou que talvez ali estivesse a resposta. As pessoas que mandaram aquelas coisas sabiam de sua gravidez, e a estavam preparando para quando seu bebê chegasse.

Em sua barraca, Kate retirava peça por peça de roupa de sua caixa. Não abrira a de Jack, deixaria que ele fizesse isso. Assim como nas outras caixas, as roupas que tinham sido enviadas para ela eram exatamente do seu tamanho, mas sem etiquetas, havia também um tênis e uma delicada sandália de amarrar nas pernas de cor preta. Dentre as camisetas, shorts, calças jeans, três vestidos de cores diferentes e até um biquíni cor de rosa, Kate ficou espantada ao encontrar entre a roupas íntimas um par de meias de seda pretas, acompanhadas de provocantes ligas da mesma cor.

- Isso não faz nenhum sentido...- murmurou para si mesma.

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Quando Jack voltou à escotilha na hora do almoço, espantou-se ao saber que Locke deixara Sayid sozinho dentro da sala de armas com o prisioneiro. Entretanto, tranqüilizou-se ao entrar na sala e ver Sayid pacientemente tentando fazer o desconhecido comer.

- O que te fez mudar de idéia?- indagou Jack.

- Eu não mudei de idéia, estou apenas dando uma chance para esse homem se explicar, não quero que fiquem dizendo no acampamento que sou um homem injusto.

Graças à insistência de Sayid, Pedro conseguiu comer um pouco, e sentiu que suas forças estavam começando a voltar apesar de ainda estar muito machucado. Estava confuso, não sabia que lugar era aquele e nem quem eram aquelas pessoas. A última coisa que se lembrava era de ter saído de seu país, o Brasil, para fazer uma viagem de trabalho e turística ao mesmo tempo, nas ilhas Fiji. Mas então, algo de muito estranho aconteceu e ele não conseguia se lembrar o que era, até que um rosto familiar lhe veio à mente e ele não conseguiu conter o desespero:

- Nikki, onde está Nikki?- gritou em português.

Jack, Locke e Sayid correram para a sala de armas. Pedro estava sentado na cama, passando as mãos pelo rosto, desnorteado:

- "Where is Nikki?" O que fizeram com ela?

Os três entreolharam-se: - Do que aquele homem estava falando?

- Ei acalme-se!- disse Jack tentando fazer com que Pedro se sentasse.

Mas ele continuava insistindo em perguntar por Nikki, em português e inglês.

- Ele está delirando, não diz coisa com coisa.- falou Locke.

Sayid preferiu não dizer nada, já tinha coisas demais na cabeça sobre aquele homem. Saiu da sala de armas acompanhado por Locke. Jack ficou sozinho com Pedro, este olhou bem fundo nos olhos do médico e indagou, em inglês:

- Que lugar é esse? Por favor, me diga! Eu estou tendo um pesadelo interminável ou estou morto?

- Você não está morto, disso pode ter certeza.- afirmou Jack, tocando a testa dele. – Sua febre está alta, vou buscar um remédio.

- Você é médico?- perguntou Pedro.

Jack assentiu com a cabeça.

- E os outros dois?

- Já volto com o remédio.- Jack disse se encaminhando para a porta.

- E aquela garota? Ela existe ou tem algo a ver com meu delírio? Estou em um hospital?

- Não, não está em um hospital. E sim, ela existe, você não delirou.

Jack saiu intrigado da sala de armas, talvez aquele homem estivesse mesmo confuso. Havia algo nele que denunciava que ele não estava mentindo. Mesmo assim, precisava continuar sendo cauteloso. Decidiu que ficaria na escotilha por toda a tarde para tentar descobrir mais alguma coisa sobre aquele homem, só retornaria à praia de noitinha, as coisas deveriam estar calmas por lá.

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- Alguém está me ouvindo? Eu já estou cansada de ficar aqui. Me tirem daqui!- Nikki gritava a plenos pulmões, já fazia dias que havia sido trancada naquele quarto de paredes brancas com apenas um minúsculo banheiro para suas necessidades e uma cama para recostar-se. A comida era passada por uma fresta na porta. – Por favor, eu não agüento mais!- gritou já em prantos deixando-se escorregar até o chão de costas para a porta. Além de não fazer a menor idéia do que estava acontecendo e de onde estava, não sabia o que tinham feito com Pedro.

Desde que foram parar naquela ilha, e passaram dias na mata no maior sufoco procurando comida ela não o vira mais. Estavam dormindo próximo a uma caverna quando foram capturados por aquelas estranhas pessoas. No início, ela achou que se tratavam de nativos da ilha, mas ao ser levada junto com Pedro para aquele lugar que mais parecia um hospital psiquiátrico, Nikki começou a pensar que de selvagens aquelas pessoas não tinham nada. Ou talvez tivessem já que a trancaram ali, separando-a de seu amigo.

Não se conheciam há muito tempo, a verdade era que Pedro a contratara através de uma agência de viagens para ensiná-lo a mergulhar nos recifes de corais das ilhas Fiji. Nikki era instrutora de mergulho. Já estavam mergulhando há cerca de três dias, quando Pedro pediu a ela que o levasse a um lugar mais afastado de onde costumavam mergulhar, onde ele pudesse ver coisas extraordinárias.

Nikki resolveu levá-lo em um belíssimo balcão de areia que ficava a uns 10 quilômetros da Vila de Pescadores. Porém, no meio do caminho, o motor da lancha pifou e eles resolveram voltar para a Vila de bote, mas o mar agitado os arrastou para umas pedras onde o bote foi furado, e eles já estavam muito longe para voltar à lancha. Sem saída eles tentaram nadar desesperadamente até a ilha mais próxima, pois o lugar era todo recortado por pequenas ilhas. À deriva no meio do mar, contando apenas com os salva-vidas, a maré os arrastou novamente, mas não para uma pequena ilha e sim para uma gigantesca, que Nikki tinha certeza, não constava no mapa.

Daí para a atual situação em que se encontrava não demorou muito. Ficaram pelo menos uns cinco dias na floresta até serem capturados. Nikki lembrava de Pedro tentando bater naqueles estranhos e livrá-los daquilo. Mas não conseguiu sendo praticamente arrastado por dois homens, deixando-a sozinha nas mãos de uma mulher de jaleco branco com jeito de cientista louca que a trancafiou naquela sala. Naquele momento, Nikki não tinha mais nem noção de há quantos dias estava naquele lugar. Gritou mais uma vez, o mais alto que pôde:

- Desgraçados, me tirem daqui!

Ela ouviu passos se aproximando, e uma voz suave falou da porta:

- Pare de gritar, por favor, vai deixá-los muito zangados.

O coração de Nikki acelerou ao ouvir que tinha conseguido um pouco de atenção.

- Quem é você? Pode me ajudar?

- Shiiiiii!- a voz disse, e em seguida os passos se afastaram.

Nikki continuava prostrada ao chão, enterrou a cabeça entre os joelhos e caiu em prantos novamente.

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- Uma festa? Mas assim de improviso?- indagou Charlie a Hurley.

- Sim claro, você é o Ministro da Cultura, devia ter pensado nisso, afinal ganhamos roupas novas, cara. Vamos nos arrumar, comer, dançar e encher a cara a noite toda. O que acha?

- Eu acho ótimo!- disse Debbie que tinha ouvido a conversa. – Não temos uma festa aqui desde o casamento do Sayid e isso foi há meses, essa ilha está muito parada.

- Adolescentes estão sempre reclamando.- disse Bernard.

-Qual é tio Bernard, eu estou viva.- respondeu Debbie, muito espevitada, não fazia muito tempo completara dezesseis anos. Achava a ilha tediosa, sem muitas pessoas de sua idade para conversar.

Bernard sorriu, gostava muito dela porque Rose se apegara a ela como a uma filha, já que a menina a fazia lembrar-se de sua própria filha que morrera anos atrás.

- Se vamos dar uma festa, é melhor começarmos a organizar tudo logo. Já está escurecendo, e precisamos de comida, bebidas e música.- disse Charlie.

- Quanto à comida, podem contar comigo.- falou Debbie sorridente. – Eu vou chamar a Aline, a Sra. Lewis e a tia Rose para prepararmos tudo.

- Bom, eu ouvi dizer que ainda tem porco salgado na geladeira da escotilha então...

- Você deve ir buscá-lo Hurley e depressa para que tenhamos tempo de prepará-lo.- avisou Debbie.

- Isso Hurley, temos que trazer o som e as baterias também. Quanto à bebida pedimos ao Desmond que traga umas três garrafas da adega da escotilha.- disse Charlie.

Bernard balançou a cabeça negativamente: - Quanta perda de tempo.

Kate cochilava em sua barraca tranqüilamente quando foi acordada pela voz animada de Tina.

- Kate! Ei Kate!

Ela se sentou sonolenta, e falou de dentro da barraca:

- O que foi Tina?

- Vamos dar uma festa esta noite, para estrearmos nossas roupas novas. Não é ótimo? Venha, vamos precisar de todo mundo para organizar.

Kate sorriu e correu até a caixa de roupas, remexendo lá dentro até encontrar um dos vestidos que ganhara. Preto, de tecido leve e trançado nas costas. Sentiu-se travessa: - Acho que é uma boa oportunidade para usar isso.

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Uma festa era sempre uma festa, não importava o motivo nem o local, por isso todos estavam muito animados. O fato de suas roupas novas terem chegado dentro de um container trazido pelo mar, era só um mero detalhe, o que importava mesmo era a chance de poder se exibir. Desde que caíram naquela ilha, aprenderam a se comportar e a aceitar as coisas do jeito que desse, e isso incluía vestir qualquer roupa que encontrassem. Mas agora, pela primeira vez iam poder desfilar com modelitos feitos sob medida, de acordo com a personalidade de cada um.

Debbie se arrumava eufórica em sua barraca, apenas um pensamento lhe passava pela cabeça aquela noite: fisgar o coração de alguém, mas não qualquer alguém. Era um homem que já fazia parte de suas fantasias adolescentes desde o início. Não tinha um espelho, por isso se imaginou mirando-se em frente a um enquanto dava voltas ao redor de si mesma. Havia colocado uma blusa de alças com um provocante fecho e calça jeans justa. Estava se sentindo linda balançando os longos cabelos negros e lisos.

- Debbie?- chamou Steve à porta de sua barraca.

- Fala!- ela respondeu grosseira, achava Steve um chato, um moleque inoportuno de dezoito anos que a vivia perseguindo.

- Eu tenho uma coisa pra você.- ele disse sorrindo.

Ela saiu de dentro da barraca e o encarou. Tímido, Steve tirou do bolso da calça nova um delicado relógio feminino com uma pulseira de couro preta que dava duas voltas no braço. Os olhos de Debbie brilharam: - È lindo. Onde conseguiu?

- Achei na minha caixa de roupas, acho que colocaram lá por engano.

- Obrigada.- ela disse beijando-o no rosto sem muita emoção.

- Você está linda!- ele admirou.

Debbie deu um falso sorriso a ele, Steve ia dizer alguma coisa quando percebeu que os olhos dela estavam voltados em outra direção. Sawyer saía de sua barraca todo arrumado, a barba cuidadosamente feita, os cabelos loiros penteados, mas com o proposital desalinho charmoso, camisa cor de vinho de mangas compridas e calça jeans justa. O toque final era o cinto largo com uma exagerada fivela prateada, que o fazia parecer um cowboy saído diretamente de algum filme de bang bang barato.

- Hey Sawyer!- saudou Debbie, hipnotizada.

- Hey Debbie.- ele respondeu com o peito estufado.

A parafernalha do som já estava pronta e Hurley que adorava bancar o Dj abriu a festa com a música "Hey ya" do Outkast. As pessoas correram para perto do som e começaram a dançar empolgadas. Todo mundo satisfeito com suas roupas novas, se exibindo na pista de areia cada um no seu estilo. Sun e Claire estavam arrumadíssimas sentadas no banco de madeira próximo a mesa onde o jantar seria servido, rindo e conversando enquanto seguravam seus filhos no colo. Na fogueira, o porco assava convidativo exalando um cheiro delicioso por toda a praia. Rose orgulhava-se do arroz com legumes que havia preparado para acompanhar o porco. Bernard estava ao seu lado, arrumado, mas indiferente à festa, não deixava de pensar que aquilo tudo era uma grande bobagem.

- Vamos dançar Sawyer?- convidou Debbie se insinuando para ele.

Sawyer não notou a malícia dela, e respondeu: - Agora não querida, eu vou apressar a Lulu, ela está demorando muito para se arrumar.

- Eu danço com você!- disse Steve.

- Não obrigada, não estou com vontade de dançar.- ela respondeu ríspida. – Vou ver se a tia Rose está precisando de mim.

Steve ficou com cara de tacho no meio da praia, havia se arrumado todo, mas Debbie nem notara. Charlie, vendo a decepção nos olhos dele, tentou animá-lo:

- Não liga não Steve, as mulheres são assim mesmo.

- Como não vou ligar vendo ela babando em cima do Sawyer daquele jeito? Se ele estalar os dedos, ela vai correndo.

- Steve, deixa eu te dizer uma coisa, o Sawyer não está interessado na Debbie ou em qualquer outra daqui ultimamente, o lance dele é com a Doña Lulu.- ele disse tentando falar com sotaque espanhol.

- Mesmo assim...

- Ah qual é Steve? Não desanima não cara. Vamos nos divertir!

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- Lu? Já está pronta, mi amor?- Sawyer perguntou na entrada da barraca de Ana-Lucia.

- Não, e nem vou a essa festa.- ela respondeu desanimada.

Sawyer entrou na barraca, a expressão preocupada: - Aconteceu alguma coisa? São os enjôos de novo? O chá não ajudou?

- Não é isso.- ela respondeu de costas para ele. – Só não estou animada para festas hoje.

Ele mediu-a dos pés a cabeça, se ela não estava animada ele não poderia dizer o mesmo de si ao vê-la vestida daquele jeito. Ana-Lucia usava somente um par de lingerie vermelha e sandálias, os longos cabelos soltos enquanto segurava nas mãos o vestido da mesma cor da lingerie, estilo hispânico com babados nas pontas. Tentou ser imparcial:

- Ana, anda, vamos à festa. Vai estar todo mundo lá, com quem eu vou dançar? Com o Jack? Se você não vier eu te juro que vou convidá-lo.

- Por que não dança com a "sardenta"?- ela enfatizou a última palavra.

Sawyer respirou fundo e se aproximou dela depositando-lhe um beijinho no ombro: - Por Dios mujer, eu até dançaria com a sardenta, você sabe que ela é uma coisinha linda e sexy.- Ana-Lucia olhou pra ele de cara fechada. – Mas você é um pedaço de mau caminho, passagem pro inferno só de ida.

Ela riu.

- E você sabe que eu não me importaria de queimar a eternidade no fogo do inferno só pra ficar com você.

As mãos dele passearam pelo corpo dela, descendo até a cintura. Quando ele escorregou a mão mais para baixo, para o bumbum dela, ela empurrou-o: - Está bem, eu irei à festa. Agora tire sua mão boba de mim! Ainda estamos brigados!

Sawyer sorriu. Ela começou a vestir o vestido vermelho e fez um sinal para que ele a ajudasse com o zíper. Ele o fez, mas não perdeu a oportunidade de deslizar os lábios pelas costas dela até o pescoço. Ana-Lucia arrepiou-se com o gesto, mas não se desconcentrou do que fazia. Pegou um broche de cabelo em forma de flor que guardava consigo desde o acidente porque pertencia à sua mãe e suspendeu os cabelos, prendendo parte deles.

- Vamos então?- Sawyer a chamou.

- Vamos!- ela falou colocando como toque final o xale preto que viera fazendo par com o vestido dentro da caixa.

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Ao chegar com Locke e Sayid na praia, Jack espantou-se com toda aquela movimentação. Desmond aparecera na escotilha um pouco antes com uma conversa de que um estranho container havia aparecido na praia recheado de roupas novas, e que por isso o pessoal resolvera fazer uma festa. Mas nem de longe tinha imaginado tanta sofisticação. As pessoas desfilavam impecáveis pela praia, alguns dançando, outros comendo e conversando. Pareciam extremamente felizes.

- Estou me sentindo um mendigo vestido assim.- falou Jack.

- Não estou vendo a Shannon.- comentou Sayid. – Se todo mundo ganhou roupas novas ela seria a primeira a estar se exibindo por aqui. Será que ela ainda está se arrumando? Vou vê-la se me dão licença.

- Onde está o Des?- indagou Tina para Locke e Jack.

- Ficou na escotilha.- respondeu Locke. – Alguém precisa ficar cuidando do botão, além do mais preciso de uma folga.

- Mas ele vai ficar lá a noite inteira?- ela insistiu.

- Não, eu pretendo rendê-lo mais tarde. Mas ele me autorizou a dançar com você.- Locke disse sorrindo.

- Não, obrigada.- ela respondeu se afastando.

- Mas qual é o problema dessa garota?- indagou Locke.

- Não sei John.- respondeu Jack, que procurava Kate avidamente com os olhos.

- Eu quero dançar com você tio Johnny.- disse a pequena Emma. – Gostou do meu vestido novo?

- Oh sim, mas é claro princesa. Vamos dançar?

- Não vou dançar com você vestido assim.- a menina respondeu. – È melhor ir pegar as suas roupas que estão com o Hurley.

Locke riu do jeito sério da menina, e deu um tapinha no ombro de Jack indo em seguida atrás de Hurley para saber de suas roupas. Jack continuava procurando Kate, mas não a via em lugar nenhum. Correu até a barraca dela.

- Kate?

- Jack?- ela respondeu.

- Por que ainda está aí?- ele fez menção de entrar na barraca, mas ela gritou.

- Não, não entre. Eu não estou vestida.

- Mais um motivo pra eu entrar.- Jack disse erguendo uma sobrancelha.

- De jeito nenhum, eu ainda não estou pronta!

- Desmond me falou sobre as roupas, eu achei isso muito...

- Jack, sua caixa de roupas está aí fora, vá se arrumar na barraca do Sawyer, depois nos vemos.

Ele então notou a caixa com seu nome encostada do lado de fora da barraca, pegou-a: - Tem certeza que eu não posso entrar?

- Não!- ela respondeu.

Jack se deu por vencido e saiu caminhando em direção à barraca de Sawyer para vestir-se, intrigado com o comportamento dela. Dentro da barraca, Kate sorria marota enquanto prendia a meia de seda preta na liga, queria fazer uma grande surpresa para Jack.

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Kate não tinha um espelho, mas saberia se houvesse alcançado seu intento quando encontrasse com Jack. Seu coração palpitava de ansiedade, poderia parecer uma grande bobagem, mas Jack nunca a vira vestida daquele jeito, e isso a fazia sentir-se muito poderosa. Deixou a barraca com cuidado, evitando pisar com muita força no chão para não afundar os pés na areia da praia e sujar as meias.

A festa rolava solta, Hurley havia achado na escotilha um disco de merengue, que havia empolgado ainda mais o pessoal. Ana-Lucia tentava a todo custo ensinar Sawyer a dançar, mas ele era muito desajeitado para o merengue. Ela insistia:

- Sawyer, ouça o som da minha voz e me acompanhe. Assim: rápido, rápido...devagar, devagar! – ela remexia os quadris dançando, vez por outra roçava insinuantemente o corpo no dele. Sawyer já estava ficando nervoso com aquilo.

- Lucy, se você não parar de se mexer assim vamos ter que sair urgentemente daqui antes que eu dê vexame.

Ela ergueu a sobrancelha: - Será que você não consegue pensar em outra coisa, hombre?

- Fica difícil quando se está dançando com uma gostosa que nem você.

- Por enquanto você diz isso, mas aposto que daqui a alguns meses quando eu estiver parecendo uma vaca, e meu traseiro estiver três vezes o tamanho normal, você não vai dizer a mesma coisa.

- Besteira, eu não sou chegado em osso...

De repente, Sawyer arregalou os olhos e parou de dançar. Ficou admirando a chegada da última pessoa que faltava na festa. Ana-Lucia virou-se para olhar o que ele estava vendo e ficou muito enciumada. Kate vinha praticamente desfilando pela areia, com seu vestido preto, fino e esvoaçante. As sandálias amarradas nos tornozelos e os cabelos soltos, em cachos espalhados, apenas uma flor natural cor de rosa adornando-os.

- Ela está usando meia de seda?- indagou Debbie, com inveja.

- Mas onde será que ela arranjou?- questionou Tina, sentindo-se sem graça com sua calça jeans coberta de purpurina.

Jack bebericava uma dose de uísque enquanto conversava com Eko e Locke. Suas pernas ficaram bambas ao vê-la chegar tão deslumbrante. Ele estava usando um paletó preto, que acompanhava uma camisa branca de mangas compridas, os primeiros botões desabotoados revelando parte dos pêlos do peito e uma calça social preta, justa, que modelava seu corpo.

O merengue parou de tocar, sendo substituído por uma balada de Everlast e Santana, "Put your lights on", a coleção de cds de Hurley era muito vasta. Apesar de não ser lua cheia, o céu estava claro, coberto de estrelas, dando o clima perfeito à noite.

Kate começou a caminhar na direção de Jack, os homens acompanhando-a com os olhos. Craig comentou, bem baixinho para Steve e Nilson: - Ponham-me no plantão da escotilha com ela e a Lulu, e vão ver do que eu sou capaz.

- Acho que será capaz de pegar um soco no meio da cara, um soco só não pelo menos dois, um do Jack e outro do Sawyer.- gracejou Michael que ouvira o comentário maldoso de Craig.

- Qual é cara, só tô aqui fantasiando um pouco.

Jack caminhou na direção dela, por pouco o copo de uísque não caiu de sua mão. Sawyer continuava fitando Kate com os olhos, praticamente devorando-a. Ana-Lucia já estava irritada, deu um cutucão no braço dele.

- Ai!- ele gemeu de dor.

- Escuta aqui caipira, se olhar mais uma vez com essa cara de idiota para a "sardenta", nunca mais olhe pra mim.

- Fica calma, docinho, você não pode se exaltar desse jeito. Além disso, só estou admirando as belezas da ilha.

Ana-Lucia deu-lhe um pisão no pé e saiu andando enfurecida.

- Ana, você não tem pena do meu pobre pé?- ele disse indo atrás dela.

- Hey você!- Kate falou afundando os olhos verdes nos olhos dele quando se aproximaram.

- Hey!- ele respondeu de volta, tomando a mão dela e beijando-a. Quer dançar?

Ela estendeu a mão para ele. Começou a tocar a música "I don't have", de Johnny Mathis. Jack enlaçou-a pela cintura e Kate pousou o rosto no pescoço dele. Outros casais juntaram-se a eles como Claire e Charlie, e Libby com Hurley. Mas Jack e Kate não estavam prestando atenção em mais nada, sentiam-se os únicos ali. Não demorou muito para começarem a se beijar diante de todos. As pessoas aplaudiram fazendo com que ambos caíssem na realidade. Um pouco embaraçado Jack parou de dançar e saiu puxando Kate. Ela sugeriu que ambos fossem caminhar um pouco na beira da praia. Sentaram-se nas pedras, a maré estava enchendo e as ondas quebravam nas rochas, salpicando água do mar nos rostos deles. Jack não conseguia parar de olhar para ela, seu coração estava aos pulos.

Kate olhou ao seu redor, e percebeu que estavam completamente sozinhos, todo mundo concentrado no meio da praia, dançando, bebendo e comendo. Ela pegou o copo de uísque da mão dele e bebeu um gole, umedecendo os lábios. Sentiu uma quentura boa descer pela garganta.

- Então, temos roupas novas agora...nos dão tudo menos uma oportunidade de sair daqui.

Kate balançou a cabeça concordando, mas na realidade não estava se preocupando com isso naquele momento. Observava os pêlos castanhos do peito de Jack aparecendo sobre a camisa. Jack continuava falando:

- Nos tratam como cobaias humanas, foi essa palavra que eu tenho certeza que Pedro, o homem que está preso na escotilha murmurou essa tarde quando fui medicá-lo outra vez por causa da febre.

- Jack você sempre foi assim, tão dedicado ao trabalho que esquecia todas as outras coisas?

Ele surpreendeu-se com a pergunta:

- Por que está me perguntando isso, Kate?

- Porque eu acho que você costuma falar de trabalho quando está receoso com alguma coisa.

- Receoso?

- Sim.- ela sussurrou colocando a mão na coxa dele, num gesto muito íntimo.

Jack sentiu o impulso de arrebatá-la e tomá-la ali mesmo, mas estava se controlando porque as pessoas não estavam muito longe embora não pudessem vê-los por causa da fraca iluminação. Aliás, já estava se controlando desde que a vira chegar na festa, com aquele vestido preto que o estava enlouquecendo, e por isso tagarelava sem parar sobre tudo o que lhe viesse à cabeça para afastar certos pensamentos.

- Não estou receoso de nada Kate, apenas estou aqui com você conversando.

- Certo!- ela respondeu inquieta, cruzando as pernas de modo sensual, deixando que ele entrevisse as meias presas pela liga.

Jack começou a achar que a calça que estava usando não era do seu tamanho, ficara muito apertada de repente.

- Você gosta?- ela sussurrou se referindo às meias.

Ele colocou a mão sobre a coxa dela e levantou o vestido um pouquinho, para vislumbrar melhor as meias.

- Eu gosto muito.- ele respondeu no mesmo tom dela, as mãos subindo mais pelas coxas, desaparecendo embaixo do vestido.

- Hummm...- Kate gemeu baixinho, propositadamente seduzindo-o, um sorriso safado brotando-lhe dos lábios.

Jack beijou-a, sua língua invadindo os lábios dela sem pedir licença. Kate pôs as mãos sobre o peito dele, acariciando-lhe os pêlos. Jack fez com que ela jogasse a cabeça para trás e começou a mordiscar-lhe o pescoço com vontade, deixando acidentalmente uma pequena marca vermelha nele.

- Kate, estamos no meio da praia, vamos pra barraca, agora!- ele disse.

Ela enterrou o rosto no pescoço dele, sentindo seu perfume.

- Não, não dá tempo. Podemos ir pra lá mais tarde, depois da festa.

- Você quer voltar então?- ele indagou parando de beijá-la, mas sua mão continuava embaixo do vestido dela.

- Não Jack!- ela disse um pouco agressiva, surpreendendo-o. – Vamos fazer amor aqui e agora!

A agressividade de Kate, nunca demonstrada antes era uma surpresa muito interessante para ele. Sentia-se atraído por mulheres assim, mas até aquele momento Kate tinha sido passiva enquanto faziam amor, deixando que ele fizesse tudo. Mas agora, era diferente, estavam lá na beira da praia, não muito longe das pessoas e ela ordenava que ele a tomasse ali mesmo. Isso fez com que o sangue de Jack fervesse, trazendo à tona também sua própria agressividade. Daria o que ela queria.

Passou os braços ao redor do corpo dela e começou a soltar o fio do seu vestido, mas não soltou tudo, só o suficiente para que ele pudesse ter acesso aos seios dela. Escorregou suas mãos para dentro do decote e apertou-os. Kate gemeu abrindo as pernas e entrelaçando-as ao redor do corpo dele, apertando-as. Jack pôs as mãos novamente embaixo do vestido dela e percebeu que não tinha como tirar a calcinha sem que ela se desfizesse das meias, sem pensar duas vezes, rasgou a minúscula peça, surpreendendo-a.

Ela o puxou para si e abriu o zíper de sua calça, libertando-o do incômodo que estava sentindo. Agarrou-se a ela e a tomou, sem preparo, sem nada, seguindo seu instinto. Kate não reclamou, arranhava-o e gemia, beijando-o e abraçando-o, tentando saciar aquele desejo voraz que a consumia.

- Ô Ana, por que você é tão difícil?- indagou Sawyer para Ana-Lucia, ela estava andando a praia toda só para ficar longe dele.

- Me deixe em paz, Sawyer.

Foi quando escutaram os murmúrios e gemidos de prazer de Jack e Kate vindos das pedras na beira da praia. Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente:

- Está vendo? Podíamos usar melhor o nosso tempo. Você podia olhar mais pra mim ao invés de ficar babando pela Kate.- ela disse parando ao ouvir os dois, ficando a uma distância onde não pudesse surpreendê-los.

- Ah é?- Sawyer provocou. – Podemos resolver isso rapidinho.- ele puxou-a pela mão. – Anda, vamos sair daqui Lu, antes que o doutor e a sardenta percebam que os flagramos. Vem!

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Uma leve entorpecência tomou-lhe o corpo quando Jack afastou-se dela. Kate sorriu para ele, puxando-o de volta e depositando pequeninos beijos em seus lábios.

- Agora vamos voltar pra festa...- ele disse, fechando o zíper da calça.

Kate começou a arrumar o vestido, cobrindo os seios. Ficou de pé e pôs-se a procurar pela calcinha. Pegou o pedaço de pano rasgado e sujo de areia do chão, e lançou um olhar inquisidor para Jack.

- Você rasgou a minha calcinha, seu malvado!

Jack riu, mas não desculpou-se, ao contrário, a situação o estava divertindo.

- Como é que eu vou voltar pra festa desse jeito, hã Shephard?- ela indagou. – Vou ter que ir até a minha barraca e vestir outra, vai dar trabalho porque vou ter de tirar essas meias e...

- Nada disso.- ele falou balançando o dedo indicador. – Você vai voltar comigo pra festa exatamente do jeito que está, não vai vestir nada.

- Como que é?

Ele se aproximou dela sedutor: - Vai fazer exatamente o que eu estou mandando mocinha, ainda não terminamos por hoje. Vai ser bom ficar imaginando que você não está usando nada por baixo desse vestido.

- Jack? Eu vou morrer de vergonha, esse vestido delineia o contorno do meu traseiro. Por favor!

Jack pegou a peça de roupa da mão dela e gracejou, guardando-a no bolso de seu paletó: - Até parece que estar usando esse pedaço de pano ou não faz alguma diferença. Um pouco embaraçada, Kate concordou, não queria admitir mas achara a idéia muito interessante. Terminou de ajeitar o vestido como deu e os dois saíram andando de volta para a festa.

Um pouco mais adiante, Sawyer e Ana-Lucia beijavam-se sem parar, encostados em uma árvore. Ele tinha as mãos sobre o traseiro dela, apertando-o. Jack ergueu uma sobrancelha ao vê-los, puxando Kate para saírem de fininho quando Sawyer os chamou.

- Ora, ora se não é o bom doutor e a sua prestativa enfermeira?- ele perguntou sem tirar as mãos do traseiro de Ana-Lucia. Ela parecia não se importar com isso. – Estavam perdidos?

- Dando uma volta.- disse Jack. – Vejo que estão muito ocupados, nós vamos voltar à festa.

- Que nada Jack.- disse Ana-Lucia. – Eu e o Sawyer só estávamos conversando, estamos brigados

- È verdade, estamos sentindo muita raiva um do outro nesse momento.

Jack e Kate conteram o riso e os quatro saíram caminhando juntos.

- Tá afim de fortes emoções essa noite doutor?

Jack riu, a bebida e principalmente Kate o tinham relaxado bastante.

- Quem sabe? O que você sugere? Não tenho um carro para fazermos um "racha".

Dessa vez foi Sawyer quem riu: - Um "racha"? Não doutor, na verdade pensei em algo mais fácil. Que tal o bom e velho jogo de cartas? Ainda estou querendo uma revanche.

- Por que quer jogar comigo Sawyer se já sabe que vai perder?

- Uhhhh- fez Ana-Lucia. – Você se acha muito esperto não é doutor? Pois eu aposto no meu cowboy.

Sawyer a beijou: - Se você aposta em mim, tenho certeza que eu não vou perder. Você é a minha boa sorte, cariño.

- Se isso é um desafio, eu vou topar então. Vamos ver quem é o melhor.- disse Jack.

- Ana, não alimente a testosterona deles, isso pode não ser bom.

Ana-Lucia deu uma de suas costumeiras risadas cínicas: - Talvez não pra você.

Kate colocou as mãos na cintura e encarou Ana-Lucia. Sawyer se divertiu com aquilo: - Parece que o lance agora é entre elas Jack. Eu vou até a minha barraca buscar as cartas.

- Eu vou com você, pra garantir que você não comece a roubar desde agora.

Os dois saíram andando, deixando Kate e Ana-Lucia sozinhas. Kate estava se sentindo um tanto incomodada com sua peça de roupa que estava faltando, mas tentava agir naturalmente.

- Pelo jeito o Sawyer está encarando muito bem a notícia de que irá ser pai.

- No começo ele não reagiu muito bem não.- Ana-Lucia confessou. – Me deixou sozinha e eu fique furiosa, mas aí ele veio atrás de mim como um cãozinho perdido e eu me contive para não me jogar nos braços dele.

Kate sorriu.

- Quer um conselho?

- Pode falar.- respondeu Ana.

- Embora não pareça, Sawyer é um solitário que precisa de muito carinho e compreensão. Dê isso a ele, mas não deixe que se sinta o dono da situação e o terá sempre aos seus pés.

- Vou me lembrar disso.

Ana-Lucia notou que o vestido de Kate estava amarrado de qualquer jeito, e falou:

- O seu vestido vai cair. Deixa eu arrumá-lo pra você.

Kate se fez de desentendida deixando que ela ajeitasse o fio.

- Ai esses vestidos de amarrar são sempre um problema. Fiquei horas na minha barraca tentando arrumá-lo e pelo jeito não consegui.

- Aham!- disse Ana-Lucia apertando bem o nó. – Desse jeito vai ser mais difícil pra ele tirar da próxima vez, ele vai gostar do desafio.

Kate ficou vermelha, enquanto Ana-Lucia se afastava caminhando com seu jeito largado. As pessoas continuavam dançando animadas, pelo jeito a festa iria até o amanhecer. Entretanto, alguns já tinham se retirado, como Sun e Jin, e Claire com Aaron. Charlie continuava na festa, dançando sozinho. Shannon estava encolhida num canto, toda arrumada com suas roupas novas, não dizia uma palavra. Sayid lhe trouxera um pouco de comida, mas ela rejeitara. Naquele momento ele acariciava os cabelos dela e cochichava em seu ouvido, tentando descobrir o que a martirizava tanto.

- Conta minha loura, conta pra mim o que você tem.

- Já te disse que não tenho nada. E aliás, eu vou dormir. Essa festa está muito chata.

Sayid zangou-se, passara a noite inteira adulando-a e ela ainda o tratava desse jeito.

- Então pode ir! Quem sabe uma boa noite de sono não esfrie a sua cabeça.- ele viu Ana-Lucia voltando para a festa com Kate. – Boa noite!

- Onde é que você vai, Sayid? Sayid!

Ele caminhou em direção à Ana-Lucia. A música que tocava era uma antiga canção dos Beatles, "Shake oh baby".

- Andei reparando que você é uma boa dançarina Ana.- disse Sayid para Ana-Lucia. – Quer me ensinar alguma coisa?

Ela sorriu: - Por que não?

Shannon ficou verde vendo Sayid dançar com Ana-Lucia. Foi até a mesa e serviu-se de uma dose de uísque sorvendo o líquido rapidamente e colocando mais uma dose no copo.

- Cara, essa festa não vai terminar nada bem.- comentou Hurley vendo a cena.

- Hurley, acho que finalmente estou me sentindo em casa de novo.- disse Charlie, rindo.

Continua...