Episódio 23: "1° dia"
Sinopse: O grupo partiu em busca de Sawyer e um estranho acontecimento ocorre no primeiro dia da missão. Além disso, Ana-Lucia e Kate estão trazendo preocupação ao grupo.
Censura: T.
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Quase meio dia, e o sol ainda não tinha aparecido, manhã típica de inverno. Uma chuvinha incômoda caía, salpicando pingos de água gelados sobre o grupo que caminhava ininterruptamente desde que saíra do acampamento antes do amanhecer. Estavam em busca de Rosseau, mas ainda não a tinham encontrado. Enquanto andavam, trocavam poucas palavras, mantendo suas atenções no caminho.
Ana-Lucia caminhava com dificuldade pelo terreno íngreme da floresta. O peso da mochila, aliado ao peso da gravidez tornavam difícil dar cada passo. Ela começou a ficar para trás, andando cada vez mais devagar. Sayid notou isso e voltou, indo até ela.
- Ana-Lucia, está tudo bem? Quer fazer uma parada?
- Não, eu estou bem. Vamos continuar.- ela suava frio devido ao esforço que estava fazendo, mas não queria desistir, acreditava que a cada minuto que parasse para descansar era mais um minuto longe de Sawyer.
- Me deixa levar a sua mochila.- pediu Sayid, tirando a mochila das costas dela.
Ana-Lucia não fez nenhuma objeção, aceitando prontamente a ajuda dele. Continuaram caminhando. Locke ia cortando com sua faca alguns galhos que se atravessavam no caminho deles. Andavam em fila indiana. Locke na frente, Pedro logo atrás, seguido por Michael, Jack, Kate, Sayid e Ana-Lucia. O pé dela enganchou em uma raiz, Sayid a segurou. Ela voltou os olhos escuros para ele, um pouco embaraçada. Sayid sorriu para ela:
- Se quiser pode segurar minha mão enquanto passamos por esse terreno acidentado.
- Ok!- ela assentiu dando a mão para ele.
Kate tentava acompanhar o passo apressado de Jack, mas ele fazia questão de andar sempre mais à frente dela. Estava muito zangado por ela ter vindo daquele jeito. O que ela queria provar com isso? Pensava. O ritmo da caminhada também estava começando a cansar Kate, e ela irritou-se consigo mesma. Costumava agüentar muita coisa, mas desde que ficara grávida sentia que sua resistência para algumas coisas tinha diminuído.
Sabia que era irresponsabilidade, mas acordara tão apressada de manhã e principalmente tão enjoada que não se dignou a comer nada antes de partir. Ainda estava enjoada, mas junto com o enjôo tinha aquela sensação de estômago vazio. Quando chegaram a uma clareira, ela sentiu uma ânsia de vômito incontrolável, só teve tempo de escorar-se em uma árvore.
- Kate!- disse Jack dando meia volta ao perceber que ela estava vomitando, a zanga cedendo lugar à preocupação.
Ela tossia sem parar, sentia vontade, mas não vomitava por causa do estômago vazio. Jack tocou sua testa, estava um pouco fria, os olhos fundos e o rosto assumindo um tom pálido.
- Você comeu alguma coisa antes de partirmos?- indagou apoiando-a com seu corpo, percebendo que ela estava zonza.
- Não, eu não comi nada. Achei que não ia dar tempo e estava muito enjoada...
Sayid e Ana-Lucia haviam parado de andar e estavam ao lado deles, ambos preocupados com Kate. Locke, Pedro e Michael iam bem mais à frente.
- Ô John!- gritou Jack. – Vamos fazer uma parada, por favor! Kate não está bem!
- Cinco minutos!- avisou Ana-Lucia.
Os três retornaram concordando em fazer uma pausa, estavam com fome. Na clareira havia um pequeno córrego cercado de pedras. Jack ajudou Kate a sentar-se na beira da água. Retirou da mochila uma garrafa térmica com o logo da Dharma, cheia de leite. Rose a havia preparado. Serviu um copo para ela e disse:
- Tome esse leite, bem devagar.
Ela fez o que ele disse. Ana-Lucia sentou-se nas pedras com bastante dificuldade. Retirou as sandálias e molhou os pés inchados e doloridos na água. Locke acendeu uma pequena fogueira e assou dois peixes que Jin tinha dado a ele para dividir no grupo.
- Até agora nada da Rosseau! Estou ficando preocupado.- falou Sayid. – Faz uns dois meses que não sei dela.
- Será que ela adoeceu ou algo assim?- indagou Michael.
- È possível.- disse Locke. – Mas Rosseau já está a tantos anos aqui, acho difícil uma simples gripe tê-la derrubado.
- Quantos quilômetros até o "Rocha Negra?"- perguntou Jack, estava imensamente preocupado com as duas grávidas que trouxeram consigo.
- Uns cinco quilômetros ou mais.- respondeu Locke. – Pelo que me lembro.
Jack se aproximou bem deles, formando um círculo fechado. Pedro que comia um pouco mais afastado percebendo que ele queria dizer algo importante também se aproximou, enfiando-se no círculo.
- Eu estou muito preocupado.- falou. – Preocupado como médico, como amigo e principalmente como futuro pai. Cometemos um erro muito grande trazendo elas conosco.
- Eu concordo.- disse Pedro.
- Tudo bem, eu também acho arriscado.- comentou Michael. – Mas todos nós sabemos que seria impossível deixar elas duas no acampamento, elas viriam de qualquer jeito, nem que viessem escondidas. Então, não é melhor que pelo menos elas estejam com a gente para que possamos cuidar delas?
- Michael tem razão, Jack. Kate e Ana-Lucia são muito teimosas.-observou Locke.
- Mas se acontecer alguma coisa com elas?- indagou Jack passando as mãos pela cabeça.
- Você é um médico qualificado para resolver isso, e todos nós estamos aqui para ajudar.- falou Sayid.
- Já chega de descansar!- gritou Ana-Lucia. – Movam esses traseiros gordos!
Michael riu:
- Ela parece muito bem pra mim.
Jack sorriu e caminhou até Kate:
- Você está melhor?
- Estou.- ela respondeu.
- Vamos então, temos muito chão pela frente.- disse Locke.
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- Nikki acorde, vamos!
Nicole despertou com os já costumeiros tapinhas em seu rosto. Piscou os olhos e sentou-se na cama, encarando a jovem que lhe ajudava desde que fora capturada, meses atrás.
- Se lembra que eu prometi que ia te tirar daqui?
- Promessas! Promessas!- Nikki gracejou, esfregando os olhos.
- Eu estou falando sério!- a outra disse arregalando os imensos olhos azuis para ela.
- Alex, agradeço imensamente tudo o que tem feito por mim, mas pra te falar a verdade perdi as esperanças. Já estou aqui trancafiada há tanto tempo. Nem sei se o que está acontecendo é real. Você é real?- ela indagou confusa, sentia-se realmente assim, sem rumo.
- Eu sou real!- Alex enfatizou. – Tudo aqui é muito real, por isso digo que você deve escapar daqui essa noite.
- E o Pedro? Descobriu alguma coisa sobre onde ele está?
Alex balançou a cabeça:
- Esqueça o Pedro. Se você não for, eles irão fazer.
- Vão fazer o quê?
- Te transformar em alguém que você não vai querer ser.- ela respondeu com a voz sombria.
- Mas se eu sair daqui vou pra onde? Não sei sequer onde estou.
- Hoje, á meia noite, eu vou conseguir a chave da ala X, e te ajudar a escapar pela ala Y. Quando você se vir na floresta vá para o norte, se embrenhando cada vez mais na mata. Siga esse caminho e encontrará um acampamento onde irão cuidar de você. São boas pessoas, sobreviventes de um acidente de avião. Já estão aqui na ilha há pouco mais de um ano.
- Certo.- Nikki concordou mecanicamente.
- Nikki, faça exatamente o que eu estou te pedindo, não vá para o oeste. Resista essa tentação, sei que o caminho por lá vai parecer mais fácil, mas não chegue à cidade. A morte te espera lá.
- Cidade? Do que está falando?
- Preciso ir, Nikki. Volto à meia-noite.- ela saiu tão sorrateira quanto quando entrou, trancando a porta de aço branca atrás de si.
- Alex! Alex!- Nikki a chamou de volta, mas ela já tinha ido. – Cidade? Acampamento? Que espécie de ilha era aquela?
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O grupo já tinha caminhado cerca de mais três quilômetros, quando chegaram à entrada de uma caverna. Locke observou que da outra vez que foram até o "Rocha Negra" eles não tinham passado por aquele lugar.
- E essa caverna, John?- indagou Jack. – Não me lembro disso.
- Nem eu!- ele falou.
- Vamos dar a volta para chegar ao outro lado?- perguntou Sayid.
- Não vejo outra forma de chegarmos ao outro lado sem ir por dentro da caverna.- observou Michael.
- Fora de cogitação!- disse Jack. – Não podemos entrar assim em uma caverna desconhecendo sua profundidade, e sem falar que será impossível atravessar esse lugar com a Ana-Lucia.
- Não fale por mim, Jack.- ela brigou.
- Ana, sei que agüenta muita coisa, mas o Jack tem razão, você não pode atravessar essa caverna.- disse Locke.
- Não me diga o que eu não posso fazer!- ela gritou, zangada.
- Eu digo!- disse uma voz feminina saindo do meio das árvores.
- Rosseau!- exclamou Sayid, feliz em vê-la.
Ela estava como sempre, vestida com seus farrapos, os cabelos desgrenhados, uma espingarda presa à cintura, munida com seu arco e flecha.
- Não devem atravessar essa caverna! Vocês não tem idéia do que se esconde em suas profundezas. Ninguém em sã consciência se atreve a descer nesse lugar.
- E como vamos passar então?- indagou Pedro.
- Estão indo pelo caminho errado se querem chegar ao Rocha Negra.
- Não faço questão de chegar ao Rocha Negra!- disse Ana-Lucia. – Só quero chegar até o acampamento dos "Outros".
- E recuperar o pai do seu filho.- Rosseau concluiu. – Para isso vão precisar com certeza dos explosivos.
- Você vai conosco até o Rocha Negra?- perguntou Kate, esperançosa de que ela se juntasse ao grupo.
- Sim, eu irei. Tenho interesses pessoais nessa busca de vocês. Quero descobrir onde fica a "Cidade dos Outros", sei que a minha filha está lá.
- "Cidade dos Outros"? Mas que história é essa?- indagou Locke, surpreso.
- È o lugar onde eles vivem, onde tramam conspirações contra a humanidade.
Jack sorriu:
- Isso está me parecendo absurdo demais!
- Não sei não, com tudo que eu já vi, nada mais me parece absurdo.- disse Michael.
- Vamos então, não percamos mais tempo!- falou Sayid.
O grupo recomeçou sua caminhada, seguindo Rosseau dessa vez, ela os levaria pelo caminho certo tinham certeza. Ana-Lucia apressou o passo e pôs-se a caminhar ao lado da francesa. Esta se voltou para ela:
- Abra a sua mão!
- Por que?- Ana-Lucia indagou sem entender.
- Apenas abra.
Ana-Lucia o fez e Rosseau colocou nas mãos dela um colar de fio de couro marrom, adornado com o que parecia ser o dente de um tigre.
- Isso é meu!- ela disse. – Onde conseguiu? Estava com...
- Com seu amor. Os "Outros" estão com ele, e ele sabia que vocês iam procurá-lo, largou esse colar para mostrar o caminho.
Ana-Lucia não se conteve, e sorriu apertando o colar junto de si. Então Sawyer estava vivo? Seu coração se encheu de esperanças de vê-lo muito em breve.
- E como está o seu bebê?- Rosseau perguntou.
- Ele está bem.- ela respondeu educada.
- Isso é bom, já que você pode dar à luz a qualquer momento.
- Como é?
Jack ouviu as últimas palavras de Rosseau e se intrometeu:
- Não, ainda falta muito, uns três meses pelo menos para ela dar à luz.
- Se você diz...- acrescentou Rosseau.
- Eu sou médico, ela está grávida de seis meses.
- Doutor, nada nessa ilha é exato. E pelo que eu posso observar, ela dará à luz muito em breve.
Depois da resposta de Rosseau, Jack calou-se. Continuaram andando sem mais interrupções. Ana-Lucia tocou a barriga e preocupou-se. Estaria Rosseau certa? Resolveu nem pensar nisso e continuou andando.
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O navio atracado no meio da floresta entre as árvores compunha mais um dos cenários bizarros que se estendiam por toda aquela ilha. Teria um dia, parte daquela terra sido oceano? Bem provável. Só isso para explicar o motivo daquele navio se encontrar ali. O "Rocha Negra" era um navio que traficava escravos sabe-se lá de onde para onde, ele era interessante para o grupo por causa da grande quantidade de explosivos que ainda se mantinham intactos no porão. Estes explosivos poderiam ser usados em medidas extremas caso precisassem explodir alguma das instalações dos "Outros" para resgatar Sawyer.
Já os tinham utilizado uma vez, quando precisaram explodir a entrada da escotilha. Lidar com explosivos era muito perigoso, o Dr. Arznt morrera tentando retirá-los da caixa sob os olhares atônitos de Jack, Locke, Kate e Hurley. Ela fez uma careta involuntária ao se lembrar dos pedaços do corpo do homem caindo por todos os lados quando a nitroglicerina explodiu.
- John, dessa vez nada de palitinhos! Kate e Ana-Lucia estão fora, não irão nem chegar perto desses explosivos.
- Nem você Jack!- disse Locke. – Não pode se arriscar, você é o único médico da ilha e ainda por cima vai ser pai, já tem muitas responsabilidades. Michael também tem o Walt, então acho que só posso contar com Pedro e Sayid?
Os dois concordaram. Rosseau advertiu Kate e Ana-Lucia:
- Vocês duas devem ficar bem longe da nitroglicerina, não devem respirar nem o ar. Fará mal a seus bebês.
Kate puxou Ana-Lucia pela mão e as duas ficaram a uma boa distância do navio enquanto Locke, Pedro e Sayid entravam. Rosseau, Jack e Michael ficaram um pouco mais próximos da entrada do navio. Os três não demoraram muito lá dentro, logo saíram com um dos baús de explosivos. Abriram com muito cuidado, molhando panos na lama para neutralizar a ação da nitroglicerina. Pegaram três, envolvendo-as nos panos e colocando em mochilas separadas. Sabiam que dali pra frente seria muito mais difícil continuar por causa dos riscos que estariam correndo transportando a dinamite. No entanto, aquilo fazia parte do plano e eles não pretendiam desistir de tudo agora.
- Podemos prosseguir?- indagou Rosseau, vendo que eles estavam prontos.
- Sim.- assentiu Locke.
- Caminharemos até anoitecer, depois disso só vamos continuar pela manhã. È muito arriscado ficar percorrendo essas matas de noite.- falou Rosseau.
Daí em diante, o deslocamento do grupo se modificou. Locke ia à frente a uma distância segura de Pedro, que vinha atrás. Sayid era o próximo. Os três transportando uma dinamite cada um. O restante do grupo ia bem mais atrás. Michael ofereceu o braço a Ana-Lucia para ajudá-la a caminhar, mas ela recusou. Apesar dele ter sido perdoado pelas pessoas e aceito de volta no acampamento depois de tudo o que fez, Ana-Lucia não se sentia a vontade perto dele, em sua mente sempre vinha a lembrança de que ele quase matou a ela e Libby porque tinha feito um acordo com os "Outros" para salvar Walt.
Jack resolveu ajudá-la. Com o braço direito a apoiava e com o esquerdo apoiava Kate, que também parecia muito cansada. O grupo seguiu mata adentro, sem mais paradas. Caminhavam para o oeste, para onde Rosseau afirmava que estavam levando Sawyer. A certa altura, quando a noite cobriu a floresta com seu manto escuro, Ana-Lucia fraquejou. Não agüentava mais andar, suas pernas não a obedeciam.
- Eu preciso parar!- ela pediu se apoiando nos próprios joelhos.
Sentia a cabeça rodar e um aperto no peito.
- Kate!- gritou Jack. – Pegue um dos cobertores e forre o chão pra ela deitar.
Kate atendeu imediatamente. Jack a deitou com cuidado no cobertor, e tocou sua testa, estava fria. Ana-Lucia começou a se sentir cada vez mais mal, ficando muito nervosa.
- Ana, fique calma. È uma baixa de pressão, você vai ficar bem. Não fique nervosa, por favor!
Ela respirou fundo, fechando os olhos e tentando se manter calma. Sentiu uma pontada na barriga. Começou a ter medo lembrando o que Rosseau lhe dissera sobre estar preste a dar à luz. Outra pontada, contorceu-se.
- O que foi Ana?- indagou Jack. – O que está sentindo.
Locke, Sayid e Pedro pararam de andar percebendo que o grupo havia ficado para trás.
- Mas o que houve?- perguntou Locke.
Rosseau se aproximou deles, apenas o suficiente para dizer:
- Vamos acampar agora, já está escuro.
- O que houve com a Ana-Lucia?- questionou Sayid.
- Eu disse que ela estava preste a dar a luz.
Os três se entreolharam preocupados e resolveram enterrar logo a dinamite.
- Ana, me escuta. Você só está assustada. Não vai ter esse bebê ainda, não é hora. Quero que respire fundo e se acalme.
Ela começou a fazer o que ele estava dizendo e aos poucos começou a se sentir melhor. Levantaram acampamento, improvisando camas para dormir com os cobertores que haviam trazido. Locke acendeu uma discreta fogueira para não ficarem totalmente na escuridão. Jantaram o resto do peixe do almoço. Kate levou leite para Ana-Lucia.
- Obrigada.- ela respondeu pegando o copo das mãos dela e sentando-se.
- Como você está?- perguntou Kate.
- Bem, eu acho. Só um pouco preocupada.
- Entendo.- disse Kate. Ficou calada por alguns segundos, mas não resistiu e fez a pergunta que não queria calar. – Ana, você acha que o que a Rosseau falou tem fundamento? Digo isso porque você sabe que nada realmente nessa ilha é exato. Eu calculei o tempo da minha gravidez por alguns fatores, mas não sei ao certo de quantos meses estou. Às vezes me pergunto se estou mesmo grávida ou se tenho algum outro problema.
- Kate, o que realmente quer saber?- Ana-Lucia indagou.
Kate sorriu, e falou baixinho se aproximando dela:
- Como foi que começou o seu romance com o Sawyer?
- Por que quer saber?- indagou Ana-Lucia erguendo uma sobrancelha.
- Porque como eu te disse, suas contas sobre os meses de sua gravidez podem estar erradas. Você está enorme Ana!
Ana-Lucia refletiu. Kate estava certa, e se ela já estivesse grávida a mais tempo do que imaginava?
- Está bem, eu vou te contar.
- Espera só um minuto!- disse Kate indo buscar seu cobertor para sentar-se ao lado dela.
Jack observou que as duas conversavam e sorriam. Sentiu-se menos tenso. Olhou para Rosseau que dormia no seu canto. Ela deveria estar louca, Ana-Lucia não daria a luz, não naquele momento.
- Pode começar!- pediu Kate.
- Bem, as coisas não começaram de um modo muito convencional. Eu roubei a arma dele.
- Começou naquela época?- espantou-se Kate.
- Acho que sim.- ela disse.
- E como você roubou a arma dele? Ele nunca quis me contar isso direito.
- Eu o agarrei no meio da selva e fizemos amor pela primeira vez.
Kate arregalou os olhos, levando as mãos à boca. Pelo jeito a história de Ana-Luca seria bem interessante. Não muito longe dali, Sawyer estava amarrado em um tronco, como uma presa abatida, a boca amordaçada. Perguntava-se onde estavam seus amigos? Quando viriam resgatá-lo?
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Kate ria descontraída da história de Ana-Lucia. Ela parecia feliz em poder recordar seus bons momentos com Sawyer.
- Imagino que o Sawyer deva ter ficado muito surpreso com a sua atitude?- perguntou Kate.
Os outros dormiam enquanto elas conversavam baixinho.
- Yeah.- Ana-Lucia sorriu. – Ficou me olhando com cara de bobo depois. Mas sinceramente eu não achei que isso fosse voltar a acontecer, até porque depois disso saímos naquela missão de resgate das crianças. Nem pensei mais nisso.
- Então como foi pra voltar a acontecer?- questionou Kate.
- Bem, como eu disse roubei a arma dele e ele a queria de volta.
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(Flashback)
9 meses antes
Um dia e meio de caminhada depois estavam finalmente de volta ao acampamento. Exaustos, mas felizes porque saíram vitoriosos, recuperando as crianças. O momento era de celebração na comunidade. No entanto, Ana-Lucia não estava a fim de comemorações. Era verdade que estava contente em rever Emma e Zack e tê-los a salvo no acampamento, mas os acontecimentos dos últimos três dias a tinham deixado cansada.
Naquela noite, enquanto todos estavam reunidos em volta da fogueira, comendo, bebendo e ouvindo o repertório de Charlie no violão, ela se recolheu à sua barraca disposta a dormir. Sawyer também não participava da comemoração. Se aborrecera ao chegar perto da fogueira e ver Kate toda satisfeita conversando com Jack. Eles estavam assim, muito próximos desde que o doutor a convidara para dar um passeio na floresta até a linha que dividia o território deles com o dos "Outros".
- Caíram em uma rede!- rosnou enquanto voltava para sua barraca. – Que cinismo!
Dentro de sua barraca as horas começaram a passar e ele não pregava o olho. Tentou ler mais um trecho do manuscrito anônimo que estava semi-queimado porque Jack o jogara na fogueira, para ver se o sono vinha, mas era inútil. Percebeu que a praia estava silenciosa, as pessoas provavelmente já deveriam estar dormindo. Kate teria ido dormir com Jack? Pensou.
- Se tiver ido, problema dela, não sabe o que está perdendo.- resmungou consigo mesmo.
Tirou os óculos fundo de garrafa do rosto, apagou a lanterna que estava usando para ler e jogou o manuscrito em um canto da barraca, fechando os olhos, forçando-se a dormir quando inesperadamente algumas imagens começaram a surgir em sua cabeça.
- Não! Por que isso agora?- se indagou. – One Mississipi...two Mississipi, three Mississipi, four Mississipi...five Mississipi...Ana-Lucia!
Por que ainda pensava nela? A mulher lhe havia aplicado um golpe sujo, roubando sua arma, fazendo-o de idiota. Mas também o havia feito muito feliz durante quase vinte minutos. Sorriu a esse pensamento e deixou-se viajar nas próprias lembranças. Quase podia sentir os beijos agressivos dela outra vez, e o movimento de seus quadris sobre o corpo dele.
Ficou ligado, o coração acelerou. Levantou-se abruptamente, bebeu um pouco de água no gargalo da garrafa. Desistiu de dormir.
- Ora, pro diabo! Essa vaca vai me devolver a minha arma, de qualquer jeito. Ninguém fica com o que é meu!
Saiu de sua barraca sem saber exatamente o que pretendia dizer ou fazer. A praia estava mesmo silenciosa, nenhuma alma à vista. Parou diante da barraca de Ana-Lucia, encheu-se de coragem e entrou. Ela dormia a sono solto, completamente relaxada. Os cabelos negros espalhados pela almofada, sem nenhum cobertor. Usava uma camiseta branca de alças e a calcinha da mesma cor. A barraca estava escura, mas Sawyer podia vislumbrar os contornos do corpo dela devido à luz da lua que escapava por algumas frestas na lona. Pensou consigo:
- E a desgraçada ainda por cima é linda!
Olhou ao seu redor, não tinha como procurar por sua arma no escuro sem acordá-la, por isso, com muito cuidado agachou-se ao lado dela e chamou-a num sussurro ao pé do ouvido:
- Ana-Lucia...
Ela acordou de imediato, se assustando com a presença dele. Sawyer abafou seu grito com a mão esquerda e com a direita segurou seu pulso enquanto ela se debatia espantada. Ana-Lucia empurrou a mão dele de sua boca e indagou, sentando-se na cama improvisada:
- Mas o que raios você está fazendo aqui?
Sua voz rouca soou baixa, mas firme. Sawyer foi direto ao ponto.
- Eu quero a minha arma, chiquita. Pensou que eu tivesse esquecido?
Ana-Lucia balançou a cabeça:
- Em primeiro lugar, pare de me chamar por esses apelidos idiotas. Eu não sou chiquita, nem muchacha, nem Rambina e muito menos cucaracha.
Sawyer a interrompeu:
- Eu nunca te chamei de barata!
- Em segundo lugar.- ela continuou, ignorando o comentário dele. – Não vou te devolver arma nenhuma.
Ele irritou-se:
- Mas você é mesmo muito cínica, hein Rambina! Quer dizer que não vai devolver a minha arma?
- Que parte do NÃO você não entendeu, caipira?
Sawyer aproximou seus lábios dos dela, querendo beijá-la. Ela percebeu a intenção dele e disse:
- Não!
Ele jogou seu peso sobre ela, prendendo-a na cama.
- Sai de cima de mim!- ela reclamou, empurrando-o.
- Só se você me devolver a arma, Lucy.- ele disse, sussurrando em seu ouvido enquanto roçava seu corpo no dela.
Ana-Lucia sentiu um arrepio pelo corpo todo com o gesto dele.
- Não!
Sawyer se moveu mais um pouco em cima dela, separando suas pernas, acomodando-se entre elas. Ana-Lucia gemeu ao senti-lo tão perto de si. Sawyer mexia com ela, provocando-lhe uma onde de calor em seu corpo inteiro, desde o dedão do pé até o último fio de cabelo. Ela tentou se soltar novamente, sem sucesso fazendo com que a posição deles ficasse ainda mais comprometedora.
- Não adianta Lucy, só saio de cima de você se me disser que vai devolver a minha arma.
- Não devolvo coisa nenhuma.- ela sussurrou no ouvido dele, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha.
Ele mergulhou nos lábios dela, sugando-os devagar. Ana-Lucia o mordeu, fazendo-o gemer de dor.
- Ora, sua...- ele não completou a frase porque ela o empurrou de cima dele invertendo as posições.
- Doeu, cowboy?- perguntou com a cara mais cínica. – Quer beijinho pra passar?- voltou a beijá-lo só que dessa vez delicadamente, Sawyer estava adorando aquele joguinho.
- Você é inacreditável!- ele disse deslizando as mãos pelo corpo dela, subindo a camiseta branca.
Ela o parou.
- Está bem, eu devolvo a sua arma.
- Como?- Sawyer espantou-se com a mudança repentina de idéia dela.
Ana-Lucia saiu de cima dele.
- Você não disse que queria a sua arma? Que veio aqui pra isso? Pois então, ela está ali embaixo daquelas tábuas. Pegue-a e pode ir.
- Mas eu pensei que...- ele começou a dizer passando as mãos pelos cabelos loiros, nervoso. Não estava mais dando a mínima para aquela arma, queria mesmo era possuir a latina o mais rápido possível. – Baby, por que nós não...
Ela riu.
- Me quieres?
Sawyer estava em brasa, não tinha condição de sair da barraca dela daquele jeito. Estava duro como pedra.
- Ô se quero, você é um furacão, muchacha.
- Então esqueça a arma. Não pode ter as duas coisas, a arma é minha agora. Se desistir dela e não me perturbar mais com isso, vai ter o que quer.
Ele começou a refletir rapidamente, odiava que ela estivesse com sua arma até porque Jack não lhe daria outra se pedisse. Mas perder aquela oportunidade de ficar com ela outra vez? O que faria?
- Dane-se a arma, vem cá!- ele disse agarrando-a com tudo, apertando seu bumbum, suas coxas.
Ana-Lucia desabotoou a camisa dele tão rápido que quase a rasgou, soltou o cinto e o botão da calça jeans libertando-o. Sawyer tirou a camiseta regata dela e sugou seus seios. Ela mesma despiu a calcinha e enroscou seu corpo no dele, com muita pressa de ser possuída.
- Vamos, cowboy!- murmurou.
Ele a tomou com vontade, sentindo-se no céu. Ana-Lucia o beijava de muitas maneiras, deixando-o sem fôlego. Rolavam na cama de almofadas, muito afoitos.
- Sawyer...- ela gemia o nome dele.
- Diz mais uma vez, chiquita.
- Oh Sawyer!- ela gemeu ainda mais alto.
Sawyer não estava acreditando que mais uma vez fazia amor com a "Rambina". Sentiu-se viril e poderoso, se ela estava se entregando outra vez para ele, e dessa vez sem nenhuma razão por trás, era porque ele ainda não tinha perdido o seu charme irresistível, sabia como satisfazer uma mulher.
Chegaram ao ápice praticamente juntos. Separaram-se na cama, respirando entrecortadamente. Ficaram em silêncio, sem se encarar e sem dizer uma palavra, até que Sawyer se levantou e procurou por suas roupas, vestindo a cueca boxer branca. Ana-Lucia se cobriu com o lençol. Ficou olhando pra ele.
- O que foi?- ele perguntou começando a vestir as calças.
- Fica!- ela disse, monossilábica.
- Como é?- ele franziu as sobrancelhas.
- Eu te disse pra ficar, não vá embora!
Diante do pedido dela, Sawyer desistiu de vestir as calças, jogando-as num canto. Voltou a deitar-se ao lado dela. Ana-Lucia abriu o lençol para que ele se aconchegasse. Deitou a cabeça no peito dele que puxou o rosto dela para si e beijou-a. Ela correspondeu e depois virou de costas para ele, envolvendo o braço dele em sua cintura. Sawyer deu mais uns beijos no pescoço dela e aquietou-se fechando os olhos.
- Só se lembre de sair antes do amanhecer, porque se alguém ver você saindo daqui...
- Já sei, você me mata.- ele resmungou, já estava quase adormecendo.
(Fim do Flashback)
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Meia-noite em ponto. Alex caminhava na ponta dos pés pelos corredores do imenso centro hospitalar, driblando as câmeras de segurança com maestria. Chegou sem dificuldade à ala X, já portando os cartões chave das portas da ala Y. Destrancou a porta da sala onde Nikki estava presa. Dessa vez não a encontrou dormindo, ela estava preparada segurando o velho relógio de pulso à prova d'água que inexplicavelmente ainda funcionava.
As duas se esgueiraram pelos corredores brancos de luzes apagadas até uma enorme porta dupla com vidros reforçados. Alex passou o cartão chave nela e abraçou Nikki, despedindo-se dela.
- Você segue sozinha daqui, não há guardas do lado de fora. Não se preocupe, passei meses planejando a sua fuga, vai dar tudo certo. Tome!- ela lhe entregou uma pequena mochila que trazia às costas contendo um cobertor, uma muda de roupa, uma garrafa de água e algo para comer. Nikki aceitou.
- Alex, por que não vem comigo?
- Eu não posso, não seria aceita no acampamento dos sobreviventes. Querendo ou não, sou uma deles, meu lugar é aqui.
Nikki a abraçou de novo.
- Nunca me esquecerei de você, nem do que fez por mim.
- Agora vá.- pediu Alex. – E não olhe para trás. Siga o corredor até uma portinha de metal, gire a tranca com força e terá sua liberdade.
Nikki obedeceu e saiu correndo, ainda pôde ouvir Alex dizer:
- Não se esqueça, vá para o norte.
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Kate despertou de seu sono profundo sentindo uma respiração quente em seu rosto que a estava incomodando. Abriu os olhos e se deparou com um par de olhos transparentes inumanos mirando diretamente os seus. Gritou desesperada em meio à escuridão. A fogueira estava apagada e ela podia ver nitidamente um vulto branco se mexer entre as árvores. Gritou outra vez quando sentiu uma mão em seu ombro.
- Acalme-se Kate, acalme-se, por favor.- dizia Jack apertando-a junto de si. Dormia ao seu lado e acordara com os gritos dela.
De repente, os dois ouviram tiros, seguidos de um grito masculino de dor.
- Mas o que está acontecendo?- indagou Jack. – Onde estão todos?
Mais tiros. O vulto branco se movia com rapidez entre as árvores. Jack o viu também.
- O que é isso?- indagou. – John, Sayid! Michael! Pedro!- gritou.
- Ana-Lucia! Rosseau!- gritou Kate.
- Aqui!- respondeu Ana-Lucia não muito distante. – Vocês ouviram isso?
Uma tocha foi acesa iluminando o ambiente.
- Vocês estão bem?- perguntou Sayid que havia acendido a tocha.
Jack e Kate assentiram. Ela, finalmente podendo enxergar Ana-Lucia, correu até ela.
- Você está bem Ana?
- Sim. –ela respondeu. – Mas o que foi aquilo?
- Jack! Jack!- gritou Locke um pouco mais adiante. – Sua camisa estava encharcada de sangue.
Jack correu até ele e viu Pedro caído no chão, amparado por Michael. Sangue jorrava de seu ombro, uma marca de presas visíveis nele. Rosseau estava em pé, apontando seu arco e flecha para o meio das árvores. Pedro gemia de dor.
- O que aconteceu? O que foi isso?- perguntou Jack pegando seus instrumentos de primeiros-socorros na mochila.
Ana-Lucia e Kate se aproximaram para ver o que era:
- Meus Deus!- exclamou Kate. – Um javali o atacou? Foi com isso que eu me assustei?
- Javalis não caminham sob os dois pés, Kate.- observou Ana-Lucia muito assustada.
- Eu atirei naquela coisa tosca duas vezes, mas não acertei.- disse Michael.
Jack abriu espaço e começou a lavar o enorme ferimento no ombro de Pedro com álcool.
- Eu não sei o que foi, mas isso quase arrancou um pedaço do seu ombro.- afirmou Jack.
- Precisamos sair daqui!- disse Rosseau. – Eles agora já sabem que estamos na pista deles.
Continua...
