Episódio 20- "Sexo, Mentiras e a Dharma Initiative"

Sinopse: Uma noite regada à muito uísque e pôquer deixa Jack confuso, se indagando até que ponto a Dharma Initiative influe na vida deles na ilha. John Locke confronta o médico e os dois discutem a respeito de quem é o verdadeiro líder da comunidade.

Censura: M.

xxxxxxxxxxxxx

Shannon pousou o terceiro copo de uísque sobre a mesa, uma raiva gigantesca crescendo dentro de si. Sayid estava dançando com a mulher que atirara nela, a única culpada por sua infertilidade e que ainda por cima estava grávida. O mundo não poderia ser mais injusto. Seu corpo inteiro tremia, precisava fazer alguma coisa para passar aquela dor lancinante que estava sentindo.

Num repente, olhou para o bolso de trás da calça de Sayid, reparou que ele não estava com a arma que costumava sempre carregar consigo. Enlouquecida, uma terrível idéia começou a passar por sua cabeça. Correu até sua barraca e vasculhou por entre as coisas à procura da pistola de 9mm. A encontrou no meio da roupa suja do marido. Enfiou a pistola no bolso de trás da calça jeans e voltou para onde todos dançavam.

- Você não é tão ruim assim, Sayid.- divertia-se Ana-Lucia, vendo o quão desengonçado ele era para dançar.

- Você está sendo muito bondosa em dizer isso.- Sayid estava se divertindo também, como há muito tempo não se divertia. Amava Shannon, mais do que ela poderia imaginar, mas ultimamente seu casamento com ela andava muito difícil, já que ela vivia sempre tão introspectiva e chateada, dispensando até os carinhos dele.

Ana-Lucia era uma mulher bonita e vigorosa, Sayid já prestara atenção nela algumas vezes. Certa vez, quando saíram à procura do balão do falso Henry Gale, ela adormecera no meio da floresta próxima a ele. Sayid passou um bom tempo admirando-a, mas não fez nada, isso seria totalmente desonroso para alguém tão sério e correto como ele.

- Sayid!- gritou Shannon no meio da festa. – Solte agora mesmo essa mulher!

- Shannon, você está ficando maluca? Por que está gritando desse jeito?

Shannon tinha a pistola 9mm diretamente apontada para Ana-Lucia, estava fora de si. As pessoas assistiam a cena, apreensivas, evitando fazer qualquer movimento brusco que pudesse levá-la a apertar o gatilho.

Sayid prendia a respiração, pensando em uma maneira de impedir Shannon de cometer aquele desatino. Jack e Sawyer vinham chegando com as cartas para o jogo quando se depararam com aquela situação. Ana-Lucia estava em estado de choque, sem saber o que esperar. Nervoso, Sawyer gritou:

- Mas por que infernos você está apontando essa arma pra ela?

- Cala a boca!- gritou Shannon, histérica. – Eu poderia apontar essa arma pra você também. Sawyer você é um nojento, bateu no meu irmão covardemente.

- Isso foi há muito tempo.- defendeu-se Sawyer. – Se quer se vingar atira em mim, não na Ana e no meu filho.

Shannon começou a hesitar se atiraria mesmo, pensou no bebê de Ana, Sayid notou isso concluindo que ela estava desequilibrada. Ele notou também que enquanto Sawyer e Shannon discutiam, Kate sorrateira se aproximava dela por trás, disposta a render-lhe a arma. Eko se pronunciou diante de tamanha estupidez:

- Shannon, pare já com isso! Não é com a Ana-Lucia que está zangada e muito menos com Sawyer, está com raiva é de si mesma.

- Cala a boca!- ela repetiu três vezes. – Você se diz um padre, mas ninguém aqui nessa ilha é quem realmente diz ser.- voltou seus olhos para Ana-Lucia, a arma continuava perfeitamente engatilhada. – Talvez você não queira dar à luz ao seu filho nesse lugar amaldiçoado.

Diante dos olhares pasmos de todos, Shannon tirou a pistola da mira de Ana-Lucia e apontou para a própria cabeça.

- Não!- Sayid gritou, lágrimas escorrendo de seus olhos negros.

Nesse momento, Kate agarrou Shannon com força e tirou-lhe a arma mesmo com ela se debatendo e gritando, um tiro foi disparado para cima causando um pequeno alvoroço entre as pessoas. Sayid correu até a esposa e a amparou quando ela caiu sentada na areia, chorando convulsivamente. Sawyer se aproximou de Ana-Lucia e a apertou em seus braços, sussurrando carinhoso em seu ouvido: - Baby, você está bem?

Ela permaneceu impassível, como se não tivesse absorvido o que acabara de acontecer. Aquela situação tinha sido o suficiente para estragar o bom clima de festa e as pessoas começaram a se recolher cabisbaixas em suas barracas. Locke resolveu voltar para a escotilha, sentiu que não tinha mais nada a fazer ali. Sayid pegou Shannon em seus braços e a levou para a barraca, ela não protestou aninhando-se no peito dele. Jack passou as mãos pela cabeça, irritado, disparando um palavrão:

- Porra!- sentia-se impotente, nada do que tinham decidido acerca das regras na comunidade estavam sendo seguidas.

Sawyer tentou tornar as coisas menos piores: - Jack, nada do que aconteceu agora foi sua culpa, assim como muita coisa que acontece por aqui. Você tem feito o melhor, mas é muito difícil comandar pessoas, tentar ensiná-las a fazer o que é certo.

- È estranho dizer isso Jack, mas Sawyer tem razão.- Kate disse tocando o ombro dele.

- Certo.- ele disse. – O que sugerem que façamos agora? Nos recolhemos às nossas barracas como os outros e esquecemos tudo?

- Não.- disse Sawyer. – Um dia de cada vez, doutor. Nós agora vamos pegar toda aquela bebida que está em cima da mesa, e que ninguém se deu ao trabalho de recolher e vamos pra minha barraca jogar cartas até o amanhecer, só nos quatro, o que me dizem?

A idéia a princípio pareceu a Jack absurda, mas depois de quatro copos de uísque puro começou a achar que a vida voltara a fazer sentido.

- Ok "Amarillo Slin", você joga ou passa?- indagou Sawyer sorrindo cinicamente.

- Full house!- disse Jack mostrando suas cartas e tomando mais um gole de uísque.

- Son of a bitch!- xingou Ana-Lucia.

Kate deu uma risada.

- Eu te disse Ana que ele era imbatível.

Ana-Lucia ergueu uma sobrancelha, maliciosa:

- Aposto que sim, Kate.- ela não estava bebendo por causa da gravidez, mas era como se a embriaguez dos outros estivesse passando telepaticamente para ela.

Eles haviam improvisado uma mesa no meio da barraca para jogarem. Perto deles, três garrafas de uísque. A primeira já estava quase no fim. Sawyer puxou Ana-Lucia que estava ao seu lado e deu-lhe um beijo molhado, insinuante.

- Mais uma rodada, perdedores?- perguntou Kate juntando as cartas para embaralhá-las novamente, estavam jogando em duplas, Kate e Jack contra Sawyer e Ana.

- Sim, claro. Não vamos parar de jogar até ganharmos, não é docinho?- disse Sawyer enchendo o copo de uísque mais uma vez.

- Quero o uísque dos seus lábios.- falou Ana-Lucia lambendo a boca de Sawyer despudoradamente.

Kate estava sentindo muito calor, não sabia se era a bebida ou os carinhos descarados trocados por Sawyer e Ana-Lucia na sua frente. Olhou inquieta para Jack. Ele enchia mais um copo de uísque, já era o quinto. O uísque o estava deixando cada vez mais desinibido, tanto que puxou Kate para si e deu-lhe um demorado beijo, deixando-a sem fôlego antes de dizer:

- Bem, brothas- falou imitando Desmond. Todos riram. Ana-Lucia comentou:

- Cara, ele faz igualzinho!

- Se vamos jogar mais uma partida, vamos torná-la interessante.

- E o que sugere, doutor?- indagou Sawyer curioso.

Ele respondeu sem pestanejar, surpreendendo a todos.

- Strip-pôquer.

Os olhos de Sawyer alargaram-se, não acreditava no que estava ouvindo.

- Doutor? Você sugerindo isso? O Sr. moralista?

- Talvez eu não seja tão moralista assim.- disse Jack sorrindo. – O que me dizem garotas?

- Strip-pôquer? Nossa, não jogo isso desde que me formei na academia de polícia. Estou dentro!- falou Ana-Lucia empolgada.

- Se a Lulu não faz objeção, eu também não faço. Vamos jogar!- concordou Sawyer.

Os olhares se voltaram para Kate, apenas ela ainda não tinha dado sua opinião sobre isso.

- Não sei se vai ser uma boa idéia...- Kate comentou, mas no fundo achara a coisa toda bastante interessante.

- Ahhhhhhhhh- disseram Sawyer e Ana-Lucia.

- Pôxa sardenta, não vai ser tão divertido sem você.- falou Sawyer debochado.

Ana-Lucia deu-lhe um tapa no pé da orelha, fazendo-o gritar. Sorriu para Kate:

- Qual é Kate? Vai ser só um jogo entre "amigos". O que pode dar errado?

Kate olhou para Jack, notou que ele estava ansioso pela resposta dela. Puxou-o para perto de si e cochichou em seu ouvido: - Jack, não posso jogar strip-pôquer porque não estou usando nada embaixo desse vestido, se lembra?

- Ah!- Jack pareceu recordar-se desse pequeno detalhe que a bebida o havia feito esquecer. Ele cochichou de volta: - Vá até a sua barraca e vista alguma coisa, por favor.

- O que deu em você, Jack? Estamos muito bêbados.- ela riu. Sawyer e Ana-Lucia olhavam para eles intrigados

- Quem cochicha o rabo espicha!- alertou Sawyer. Ana-Lucia riu.

- Você não confia em mim, amor?- indagou Jack, dessa vez não estava cochichando.

- Está bem!- Kate respondeu. – Vamos jogar strip-pôquer!

Sawyer, Jack e Ana-Lucia bateram palmas para a decisão dela.

- Mas antes, eu preciso fazer uma coisa. Eu já volto.

- Onde é que ela vai?- perguntou Sawyer.

Jack deu de ombros e disse: - Só vamos embaralhar as cartas quando ela voltar. Esse vai ser um jogo individual, nada de duplas.

- È justo!- concordou Ana-Lucia.

Jack resolveu tirar o paletó quando uma coisa caiu de seu bolso.

- O que é isso?- perguntou Sawyer apontando para o objeto no chão da barraca.

- Ah isso?- disse Jack pegando a calcinha rasgada de Kate do chão. – É minha! – e guardou de volta no bolso do paletó. Sawyer e Ana-Lucia riram antes de se beijar de novo. Praticamente se enroscavam na frente de Jack. Ele encheu mais um copo e prometeu a si mesmo que seria o último, caso contrário não conseguiria jogar mais nada.

Kate não tardou a voltar, no caminho tivera que despistar Hurley que perguntara o que eles faziam na barraca de Sawyer. Inventou que Ana-Lucia não estava bem por causa da gravidez e que Jack estava cuidando dela. Vestira-se apressadamente, tendo o cuidado de guardar as meias e a liga de volta na caixa. Não estava disposta a perder e ter que realmente tirar a roupa, mas caso acontecesse não ia dar a Sawyer o prazer de vê-la usando ligas, deixaria isso apenas para Jack.

Quando retornou, Jack pessoalmente embaralhou as cartas, e ditou as regras do jogo que ele havia sugerido:

- Perde quem ficar em trajes...menores. Nada, além disso.

- E o vencedor leva o quê?- indagou Sawyer, maldoso.

- O vencedor, que é claro será eu, vai ter o direito de escolher um dos perdedores para ficar executando as tarefas mais chatas da ilha por uma semana.

- Você vai ser o ganhador? Não sonha doutor, vai se preparando pra passar uma semana cortando lenha pra mim.

- Isso é o que nós vamos ver!- desafiou Jack.

O jogo começou. Todos estavam muito empolgados, não sabiam até onde esse "inocente" jogo os levaria. Mas havia regras, e estavam sendo seguidas rigidamente. Sawyer perdeu logo na primeira rodada, para a alegria de Jack que queria vê-lo desmoralizado e para o delírio de Ana-Lucia e Kate, que mal podiam esperar para despi-lo.

- Você perdeu, camisa fora!- disse Ana-Lucia rindo.

- È isso aí, pode tirar!- falou Kate.

- Mas já vamos começar pela camisa? Eu podia tirar um sapato, depois outro...

- Não, não vale. Se for assim não vamos mais sair daqui. Anda fica em pé!- ordenou Ana-Lucia.

Ele levantou-se e estendeu os braços, deixando que Ana-Lucia tirasse a camisa dele. Mas ela fez isso devagarzinho, sensualmente, prendendo a atenção dos outros dois.

- Que peitoral!- gracejou Jack.

- Muito engraçado, Sr. Hahaha, mas escuta o que eu estou te dizendo, você será o próximo a perder!

Sawyer voltou a sentar-se, o jogo recomeçou. A outra rodada foi tensa, Ana-Lucia bateu as cartas de Jack, que também foi obrigado a se desfazer da camisa. Kate, assim como Ana-Lucia fez antes com Sawyer, retirou a camisa de Jack, botão por botão, desnudando-lhe o peito. O olhar de Ana-Lucia inevitavelmente recaiu sobre as tatuagens dele, espalhadas pelos braços. Não pôde conter um suspiro. Kate notou, mas não ficou com ciúmes, pelo contrário, gostou de ver Ana-Lucia admirando Jack, pois sabia que ele era seu.

Continuaram com o jogo, e as coisas começaram a ficar cada vez mais tensas entre eles. Sawyer já não estava mais nem prestando atenção ao que estava fazendo, jogava muito mal, estava mais preocupado em acariciar as coxas de Ana-Lucia por debaixo do vestido. Jack também não estava se contendo, e vez por outra beijava Kate emaranhando os dedos em seus cabelos. Quando Ana-Lucia perdeu sua primeira rodada, Sawyer e Jack ficaram muito tensos. Até agora, apenas eles haviam perdido suas camisas, nada demais. Mas Ana-Lucia teria que tirar o vestido, e isso os fazia ficarem em brasa por motivos diferentes. Jack estava ansioso por poder vislumbrar o corpo de Ana-Lucia, e Sawyer queria poder exibir seu troféu para Jack.

Kate estava quieta no seu canto, sem fazer objeções. Regras eram regras. Ana-Lucia se levantou e fez um gesto sensual com os dedos chamando Sawyer para lhe tirar o vestido. Mas antes que ele pudesse levantar-se, Kate interveio:

- Não.

Os três olharam para ela.

- O Jack faz isso.- ela pediu, o peito subindo e descendo, a tensão tomando conta do ambiente.

Ana-Lucia gostou da idéia, mas perguntou a Sawyer: - Você se importa, baby?

Sawyer olhou para Jack e disse: - Vá em frente!

Jack virou mais um gole do seu sétimo copo de uísque e foi até Ana-Lucia que ficou de costas para ele. Sawyer e Kate prendiam a respiração diante da cena inusitada. Jack tocou o fecho do vestido dela e começou a descer bem devagar, até que o pano caísse ao chão sob seus pés. Ana-Lucia usava agora somente a lingerie vermelha.

- Você é...- ele ia dizer, mas resolveu ficar calado, as coisas não tinham saído do controle ainda.

Ana-Lucia voltou a sentar-se em seu lugar ao lado de Sawyer, enquanto Jack voltou para o lado de Kate. Pensou consigo: - Está tudo sob controle.

- Vamos continuar!- falou Sawyer.

- De acordo com as regras.- Jack falou. – Ana-Lucia está fora do jogo, não pode mais tirar nenhuma peça.

- Ah, mas eu não queria parar de jogar. Estou me divertindo tanto!- ela falou dengosa.

Sawyer beijou o pescoço dela e enfiou o dedo na alça do sutiã, descendo-a um pouco.

- Minha garota está se divertindo doutor, o que eu posso fazer. Eu sou o seu escravo, faço tudo o que ela quer e se ela quer continuar no jogo, eu não me oponho.

- Eu também não.- disse Kate, a única que continuava completamente vestida.

- Mas Kate, se a Ana-Lucia continuar no jogo e perder ela vai ter que se desfazer de mais uma peça de roupa, e o mesmo servirá pra você se perder o vestido na próxima rodada.

Kate bebeu um gole do seu copo de uísque: - Eu quero correr o risco.

- Kate?- ele insistiu, estava sentindo uma pontada de ciúmes.

- Não reclama, quem começou com isso foi você, se lembra?

- Vamos jogar e deixar de papo-furado.- disse Ana-Lucia embaralhando as cartas outra vez. – Ainda não tiramos as suas calças, Jack.

A barraca estava incrivelmente quente. Os quatro suavam sem parar. Ana-Lucia não tomava uísque, por isso estava bebendo água. A sua displicência estava quase fazendo Jack ter um ataque cardíaco, bebia água deixando propositadamente algumas gostas caírem sobre o decote. Seus seios estavam fartos por causa da gravidez, as formas do corpo mais arredondadas. Sawyer sabia que Jack a olhava, assim como ele também olhava para Kate ansiando que ela perdesse logo para que ele próprio pudesse arrancar-lhe aquele vestido preto.

E não demorou para que ela perdesse, e feio. Ela se levantou e puxou o laço do vestido, Jack ia ajudá-la quando Ana-Lucia falou:

- Jack, Sawyer deve fazer isso!

- Você manda benzinho!- ele disse. Antes que ele saísse do lugar, Kate foi até ele e virou de costas. Sawyer levantou-se e começou a soltar todos os nós do vestido com avidez. Deslizou o tecido pelo corpo dela aproveitando para tocar levemente sua pele. Kate fechou os olhos. Vendo aquilo, Jack protestou:

- Sawyer, você está roubando. Eu não toquei na Ana-Lucia.

- Mas bem que você quis, não é?- Ana-Lucia disse encarando-o.

Controle? Jack podia estar tudo, menos controlado. Agora, estavam ambos sem camisa e as duas usando lingerie, como terminaria essa história? Ele tinha medo de descobrir.

Na rodada seguinte, perdeu para Sawyer que vangloriou-se do feito.

- O grande doutor está perdendo? È bom se preparar para pegar no machado.

Kate sorriu maliciosa: - Hora de tirar as calças, Jack. Ana-Lucia riu, cínica. Estava ansiosa por isso. Jack ficou de pé, Kate também. Colocou-se por trás dele e tocou sua barriga. Ele estremeceu. Kate roçou seu corpo no dele e falou, surpreendendo-o.

- Ana, será que você pode me ajudar?

Ana-Lucia não pensou duas vezes, e caminhou sensualmente até Jack. Sawyer ficou admirando seu traseiro, enquanto ela caminhava rebolando. Colocou-se na frente de Jack e soltou o botão de metal da calça dele. Jack sentia o corpo em chamas, estava muito nervoso com aquelas duas mulheres em cima dele, devorando-o com os olhos, não conseguiu disfarçar a excitação.

- Parece que o Jack já quebrou as regras, Kate.

- Danem-se as regras.- disse Kate abraçando-o e acariciando-lhe os músculos das costas.

Ana-Lucia encarou Jack, os olhos dele tinham uma expressão faminta de desejo, algo que ele jamais sentira com tanta intensidade. Sawyer balançou a cabeça negativamente: - O que foi isso? O jogo acabou? Nada disso!.- caminhou em direção ao três.- Soltem ele, suas vampiras! Querem matá-lo? Ele é o único médico aqui nessa ilha, deve ficar bem vivo.

Ele puxou Ana-Lucia e deu-lhe um tapa no traseiro: - Vem aqui mujer! Eu quero um beijo!- Sawyer agarrou-a e suspendeu-a do chão com incrível facilidade beijando-a. Jack ficou lá olhando, sem saber o que dizer ou fazer quando sentiu Kate terminar de tirar-lhe as calças, para em seguida beijá-lo. Sentiu-se zonzo, a vista turva, a bebida estava começando a derrubá-lo ou ele estaria ficando ainda mais ligado?

- Ei vocês dois, o jogo ainda não acabou não...- avisou Sawyer voltando para o seu lugar com Ana-Lucia.

Kate riu, estava completamente bêbada, puxou Jack para sentarem-se novamente. Sawyer ao contrário do que podia parecer não estava tão embriagado assim. Tinha tomado apenas três copos de uísque, tendo o cuidado de beber devagar para a bebida não subir-lhe a cabeça. Mas ninguém estava se dando conta disso, Jack já tinha tomado todas e bem rápido, não iria resistir a toda aquela loucura por muito tempo. Isso seria muito bom de se ver, o grande e compenetrado líder perdendo o controle, dando vexame.

- Jack?- chamou Sawyer.

- Hein?!- ele indagou, confuso.

- Mostre suas cartas!- disse Ana-Lucia.

- Dupla de reis!- mostrou sorrindo.

- Hummm...dois ases de paus.- falou Kate.

- Dupla de damas.- anunciou Ana-Lucia.

- Droga!- esbravejou Sawyer, perdera mais uma vez, não conseguira formar uma dupla.

- Kate?- chamou Ana-Lucia. – Agora é a vez do Sawyer.

Prontamente, Kate se levantou. Jack a puxou pelo braço: - Kate, não...

- Relaxa, doutor!- ela disse imitando Sawyer, o que o deixou perplexo.

Daquele momento em diante, nada pareceu fazer mais sentido, e desnorteado, Jack acordou na manhã seguinte ao som de uma voz ao seu ouvido.

- Jack, abre los ojos!

A visão borrada do teto de lona da barraca deixou-o infinitamente confuso. Vozes murmurando palavras ininteligíveis ecoavam em sua mente. A cabeça doía mais do que ele podia agüentar, quando ele tentou em vão sentar-se para se familiarizar com o lugar onde estava. Não conseguiu porque um corpo morno se prendia ao seu. Uma sensação de pânico tomou-lhe momentaneamente, mas logo essa sensação foi substituída por um imenso alívio ao se deparar com Kate dormindo pesadamente, abraçada a ele.

Afastou-a com cuidado para que ela não acordasse e sentou-se, olhando ao seu redor. Ainda estava na barraca de Sawyer, lá fora já era dia. Olhou a confusão ao seu redor, copos e garrafas de uísque vazias. Mas isso não era tudo, mais adiante, Sawyer e Ana-Lucia dormiam abraçados, tranqüilos. Ela ressonava suavemente, a cabeça recostada em seu peito nu. Jack olhou para si próprio, também estava sem camisa, mas as calças estavam no lugar. Kate também usava seu vestido, assim como Ana-Lucia. Isso era um bom sinal, talvez as lembranças confusas que tinha na cabeça naquele momento fossem apenas resultado de uma noite inteira enchendo a cara de uísque. Não devia ficar se preocupando à toa.

Resolveu acordar Kate, era melhor que ela fosse dormir em sua barraca, não a queria dormindo na barraca de Sawyer, mesmo com Ana-Lucia estando lá. Tocou o cabelo dela com carinho, e acariciou seu rosto:

- Kate, amor...acorda.

- Hummmm.- ela fez um gemido de reclamação por estar sendo acordada.

Jack insistiu, falava baixinho para não despertar os outros dois:

- Anda, princesa, acorda!

- Não, só mais cinco minutos.- Kate disse virando de bruços.

- Se você não levantar, eu vou ter que te carregar dormindo, anda vamos pra sua barraca!

Kate abriu os olhos devagar quando ouviu Jack dizer que queria ir pra barraca dela, então não estavam em sua barraca. Sentou-se, esfregando os olhos que estavam vermelhos. A cabeça girando.

- Onde estamos, Jack?

Ele apontou para Sawyer e Ana-Lucia que dormiam. Kate voltou os olhos pra ele tão confusa quanto ele próprio estava. Tentou ficar de pé, mas sentiu as pernas bambas. Jack a segurou.

- O que está acontecendo Jack? Estou me sentindo mal.

- Acalme-se, é só ressaca. Bebemos muito na noite passada.

- Mas só bebemos?- ela indagou com medo da resposta.

- Sim, é claro.- ele respondeu sem ter muita certeza do que estava dizendo.

Kate fechou os olhos levando as mãos à cabeça.

- Vamos lá pra fora.- ele disse. – Um pouco de ar puro vai te fazer bem.

Eles saíram da barraca. Por sorte, não tinha ninguém perambulando pela praia ainda, era muito cedo e a última noite havia sido desgastante para todos.

- Jack, eu não tô bem mesmo!- Kate queixou-se, estava ficando azul.

Afastou-se dele até um canto e vomitou. Jack foi até ela e amparou-a. Quando ela parou de vomitar, ele prontamente trouxe da barraca de Sawyer um pouco de água e deu a ela.

- Bebe devagarzinho amor. Vai ficar tudo bem.

Ela bebeu e depois deixou que Jack a conduzisse para sua barraca, carregando-a nos braços. Lá, ela se despiu e se colocou embaixo de um cobertor, desmaiando de sono logo em seguida. Jack ficou sentado ao lado dela vigiando seu sono. Muitas dúvidas pairavam em sua cabeça. O que acontecera na barraca de Sawyer na noite passada? Apenas jogaram e beberam? Jack não conseguia se lembrar com clareza. No entanto, sabia que só uma pessoa poderia lhe dar essa resposta: Ana-Lucia. Ela não bebera por causa da gravidez. Resolveu procurá-la mais tarde, quando Kate se sentisse melhor e a sua própria ressaca passasse. Ela teria que lhe dar alguma resposta.

xxxxxxxxxx

- Onde está o médico?- perguntou Pedro quando Locke lhe trouxe comida logo cedo. – Gostaria de falar com ele.

- Para um prisioneiro, acho que você tem feito muitas exigências.- disse Locke depositando um pratinho com frutas cortadas sob a estante onde anteriormente ficavam as armas.

- Sou um prisioneiro?- ele retorquiu. – Acham que represento uma ameaça para vocês?

- Não sei Pedro, é você quem tem que me dizer.

- Como é o seu nome?- Pedro indagou.

- John Locke.

- Certo John Locke, me diga em que lugar estamos?

Apesar da aparência frágil e dos vários hematomas ainda presentes em seu rosto, o homem tinha um quê de decisão e força interior extremamente notável. Se fosse mesmo um dos "Outros", Locke pensou, então provavelmente estariam sendo bem enganados. Diante desse temor, Locke usou de bom senso, se as perguntas do desconhecido fossem uma forma de manipulá-lo para que se desentendesse com Jack e colocasse tudo a perder, como acontecera com Henry Gale, ele saberia, pois não cairia na mesma trama sórdida duas vezes.

- Você sabe onde estamos.- arriscou.

- Não, não sei.- respondeu Pedro encarando-o, não demonstrava medo.

A segurança dele estava incomodando Locke:

- Se não sabe onde está, e não tem a menor idéia de quem somos ou do que vamos fazer com você por que está tão seguro?

O homem de uma risada resignada:

- Porque sei que se quisessem realmente me matar já teriam feito isso desde o dia em que me encontraram. Estão tão curiosos ao meu respeito quanto eu a respeito de vocês. Além do mais, sentir medo a essa altura seria uma grande estupidez diante do que tem me acontecido ultimamente.

- Boa resposta.- sorriu Locke. – Você me parece um filósofo ou algo assim...alguém que detém sabedoria. Senti isso em você desde a primeira vez em que abriu os olhos.

- Na verdade, eu sou um escritor. Nada mais. Alguém que vive de palavras, usando-as a seu próprio favor. Me alimento de fragmentos de vidas inexistentes. E esse lugar, é exatamente como meu último livro, o que não consegui terminar porque sofri um acidente.

- Que acidente?- indagou Locke, curioso.

- O de barco que provavelmente me trouxe até aqui, isso se eu não estiver em coma em algum hospital. De repente posso estar deitado em uma cama, coberto de tubos e Nikki olha pra mim pensando se vai voltar a me ver acordado de novo.

- Quem é Nikki? Você nos perguntou sobre ela ontem durante a febre. Sua namorada, talvez esposa?

Ele balançou a cabeça:

- Se tivéssemos tido mais tempo, talvez...mas Nicole era apenas a instrutora de mergulho que eu contratei através da Oceanic para me ensinar a mergulhar nas ilhas Fiji.

- Você disse Oceanic?- perguntou Locke intrigado.

- Sim. Como eu disse, sou escritor. Moro no Brasil onde nasci, mas viajo o mundo todo sempre que preciso fazer pesquisas a respeito de um novo livro que pretendo escrever. Eu estava na Austrália, em Sidney quando resolvi visitar a ilha de Fiji e mergulhar nos recifes de corais.

- Foi assim que veio parar aqui?

- Locke, aqui é onde? Isso ainda não ficou claro pra mim. Nikki e eu fomos até um balcão de areia longe da Vila, o motor do barco falhou, não conseguimos voltar de bote. A correnteza nos trouxe até esse lugar, e quando chegamos aqui, a primeira coisa que me veio à cabeça foi, este é o cenário do meu livro, das coisas que passavam pela minha cabeça naquele momento. Tudo, a estátua de pedra em formato de um pé com quatro dedos...

- Então você sabe da estátua?- Locke estava desconfiado, mas com certeza era a história mais original que já ouvira, o homem era muito inteligente.

- Sim, mas a estátua não foi o mais absurdo. Nem mesmo termos sido capturados por aquelas estranhas pessoas.

- Você e Nikki?

Ele assentiu.

- O mais estranho, John Locke, foi acordar nesse lugar e dar de cara com aquela mulher, a mulher que eu idealizei tantas vezes em inúmeros livros, a mulher cujo retrato mandei pintar baseado nas minhas descrições e que pus em meu quarto para sempre olhar pra ela. A personagem principal do meu livro, uma criminosa, mais vítima do que algoz que vai parar em uma ilha misteriosa ao sofrer um acidente de avião.

Locke arregalou os olhos:

- E como é o nome do seu livro?

- "A Escotilha."

xxxxxxxxx

- Anda sardenta, diz meu nome!

- Sawyer!

- De novo!

- Sawyer!

Jack acordou assustado novamente. Sentou-se, o estômago revirando. Olhou para Kate que ainda dormia. Do jeito que ela estava, pensou que nem mesmo a explosão de uma bomba atômica seria capaz de acordá-la. Sabia que era por causa da ressaca, mas não era só isso. Ela parecia extremamente exausta, o que o estava deixando muito preocupado.

Apesar de ainda estar com muito sono, ele não conseguiria mais dormir. A cada vez que fechava os olhos e o sono o derrubava, escutava novamente aquelas vozes. Palavras, sussurros, gemidos, coisas que não conseguia entender. Ou talvez estivesse inconscientemente tentando esquecer.

- Droga!- esbravejou e logo em seguida arrependeu-se do rompante de fúria olhando para Kate que se mexia. Mas ela não acordou, o que de certa forma deixou-lhe um tanto aliviado, não queria que ela o visse zangado daquele jeito porque nem ele mesmo sabia porque estava tão zangado.

Resolveu levantar-se quando se deu conta de que deixara a camisa na barraca de Sawyer. Amaldiçoou-se por dentro, teria que voltar até lá para pegá-la. Bebeu um pouco de água e saiu da barraca. Algumas pessoas já tinham se levantando, começando as tarefas do dia. Rose era uma delas, e tranqüilamente preparava o café da manhã de todos com a ajuda da Sra. Lewis. Cantava, uma antiga canção de Stevie Wonder.

- "You are the sunshine of my life..."

Jack passou por elas, tão distraído que nem sequer as cumprimentou.

- Bom dia, doutor.- saudou a gorda Sra. Lewis.

- Bom dia.- respondeu Jack envergonhado por não tê-las visto. – Rose?

- Bom dia Jack. Sinto te dizer, querido, mas você está com uma cara péssima esta manhã.

- Obrigado, Rose.- ele respondeu irônico, já se afastando quando ela o chamou de volta.

- Venha comer alguma coisa. Estou preparando leite para a pobrezinha da Shannon. Falei com Sayid logo cedo e ele me disse que ela chorou a noite inteira, está muito preocupado.

- E onde ele está agora?- indagou Jack.

- Está com ela, disse que não ia deixá-la até que se sentisse melhor. Vocês deveriam ter mais cuidado com suas armas. E se uma das crianças a tivesse pegado?

- Tem razão Rose, foi muito mais seguro Shannon a ter pegado.- ele falou sarcástico.

- Meu Deus, o que aconteceu com você? Está tão estranho.- ela observou. Não acha Dana?

A Sra. Lewis deu de ombros.

- Ah, mas está sim. Um café vai te fazer bem. Eu vou preparar.

- Não Rose, eu só quero um copo de leite quente.

Rose serviu um pouco de leite da Dharma Initiative em um copo.

- Tome, está morno, pode beber.

- Não é pra mim. Com licença. – ele disse indo em direção à barraca de Sawyer.

- Eu nunca o vi assim...- comentou Rose com a Sra. Lewis e voltou para suas tarefas.

Quando chegou à barraca de Sawyer, Jack parou pensando duas vezes se entraria lá novamente. Precisava falar com Ana-Lucia, urgentemente, esclarecer as coisas. Tirar das costas aquela estranha sensação de culpa. Respirou fundo e entrou. Pousou o copo de leite em um canto e tocou o braço dela delicadamente, para que ela não se assustasse e acordasse Sawyer.

Ela acordou de imediato com o toque dele, e se afastou de Sawyer, sentando-se confusa:

- O quê? Jack?

- Shiiiiiii- ele pediu e pegou o copo de leite novamente, fazendo um gesto para que ela saísse da barraca com ele.

Uma vez fora da barraca com ela, Jack perguntou:

- Você está bem?

- Yeah!- ela respondeu calmamente. – Só um pouco sonolenta, por quê?

- Tome, beba isso. È bom pro bebê, tem cálcio.

- Obrigada.- ela respondeu, começando a beber o leite.

- Me desculpe, Ana-Lucia.

- Pelo quê?

- Por tudo, eu acho. Tudo o que aconteceu ontem à noite.

- Tudo o quê?

- Você sabe do que eu estou falando, não estava bebendo.

- Seja mais específico!- ela pediu, estava muito confusa com o comportamento de Jack.

- Eu estava bêbado, muito bêbado, não devíamos ter...

- Mas do que diabos está falando, homem?

Ela o fitava com olhar inquisidor, seus olhos negros mirando os dele, uma mão na cintura e a outra segurando o copo vazio. Jack tentou ler o que estava escrito nos olhos dela, mas não conseguiu encontrar nada que pudesse aquietar os anseios de seu coração, olhar pra ela só o perturbava mais.

- Abre los ojos!- Jack disse por fim. – O que significa isso?

- Abra os olhos. – ela respondeu. – Por que me pergunta isso?

- Porque você disse isso pra mim noite passada, Jack, abre los ojos!.- ele tocou o ombro dela.

- Jack, eu não disse nada disso pra você. Onde está querendo chegar?

Ele passou as mãos pela cabeça, e tentou parecer calmo, mas não estava. Começou a achar que Ana-Lucia estava brincando com ele, fingindo uma falsa amnésia.

- Ontem à noite, depois da confusão com a Shannon, Sawyer nos convidou para jogar pôquer na barraca dele, não foi isso?

- Sim.- ela disse, muito calma.

- Nós fomos para lá e levamos três garrafas de uísque. Certo?

- Certo!- ela concordou mais uma vez.

Jack respirou fundo e continuou:

- Depois de alguns copos de uísque, e algumas rodadas de pôquer, eu sugeri que jogássemos outra coisa...

- Yeah! Você disse vamos jogar strip-pôquer.- ela falou com um meio-sorriso.

- E todo mundo aceitou.

- Aceitou!

- Ana!- ele levantou um pouco a voz, irritado.

Ela fechou a cara para ele.

- Se você está concordando com tudo o que eu disse, porque não me conta o que aconteceu depois disso.

- Eu não, por que não fala você? Suas memórias terminam aí?

Percebendo que ela não diria nada, Jack resolveu abrir o jogo, ou pelo menos parte dele:

- Durante o jogo, depois que Sawyer e eu perdemos a camisa, você perdeu o vestido.

Ana-Lucia pareceu ficar mais atenta quando Jack falou aquilo e olhou para os lados para ver se tinha alguém escutando. Se aproximou mais de Jack, para que ele falasse ainda mais baixo do que já estava falando.

- O que você realmente quer saber?- ela indagou.

- Se isso aconteceu? Eu tirei o seu vestido?

Ela respondeu:

- Você tirou o meu vestido. Sawyer tirou o da Kate, e daí? Tudo não passou de um jogo, já acabou, é passado. Se eu fosse você trataria de curar essa ressaca, seus olhos estão vermelhos pelo amor de Deus, o que vai dizer as pessoas se perguntarem o por que disso? Você é o líder!

- Ana, eu não vou conseguir pensar em mais nada se você não me disser a verdade.

- Que verdade? A sua ou a minha?

Jack não estava agüentando mais as evasivas dela, precisava saber:

- Ana-Lucia, transamos ou não noite passada?

Ana-Lucia arregalou os olhos, surpresa com a pergunta dele. Ergueu uma sobrancelha e disse com um meio-sorriso:

- Você anda fantasiando ao meu respeito ou quê? Kate não ia gostar de saber disso.

- Você não respondeu a minha pergunta.

- E eu ainda tenho que responder? Jack olhe pra mim, eu estou grávida.

- Isso não significa nada.

- Estou vendo por que tipo de mulher você está me tomando, não merece a Kate.

Ela deu as costas a ele, Jack instintivamente a puxou pelo braço:

- Por favor Ana, me diga!

Sawyer apareceu na porta da barraca, sem camisa, usando apenas as calças jeans, o rosto amassado e os cabelos desgrenhados:

- Mas o que está acontecendo?- indagou ao ver Jack segurando o braço de Ana-Lucia.

- Pergunte pra ele o que tanto deseja saber Jack. Pergunte!.- ela disse indo colocar-se ao lado de Sawyer que a abraçou.

- Perguntar o quê?

- Se a minha camisa não ficou na sua barraca?- resolveu não dizer nada, não queria confusão com Sawyer. Começou a se indagar o que estava fazendo, a resposta era óbvia, por isso Ana-Lucia reagira daquela maneira, ele a ofendera. Como pôde ter sido tão estúpido? A bebida lhe confundiu a cabeça, criando em sua mente imagens de algo que nunca aconteceu. Estava sendo manipulado, se todo aquele uísque havia sido encontrado na escotilha o mais óbvio é que a composição da bebida tivesse sido alterada, o que lhe causou alucinações. Mas só com ele? Sawyer cortou seus pensamentos.

- Por que não entra e procura a camisa, oras?

Jack passou por eles e entrou na barraca.

- Eu acho que o uísque não fez nada bem a ele.

- Não mesmo.- concordou Ana-Lucia.

- Quer ir até a cachoeira tomar um mergulho? Podemos pegar algumas mangas pro café, o que me diz meu dengo?

- Tomar banho com o meu cowboy? Vai ser ótimo!

Ele beijou-lhe a testa. Jack saiu de dentro da barraca segurando a sua camisa, andando apressado.

- Está aqui. Até mais.

- Eu vou até a minha barraca me trocar, baby. Volto logo.- disse Ana-Lucia. Sawyer entrou de volta na barraca e ela correu para alcançar Jack.

- Jack, espera!

Ele voltou-se para ela, que se aproximou dele.

- Minha avó costumava dizer que as pessoas vêem o que querem ver, e o que eu vejo é que você ama a Kate, e eu amo o Sawyer. Nada mudou. Nada aconteceu que pudesse mudar isso. Você é meu amigo, foi o único dessa comunidade que ficou do meu lado quando eu baleei a Shannon. Então, o que mais eu posso dizer para que você pare de se preocupar?

Jack finalmente sorriu, entendeu o que ela queria dizer:

- Obrigado, Ana.

Ele voltou para a barraca de Kate, sentia-se muito aliviado depois de sua conversa com Ana-Lucia. Meia hora depois, quando havia conseguido pegar no sono de novo ouviu uma voz que o chamava do lado de fora.

- Jack, cê tá aí cara?- indagou Hurley do lado de fora da barraca.

- Hurley?- Jack respondeu com uma voz cansada.

- Você tá bem cara, tá precisando de ajuda?

- Não Hurley, o que você quer?- Jack indagou abraçado a Kate que despertou nesse exato mmento.

- È que tem uma coisa estranha acontecendo aqui na praia.

- Hurley, acho que isso vai ficar pra depois!- Jack respondeu enquanto Kate dava pequenos beijinhos em seus lábios.

- Eu acho que não, com certeza você vai querer ver isso.

- Ai meu Deus...- disse Jack respirando fundo.

- Pobrezinho!- exclamou Kate acariciando o peito dele.

Hurley percebendo que não o convenceria a sair da barraca, apelou:

- Ô Jack, você não tem mesmo noção do que é né, cara? O Locke acabou de trazer um sujeito que o Desmond disse que estava preso lá na escotilha aqui pra praia.

- Como?- Jack indagou assustado. Levantou-se de um salto procurando pelas roupas e vestindo-se depressa. Kate fez o mesmo.

- Jack porque o Locke faria isso? Ainda não sabemos muita coisa sobre esse homem...

- Eu não sei Kate, mas isso é típico do Locke, fazer as coisas sem me consultar.

Ele saiu da barraca seguido por Kate, Hurley ainda estava lá parado, na porta esperando. Quando viu Jack sair, ele apontou para o meio da praia onde as pessoas se aglomeravam curiosas em volta de Pedro. Locke estava ao seu lado sorrindo, parecia o estar apresentando às pessoas.

- O Locke só pode ter enlouquecido!- disse Jack muito zangado. – Onde está o Sayid?

- Está com a Shannon na barraca.- respondeu Hurley.

- Vá buscá-lo Hurley!

Jack saiu caminhando em direção a Locke e Pedro. Seu olhar era de fúria. Pedro notou isso, e comentou com Locke:

- Eu acho que me trazer até aqui não foi uma boa idéia, John.

- Não se preocupe Pedro, Jack irá entender.

- Locke!- gritou Jack. – O que pensa que está fazendo?

Locke respondeu com olhar desafiador:

- Acho melhor falar direito comigo e se acalmar Jack. Não estou fazendo nada demais.

- Como não está fazendo?- retorquiu Jack. – Você acabou de trazer um homem desconhecido para o acampamento pondo em risco nossas vidas.

- Jack, eu lhe asseguro que Pedro é bem menos perigoso que Bradley, com quem nós convivemos durante quase um ano sem saber do que ele era capaz.

Jack balançou a cabeça negativamente:

- Ainda não sabemos do que cada um de nós é capaz, John. Eu não sabia que você seria capaz de libertar um prisioneiro sem...

- Sem te consultar, Jack? Quem te nomeou o rei dessa ilha?

- Você Locke, foi você! Esqueceu disso?- Jack gritou.

- Ei, parem vocês dois com isso!- disse Sayid fazendo o seu papel de xerife da ilha.

Em meio a toda aquela discussão, Pedro nada dizia, já havia passado por tanta coisa desde que fora parar naquela ilha, que o fato de outra vez estarem discutindo seu destino já não o preocupava tanto. Naquele momento, seus olhos estavam focados no cenário que presenciava. O acampamento encravado no meio da praia, aos poucos tomando forma de comunidade. Uma vila de pescadores como a que vira em Fiji, porém muito mais rústica. As pequenas habitações pouco distantes umas das outras, barracas feitas de estacas de madeira, bambu e lonas de plástico, algumas tinham até estranhos fragmentos de uma aeronave, que Pedro notou terem o símbolo da Oceanic Airlines, a empresa pela qual voara da Austrália para Fiji. No entanto, o que lhe pareceu mais curioso foi um barracão de madeira construído um pouco mais adiante das barracas de lona, na entrada da floresta, com uma enorme cruz também de madeira em cima do telhado. Seria uma igreja? Pensou.

As pessoas o encaravam mais do que curiosas, sentiu-se incomodado com tantas atenções voltadas para si, entretanto os olhos inquisidores de uma única mulher lhe chamaram muito a atenção, e ele sorriu ao reconhecê-la, a garota que lhe dera água enquanto estivera preso na escotilha.

- Sim, mas eu já estou cansado de dizer que se me elegeram o líder...

- Jack, você...

Locke e Jack continuavam discutindo em meio aos protestos de Sayid que não conseguia pará-los. Eko, até aquele momento tinha observado a discussão em silêncio, porém vendo que nada seria decidido e que provavelmente os dois continuariam discutindo por horas a fio, resolveu se intrometer. Ele era o líder espiritual da comunidade, tinha que usar de toda a sua sabedoria para resolver aquele conflito.

- Se me permitem...- falou em alto e bom tom para ser ouvido. Jack, Locke, Sayid e todas as pessoas, incluindo Pedro voltaram suas atenções para o padre. – Creio que o que está acontecendo aqui é uma guerra de egos. Temos dois bons líderes, Jack e Locke, que prestam sua assistência à comunidade de formas diferentes discutindo o destino desse homem.- apontou para Pedro.

As pessoas puseram-se a conversar entre si. Eko fez um gesto para que se calassem e continuou:

- Quem são Jack e Locke para discutir isso? Quem somos nós para vivermos nos julgando e julgando os outros o tempo todo?

- Eko, dessa vez não vou concordar com você.- interrompeu Jack. – Fomos atacados, mais de uma vez por essas pessoas a quem chamamos de "Outros", inclusive você, seu grupo foi dizimado covardemente e agora nos pede para confiarmos nesse homem?

- Eu ainda não terminei Jack!- disse Eko, a expressão de pura seriedade no rosto. Jack calou-se e deixou que ele continuasse. – Por isso digo, se Deus não nos fez aptos a fazer julgamentos, sigamos nossos instintos. Aceitemos este homem em nossa comunidade tomando os cuidados necessários, sinto que ele está tão perdido quanto nós.

Locke sorriu ao ouvir as palavras de Eko, e falou:

- Eu concordo plenamente com o Eko.

- Sayid?- indagou Jack ao iraquiano, esperando que o amigo se colocasse ao seu lado.

- Diante do argumento de Eko, eu não tenho como dizer não. Aceitamos Ana-Lucia que atirou na minha esposa, por que não podemos aceitar um homem que não nos fez nada? Fiquemos de olho nele.

- Então, estão a seu próprio risco!- disse Jack, retirando-se. Estava cansado e irritado.

Pedro aproximou-se de Kate e falou:

- Se fosse por mim, eu preferia não ter que estar aqui no meio disso tudo.

Kate fechou a cara pra ele: - Não tente dar uma de bonzinho pra cima de mim, Jack tem razão, não sabemos quem é você.- ela saiu correndo atrás de Jack, chamando-o.

- Jack, aonde você vai?

- Eu não sei, eu só quero...estou tão cansado.- ele disse apoiando-se nela, sentindo o corpo fraquejar.

- Anda, vamos pra minha barraca. Eu vou cuidar de você.

Na barraca, Jack deitou-se na cama de almofadas, a vista estava turva e a dor de cabeça tinha voltado, ainda mais forte. Kate tirou os sapatos dele e desabotoou a camisa, para deixá-lo mais confortável. Sentou-se ao lado dele e ficou acariciando-lhe os cabelos com os dedos.

- Kate, e se esse homem for mais uma ameaça para todos nós?

Ela deu um beijinho na testa dele.

- Jack, dorme querido. Não pense em mais nada não, eu estou aqui.

Ela começou a cantar "Catching a fallin star", fazendo-o sorrir, ninando-o como um bebê. E Jack logo adormeceu ao som de sua voz e de seus carinhos. Deixaria os problemas para depois.

Continua...