Os Primeiros Sinais
O período de treinamento e ambientação de Lizzy na empresa estava chegando ao fim. Ela se sentia preparada para iniciar trabalhos junto às equipes do escritório. Era admirada pelos colegas de trabalho por conta de seu interesse e dedicação ao trabalho, apesar de convicta sobre suas ideias e opiniões, Lizzy era divertida e sabia ser amiga e companheira. Mantendo certa distancia, Sr. Darcy acompanhava e observava o desenvolvimento de Lizzy e estava muito satisfeito com sua capacidade e inteligência, seu jeito alegre, também o encantava. Em casa, costumava contar à Georgiana sobre as avaliações da funcionária, sempre com muito orgulho, deixando-a animada e até um pouco desconfiada com todo o interesse e dedicação de seu irmão. Em princípio, sua atenção era voltada para o lado profissional, mas Lizzy lhe causava certo fascínio. Diferente da maioria das pessoas, ela não costumava bajula-lo, nem mesmo, concordar sempre com suas opiniões, o que tornava um desafio para ele, à tentativa de agradá-la ou persuadi-la. No entanto, a reputação do Sr. Darcy não havia mudado para Lizzy, que continuava achando-o prepotente e esnobe.
Num fim de tarde de céu escuro e chuva forte, Lizzy saiu do escritório. Abriu o guarda-chuva e caminhou rapidamente pela calçada até o ponto de ônibus. A chuva estava tão intensa que os pés de Lizzy estavam completamente molhados. Antes que pudesse atravessar a avenida para ir até o ponto de ônibus, um carro escuro parou em sua frente. Foi então que reconheceu o luxuoso carro do Sr. Darcy, um Landau preto. A porta se abriu e ela pode vê-lo, de dentro do carro, sinalizando para que entrasse. Ao entrar no carro, Sr. Darcy pode reparar o quanto estava molhada. Ainda com o carro parado, abriu o porta-luvas para encontrar uma toalha, enquanto ela tentava ajeitar o guarda-chuva ensopado de água ao lado de sua perna.
- Pegue! Use essa tolha para se enxugar, está muito molhada.
- Não precisa se incomodar.
- Desse jeito vai ficar doente. Vou te dar uma carona, você vai pra sua casa ou pra faculdade?
Lizzy pegou a toalha e enxugou rapidamente os braços e depois as pernas, percebendo que havia molhado todo o chão do carro.
- É muita gentileza, mas não precisa se preocupar.
- Não faça cerimônia. Só me diga o caminho.
- Pode me deixar em casa. Moro em Pinheiros.
Lizzy não se sentia à vontade, era estranho pensar que o Sr. Darcy estava agindo gentilmente, preocupado com seu bem-estar. Além do mais, o carro era tão luxuoso que estava um tanto incomodada em estar ali, com seus sapatos molhados e o guarda-chuva escorrendo água no chão do carro. Para Lizzy, era constrangedor estar ao lado de alguém, o qual não fazia questão alguma em esconder o seu desgosto.
- Não vai à faculdade?
- Vou deixar para ir mais tarde, está chovendo muito agora.
- Se quiser, posso leva-la até lá, conheço muito bem o caminho.
Em silêncio, Lizzy permaneceu pensativa por alguns instantes, enquanto ele aguardava ansioso por sua decisão. A expressão séria, habitual em seu rosto, parecia ter perdido a vez. Havia um ar de preocupação e cuidado e, talvez, um discreto sentimento de carinho em seus olhos e atitudes.
Quando o Sr. Darcy ligou o ar quente, Lizzy pode se sentir melhor. Aos poucos a sensação de frio foi desaparecendo. Ainda em silêncio, ela permaneceu notando o quanto aquele carro era grande, aconchegante e glamoroso. O banco onde estava sentada parecia mais um sofá de uma sala de estar. Era tudo perfeito!
- Então, já decidiu? Ali na frente vou pegar o retorno. Se quiser ir pra faculdade, subiremos pela Brigadeiro Luiz Antônio, senão voltaremos pela Av. Brasil.
- Preciso ir para a faculdade, mas não quero tomar seu tempo.
- Ofereci uma carona para você, portanto estou a sua disposição.
Surpresa com suas palavras, Lizzy olhou para o Sr. Darcy, quase não o reconhecendo.
- Está bem, podemos ir para a faculdade. – decidiu ela, dizendo num tom de voz muito agradável.
Novamente em silêncio, Lizzy se esforçava em disfarçar o quanto estava fascinada em estar andando no carro dos sonhos de qualquer mortal, mas preferia manter a discrição a ver Sr Darcy sentindo-se mais vaidoso e esnobe do que já era. Ele, por sua vez, preocupado em quebrar o silêncio, decidiu ligar o rádio, tocava Do That to Me One More Time, uma das músicas prediletas de Lizzy.
- Gosto dessa música. – comentou ela, muito espontânea.
- Acho que todas as mulheres gostam dessa música. Digo isso, porque minha irmã também gosta. – disse ele, tentando justificar seu comentário.
Parecia que finalmente Lizzy conseguira relaxar e sentir-se à vontade ao lado do Sr. Darcy. O mesmo acontecia com ele, ainda que, preferissem ficar em silêncio. Ele queria evitar assuntos relacionados ao escritório, porém não havia intimidade entre eles para que pudesse falar sobre outros assuntos. A verdade é que Sr. Darcy era um homem muito reservado e com certa dificuldade em se aproximar e se relacionar com as pessoas. Lizzy, apesar de ser mais extrovertida e bastante comunicativa, não queria lhe causar nenhum incomodo, por achar, simplesmente, que ele não gostava de conversar.
Ao aproximar-se do prédio da faculdade, Lizzy pediu que a deixasse na calçada, em frente à escadaria principal. A chuva já não caia tão forte e ela poderia descer do carro sem dificuldade.
- Obrigada, Sr Darcy. Foi muita gentileza.
- Não foi nada. – respondeu ele. – É bom rever este prédio, gostava muito do tempo em que estudava aqui.
- Acho que vou ter essa sensação, quando tudo terminar.
Lizzy olhou para o Sr. Darcy, pela primeira vez, lhe dando um belo sorriso.
- Tchau, até amanhã.
Do carro, Sr. Darcy esperou até que Lizzy entrasse no prédio. Sem que pudesse controlar, seu semblante pronunciava uma simpatia incomum, sentia-se feliz como há muito não sentia. Apesar de toda sua riqueza e poder, Sr. Darcy era um solitário. Namorava Caroline por conveniência, mas não tinham afinidades e muito menos era uma relação estimulante. Tinha poucos amigos em quem podia realmente confiar. Sua mãe era muito ausente em sua vida, após a morte de seu pai, viajava fazendo tratamentos contra a depressão e suas doenças respiratórias. Georgiana era a pessoa mais próxima a ele e, apesar de sua pouca idade, era ela quem lhe dava conselhos e lhe confortava nas horas mais difíceis.
Na sala de aula, a concentração de Lizzy estava bastante prejudicada. Constantemente, sua atenção se voltava para o Sr. Darcy. Pensava em sua atitude gentil e todo o cuidado que havia tido com ela. Era difícil imaginá-lo agindo dessa forma. Recordou-se de Georgiana, que descrevera o irmão, como sendo um verdadeiro gentleman. De fato, a impressão que ele causara em Lizzy, não foi das melhores, além disso, muitas outras coisas, como namorar Caroline e arruinar a vida de George contribuíam para que ela, ainda mantivesse sua opinião.
Quando estava retornando para casa, Lizzy notou um mulato, passando pela roleta, que muito se parecia com George. Ocorreu-lhe que desde o carnaval não conversara mais com ele. Decidiu que entraria em contato com o amigo para que pudesse ter notícias, afinal independente de como aquele baile de carnaval havia terminado, Lizzy prometeu que iria ajuda-lo.
Já em casa, apesar do horário, Lizzy ficou papeando com Jane, mesmo após ter se deitado. Contou-lhe sobre a carona do Sr. Darcy e também falaram sobre George. Lizzy ainda não havia tido oportunidade de lhe contar sobre o quanto Sr. Darcy havia sido injusto e cruel com ele. Ainda que as irmãs fossem boas amigas, compartilhando muitos dos acontecimentos de suas vidas, Lizzy preferiu não comentar sobre sua conversa com Charles no escritório. Jane, por sua vez, também evitava falar sobre este assunto, dando a entender que Charles não a procurou mais. A conclusão de Lizzy era de que ele preferiu não abrir mão de suas coisas materiais.
Após dar boa-noite a irmã, ainda permaneceu acordada. Pensava, agora, no sonho de morar sozinha. Precisava ver se o apartamento que havia visitado há tempos atrás, ainda estava para alugar. Seus salários de todos os meses trabalhados estavam sendo economizados para que fosse possível realizar seu sonho.
Sem que Lizzy pudesse imaginar, Sr. Darcy também estava tendo dificuldades para dormir. Porém, ao contrário de Lizzy, que tinha sua cabeça invadida por assuntos diversos, ele se concentrava em apenas um. Em sua estagiária. Dificilmente, perdia sua noite de sono, pensando em alguém, a não ser nos negócios. Georgiana estava certa ao dizer que aquela noite, ele estava diferente. Também tinha essa sensação, apesar de não ter admitido a sua irmã. De qualquer maneira, era um sentimento novo para o Sr. Darcy, que lhe causava um bem estar extraordinário nunca antes sentido.
