Conhecendo George Wickham
O programa de estágio previa que Lizzy permanecesse todo o primeiro semestre em treinamento, o que podia representar dias bastante entediantes diante de sua grande ansiedade em envolver-se nos processos reais. Próximo à hora do almoço, Lizzy foi levada até o grande refeitório, localizado no piso térreo, escondido por trás de uma sofisticada porta de correr. Era lá onde todos almoçavam, numa grande sala muito bem iluminada, com paredes e chão brancos, além do mobiliário, o que proporcionava um ambiente límpido e claro. As janelas forneciam a visão aos fundos do imóvel, onde havia um lindo jardim ao redor de um chafariz, onde jorrava água diretamente da boca de um anjo. Todos os dias, pontualmente, eram entregues as quentinhas de todos os funcionários, as copeiras apenas preparavam o suco e o café. Mesmo não sentindo fome, Lizzy serviu-se de sua quentinha, colocando no prato um pouco de comida. Ao lado dela, estava Charlotte, que almoçava rapidamente para que pudesse dar conta das tarefas deixadas pelo Sr. Darcy.
- Você sempre almoça assim, correndo? – comentou Lizzy.
- Me desculpe, realmente estou com pressa. Preciso terminar algumas tarefas antes que o Sr. Darcy retorne. – explicou Charlotte.
- Parece que todos falam dele com muito receio.
- Bem, ele é nosso chefe. É muito exigente e rigoroso. Tem muitas responsabilidades também.
Lizzy preferiu não se prolongar no assunto e guardar a péssima impressão que teve do Sr. Darcy. De fato, esperava conhece-lo de uma forma mais amigável e ser mais bem recepcionada.
- Preciso voltar ao trabalho, mas podemos combinar de almoçarmos juntas outro dia. – disse Charlotte, se levantando da mesa.
- Com certeza, obrigada mesmo assim pela companhia. – agradeceu Lizzy.
Continuou sentada, comendo algumas garfadas de sua refeição, enquanto contemplava, pela janela, o florido jardim iluminado pelo sol. Todo aquele lugar parecia mágico aos seus olhos. Tanto luxo e beleza tornavam o ambiente acolhedor e aconchegante. Lizzy chegava a imaginar-se dentro daqueles contos infantis onde havia castelos e princesas. Respirou fundo e refletiu que tudo em sua vida só estava começando. Imaginava-se envolvida em grandes projetos e fazendo uma brilhante carreira como advogada. Satisfeita com o pouco que havia comido, Lizzy empurrou o prato e tomou um pouco do suco. Neste momento, entrou no refeitório um rapaz mulato, muito bonito, cheio de estilo e muito bem vestido. Lizzy lembrou-se que não havia sido apresentada a ele. Curiosa, acompanhou até que ele sentasse sozinho na mesa em frente a sua. Porém, antes mesmo que iniciasse seu almoço, o rapaz notou a presença de Lizzy, que também estava sozinha e decidiu se aproximar.
- Ora, ora! Vejo que também está sozinha, posso me sentar. – disse ele apontando para a cadeira vazia, ao lado de Lizzy.
- Claro. – respondeu ela, animada.
- Me desculpe, não tinha percebido que uma dama tão linda estava sentada em minha frente! – disse ele, esbanjando galantarias à Lizzy.
- Olá, meu nome é Lizzy, sou a estagiaria.
- Ah! Sim. Então você foi a escolhida?
- Sim.
- Meus parabéns! Meu nome é George Wickham. Qualquer coisa que precisar, pode contar comigo.
- Você é advogado?
- Não. Infelizmente, não sou. Mas, é meu maior sonho. Tornar-me um grande advogado, como o pai do Sr. Darcy era.
Surpreendida com que George havia dito, Lizzy logo perguntou: - Você o conheceu?
- Sim, claro. Eram bons tempos, mas isso é uma longa história. O fato é que eu trabalho onde sempre trabalhei, na área financeira deste escritório. Cuido de todo o dinheiro! – disse ele, se gabando.
- Me conte de você, o que está achando de tudo isso?
- Bem, é impressionante como tudo aqui é perfeito. Acho que todos meus amigos da faculdade queriam estar aqui no meu lugar.
- Mas aposto que não são trariam beleza como a sua para este lugar.
Ainda que tenha adorado ouvir o elogio, Lizzy ficou sem graça.
- Bem, eu já terminei. Acho que preciso voltar pra minha mesa, hoje começo com o treinamento.
- Mas, você nem comeu!
- Estou sem fome. Mas estava uma delicia o almoço.
- Espero almoçar com você, outras vezes.
- Claro! – respondeu ela, levantando-se da mesa e acenando a George.
Enquanto se dirigia a sua sala, Lizzy sentia-se feliz por ter conversado com George. Além de ser atraente, sabia ser gentil e educado. Sua impressão é que poderiam ser bons amigos e até mais um pouco do que isso. Já George, atraído pela beleza de Lizzy, sentia-se bastante interessado em se aproximar da jovem estagiária do Sr. Darcy, achando-a uma garota ingênua e de fácil manipulação. Somente o tempo seria capaz em demonstrar os erros de suas primeiras impressões.
A repercussão de que conquistara a vaga de estágio no escritório Darcy fazia com que Lizzy se tornasse mais popular e respeitada na faculdade. Todos seus colegas se interessavam em saber sobre seu trabalho, fazendo com que ela se sentisse importante e cheia de orgulho. Em casa, sua mãe transbordava de felicidade, não pelo trabalho de Lizzy, mas por estar estagiando num escritório tão renomado e cheio de prestígio, o que lhe permitia tirar vantagem em suas fofocas diárias junto às amigas. Já o Sr. Bennet adorava conversar com a filha sobre seu trabalho e orientá-la no que precisasse. Todas as noites, ele a esperava chegar da faculdade para saber novidades tanto de seu trabalho quanto de seus estudos. No escritório, sua rotina era ler o manuais e estagiar nas várias frentes: civil, tributária, penal, processual e trabalhista. Por mais que fosse maçante passar horas com a cara enfiada em livros, Lizzy estava cada vez mais fascinada e certa de que escolhera a profissão correta.
Via nos horários de almoço, o momento oportuno para se descontrair e relaxar com os galanteios e histórias divertidas narradas por George. Aproveitando a ausência do Sr. Darcy, que estava em viagem, Charlotte também participava dos almoços.
- Só mesmo a ausência do chefe nos faz desfrutar um maravilhoso almoço a três! – anunciava em voz baixa George, ao ver Charlotte sentando à mesa.
- Onde está o Sr. Darcy? – perguntou Lizzy.
- Foi a Europa, cuidar dos negócios da família. – respondeu Charlotte.
- Esse é o menor dos negócios da família Darcy. – completou George, se referindo ao escritório de advocacia.
- Você mora perto, Lizzy? – perguntou Charlotte, querendo mudar o rumo da conversa.
- Sim. Eu e minha família moramos em Pinheiros. Mas, pretendo, ainda este ano, morar sozinha. É um sonho!
- Puxa! Que coragem! – exclamou Charlotte. – Nunca imaginei morar sozinha. Moro com meus pais e mais três irmãos. Sou a única menina.
- Legal! Quando você se mudar, é só avisar, vamos dar uma tremenda festa por lá. – disse George.
- E vc, George, mora com seus pais? – perguntou Lizzy.
- Sim, quer dizer, com minha mãe.
Percebendo que causara certo incomodo a George com sua pergunta, Lizzy aceitou sua resposta, sem questioná-lo novamente. Ainda que, Charlotte tivesse conhecimento de parte de sua história, manteve-se calada. Sabia que George morava na mansão dos Darcy, onde sua mãe trabalhava como empregada doméstica. Desconfiou, entretanto, que ele preferia não revelar essa informação à Lizzy, talvez por estar interessado nela e sentir-se envergonhado com sua posição de filho da criada.
- Você ainda é jovem, Charlotte, já terminou o colegial?
- Sim. Gostaria muito em prosseguir com meus estudos, talvez uma faculdade. Mas, tudo é tão difícil. Acho que não tenho condições de entrar numa universidade pública, nunca fui uma boa aluna. Também não tenho condições de pagar qualquer curso particular. Ainda tem meu trabalho, saiu tarde todos os dias, principalmente, quando o Sr. Darcy está aqui. Ele solicita muito os meus serviços, não teria como continuar os estudos.
- Mas, isso não está certo! Você deveria sair no seu horário. Ter tempo para dedicar-se aos estudos ou qualquer outra atividade que goste. Ter tempo também para estar com sua família, amigos e ao lado do namorado. – disse Lizzy tão empolgada que tanto George como Charlotte ficou surpreso.
Muito tímida e com um olhar humilde, Charlotte então respondeu: - Eu não tenho namorado.
Foi quando Lizzy percebeu o quanto parecia ser sofrida a vida de Charlotte. Não buscava seus próprios sonhos por ter a certeza de que nunca se realizariam. Preferia, então, gastar seu tempo, sua juventude em atender os caprichos do Sr. Darcy. "Pobre Charlotte!", pensou ela. Sem uma beleza de chamar atenção, Charlotte mantinha os cabelos presos e um vistoso batom vermelho nos lábios. Usava um tailleur azul marinho, que era o uniforme da empresa, com um broche do lado esquerdo do peito, que mais parecia uma placa com seu nome em letra de forma. Parecia conformar-se com as coisas como elas estavam.
Assim que saíram do refeitório, George teve a ideia de convidar Lizzy e Charlotte para saírem no fim de semana.
- Que tal, podemos ir até o Aeroporto de Congonhas, ver a decolagem dos aviões? Posso dar um jeito de pegar as duas em casa. – insistia ele.
Charlotte e Lizzy se olharam imaginando que seria um passeio divertido. Apesar de tentador, Lizzy preferiu recusar ao convite de George, temendo que o envolvimento entre eles acontecesse rápido demais.
- Esse final de semana, não poderei ir, mas virão outros finais de semana. – disse ela, alimentando a esperança de se encontrarem fora do ambiente de trabalho.
Ainda que exausta, as primeiras semanas foram suficientes para que Lizzy se acostumasse a sua nova rotina de trabalho e faculdade. A ausência do Sr. Darcy no escritório parecia tranquilizar a todos, os almoços na companhia de George e Charlotte eram mais longos e divertidos. No entanto, contava os dias para que o longo feriado de carnaval chegasse para que pudesse finalmente descansar e passar mais tempo com sua família. Além disso, estava ansiosa para receber a visita de seu querido primo William Collins, que morava em Belo Horizonte e passaria os dias de carnaval hospedado em sua casa. William era mais velho do que Lizzy, formado em economia, tinha uma promissora carreira no tradicional Banco de Bourgh, onde trabalhava, mesmo antes de ingressar na faculdade. Não era um rapaz bonito, muito menos charmoso, o que dificultava bastante sua tarefa em conquistar mulheres. Ainda assim, era bastante convencido e orgulhoso por achar seu emprego muito importante.
Quando chegou a véspera do feriado de carnaval, todos pareciam se esforçar para concluir suas tarefas a tempo e deixar o escritório sem imprevistos, ao final do expediente. O assunto entre eles, durante as pausas para o café, era saber sobre os planos para o feriado. Os mais animados iriam se divertir nos tradicionais bailes de carnaval que aconteciam nos clubes da cidade. Os mais sossegados preferiam o descanso e acompanhar os desfiles pela TV.
Era quase meio-dia quando George, muito animado, aparecera na mesa de Lizzy.
- Vamos almoçar?
- Já estou indo, me espere um minuto. – pediu Lizzy, guardando o manual que acabara de ler.
Enquanto desciam a escada juntos, George tentava convencer Lizzy em acompanha-lo num baile de carnaval.
- Venha comigo amanhã, podemos pular o carnaval juntos no Clube da Portuguesa, conheço um camarada que coloca a gente no camarote com tudo de graça. – disse ele, muito empolgado.
- Seria ótimo! Mas, meu primo estará chegando de Belo Horizonte e vou ter que lhe fazer companhia durante o feriado.
Ao chegar à recepção, Lizzy aguardou até que Charlotte terminasse sua ligação.
- Vamos almoçar?
- Me desculpem, mas o Sr. Darcy estará chegando ao escritório daqui alguns minutos, quero deixar tudo em ordem.
- Poxa! O Darcy não nos deixa em paz nem em véspera de carnaval. – comentou maldosamente George.
- Bem, estamos indo almoçar, caso termine tudo a tempo, sua companhia será bem vinda. – disse Lizzy a Charlotte.
George e Lizzy sentaram-se numa mesa, isolados dos demais colegas que almoçavam, naquele momento, no refeitório. Embora estivesse faminto, George continuava com seu insistente discurso na tentativa de persuadir Lizzy a passar, ao menos, um dia de carnaval, em sua companhia. Ao mesmo tempo, disparava elogios e deixava nítido seu interesse por ela.
Ainda na mesa, eles viram quando Charlotte entrara no refeitório para chamar o chefe de George, que estava almoçando, naquele momento. Poucos segundos depois, ele se levantou, saindo do refeitório ao lado de Charlotte. George, notando a agitação na mesa em que seu chefe estava, pediu licença a Lizzy e foi até lá saber do que se tratava.
- O que Charlotte queria?
- Não sabemos George. Ela apenas disse que o SR. Darcy queria falar urgente com ele.
Por alguns segundos, um sentimento de medo dominou todo o corpo de George, porém soube disfarçar, não deixando que os outros pudesse perceber. Decidiu retornar à mesa em que estava com Lizzy.
- O que houve? Algum problema?
- Não, foi apenas Darcy que retornou.
Apesar do pouco tempo de convivência com George, Lizzy já havia percebido sua antipatia com o Sr. Darcy, porém evitava questioná-lo sobre o assunto. O mesmo fazia sobre a horrível impressão que tivera dele, preferindo guarda-la em segredo de seus colegas de trabalho.
Ao saírem do refeitório, Lizzy subia a escada sozinha, enquanto George procurava saber, através de Charlotte, o que Sr. Darcy queria com seu chefe.
- Charlotte, por acaso você sabe por que Darcy chamou meu chefe em sua sala?
- Não sei lhe informar. Quando chegou foi direto à sua sala. Depois ligou no meu ramal pedindo que chamasse urgente seu chefe, mesmo que ele estivesse no horário de almoço. Foi o que fiz.
- Esse cara nunca respeita ninguém.
- George, agora precisa me dar licença, pois preciso terminar essa carta antes de ir almoçar.
George olhou em direção ao 2º piso, a sala do Sr. Darcy estava fechada. Desconfiava de algo terrível e sabia que teria que ser forte para suportar a espera. Foi para sua mesa, e lá ficou até seu chefe retornar.
