O Segredo de Lydia

Lizzy preferiu não comentar com ninguém, nem mesmo com Charlotte, sobre sua reunião com o Sr. Darcy. No entanto, houve a inevitável repercussão dentro do escritório sobre o reconhecimento de seu trabalho e a exigência feita pelo Sr. Darcy em relação a participação integral de Lizzy no caso da indústria farmacêutica. Para ela, a adulação, decorrente da admiração que o Sr. Darcy tinha de sua postura como profissional, não a tornava uma pessoa diferente em seu relacionamento com os demais colegas, apenas sentia-se vivaz e feliz com seu novo desafio.

De férias da faculdade, Lizzy tinha interesse em passar mais tempo no escritório, dedicando-se ao trabalho, porém no dia em que seu primo William chegou a São Paulo, decidiu sair mais cedo para jantar junto à família.

Quando Lizzy chegou, todos estavam reunidos na sala a sua espera, exceto suas irmãs Jane e Lydia.

- Boa noite a todos! William, meu querido primo, fez boa viagem?

- Sim, está tudo bem.

Com a chegada de Lizzy, Sra. Bennet decidiu estender a toalha na mesa para que todos pudessem jantar. O assunto entre eles continuou, enquanto saboreavam a deliciosa comida preparada por sua mãe.

- Quantos dias pretende ficar? – perguntou o Sr. Bennet.

- Apenas uma semana. Tenho assuntos para resolver em Belo Horizonte.

- Que pena, tão pouco tempo. – comentou Lizzy.

- Quero que conheça minha casa, ainda está em fase de, digamos de decoração!

Todos riram da piada de Lizzy, mas William estava muito curioso para conhecê-la.

- O que pretende fazer amanhã, William? – perguntou a Sra. Bennet.

- Bem, combinei em reencontrar uma amiga e ir ao cinema, talvez.

- Que ótimo! – disse Lizzy.

- Vocês podiam me acompanhar.

- Eu não acho que seja uma boa ideia! – disse Lizzy, insinuando que seu primo possivelmente teria um encontro romântico com Charlotte. Fazendo com que as irmãs rissem de seu comentário.

- Charlotte está ansiosa em vê-lo. – contou ela.

- Isso é bom!

Quando Lizzy finalmente deu uma pausa em sua conversa com George, perguntou aos pais onde estavam Jane e Lydia.

- Sua irmã Jane ligou do trabalho, dizendo que iria jantar com Charles. Parece que Deus ouviu minhas preces! Espero que os dois se entendam de vez e marquem logo a data do casamento.

- Ora, mamãe! Tenha mais calma, as coisas não acontecem assim.

- Quando se trata em namorar um rapaz como Charles Bingley deve-se ser ligeira para tomar certas decisões. Imagine quantas meninas não sonham em casar com ele?

Lizzy apenas balançou a cabeça, lamentando-se do comentário de sua mãe.

- E Lydia, onde está?

- Está na casa de uma coleguinha, parece que tinha um trabalhinho da escola para fazer. – explicou Sra. Bennet.

- Trabalho de escola? Mas ela está em férias. – estranhou Lizzy.

- Sim, eu sei, mas foi o que Lydia me disse, querida.

Lizzy ficou intrigada com a ausência de Lydia, não acreditando nessa história que sua mãe contara. Além do mais, todos sabiam que Lydia não era uma boa aluna e certamente não se interessaria em sair de casa para fazer trabalho de escola, a não ser que houvesse algo mais atrativo.

- Você não quis acompanhar Lydia? – perguntou ela a sua irmã Kitty.

- Achei melhor não ir.

A resposta de Kitty a deixou, ainda mais, desconfiada, no entanto, preferiu não prolongar o assunto, naquele momento. Lizzy não estava convencida com a desculpa de Kitty, porém preferiu não insistir mais sobre o assunto, naquele momento. Há tempos, Lizzy não apoiava a maneira como sua mãe conduzia a educação das suas irmãs caçulas. Achava que tinham muita liberdade, considerando que Lydia, a mais nova, ainda não havia completado 15 anos. Além de frequentarem muitas festas e matines, costumavam ter um comportamento muito ousado e atrevido com os rapazes.

Enquanto Lizzy se distraia com seus pensamentos, William tocara em algumas questões importantes sobre as olimpíadas, pedindo ao seu tio alguns esclarecimentos sobre o boicote adotado por alguns países nos jogos de Moscou.

- É lamentável! – disse Sr. Bennet. - São cerca de 60 países que estarão fora dos jogos. O Jimmy Carter chegou a ameaçar os atletas americanos que tentassem ir a Moscou confiscando seus passaportes.

- Que loucura tudo isso! – comentou William.

- Mas a abertura dos jogos estava demais! – contou Mary.

- Eu adorei o urso Misha! – disse Kitty.

- Nesses últimos dias vem ocorrendo eventos tão importantes, a visita do papa, por exemplo, jamais esquecerei e, de fato, a abertura desses jogos foi magnífica, isso demonstra como a União Soviética é poderosa. – discursou a Sra. Bennet. – Teve também a mudança da minha querida Lizzy. Ela ganhou uma linda festa do Sr. Darcy. Todos nós fomos convidados. Sem contar o presente maravilhoso!

- Isso você não me contou, prima!

- Bem, na verdade, o pessoal do escritório organizou um Chá de Cozinha, onde cada um levou um presente. Ganhei muitas coisas para minha casa. A festa foi numa pizzaria e Charlotte acabou tendo a ideia em convidar a família toda, inclusive meus padrinhos.

- Esqueceu de contar sobre o presente do . – insistiu Sra. Bennet.

- Sim, o presente. Ele me deu um televisor.

- Uau! Que presentão!

- Tem até controle remoto. – disse Kitty.

William, assim como todos, teve uma reação de surpresa misturada com desconfiança nas intenções do Sr. Darcy em relação à Lizzy. Porém, preferiu não colocar mais lenha na fogueira, ao perceber certo desconforto em sua prima ao tratar do assunto.

Antes que todos se levantassem da mesa, a Sra. Bennet fez questão em anunciar e convidar o sobrinho para o próximo evento importante da família Bennet:

- Quero aproveitar a presença de meu querido sobrinho para dizer que no próximo mês teremos o baile de debutante de Lydia. Só em falar, fico emocionada. Tudo passa tão rápido, ainda me lembro do baile de Jane, do baile de Lizzy, foram lindos!

- Poxa tia, que legal! Mas não tenho certeza se poderei vir para São Paulo, novamente.

- Ficaríamos muito felizes se você e sua mãe pudessem vir. Será na última sexta-feira do mês, no Círculo Militar.

Após o jantar, todos se sentaram na sala para assistir ao programa do Festival de Musica Popular Brasileira, cada um torcia por um participante diferente. William estava torcendo por Eduardo Dussek, com a música Nostradamus. Mary adorava a música de Joyce, Clareana. O cantor Jesse agradava ao Sr. Bennet. Já a Sra. Bennet torcia pela canção Foi Deus Que Fez Você. Lizzy não estava acompanhando o programa, mas se divertia vendo a disputa entre seus familiares, enquanto escutava as lindas canções.

Já era tarde quando o programa terminou, Lizzy estava cansada e pediu a seu primo que lhe acompanhasse até sua casa. Antes de sair, lhe ocorreu que sua irmã Lydia ainda não havia retornado para casa, ficando muito preocupada.

- Mamãe, está tão tarde e Lydia ainda não chegou?

- Não se preocupe, ela já vai chegar. – respondeu sua mãe. – Até parece que não conhece sua irmã, tão distraída!

Lizzy se despediu de todos e desceu com William. A noite estava fria, fazendo com que eles caminhassem bem depressa. Ao chegar à porta de seu prédio, Lizzy pediu ao primo que fosse até sua casa assim que acordasse. William achou a ideia ótima.

Com Mary e Kitty em seus quartos, os pais de Lizzy esperavam William retornar, sentados no sofá. O Sr. Bennet aproveitou a oportunidade para reforçar a preocupação de Lizzy com a irmã caçula:

- Não quero Lydia fora de casa até essa hora. – ordenou ele. - Percebi que Lizzy estava preocupada com a irmã e ela tem toda a razão. Lydia só tem 14 anos!

- Ela só está na casa da coleguinha. Do jeito que é avoada, deve ter se esquecido do horário. – justificou ela. – Mas, pode deixar que irei conversar com ela.

- Tem outra coisa que quero comentar com você. De uns meses para cá, tenho observado, com muita frequência, chamadas a cobrar na nossa conta de telefone. Por acaso, você sabe do que se trata?

- Não posso imaginar! Pode ser um erro da empresa de telefone, eu suponho.

- Não acredito que seja. – afirmou ele. – O estranho é que a quantidade de chamadas está aumentando a cada mês e o mais interessante é que acontecem sempre em determinados horários. – analisou ele. Veja isso com as meninas, quero entender essa história.

Quando William estava próximo ao prédio, avistou Lydia abraçada com um rapaz do outro lado da rua. Sem perceberem sua presença, ele permaneceu na frente do prédio observando a prima. "Bem que Lizzy estava desconfiada!", lembrou ele. De repente, os dois se beijaram ardentemente e William achou melhor chamar a atenção da prima:

- Lydia! – gritou ele, atravessando a rua e seguindo em direção ao casal.

Assustada ao ouvir seu nome, Lydia interrompeu o beijo e virou-se sendo surpreendida pela presença do primo.

O suposto namoradinho de Lydia, ao perceber a aproximação de William, se afastou rapidamente dela e, sem despedir-se, abaixou a cabeça e enfiou as mãos nos bolsos da calça, caminhando a passos largos.

Muito impressionado com o ocorrido, William disse transtornado:

- O que estava havendo aqui? Ficou louca?

- Se acalme, William. Ele é só um amigo, isso nunca tinha acontecido antes.

- Acho que eu conheço esse cara. – afirmou ele, observando o rapaz caminhar até virar a esquina.

- Venha, vamos sair da rua. – disse ele, puxando a prima pelo braço para dentro do prédio.

- Prometa que não vai comentar com ninguém sobre isso? – implorou Lydia, choramingando.

- Que tipo mais esquisito! – disse William, intrigado com a atitude do rapaz. – O camarada te beija no meio da rua, tarde da noite, vira as costas e te larga sozinha!

- Ele viu você vindo em nossa direção e se assustou!

- Ah! Tá. O camarada se assusta e te larga sozinha. – retruca William. - Venha! Vamos subir, seus pais devem estar preocupados com você. – disse ele bastante nervoso com a situação.

No elevador, enquanto Lydia implorava para que o primo não contasse a seus pais, William permaneceu de cabeça baixa, se esforçando para lembrar a cara do sujeito. Chegando ao andar, antes de entrarem no apartamento, William segurou a maçaneta com as mãos e olhando para o rosto da prima, revelou o que acabara de lembrar, para desespero completo de Lydia:

- Era o cara do carnaval! O amigo de Lizzy, né?

Lydia entrou em casa em silêncio, ignorando a suspeita de seu primo. Cumprimentou rapidamente os pais e seguiu para o seu quarto, trancando a porta.

Na manhã seguinte, William levantou cedo e antes que suas primas pudessem acordar, havia feito seu café da manhã em companhia do Sr. Bennet. Vestiu um agasalho e se despediu, seguindo até a casa de Lizzy. Na verdade, ele acordara propositadamente cedo, evitando encontrar-se com Lydia. No caminho, lembrava-se da desagradável visão dela se agarrando, na rua, com o namoradinho fujão. Decidiu não contar ao seu tio, naquele momento, porém estava determinado a comentar o assunto com Lizzy, já que ela era amiga do rapaz. William teve uma educação muito séria e rígida, ser cumplice da dissimilação de Lydia era algo pesado demais para ele. Chegando ao prédio, procurou o número do apartamento no painel do interfone, mas Lizzy viu quando chegou, pela janela da sala. Percebendo a demora em tocar o interfone, logo lembrou que se esquecera de dizer-lhe o número do apartamento. Decidiu, portanto, abrir-lhe a porta.

Ao cumprimentar a prima no corredor do prédio e entrou no apartamento, admirando o tamanho da sala. De repente, ouviu vozes gritando:

- Surpresa!

Olhou para trás e viu Lizzy acompanhada de Charlotte.

- Vocês me pegaram direitinho! Não podia imaginar! – disse ele, abraçando a amiga.

- Veja o que preparamos para você! – disse Lizzy, apontando para a mesa com pães quentinhos que acabaram de sair do forno, manteiga e queijo, café, leite e suco de laranja. Charlotte havia preparado um bolo de chocolate e presenteado Lizzy com lindas rosas que estavam expostas na mesa.

- Uau! Mas, acabei de comer!

- Rejeitar nosso café da manhã? Nem pensar! – disse Charlotte, arrastando-o até a mesa.

- Aproveite, primo! – alertou Lizzy. – Não é sempre que temos um café da manhã desse porte, aqui em casa!

- Nossa! Eu adorei seu apartamento!

- Bem, agora está começando a ficar com cara de casa. Até a semana passada, a sala estava vazia e nem o telefone funcionava.

Passaram, toda parte da manhã, sentados à mesa, conversando sobre suas vidas e se divertindo. Quando se aproximou da hora do almoço, Charlotte lembrou-se que a primeira sessão de cinema começava às duas horas.

- O que acha de pegarmos a primeira sessão?

- Claro, é melhor.

- O que vocês irão assistir?

- Fama. É um musical, todo mundo anda comentando muito bem desse filme. – revelou Charlotte. – Por que você não vem com a gente?

- Isso! Venha com a gente! – insistiu William.

- Nem pensar em segurar vela! – brincou ela. – Preciso arranjar um namorado urgente para poder sair com vocês!

Charlotte sentiu-se envergonhada diante do comentário de Lizzy e na tentativa de mudar o assunto apontou para a assadeira do bolo:

- Vejam! Quase que acabamos com a assadeira da Nega Maluca!

- Pode deixar esse restinho comigo! Segunda, eu levo sua assadeira. – disse Lizzy.

- Só vou conseguir comer alguma coisa, quando sairmos do cinema. – disse William.

- Eu também! – concordo Charlotte.

Lizzy acompanhou-os até a calçada. Como William não contava com a presença de Charlotte, desistiu em comentar o assunto de Lydia com Lizzy, porém pediu que ela fosse mais tarde até a casa de seus pais para conversarem. Lizzy concordou e entrou em casa. Deitou no sofá e permaneceu ali, por alguns minutos, muito pensativa. Estava feliz por sentir uma boa energia entre William e Charlotte. Era muito gostoso em ver como a conversa entre eles fluía, assim como a ternura nas palavras e o carinho nas brincadeiras. Desejou viver um romance. Mas, não havia sequer alguém com quem ela pudesse sonhar, pois não havia ninguém que Lizzy amasse. A sensação de solidão parecia aumentar, agora que estava morando sozinha, longe de sua família e, principalmente de Jane. Foi então que decidiu telefonar para a irmã.

Não demorou muito para que Jane chegasse à casa de Lizzy. A mesa do café da manhã ainda estava posta e ela ainda permanecia deitada no sofá assistindo aos jogos olímpicos pela TV.

- Minha irmãzinha está carente?

- Sim, muito carente! Obrigada por vir, Jane!

- Eu queria mesmo vê-la e te contar as novidades!

- Fiquei sabendo que ontem, você e Charles saíram para jantar.

- Sim. Fomos num lugar incrível! Tudo foi perfeito!

- É muito bom vê-la feliz assim, novamente.

- Parece que desta vez tudo será diferente. Acho que o que aconteceu serviu para que ele ficasse mais maduro.

- Espero que você esteja certa. Mas, a minha preocupação vai além do Charles, acredito realmente que ele goste de você. O grande problema é sua família, sabemos que eles não irão aceita-la.

- Eu sei disso, Lizzy. Sei que não será fácil, mas nós dois decidimos algumas coisas, não iremos nos separar por causa de ninguém e, também, não queremos esconder que namoramos.

- Acho isso ótimo! Vocês estão juntos, decididos a lutar por amor, mas não é simples assim. Pelo que sabemos o Charles a escondia de seus pais, pois não queria abrir mão da sua mesada e nem de todas as mordomias bancadas por eles. O que mudou agora? Ele está disposto a abrir mão de tudo isso?

- Creio que ele esteja planejando ter seu próprio dinheiro a partir de agora. Eu ainda não sei de detalhes, mas ele me contou que está trabalhando para conseguir sua liberdade financeira.

Lizzy lembrou-se de que havia aconselhado Charles a fazer isso, quando conversaram no escritório há meses atrás, sentindo muito orgulho de sua atitude.

- Isso é muito bom!

- Quero te contar outra coisa. Charles me convidou para o aniversário de sua mãe, no próximo sábado, em sua casa. Parece que sua mãe está organizando uma mega festa, para uns duzentos convidados, com direito a orquestra e tudo mais.

- E você aceitou ir?

- Sim. Charles me encorajou a ir, disse que é impossível que sua mãe tenha alguma atitude rude comigo durante a festa. E, também, prometemos um ao outro, que não nos esconderíamos mais.

- Tome cuidado, pense direitinho. Não quero que aconteça nada de ruim com você.

- Estarei ao lado de Charles.

- Isso é a única coisa que me conforta.

Após um longo tempo de conversa, as irmãs sentaram-se no sofá com a assadeira do bolo no colo, cada uma com uma colher e devoraram as últimas fileiras que restavam.

- Sente-se melhor? – perguntou Jane, referindo-se a carência de sua irmã.

- Depois de comer tanto bolo, acho que não!

- Não é disso que estou falando, é sobre se sentir sozinha, o que houve?

- Não sei explicar, acho que quando vi William e Charlotte juntos, exalando espontaneamente tanto carinho e atenção um pelo outro, me fez enxergar a realidade, de que eu não tenho ninguém.

- Não diga isso, você tem a mim!

- Sei disso e agradeço muito a sua amizade, mas não consigo ter um namorado.

- Bem, havia uma época, e isso não faz tempo, em que você tinha alguns admiradores. Só que você conseguiu botar todos para correr!

As irmãs gargalharam do comentário de Jane.

- Nenhum deles era para mim. – lamentou Lizzy. – Sabe, quando conheci George, achei que fossemos ser um pouco mais do que amigos, ele era cativante, me fazia rir e parecia abraçar o mundo.

- Sim, eu lembro-me o quanto estava empolgada em encontra-lo no carnaval.

- Pois é, depois disso, tudo desandou. Ele se revelou ser outra pessoa, mais amarga e revoltada, também não era pra menos, sua história de vida é penosa.

- Mas é muito bom estar aqui com você! Me sinto tão à vontade! – disse Jane, se esparramando no sofá.

Enquanto isso, na casa da família Bennet, sua mãe aproveitou a presença das filhas para conversar sobre as ligações a cobrar, registradas na conta de telefone. Ao chama-las até a sala, Lydia ficou apavorada, pensando que William havia comentado com seus pais sobre tê-la visto aos beijos com George, porém a Sra. Bennet foi direto ao assunto, assim que se sentaram à mesa, fazendo com que a caçula respirasse aliviada. Mary foi a primeira a se manifestar, assim que sua mãe as questionou. No entanto, um desentendimento entre suas filhas, fez com que Mary, muito aborrecida, se retirasse da conversa, permanecendo sentadas apenas a Sra. Bennet, Lydia e Kitty.

- Não gosto quando tratam Mary dessa maneira. Devemos respeitar o jeito de sua irmã, certamente ela não é uma menina vistosa como vocês são, mas tem suas qualidades.

- Foi apenas uma brincadeira, mamãe. – justificou Lydia.

- Bem, agora tratem de desembuchar, quem está recebendo essas ligações a cobrar?

- Não vai mais acontecer, mamãe. – prometeu Lydia.

- Então é você, Lydia? Quem é essa pessoa?

- É só um amigo, nada mais.

- Para te ligar a cobrar, não deve ter dinheiro e muito menos vergonha na cara. De hoje em diante, não atenda mais nenhuma ligação desse infeliz, caso contrário, seu pai ficará furioso.

- Sim, mamãe, pode deixar. – disse Lydia, de cabeça baixa.

Eram quatro horas, quando William e Charlotte saíram do cinema Bristol, na Av. Paulista, vibrando com o filme que acabaram de assistir.

- Nossa! Que música!

- Eu também adorei!

- Vou ver se nas lojas já estão vendendo o LP com a trilha sonora. – comentou entusiasmado William. – Vamos atravessar e ir até o Conjunto Nacional, lá tem uma loja de disco e a gente aproveita pra tomar um café.

Como o filme Fama acabara de ser lançado nos cinemas nacionais, as lojas de disco ainda não tinham o LP com a trilha sonora, deixando William frustrado por ter que esperar. Eles foram até o balcão de uma lanchonete e sentaram-se em bancos altos para tomar um café.

- Não quer mesmo comer?

- Não, vou tomar só café, comemos muita pipoca no cinema.

- Mas, é porque não almoçamos.

Durante o café, em frente a eles havia um casal aos beijos, fazendo com que William lembrasse a cena protagonizada por sua prima Lydia na noite anterior. Olhou as horas no relógio, prevendo que ainda daria para ir até a casa de Lizzy, falar-lhe. De repente, ocorreu-lhe que Charlotte também conhecia o tal rapaz, pois se lembrou de que ele trabalhava no escritório com elas.

- Sabe aquele rapaz que foi com a gente no carnaval, lembra? Que Lizzy ficou esperando?

- Ah! O George? O que tem ele? – questionou ela, curiosa.

Sem revelar o que sabia, William tentava obter informações sobre ele.

- Pensei que ele estivesse interessado em Lizzy.

- Quando eles se conheceram, no escritório, eles eram um grude, almoçavam todos os dias juntos e se davam muito bem. Depois, quando saiu da empresa, se distanciaram um pouco.

- Poxa! E você sabe por que ele saiu do escritório?

- Na verdade, não. O Sr. Darcy costuma ser muito reservado, apenas fez um comunicado geral dizendo da saída de George.

William permaneceu calado, enquanto Charlotte continuou contando mais coisas sobre George:

- Ele morava na mansão da família Darcy, mas depois de ser demitido do escritório, também saiu de lá. Está morando num quarto de pensão, sei disso porque quando organizei o Chá de Cozinha de Lizzy, pedi sua ajuda para leva-la até a pizzaria, sem que ela desconfiasse da festa. O George telefonou pra ela, no dia seguinte, convidando-a para jantar. Você precisa ver como ela apareceu vestida no dia do "falso" encontro. Ela estava linda!

- Você acha que ela tem algum interesse por ele.

- Não sei ao certo, mas ela estava bastante animada naquela sexta-feira porque reencontraria com ele.

William respirou fundo e sentiu-se muito preocupado, achando que sua prima Lizzy pudesse estar interessada em George. Ao terminarem o café, ele acompanhou Charlotte até o ponto de ônibus. A noite já estava surgindo, fria e escura, enquanto esperavam o ônibus, quando William decidiu abraçar Charlotte com a desculpa de que ficaria mais aquecida.

- Está melhor assim?

- Sim. – respondeu ela muito sem jeito.

- Adoro ler suas cartas.

Charlotte ficou sem responder, abaixou a cabeça, sentindo-se mais envergonhada ainda, afinal era muito mais fácil para ela escrever do que dizer coisas a William.

- Realmente queria te ver, mas a gente mora tão longe, né? – disse ele.

- É.

- Vou ficar mais alguns dias aqui em São Paulo, depois eu volto novamente para Belo Horizonte. Mas, antes, queria te ver de novo.

- Tudo bem. – respondeu ela timidamente. – Veja! Meu ônibus está chegando.

- Vou te ligar amanhã, assim a gente combina alguma coisa.

- Vou ficar esperando. – disse ela, dando sinal com o dedo para o ônibus.

Antes que Charlotte pudesse seguir em direção à porta traseira do ônibus, William a segurou pelo braço, beijando seus lábios. Ela fechou os olhos e sentia seu coração saltar. Enquanto os outros passageiros subiam para o ônibus, Charlotte dava-lhes passagem, para que fosse a última a subir. Já no degrau da escada, antes que a porta se fechasse, ela virou para William e deu-lhe um enorme sorriso.

A caminho de casa, William sentia-se feliz pelo seu encontro com Charlotte. O flagrante de Lydia com George já não lhe perturbava como antes. Na verdade, o que lhe incomodava era a hipótese de achar que Lizzy pudesse estar interessada em George, ao passo que ele estava a fim de sua irmã caçula, concluindo que talvez, por isso, tenha fugido daquela maneira. "Pobre, Lizzy!" pensou ele. Diante dessa versão, que acreditou ser verdadeira, preferiu não se meter mais no assunto, mantendo o segredo de Lydia bem guardado.