O Chá de Cozinha

Na manhã seguinte, Lizzy acordara bastante decidida a retomar a questão de ir morar sozinha. Conversou rapidamente com seu pai, durante o café da manhã, ficando-lhe a tarefa de verificar com a imobiliária sobre a disponibilidade daquele apartamento térreo que havia visitado tempos atrás. Sr. Bennet acreditava que sua filha era suficientemente madura para ter e manter sua própria casa, apesar de sua preocupação natural de pai.

Antes de sair, Lizzy lhe deu um forte abraço, agradecendo seu apoio e o favor que faria. O Sr. Bennet apenas consentiu, balançando a cabeça.

Próximo da hora do almoço, Lizzy recebeu uma ligação de seu pai, dizendo que o apartamento ainda estava disponível. Havia agendado uma visita e gostaria da presença da filha, para que fosse iniciada a negociação com a imobiliária. Lizzy estava radiante, tentando conter ao máximo sua emoção. A caminho do refeitório, passou na mesa de Charlotte, convidando-a para almoçar. Estava tão centrada em sua felicidade, que não notara a presença do Sr. Darcy, observando-a do 2º piso.

Assim que sentaram a mesa, Lizzy contou a Charlotte:

- Você não vai acreditar! Lembra sobre a minha ideia de morar sozinha?

- Sim. Você vai mesmo se mudar?

- Acho que agora vai dar tudo certo! O apartamento que havia visitado ainda está disponível e meu pai já marcou com a imobiliária uma visita, para começar a negociação. Nem posso acreditar!

- Que bom, Lizzy! Mas, como você vai montar sua casa? Você já tem fogão, geladeira, os móveis?

- Sei que é loucura, mas ainda não tenho nada! A minha madrinha, que você conheceu no carnaval, prometeu dar de presente o fogão ou a geladeira. – respondeu. – Têm algumas coisas que vou levar de casa, a minha cama, uma mesa com cadeira e uma cômoda. Tem também, uma pequena estante, onde guardo meus livros. A miudeza, terei que comprar aos poucos.

- Montar uma casa não é fácil, Lizzy. – advertiu Charlotte.

Charlotte estava certa. A empolgação de Lizzy em tornar seu sonho realidade não permitia enxergar o quanto sua ideia a privaria de viver num lar confortável como era o seu. Além disso, a família ainda contava com o trabalho doméstico de Maria. O cenário econômico não era nada favorável, o país vivia alta dos juros internacionais, desde o ano anterior, 79, e os problemas ligados a dívida externa marcavam um crescimento nunca visto das taxas de inflação. Lizzy era apenas uma estagiária, apesar do salário ser bom para uma jovem mulher que estava se formando, o mesmo se tornava um risco para alguém que queria bancar sua própria independência.

Foi naquela tarde que Charlotte teve uma grande ideia para ajudar Lizzy. Em segredo, telefonou para todos os ramais do escritório contando sobre a novidade da amiga e convidando os colegas de trabalho a participarem de um chá de cozinha para Lizzy. Todos adoraram a ideia e Charlotte ficou encarregada de elaborar a lista dos presentes. A notícia chegara ao ouvido do Sr. Darcy, que num primeiro momento, havia se assustado com a notícia, achando que Lizzy pudesse estar casando ou se juntando com alguém, porém ao falar com Charlotte, pode entender melhor a história, sentindo-se mais aliviado. Lizzy deixou o escritório, no final da tarde, como de costume, sem ao menos imaginar o que estava acontecendo.

Na visita ao imóvel, Sr. Bennet havia constatado que o imóvel estava para alugar há meses, por este motivo, conseguiu negociar o aluguel por um bom valor. Além disso, por conta dos ajustes necessários que deveriam ser feitos no imóvel, foram concedidos três meses de isenção do aluguel. Ele e Lizzy saíram satisfeitos. Naquela mesma tarde, a imobiliária iria providenciar o contrato de locação do imóvel.

A Sra. Bennet era contra a ideia de Lizzy ir morar sozinha, achava que as filhas só deveriam sair de casa, ao se casarem. Como há muito tempo, não ouvia a filha discursar sobre o assunto, imaginou que tivesse desistido da maluquice, no entanto, quando chegaram a casa, o Sr. Bennet e Lizzy foram direto ao assunto, contando a novidade para toda a família. As irmãs comemoravam diante das lamentações da sua mãe. Ainda que soubesse que nada adiantaria fazer, visto que seu marido apoiava a decisão de Lizzy. Diferente da esposa, o Sr. Bennet estimulava as filhas a terem iniciativas que buscassem a realização pessoal e profissional e não simplesmente se apoiassem em um casamento para conquistar a felicidade.

Em poucos dias, tudo estava caminhando para que a mudança de Lizzy acontecesse em breve. O Sr. Bennet contratou o zelador, que já havia trabalhado como pedreiro, para fazer os ajustes no apartamento em suas horas de folga. Num sábado, após o almoço, Lizzy e a Sra. Gardiner foram até a Casas Bahia para comprar a geladeira. Lizzy levou algum dinheiro e aproveitou para negociar um desconto na compra de um fogão.

Enquanto isso, Charlotte já havia preparado a lista de presentes e as compras poderiam ser feitas diretamente no Mappin, na região central, pelos colegas de trabalho. A família Bennet e os Gardiner haviam sido convidados para festa, que aconteceria na última sexta-feira do mês. Sr. Darcy pediu que Charlotte providenciasse um espaço para a comemoração na tradicional pizzaria Micheluccio, na Consolação. Lizzy nem desconfiava da surpresa, muito menos, do presente especial que o Sr. Darcy havia encomendado.

Antes que chegasse a sexta-feira, Charlotte tinha a dura missão em convencer Lizzy a não ir à faculdade. Era preciso arrastá-la de alguma forma até a pizzaria, como se fossem jantar. Porém, não sabia como fazer, achava que Lizzy não aceitaria o convite. Passara a tarde pensando em como poderia persuadi-la, até que teve uma grande ideia, envolver George na história. Achava que se o convite partisse dele, Lizzy certamente não recusaria.

Num momento mais calmo, telefonou para a casa de George, que, ao falar com sua mãe, soube que ele não morava mais com ela há tempos, desde o carnaval. Charlotte anotou seu novo número e ligou imediatamente após ter falado com a Sra. Wickham. Na primeira tentativa, ninguém atendeu. Charlotte decidiu tentar mais uma vez, até que uma senhora atendeu. O número era de uma pensão para rapazes, onde George estava morando. Deixou recado com a dona do local, para que ele retornasse a sua ligação. Ao desligar, repensou sobre convidá-lo para a festa de Lizzy, achando que poderia não ser uma boa hora para George.

Somente no dia seguinte, George retornou a ligação de Charlotte. Estava num orelhão de uma avenida muito movimentada, onde o barulho dificultava a conversa entre os dois. George parecia bem humorado e achou muito bacana Charlotte ter se lembrado em convidá-lo. Estava morando no centro, bem próximo a pizzaria, onde se encontraria com Lizzy.

Quando a sexta-feira chegou, finalmente todos os preparativos para o Chá de Cozinha estavam concluídos. Restava Charlotte ter certeza de que George havia conseguido convencer Lizzy a encontra-lo na pizzaria. Assim que Lizzy entrou no escritório, Charlotte puxou assunto:

- Bom dia! Está linda, o que temos pra hoje?

- Bom dia, amiga e obrigada pelo elogio. Marquei de ver George hoje. Achei ele, um pouco triste, então marcamos um jantar, numa pizzaria. Fazia tempo que queria falar com ele, mas o meu dia-a-dia é tão corrido.

- Que bom! É sempre bom termos um amigo por perto. – disse ela, disfarçando não saber nada sobre o encontro. – George vai ficar feliz em revê-la! – brincou Charlotte, maliciosamente.

- Eu e o George somos apenas amigos.

Antes do meio dia, Sr. Darcy saiu às pressas do escritório, havia marcado um almoço com Charles.

- O senhor ainda volta para o escritório?

- Sim, mais tarde.

- Não se esqueça de que temos aquela comemoração depois do trabalho!

- Ah! Claro. Eu não me esqueci.

O almoço entre os amigos foi num restaurante calmo e aconchegante no bairro dos Jardins, próximo ao escritório. Charles estava animado para contar-lhe sobre alguns projetos de trabalho, da mesma maneira que o Sr. Darcy também estava muito interessado em ouvi-lo, já que seria seu investidor, porém mantinha sua seriedade habitual. No entanto, antes mesmo que pudessem adentrar nestes assuntos, Sr. Darcy comentou com Charles sobre a comemoração que fariam, mais tarde, a Lizzy.

- Você poderia me acompanhar, o que acha?

- Fico feliz pela Lizzy. Lembro-me dela comentando sobre o sonho de morar sozinha. Parecia uma coisa idiota, distante, mas veja, ela conseguiu. É uma grande mulher!

- Eu sei disso.

- É mesmo? O que você sabe? Deixe só Caroline saber disso! – brincou Charles, desconfiando que o amigo pudesse estar interessado em Lizzy.

- Apenas sei o quanto ela é dedicada ao trabalho. É também muito inteligente e esforçada. Tem suas próprias opiniões e as defende sabiamente. O trabalho se torna empolgante ao lado dela.

- Poucas vezes, pude vê-lo falar assim de alguém. Talvez de seu pai e de sua irmã. De fato, tenho que concordar com você, Lizzy é muito especial. Sabe, devo te confessar que a beleza de Lizzy deixa a desejar. Nunca me chamou atenção, afinal tendo uma irmã como Jane por perto, não deve ser fácil. Jane é linda! Uma deusa! Mas, Lizzy é vivaz! Isso a torna bela. Muitas vezes, desejei que Jane fosse assim, como Lizzy.

- Não falou mais com Jane?

- Não. Eu não a procurei e ela também não. Conversei apenas com Lizzy, aquele dia, no escritório. Ela se posicionou de uma maneira comigo. Encorajou-me a fazer algo por mim. Acho que nunca tinha conseguido me expor para alguém daquela maneira, a não ser com você. Nem mesmo com a Jane.

Sr. Darcy permaneceu em silencio, observando o amigo. Cada vez que Charles revelava algum detalhe sobre Lizzy, seu coração disparava, guardando consigo a valiosa informação de quem a conhecia melhor do que ele. Mesmo sendo que, a descrição de Lizzy feita por Charles era tão coerente à opinião do Sr. Darcy, parecendo que o amigo tinha o poder de ler seus pensamentos.

- Mas, não acho que Jane seja uma tola. Eu a amo do jeitinho que é.

- O que você está esperando para procura-la?

- Preciso desse tempo. Quero acertar minha vida. Não quero me arriscar, você me ajudou convencendo Caroline a não comentar esse assunto com meus pais. Também, não gostaria de voltar a frequentar a casa de Jane, depois de toda aquela confusão no carnaval, sua mãe deve estar mais insuportável ainda. Ela só pensa em casamento e, principalmente, no dinheiro da minha família.

- Deu pra perceber.

Os amigos continuaram sentados, saboreando seus drinks e a deliciosa massa da casa. Sr. Darcy ouvia atentamente as propostas de Charles e parecia satisfeito e disposto a se tornar seu sócio. Já era final da tarde, quando deixaram, empolgados, o restaurante. Sr. Darcy se despediu do amigo, retornando ao escritório. Ao parar num sinal vermelho da Av. Brasil, Sr. Darcy olhou para o relógio, constatando que pelo horário, o expediente de Lizzy já havia terminado.

Chegando ao escritório, muito mais relaxado, Sr. Darcy despretensiosamente, questionou Charlotte:

- Como estão as coisas? Lizzy já foi?

- Sim, acabou de sair. Ela foi se encontrar com George na pizzaria.

- Como assim, com George?

- George ligou para Lizzy e a convidou para sair. Ela pensa que é um encontro entre eles. Não desconfiou de nada.

A decepção estampou o rosto do Sr. Darcy e seu corpo sentia uma dolorosa angustia. Apesar de Charlotte continuar contando-lhe entusiasmada sobre os preparativos do Chá de Cozinha, seu sofrimento o impedia de ouvir suas palavras. Decidiu, então, subir as escadas rapidamente, sem manifestar-se à sua funcionária. Acostumada ao jeito do Sr. Darcy, Charlotte não se importou com sua atitude aparentemente estupida, não se dando conta de sua aflição. Em sua sala, sentou-se na poltrona, levando suas mãos em seu rosto. Era deplorável pensar que Lizzy havia aceitado um encontro com George. Não compreendia sua atração por ele. Logo, por ele. Um rapaz de má índole, disposto a qualquer coisa para se dar bem. Nunca soube honrar o sacrifício de sua mãe para cria-lo, nem mesmo toda a generosidade de seu pai. Assim como, também não soube dignificar-se com todas as oportunidades que lhe foram oferecidas. Parecia que só Lizzy não conseguia enxergar o que tinha por trás daquele sorriso maroto e de seu linguajar repleto de gírias.

O ramal da sala do Sr. Darcy tocou, despertando-o de seus pensamentos. Era Charlotte avisando-lhe que estava saindo. Antes de lhe dizer algo, pensou em desistir, seria o mais apropriado, evitaria um reencontro com George e preservaria seus sentimentos, que não passavam de uma tolice insensata, ao vê-los juntos. Mas, foi por um triz, que sua voz saiu, rouca e angustiada, dizendo à Charlotte pra esperar. Em seguida, deixou sua sala e desceu a escada calmamente, chegando ao lobby de entrada.

Charlotte o aguardava em pé, em frente a sua mesa, com a bolsa pendurada no ombro. Notara seu rosto alterado por uma expressão de frieza e indiferença, porém preferiu não dizer nada. Saíram do escritório juntos e, em silêncio, aguardando o manobrista entregar a chave do carro.

Todos os funcionários já haviam saído do escritório e estavam a caminho da pizzaria, assim como a família Bennet. Enquanto isso, Lizzy se encontrara pontualmente com George na pizzaria. Estava feliz por rever o amigo. Ele a esperava sentado à mesa segurando uma linda rosa vermelha. Estava muito bem vestido, parecendo mais com aqueles executivos bem sucedidos.

- Quanto tempo, amigo! Você está com uma aparência incrível!

- Gostou? Esse é o George 1980!

Lizzy achou engraçada a colocação do amigo.

- Mas você também está linda! Pegue, trouxe para você. – elogiou George, entregando-lhe a rosa vermelha.

Lizzy agradeceu o amigo com um abraço demorado e sentou-se a mesa.

- Me conte as novidades, quero saber tudo. Está trabalhando?

- Calma! Vamos pedir um bom vinho pra começar. Precisamos celebrar este encontro, afinal não é todo dia que posso ter o prazer de sua companhia.

- Sempre galanteador!

George chamou o garçom e escolheu o vinho mais caro da casa, o qual certamente seria pago pelo Sr. Darcy. Sem saber sobre a comemoração, a atitude de George lhe provocara dois sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo, que se sentia lisonjeada, sentiu-se preocupada que seu amigo iria desembolsar tanto dinheiro num vinho.

- George, não quero que gaste seu dinheiro dessa maneira.

- Relaxa! Merecemos mais do que um simples vinho!

- Seu louco! Conte-me sobre seu trabalho.

- Estou trabalhando numa empresa de contabilidade, o trabalho é medíocre e o salário é ainda pior, sei que sou muito melhor do que isso, mas Darcy não me deu alternativa, nem sequer deu-me uma carta de recomendação. Além de me demitir, não me deixou ficar no quartinho que ocupava em sua modesta mansão. – contou ele, em tom de deboche.

- Isso é muito desagradável! Ele não pode agir assim com você, ao menos que haja um forte motivo.

- Você está duvidando do que já lhe contei?

- Não, claro que não. Acredito nas coisas que me contou a respeito dele. Isso é muito cruel, tudo que está acontecendo com você é uma grande injustiça. – respondeu Lizzy, indignada com a atitude do Sr. Darcy. - E sua mãe? O que acha disso tudo?

- Minha mãe é uma coitada! Ganha uma mixaria para servir aquela casa, não passa de uma escrava da família Darcy.

- Meu Deus, não fale assim. – disse Lizzy, chocada com a aura de revolta em torno de George.

- Me desculpe, não quero estragar nosso encontro.

- Está tudo bem, pode contar comigo. – disse ela, pegando na mão do amigo.

- Vou lhe contar uma coisa boa!

Lizzy abriu um sorriso, ficando em silêncio para ouví-lo.

- Acho que estou namorando.

- Sério? E como ela é?

- Muito mandona, com um gênio terrível, mas é linda e também muito jovem.

- Opa, tome cuidado com esse "muito jovem", para não se meter em encrenca!

George achou engraçada a advertência dada pela amiga. Mas, foi logo se lamentando:

- Não se preocupe, onde estou morando não posso receber visitas intimas. Apesar de que a gente sempre dá um jeitinho. – disse ele maliciosamente. - Um dia você vai conhecê-la.

- Assim espero!

Lizzy não tinha se dado conta de que a notícia que George estava namorando não lhe abalara. Todo aquele ar de romantismo, misturado às brincadeiras e insinuações, existente na relação entre eles, parecia ter desaparecido. Enquanto Lizzy se preocupava em estar ao seu lado para apoia-lo e ajuda-lo frente às injustiças causadas pelo Sr. Darcy, George parecia querer a proximidade de Lizzy apenas porque não havia mais ninguém, de caráter, ao seu lado. Além disso, sabia que poderia usufruir de vantagens, tendo-a por perto.

Ainda que Lizzy achasse os assuntos de George um tanto distantes de seus atuais interesses profissionais e pessoais, permaneceram papeando por muito tempo, George lhe entregou um papel com seus novos números de telefone, inclusive da empresa em que estava trabalhando, enquanto Lizzy, contou-lhe sobre seu projeto de morar sozinha. George servia-se de mais vinho, quando os primeiros colegas de trabalho começaram a chegar.

- Acho que temos companhia. – disse ele, apontando em direção das pessoas que acabavam de entrar na pizzaria.

- Nossa! Que coincidência!

Conforme foram se aproximando, Lizzy reparou que mais pessoas do escritório entravam na pizzaria, todos segurando sacolas do Mappin. Foi quando Lizzy passou a desconfiar de algo.

- O que está acontecendo?

- Seja bem vinda ao seu Chá de Cozinha, minha querida! – anunciou empolgado o seu chefe.

- Eu não acredito! – disse ela, muito emocionada, abraçando cada um dos colegas que iam se aproximando.

Algumas pessoas do escritório que sabiam sobre o motivo da demissão de George, estranharam sua presença, não compreendendo o que ele estava fazendo ali. Lizzy, no entanto, permaneceu sentada ao seu lado, direcionando a atenção de todos ao contar-lhes sobre os preparativos de sua nova casa. Enquanto isso, como num passe de mágica, os garçons organizaram a grande mesa em formato de quadrado para receber todos os convidados. Apesar de muito ansiosa, Lizzy preferiu ter a presença de todos para abrir seus pacotes, organizados ao centro das mesas.

Um dos momentos mais emocionantes foi à chegada de sua família. Lizzy abraçou, em lágrimas, seus pais e seus padrinhos, apresentando-os aos seus colegas de trabalho. Logo depois, chegou à amiga Charlotte acompanhada pelo Sr. Darcy, que preferiu sentar-se isolado de todos, após cumprimentar friamente Lizzy. Em pouco tempo, o Sr. Bennet se enturmou com os advogados sêniores, que o conheciam através de seus escritos e admiravam sua carreira como historiador. Com Lizzy dando atenção a todos, George permanecera sentado, ainda com a taça de vinho à mesa, sem que qualquer ex-colega se interessasse em falar-lhe, até que Charlotte lhe fez companhia. Com olhares constantes a George, Lydia chamou a atenção de Kitty.

- Você o conhece?

- Claro sua boba, não está lembrada? Do carnaval, naquele camarote incrível!

Assim que Charlotte desocupou a cadeira ao lado de George, Lydia levantou-se para lhe fazer companhia, surpreendendo as irmãs Mary e Kitty com sua ousadia. Ao lado de George, abusava de seu jeito Lolita de ser, provocando-o. Ainda que a companhia de Lydia o agradasse, George sabia que aquele ambiente não era apropriado para tais insinuações, preocupando-se que seu comportamento atrevido pudesse chamar a atenção de alguém, ao passo que, Lydia parecia não se importar. Para sua sorte, todos estavam entretidos em assuntos interessantes, sem contar o assedio em cima do Sr. Bennet e a incansável atuação da Sra. Bennet em agradar pessoas que lhe pareciam convenientes. Quando Lizzy decidiu abrir seus presentes, os convidados foram se acomodando novamente à mesa, fazendo com que George aproveitasse a oportunidade para trocar de lugar, se afastando de Lydia, sem que ela percebesse.

A cada pacote aberto, Lizzy se emocionava, agradecendo incansavelmente cada um de seus colegas. Ao final, fez um bonito discurso, emocionando, até mesmo, o Sr. Darcy, apesar de não demonstrar. Com a maioria dos lugares ocupados e os garçons servindo as pizzas, Lizzy, sem escolha, sentou-se próxima ao Sr. Darcy.

- Quero avisá-la que meu presente será entregue no seu novo endereço.

- Obrigada, Sr. Darcy, mas não precisava se incomodar.

Ao notar que Lizzy estava sentada próxima ao Sr. Darcy, a Sra. Bennet fez um de seus comentários inconvenientes ao pé do ouvido da Sra. Gardiner:

- Veja você mesma, a oportunidade bate na porta de quem não está interessada em atendê-la. Se Lizzy não fosse tão cabeça dura saberia valorizar meus ensinamentos e fisgar esse milionário.

Sra. Gardiner, muito educada, apenas balançou a cabeça como um sinal de reprovação ao comentário da comadre.

Charlotte foi a primeira a levantar-se e ficar ao lado de Lizzy.

- Quero lhe agradecer por ter organizado meu Chá de Cozinha.

- Você merece, amiga!

- É difícil ver uma mulher jovem sair de casa para viver sozinha. – comentou Sr. Darcy, esperando uma resposta de Lizzy.

- Sei que não é muito comum, mas tenho o apoio de meus pais. Bem, na verdade, apenas de meu pai. – lamentou ela. – Minha mãe acha que eu deveria sair de casa apenas depois de casada. Compartilha dessa opinião, Sr. Darcy?

- Isso depende. Se a jovem tiver certa maturidade e responsabilidade não vejo mal algum, muito pelo contrário. Isso a torna admirável.

Lizzy parecia compartilhar com sua maneira de pensar, porém conteve-se em elogiá-lo, ficando em silêncio, até que sua mãe, segurando um prato de pizza, surgiu ao lado do Sr. Darcy.

- Creio que o assunto por aqui esteja muito agradável!

- Sim, mamãe. Estávamos falando sobre uma jovem em ir morar sozinha.

- Acredito que essa atitude deva causar no senhor certa estranheza. Devo admitir que a mim, causa muita estranheza. Qual mãe não sonha casar sua filha com um bom partido, um homem rico e de boa família? – disse ela abocanhando um pedaço de pizza.

- Mamãe, é melhor sentar-se.

- Sra. Bennet, se há apoio do pai ou da mãe, não sou eu quem devo estranhar tal atitude.

- Bem, se pensa assim, devo então me conformar com a situação. Se bem que, sua opinião tem muita importância para mim.

Lizzy fechou os olhos, balançando a cabeça, lamentando-se com o comentário de sua mãe. Sr. Darcy, percebendo o seu constrangimento preferiu calar-se. Na tentativa de desviar o assunto, Lizzy perguntou à sua mãe:

- Lembra-se de Charlotte?

- Ah! Sim. Olá querida!

- Foi ela quem teve a ideia de organizar o Chá de Cozinha.

- Que ótima ideia, querida. Estou certa de que o Sr. Darcy está em boas mãos no escritório.

Ele apenas consentiu, balançando sua cabeça.

Antes mesmo que a Sra. Bennet pudesse se acomodar numa cadeira, ao lado do Sr. Darcy, a atenta Sra. Gardiner veio chamar-lhe, livrando sua afilhada de mais constrangimentos. Quando tudo parecia ter voltado ao normal, Lydia e Kitty viraram atração da mesa ao darem gargalhadas histéricas na companhia de George, deixando até mesmo o Sr. Bennet em situação embaraçosa.

- Parece que suas irmãs estão gostando da companhia do Sr. Wickham.

- George procura sempre agradar e divertir as pessoas que lhe fazem companhia. – defendeu Lizzy.

- Não é bem esse George que eu conheço.

- O que está querendo insinuar, Sr. Darcy? – perguntou ela, encarando-o.

- É melhor eu ir embora, me sinto cansado. – disse ele, levantando-se da cadeira. – Com licença. Boa noite.

- Boa noite, Sr. Darcy. – respondeu ela, lembrando-se das atitudes injustas que cometera com seu amigo George.

Sr. Darcy saiu discretamente do salão, sem despedir-se dos demais. Aos poucos, todos seus colegas de trabalho foram embora, muito satisfeitos com a comemoração, ficando à mesa apenas os familiares de Lizzy e seus amigos Charlotte e George.

- Mal tivemos tempo de conversar, Lizzy! – disse Jane, encantada com a comemoração de Lizzy e feliz pela irmã ter ganhado tantos presentes.

- Pois é, mas não se preocupe, conversaremos antes de dormir.

- Por falar em dormir, que tal irmos embora? – sugeriu Sr. Bennet.

- Ora, papai, vamos ficar mais um pouquinho! – disse Lydia, querendo ficar mais um pouco na companhia de George.

- Parece que vocês se deram muito bem! – comentou Charlotte, inocentemente, porém certeira, fazendo com que todos prestassem atenção.

Sem dar chance para outros comentários, Sr. Bennet levantou-se, fazendo com que todos o acompanhassem. Na verdade, ele estava um tanto incomodado com o comportamento de sua filha caçula. Parecia muito íntima do rapaz que mal conhecia, incluindo suas intenções. Porém, preferiu não se manifestar, guardando em segredo sua impressão.