O Presente do Sr. Darcy

A família Bennet caminhava, ansiosa, rumo à nova casa de Lizzy, quando Jane puxou assunto com a irmã:

- Você deveria estar bem feliz hoje, depois da comemoração maravilhosa de ontem e, também, por ter ganhado tantos presentes!

- Não consigo esconder nada de você, não é mesmo? Estou um pouco chateada.

- Se quiser podemos conversar.

- Sabe, Jane, estou feliz com todas as coisas que vem me acontecendo. O meu trabalho, agora vou ter minha própria casa, mas algumas coisas me incomodam tanto, que fico muito chateada.

- E o que está te incomodando, Lizzy?

- A verdade é que não me sinto bem trabalhando para o Sr. Darcy. Eu adoro trabalhar no escritório, tenho aprendido muito e, também, o salário é bom para uma estagiária. Só que ele é insuportável! Juro que preciso me sentir melhor despois desse desabafo.

As irmãs sorriram, mas Lizzy não quis parar por aí, decidindo dividir com Jane sua angustia:

- É muito incomodo conviver com alguém que está tentando o tempo todo te rebaixar, mesmo quando essa pessoa não diz sequer uma única palavra. Sei que parece implicância de minha parte, mas basta a sua presença para que meu humor mude. Acho que nunca havia conhecido alguém que consegue despertar os piores sentimentos dentro de mim.

- Nossa! Isso é péssimo!

- Além de sua arrogância há outra coisa que me deixa muito perturbada, é sobre George.

As duas caminhavam lentamente pela calçada, enquanto Lizzy contava à Jane toda a história que George havia lhe falado, incluindo suas opiniões e impressões sobre o Sr. Darcy, subjetivando-a sem perceber. Jane ficou em choque. Não conseguia imaginar uma pessoa tão cruel quanto ele, mesmo sendo a mais generosa e bondosa das irmãs.

Ainda estavam na calçada, em frente ao prédio, quando Lydia gritou pela janela da sala:

- Lizzy, venha ver! Tem uma caixa enorme aqui pra você!

Lizzy não sabia do que se tratava, estranhando o comentário da irmã. Quando entrou, o zelador foi logo dizendo a ela que haviam entregado o presente pela manhã. Era uma enorme caixa embrulhada com papel de presente. Havia um laço e um cartão. Pegou o cartão e muito ansiosa, leu a pequena frase em silêncio.

"Espero que este presente

Faça dos seus dias mais alegres e interessantes

Em sua nova casa.

Atenciosamente,

Darcy."

Ao ler o cartão, Lizzy lembrou-se de que o Sr. Darcy havia lhe falado sobre o presente. Olhou novamente para a caixa, tentando adivinhar o que poderia ser, reparando, em seguida, que suas irmãs e sua mãe aguardavam agoniadas para saber do que se tratava. Ocorreu-lhe que seria melhor guardar o cartão e revelar a elas que era apenas o presente de seu patrão.

- É o presente do Sr. Darcy.

- Quanta generosidade deste cavalheiro! – comentou a Sr. Bennet, antes mesmo que Lizzy pudesse abrir o embrulho.

- Venha, Lizzy! Queremos saber o que tem aí dentro! – disse Lydia, morta de curiosidade.

Lizzy parecia estar com receio em abrir o embrulho na frente de todas. As palavras do cartão lhe vinham na mente, lhe causando uma assustadora sensação de ternura, como se não conhecesse quem as havia escrito. Ao retirar o papel de embrulho, Lizzy levou um susto, porém manteve-se em silêncio, até descobrirem o que era.

- Minha nossa! A Lizzy ganhou uma TV!

- Nossa! – exclamou Jane com as mãos na boca.

- Meu marido, venha ver o que nossa filha ganhou do Sr. Darcy!

- Que gesto mais romântico!

- O que você fez para ganhar um presente desses?

Lizzy sentia-se constrangida com os comentários, chegando a pensar que deveria devolver o presente. Porém, a presença e o comportamento de seu pai, a acalmaram, fazendo com que juntos, eles pudessem curtir o grande presente.

- Parabéns, minha filha! De fato, Sr. Darcy foi muito generoso, porém se eu tivesse uma funcionária como você, também lhe presentearia assim. Você é merecedora de tudo isso, porque conquista honestamente o que deseja inclusive as pessoas ao seu redor.

- Obrigada, papai. Estava precisando ouvir isso.

- Veja só, é uma TV e tanto. Tem até controle remoto. – disse Sr. Bennet, admirado. – Venha, querida! Vou lhe mostrar como ficou o seu quarto e o que foi feito no banheiro e na cozinha. Lizzy acompanhou o pai, ansiosa para ver os cômodos. Guardava dentro de si um sentimento confuso, ora lhe fazia bem senti-lo, ora não. Apesar de sempre formar suas próprias opiniões e ser uma pessoa decidida, sentia-se atordoada por não conseguir chegar a uma conclusão sobre quem era o Sr. Darcy.

Já passava da hora do almoço, quando Charles foi ao encontro do Sr. Darcy. Estranhara sua ligação, logo pela manhã, parecendo-lhe chateado com alguma coisa. Iriam se encontrar no luxuoso piano bar, localizado no lobby do hotel Maksoud Plaza. Ao entrar, viu o amigo sentado, tomando um drink e apreciando a linda canção de Frank Sinatra, Strangers in the Night.

- Nossa! Ele toca e canta muito bem. – disse Charles referindo-se ao pianista do bar.

- Sim.

- Fiquei preocupado com você, tá tudo bem?

- Essa música era uma das preferidas de meu pai. Lembro-me que cantávamos muito desafinados, mas era divertido. Eu ficava em seu colo, enquanto minha mãe tocava o piano.

- Deve ser uma boa recordação. Gostaria de ter tido uma boa cena dessas, ao lado de meus pais, para recordar.

Sr. Darcy olhou para o amigo, lamentando-se. Em seguida, o maitre veio até à mesa, para que Charles pudesse pedir algo para beber.

- Como foram as coisas ontem, no Chá de Cozinha da Lizzy? Aliás, minha irmã estava atrás de você ontem.

- Quase desisti em ir.

- Por quê? O que houve?

- Soube antes que George estaria lá. Não queria encontra-lo, principalmente acompanhando Lizzy.

- Poxa, esse cara não desaparece! Depois de tudo que fez ainda tem a coragem de aparecer.

- Pois é. E sempre está acompanhado de Lizzy. Lembra-se do carnaval?

- Sim, claro. Ainda ficou bêbado, o desgraçado.

- Tenho pena da Sra. Wickham, mas não posso perdoa-lo pelo que fez.

- E quanto a Lizzy? Por que está tão incomodado?

Sr. Darcy sentiu-se constrangido com a pergunta do amigo. Mas logo tratou em convencê-lo de que sua preocupação era para o bem da empresa.

- Você sabe toda a história, George não é boa companhia pra ninguém. Preocupo-me com o fato de Lizzy, ser muito imatura e trabalhar no meu escritório, onde, cada vez mais estará envolvida com assuntos confidenciais. – explicou Sr Darcy.

- Não acredito que Lizzy seja capaz de algo, ela é muito honesta e muito dedicada em relação a sua carreira. Aliás, ela sempre foi a mais sensata daquela família. – contou Charles.

- Pode ser, mas quando há dinheiro envolvido, as pessoas mudam. Não sei o que pode acontecer com ela na companhia daquele mau caráter do George.

- Continuo achando que você está exagerando. Se fosse outra pessoa, poderia acreditar que sim, mas não vejo Lizzy cometendo nada de errado. Veja um exemplo. Quer influência pior do que ela tem em sua própria casa? A Sra. Bennet só pensa em dinheiro. A única coisa que importa para ela é casar suas filhas com homens com os bolsos cheios de dinheiro. No entanto, Lizzy é completamente diferente dela. Ela e Jane sempre censuravam a mãe, quando começava com histórias desse tipo.

- Acho que você tem razão. Também tive essa impressão da Sra. Bennet, uma pessoa completamente inadequada e desagradável.

Apesar de acreditar que Lizzy não cometeria tal desventura aliada ao George, preferiu não revelar a George o que, de fato, o incomodava. Porém, a conversa com o amigo Charles lhe fora útil, no sentido de reforçar as qualidades de Lizzy a si mesmo. Sentia-se revigorado.

- E a Jane? Ela estava lá?

- Sim e estava muito bela.

Charles sorriu e lamentou-se.

- Por que tem que ser tão difícil o amor?

- Relacionamentos entre pessoas de classe social diferente sempre foram muito complicados.

- Sinto saudades dela.

- Quer um conselho? Use esse tempo para saber se realmente ama a Jane. Pense em todas as implicações da relação e avalie se esse amor vale a pena.

- Darcy, o amor não é assim. A gente sente e pronto.

- Pois então, você está errado. Numa relação precisamos saber avaliar o amor.

- Acho que não sei ser tão racional assim como você. Se fosse assim, nunca mais deveria procurar Jane. Seria tudo mais fácil para mim.

- Você tem sido racional, até porque não a procurou desde o carnaval.

- Digamos que eu precisava desse tempo, mas não a esqueci sequer um segundo. Vou lhe contar o que pretendo fazer. Vou dar uma festa de aniversário e quero convidar Jane e Lizzy. Quem sabe não podemos reatar? Até lá, pretendo ter o contrato com meu patrocinador assinado.

Sr. Darcy achou graça na colocação do amigo, já que era ele, o patrocinador citado por Charles.