O Fantoche da Riqueza

Dentro do carro se ouvia apenas o som do carnaval vindo das brincadeiras e batucadas da rua. O silêncio entre eles guardava a história que cada um levava dentro de si daquele baile de carnaval. Quando o carro parou no farol vermelho todos puderam ver um grupo de foliões sentado na esquina de um bar batucando um samba.

"Noel! Noel! Noel!

Esta linda noite é sua

O vai vai está em festa

Neste carnaval de rua"

Por um momento, todos permaneceram escutando aquele samba se libertando de pensamentos e de sofrimentos. Quando todos desceram do carro, caminhando em direção ao prédio, Lizzy e Jane foram surpreendidas por alguns garotos completamente molhados que corriam para fugirem de outros garotos que seguravam gordas bexigas d'água nas mãos.

Quando chegaram em casa, o Sr. Bennet e o Sr. Gardiner estavam na sala em companhia de Mary relembrando histórias da família nas praias de Santos e São Vicente. Apesar de divertidas, o sonho de Mary era conhecer o Rio de Janeiro, estava muito curiosa por conta das cenas da novela Água Viva. Ao saber, seu tio prometera que a levaria para o Rio, no próximo verão. Ao entrarem, Jane passou desapercebida e foi para seu quarto. Lydia e Kitty puxaram a mão de Mary e arrastaram-a pela sala, feito loucas:

- Venha! A gente precisa te contar tudo! – disse Lydia empolgada.

- A casa está voltando ao normal. – comentou o Sr. Bennet olhando para o irmão.

Em seguida, a Sra. Gardiner solicitou ao marido que fossem para casa, pois sentia-se exausta por conta de toda a agitação do baile. O Sr. Gardiner concordou e Lizzy e seus pais os acompanharam até o elevador.

- Aproveitaram o baile? – perguntou o Sr. Bennet a Lizzy fechando a porta de casa.

- Sim, papai. – respondeu Lizzy.

- Ah! Sua filha sempre modesta. – comentou a Sra. Bennet. – Pergunte ao William, onde fomos parar.

Sem que William tivesse tempo para contar, ela mesma começou a dizer:

- No melhor camarote do clube. Do milionário Sr. Darcy, o patrão de Lizzy. Bebemos e comemos do melhor. Parecia cenário de novela! Ele e sua noiva são um encanto e me deram toda a atenção! Trataram-me como rainha!

- Acho que essa história vai render! – disse o Sr. Bennet sorrindo para William.

- Veja o que trouxe para você. – disse ela, retirando da pequena bolsa, dezenas de salgadinhos e docinhos amassados.

William não pode deixar de rir da atitude de sua tia em entulhar a bolsa de comidinhas da festa.

- Bem, aconteceu uma coisa muito importante para sua filha Jane. – contou a Sra. Bennet, fazendo ar de suspense ao marido. – Ela se reencontrou com o Charles! Imagine que ele é o melhor amigo do Sr. Darcy. Que mundo pequeno! Mais do que nunca, nossa filha precisa reatar seu namoro com Charles.

- Charles? – perguntou o Sr. Bennet.

- Charles, o namoradinho de Jane. Oh! Meu marido, você é realmente muito avoado!

Lizzy acompanhou a interpretação de sua mãe aos fatos, porém não ousou dizer nada, permanecendo calada, com aquele olhar reprovando cada palavra de sua mãe. Isso foi o suficiente para que o Sr. Bennet pudesse compreender que o baile não havia sido tão bom assim para Jane e, talvez, para todos. Lizzy se retirou da sala indo até o quarto ver como estava sua irmã. Ao entrar, Jane estava deitada na cama, já sem a roupa que havia ido ao baile.

- Sempre quis entender o que acontecia com Charles. Só não desejaria que tivesse sido dessa forma. Na frente de todo mundo. Meu Deus! Que escândalo!

- Sinto muito, Jane.

Jane não disse mais nenhuma palavra. Permaneceu em silêncio, deitada, olhando para o teto. Sentia-se envergonhada por tanta humilhação. Charles havia escondido o relacionamento entre eles de sua família, como se ela nunca houvesse existido para eles. Ela sonhava em casar com Charles, não pela sua fortuna, mas porque amava seu jeito brincalhão, sempre de bom humor. Adorava seu ar inocente e, acima de tudo, seu jeito de amá-la. Apesar de nunca ter revelado a ninguém, nem mesmo a Lizzy, Jane havia decidido perder sua virgindade, há pouco tempo, com Charles. Ainda que levasse essa questão muito a sério, Jane tomou tal decisão por ter a certeza de que Charles seria o homem que gostaria de ter ao lado até o fim de sua vida. Esse íntimo detalhe, fazia com que sua dor fosse maior do que qualquer um pudesse imaginar.

Lizzy permaneceu ao seu lado, em silêncio, respeitando o momento de reflexão de Jane e aproveitando para repensar sobre os últimos acontecimentos. Sua dor, apesar de menos profunda, era de desilusão em relação a George. De fato, chegou a acreditar que pudesse existir algo entre eles. Mas, a partir daquela noite, seu sentimento por ele era outro, muito distante de paixão e admiração e muito próximo a pena e lamentação. Lembrou-se que havia saído do baile sem despedir-se dele, nem mesmo tendo se importou em ficar ao seu lado para apoiá-la, naquele momento tão difícil. Recordou-se, ainda, da atitude surpreendente e admirável do Sr. Darcy ao repreender Caroline, assemelhando-se ao homem que Georgiana havia descrito. Mas, Lizzy ainda não estava convencida disso. Achava tolice pensar que o Sr. Darcy podia ser um homem tão amável e justo, principalmente depois que soubera da história de George. Além disso, namorava Caroline, que passou a impressão de ser a criatura mais desprezível que conhecera. Preferia, portanto, acreditar que não passava de um riquinho arrogante, prepotente e esnobe.

Saindo do quarto, Lizzy pode ouvir suas irmãs conversando sobre as histórias do baile. Entre tantos comentários sobre rapazes, um chamou sua atenção. Era sobre um pedaço de papel que Lydia tinha em sua mão. Segundo ela, naquele papelzinho havia o número do telefone do rapaz mais interessante do baile. Mary, que admirava histórias românticas, ficou muito entusiasmada, pedindo à Lydia que contasse mais sobre este rapaz. Lizzy, apesar de achar Lydia um tanto afoita, havia gostado em saber que alguém havia fisgado o coração de sua irmã, porém, se dirigiu à sala, não dando importância ao assunto.

Antes de deitar-se, a Sra. Bennet havia preparado um lanche para William. Ele estava comendo e assistindo ao desfile de carnaval que passava na TV, quando Lizzy entrou na sala.

- Gosto de assistir os desfiles pela TV. – contou Lizzy, se ajeitando na poltrona de seu pai.

- Eu também gosto. Mas deve ser bacana assistir lá, na Av. Tiradentes. Assim da pra ver melhor as cores de cada escola de samba. – disse ele. - Acho que o desfile dessa escola já está acabando, é Acadêmicos do Ipiranga.

William manteve-se em silencio até criar coragem de fazer perguntas a Lizzy sobre coisas que ocorreram no camarote. Na verdade, não entendeu o que aconteceu, nem mesmo sabia da relação entre Charles e Jane. Porém, ao sentir-se mais à vontade em questionar sua prima, preferiu iniciar a conversa contando-lhe sobre o parentesco entre o Sr. Darcy e Catherine de Bourgh.

- Charlotte revelou-me que o Sr. Darcy é sobrinho de Catherine, dona do Banco de Bourgh.

- Cada vez mais me admiro como este mundo é pequeno. – disse Lizzy referindo-se a amizade entre o Sr. Darcy e Charles.

- Contei ao Sr. Darcy que trabalhava no Banco de Bourgh em Belo Horizonte, mas pareceu-me pouco interessado em minha história.

- Já era de se esperar.

A resposta de Lizzy fez aumentar os pontos de interrogação na cabeça de William, no entanto, ao observar sua prima percebeu em seu rosto um ar de cansaço e preferiu não provocar mais nenhum diálogo. Logo, Lizzy levantou-se da poltrona e despediu-se: - Boa noite, primo. Preciso me deitar.

Nada como um dia depois do outro para que tudo seguisse como sempre foi. A Sra. Bennet acordara animada e falante, aprontou uma farta mesa de café da manhã e, sentada ao lado do marido, na mesa, comentava sobre as últimas notícias do carnaval das celebridades às suas filhas caçulas. Interessado em notícias mais relevantes, Sr. Bennet esforçava-se para não ouvir aos comentários de sua mulher, concentrando-se em suas leituras. Mary, com um copo de Toddy nas mãos, sentara na poltrona de seu pai, observando, animada, seu primo tocando violão. Eram trechos das belíssimas músicas mineiras, Clube da Esquina nº2 e Um girassol da cor de seu cabelo.

"De tudo se faz canção

E o coração na curva de um rio rio rio rio..."

"Você vem ou será que é tarde demais?

O meu pensamento tem a cor de seu vestido

Como o girassol que tem a cor de seu cabelo"

Quando Jane levantou-se parecia menos abalada com toda a história de Charles. Tomou seu café em silêncio e retirou-se discretamente da mesa, em meio à euforia de suas irmãs, indo para o quarto dedicar-se as suas leituras habituais. Ao sentar-se próximo da janela, pensou em Charles. Não sentia raiva dele, mas apesar de magoada, sabia que perdoaria o que havia feito. Ficou ali, observando a formação das nuvens, no céu azul de verão, enquanto tentava imaginar como a noite acabara para Charles. Mal podia imaginar que, após a saída deles do camarote, Sr. Darcy ligou para seu motorista e pediu para vir buscar George, que havia excedido novamente na bebida. Em seguida, despediu-se friamente de Caroline e, abraçou o querido amigo Charles, dizendo-lhe que estava a sua disposição, caso precisasse. Saiu do camarote acompanhado pela irmã Georgiana e o amigo Fitzwilliam. Charles ficara completamente transtornado, sua pele e olhos claros tinham um tom rosado. Permaneceu em silêncio, sentado num dos sofás do camarote, com a cabeça baixa e as mãos no rosto, para desespero de sua irmã Caroline, que a essa altura, estava sinceramente arrependida do que havia feito. Como Charles não respondia a suas lamentações, decidiu pegar carona com o motorista do Sr. Darcy, quando este apareceu para buscar George. A noite de Caroline não terminara tão glamorosa, tendo que ir até sua casa, acompanhada pelo filho da criada, bêbado. Já Charles, antes de voltar para casa, decidiu passar pela rua onde Jane morava. Ficou parado em frente seu prédio, por algum tempo. Aquilo parecia acalmá-lo. Naquele momento, sem que soubessem, um pensava no outro. Lizzy terminou o banho e fez companhia a Jane, no quarto, libertando-a de seus pensamentos.

Próximo da hora do almoço, o Sr Bennet acompanhado de William foram até o supermercado comprar refrigerante, William carregava duas garrafas de vidro de Coca-Cola. Lydia e Kitty sentaram na portaria do prédio e aguardavam o retorno dos dois, enquanto dividiam o fone de ouvido do walkman para escutarem Hot Stuff, de Donna Summer.

O almoço de domingo de carnaval teve como prato principal o nhoque de batata preparado pela Sra. Bennet e selou a união da família para todo o feriado. Apesar das diferenças entre eles, os dias seguintes foram repletos de diversão e o bem-estar se instaurou na casa. Todos puderam tirar proveito das coisas simples da vida através do convívio familiar, sem compromissos, obrigações e horários a serem cumpridos, as irmãs se divertiam juntas ao lado de seu pai que era bastante ocupado e ausente no dia-a-dia. As cinco meninas invadiram a cozinha para fazer brigadeiro e devoraram a sobremesa, cada uma com sua colher, depois de alguns minutos de descanso no congelador. À noite, após a novela Água Viva, era o momento de assistir ao desfile das escolas de samba e todos se amontoavam nos sofás até pegarem no sono. Depois, durante a madrugada, cada um ia para sua cama. Numa tarde após o almoço, para desespero do Sr. Bennet, transformaram a sala, em questão de minutos, no palco do Programa do Chacrinha, "Terezinhaaaaaaaa! Uuuuuuuuhhh!" Lydia e Kitty eram as chacretes e dançavam coreografias em cima de banquinhos de plástico, Mary era a cantora, séria e compenetrada, Lizzy e Jane eram as juradas e William era o Chacrinha, fantasiado a caráter. Numa noite, escondidas dos pais, Lydia e Kitty passaram trote pelo telefone na pizzaria pedindo para entregar uma pizza de mozzarella nos vizinhos do prédio. Elas acompanhavam pela janela o entregador de pizza chegando e, logo em seguida, o escândalo do vizinho dizendo que não ia pagar pela pizza. Antes de William retornar para Belo Horizonte, a Sra. Bennet pegou uma enorme caixa e convidou a todos para se sentarem à mesa para ver os álbuns de fotografia. Todos se divertiam ao ver os penteados da Sra. Bennet quando jovem. Ela era uma jovem esbelta e sempre por dentro da moda. Ver as fotografias de seu casamento e dos bailes de debutantes de Jane e Lizzy também rendiam muitas gargalhadas. Quando chegou a quarta-feira de cinzas, o dia estava chuvoso e todos estavam bastante indispostos para recomeçar a rotina. Como o expediente iniciava apenas após o meio-dia, Jane não trabalharia, porém Lizzy já estava preparada para ir rumo ao escritório.

Sentada no banco do ônibus, Lizzy refletia sobre os acontecimentos do feriado. Não falara mais com George, desde o dia do baile de carnaval, lembrando que não o encontraria mais no escritório. Recordava-se da história que ele lhe contara sobre como o Sr. Darcy o tratava. Depois, batendo mais forte seu coração, lembrou-se da confissão dolorosa de Jane, dizendo que não era mais virgem. Como eu nunca pude imaginar?, pensou ela. Imaginava se algum dia iria encontrar alguém, como Jane, descrevera. "Alguém especial, que nos faz ter a certeza que podemos nos entregar."

Ao entrar no grande saguão do escritório, notou um silêncio que parecia não ter mais ninguém, além dela. Porém, logo viu Charlotte, sentada em sua mesa. Pensou que lhe devia uma explicação por ter que sair às pressas do camarote, naquele sábado de carnaval, assim como fizera com seu primo William.

- Bom dia, Charlotte.

- Oi, Lizzy, bom dia.

- Está tão silencioso aqui, que parece até que não tem ninguém. – disse Lizzy, olhando para os andares de cima.

- Engano seu. Até mesmo o Sr. Darcy já chegou. Está em sua sala com seus amigos, aqueles que estavam com ele, no carnaval.

Ao ouvir Charlotte dizendo isso, imediatamente lhe ocorreu que seria uma boa oportunidade de encontrar e conversar com Charles.

- Charlotte, podemos tomar um café mais tarde? Preciso te explicar algumas coisas que aconteceram no baile. Ah! Por falar nisso, não posso deixar de te entregar esse bilhete. É de meu primo William. – disse Lizzy, tirando da bolsa um papel pequeno, todo dobrado.

- Claro, Lizzy. – disse Charlotte, abrindo um sorriso ao pegar o papelzinho de sua mão.

Quando o Sr Darcy chegou ao escritório, pouco antes do meio-dia, estava acompanhado de seus amigos Charles e Fitzwilliam. Antes de subirem para sua sala, perguntou se Lizzy já estava no escritório, Charlotte respondeu que não, então ele solicitou que fosse avisado, assim que ela chegasse. Quando Lizzy subiu, Charlotte discou para o ramal do Sr. Darcy, avisando-o de que ela já estava no escritório. Ao chegar a sua mesa, antes mesmo que pudesse cumprimentar seus colegas de trabalho, seu ramal tocou. Quando atendeu a chamada, se surpreendeu ao ouvir a voz do Sr. Darcy, pedindo gentilmente, que ela fosse até a sala de reunião do 2º piso. Ainda que desconfiasse sobre o assunto que falariam, Lizzy estava muito curiosa, subindo a escada, assim que desligara o telefone.

A sala de reunião do 2º piso era ampla com muitos detalhes em mármore escuro, inclusive o chão. Havia três janelões ao fundo da sala, que davam vista para o lindo jardim frontal e a movimentada Av. Brasil. Ocupando todo o centro da sala, havia uma imensa mesa oval em madeira maciça escura, que mais parecia um espelho refletindo as imensas janelas. Em volta da mesa, havia cadeiras forradas em tecido de camurça vermelho, o que tornava o ambiente muito luxuoso. Quando Lizzy entrou, a sala estava vazia e ela caminhou em direção as janelas, examinado cada detalhe da sala. Permaneceu observando a avenida através de um dos vidros. Ainda chovia lá fora e havia pouco movimento por ser quarta-feira de cinzas. De repente, escutou a porta de abrindo. Era o Sr. Darcy. Muito elegante, usava um terno preto, que lhe caia muito bem. Caminhou até onde Lizzy estava, mantendo uma expressão séria em seu rosto.

- Bom dia, Lizzy.

- Bom dia, Sr. Darcy.

Ele se dirigiu até uma das janelas, ao lado de Lizzy e observou a avenida, assim como ela fizera há pouco.

- Precisa falar comigo, Sr. Darcy? – incitou Lizzy.

Antes de responder, ele surpreendeu-se com sua atitude, olhando Lizzy atentamente.

- Sim, quero lhe falar sobre o que ocorreu no carnaval.

- Quero dizer que sua atitude foi admirável. – disse Lizzy, surpreendendo-o mais uma vez.

- Sua irmã está bem?

- Acredito que sua dor esteja menor.

- Quero lhe dizer mais uma coisa.

Em silêncio, Lizzy observava-o com muita atenção.

- Percebi que você e George estavam se dando muito bem.

Antes que ele pudesse continuar sua fala, Lizzy o interrompeu:

- Sim, éramos bons colegas de trabalho. George contou-me que foi despedido antes do carnaval.

- Bem, então já está sabendo. Vou pedir que mantenha essa informação em sigilo, até que seja comunicada oficialmente a todos.

Lizzy apenas sinalizou positivamente com a cabeça, sem dizer mais nada.

- Quero te pedir que permaneça aqui na sala, pois o Charles deseja lhe falar.

Sr. Darcy começou a caminhar até a porta e antes que saísse, olhou novamente para Lizzy, que, de braços cruzados, observava novamente a avenida. Deixara a sala, intrigado com a postura de Lizzy. Não estava acostumado com atitudes como a dela. Em nenhum momento, ela se fez de vítima ou aceitou que ele lhe pedisse desculpas. Enquanto caminhava até sua sala, tentou imaginar o que George havia lhe contado sobre sua demissão. Certamente, não fora a verdade.

Quando a porta da sala de reunião se abriu novamente, Lizzy sabia que era Charles. Não perderia a oportunidade de lhe dizer tudo que queria.

- Oi, Lizzy!

- Olá, Charles!

- Sinto muito por tudo que aconteceu.

- Acredito em você, Charles, mas acho que deveria ter essa conversa com minha irmã.

- Sim, você tem toda razão. Mas, me sinto tão envergonhado.

- Acredito que ela também esteja se sentindo assim.

- Como ela está?

- Você a conhece tão bem como eu a conheço.

- Que idiota que sou! Eu amo a Jane e não posso ficar com ela por causa dos caprichos de minha família.

- É mais fácil colocar a culpa em outras pessoas, mas você, George, deveria tomar uma atitude. Saiba que minha irmã, jamais esteve ao seu lado por causa do seu dinheiro.

George recebeu as palavras de Lizzy como uma chicotada certeira em seu rosto. Permaneceu em silêncio e de cabeça baixa, por alguns instantes.

- Meus problemas com minha família se iniciaram, quando me recusei a estudar para assumir os negócios de meu pai. Ele estudou medicina, era sua paixão ser um grande médico, porém, meu avô exigiu que ele abandonasse os estudos para dedicar-se a empresa de mineração. Meus pais não aceitaram meus argumentos e decidiram me castigar. Continuo recebendo minha mesada, presentes e tudo mais se seguir algumas regras que eles inventaram. Uma delas é que eles me proíbem de ter uma namorada que não seja igual ou tão rica como nós. Sei que isso é ridículo, mas jamais poderia apresentar Jane a eles. Além de eu perder tudo, seria humilhante demais para ela.

- Imagino que seja difícil para você perder tudo. Mas, para mim, seria ainda pior viver como um fantoche. Com certeza, abriria mão de tudo para construir a minha vida.

- Sei que faria isso e te admiro demais por ser assim. Mas, já tentei e não consigo.

- Pense que teria Jane ao seu lado.

- Eu amo a Jane. Ela é linda e muito especial. Me cortava o coração toda vez que percebia ela insinuando que queria conhecer minha família.

- Essa decisão é somente sua.

Charles sabia disso, mas era fraco demais para abrir mão de todas as regalias que tinha direito. Morava numa mansão cinematográfica, frequentava lugares que somente a alta sociedade tinha acesso, fora as roupas, os carros, as viagens e todo o glamour que o cercava. Jane era um preço alto demais, por isso havia desistido em namorá-la. Além disso, os conselhos, que seu melhor amigo lhe dava, eram de ser homem e assumir, ao lado do pai, os negócios da família. Seja como um bom administrador ou advogado, para o Sr. Darcy, Charles deveria parar com sua vida de playboy e passar a assumir responsabilidades.

- Obrigado por me ouvir, Lizzy.

Charles permaneceu sozinho na sala, após Lizzy se retirar. Ela sentiu pena de Charles e mais ainda de Jane, por amar um homem tão fraco. Uma sensação de tristeza invadiu seu peito, causando-lhe um terrível mal estar. Era difícil acreditar que o Charles que frequentava sua casa, tão amável, cheio de vida e divertido pudesse ser essa pessoa sem vigor. Ocorreu-lhe, por um instante, que se talvez Jane, por mais predisposição a perdoar os erros de todo mundo, visse esse Charles, deixaria de amá-lo.