Conhecendo a Família Bingley
O fim das férias de julho já se aproximava, faltando apenas uma semana para que as aulas na faculdade retornassem. Lizzy estava empolgada, afinal seria seu último semestre e logo, estaria formada. Além disso, seu último mês no escritório foi muito significativo, servindo para que ela tivesse a certeza de que escolhera a carreira dos seus sonhos. A admiração pelos colegas de trabalho estava sendo conquistada dia a dia, através de sua humildade e dedicação, inclusive a do Sr. Darcy, que discretamente, acompanhava seu desempenho e suas habilidades na elaboração de estratégias decisivas para o sucesso do caso. O chefe de Lizzy, um renomado e respeitado advogado, sempre nas reuniões com o Sr. Darcy, não poupava elogios à estagiária, alimentando ainda mais sua admiração e fascínio por Lizzy.
Os almoços com Charlotte lhe serviam para relaxar e ouvir o quanto a amiga estava apaixonada por William. Lizzy adorava ver o sorriso estampado no rosto de Charlotte, enquanto imaginava se algum dia viveria um romance assim. Foi num final de almoço tranquilo em que as duas deixavam o refeitório, quando avistaram um mulher muito bonita e elegante, vestindo um sobretudo claro com extravagantes botões dourados entrar no lobby principal. Ela usava os cabelos e presos e um enorme óculos de sol, dificultando ao máximo identifica-la, até que Lizzy ouviu sua voz. Era Caroline.
- Querida! Estou subindo até a sala do meu noivo. – disse ela, num tom de voz alto, à Charlotte, que apressadamente se aproximara de sua mesa.
Antes mesmo que Charlotte pudesse responder, Caroline já havia se enfiado dentro do elevador, seguindo para o 2º piso. Lizzy preferiu permanecer na porta do refeitório, de modo que Caroline não a pudesse ver.
Assim que Caroline subiu, ouvia-se do piso térreo o barulho de seu sapato tocando o chão, até chegar à sala do Sr. Darcy, onde entrou sem ao menos bater na porta.
- Essa daí, pensa que está em casa! – criticou Charlotte.
Lizzy decidiu ir para sua sala antes que Caroline saísse da sala do Sr. Darcy, evitando assim, um encontro entre elas. Nesta tarde, Lizzy permanecera em sua mesa por toda à tarde, não conseguindo concentrar-se direito em seu trabalho, sentia-se cansada e com dor de cabeça. Ao final do expediente, desceu a escada, olhando atentamente em direção ao 2º piso, despediu-se de Charlotte e caminhou até o ponto de ônibus, aliviada, por ter se livrado em ver Caroline. Estava anoitecendo e a temperatura baixava consideravelmente, mesmo não estando muito agasalhada, decidiu passar na casa de seus pais, queria ver Jane e saber como estavam os preparativos para a festa na casa dos Bingley.
Quando estava entrando no prédio, escutou uma buzina. Ao olhar em direção à rua, avistou um Opala SS vermelho estacionado do outro lado. Era Jane e Charles. Estavam acenando pela janela do carro. Feliz em vê-los, Lizzy atravessou a rua para cumprimenta-los. Eles permaneceram sentados, dentro do carro, enquanto Lizzy estava em pé na calçada, apoiando suas mãos na janela do carro. O vento soprava forte e gelado, fazendo com que seus cabelos gélidos dançassem descontrolados.
- Estava indo ver você!
- Charles foi buscar-me na escola hoje. Aproveitamos para tomar um lanche. – contou Jane. Vou subir com você, assim a gente conversa um pouco.
- Olá, Charles!
- Oi, Lizzy! É bom te encontrar, pois quero falar com você. Sei que a Jane já deve ter comentado que amanhã vai ter uma festa em casa para comemorar o aniversário de minha mãe.
- Ah! Sim. Estou sabendo.
- Então, gostaria muito que você fosse. Perdoe-me ser assim tão em cima da hora, mas adoraria recebe-la em casa, amanhã, juntamente com Jane.
- Obrigada, Charles. Prometo que irei pensar com carinho em seu convite.
- Ah! Lizzy! Vai ser maravilhoso ter sua companhia. – disse Jane, muito feliz com a generosidade de Charles.
- Prometo mesmo que irei pensar! Bem, não quero atrapalha-los e aqui fora está muito frio, preciso entrar! Até logo!
Lizzy atravessou correndo a rua, entrando apressadamente no prédio. Estava gelada e a dor de cabeça ainda persistia. Enquanto esperava o elevador, pensava no convite de Charles, achando que sua presença deixaria Jane mais segura e tranquila. Por outro lado, teria de aturar a presença insuportável de Caroline, sem falar nos pais de Charles, que ela nem conhecia. Ao entrar em casa viu sua irmã Mary sozinha na sala.
- Oi, Mary! Onde estão todos?
- Papai está na universidade. A mamãe, acho que foi até a costureira. E Lydia e Kitty não estão, saíram.
Aproveitando a ausência de todos, Lizzy sentou-se, relaxada, ao lado de Mary. Apesar da dor de cabeça e no corpo todo, estava com saudade da companhia da irmã, pois havia muito tempo que elas não conversavam as sós. Lizzy contou-lhe sobre seu trabalho e a satisfação que era poder fazer o que realmente gostava. Mary, ainda indecisa sobre qual carreira seguir, ouvia atentamente aos conselhos da irmã.
Em seguida, Lizzy levantou-se do sofá e foi até a estante, procurar uma aspirina nas gavetas, aproveitando para espiar se Jane e Charles ainda estavam lá.
- O que está olhando?
- Venha ver! Tá vendo aquele carro vermelho? A Jane está lá com Charles.
- Eles formam um lindo casal!
- Sim. Jane está muito feliz.
Lizzy mexeu nos cabelos lisos e escuros de Mary e perguntou-lhe:
- Você não tem vontade de conhecer alguém especial?
- Não tenho certeza, Liz. – respondeu ela, um tanto desanimada. – Acho que isso só acontece com meninas lindas como a Jane, você e as outras duas.
- Oh! Não diga isso! – repreendeu Lizzy. – Veja o meu caso, por acaso eu tenho namorado?
- Não tem porque não quer!
- Não é só por isso. Acho que ainda não encontrei a pessoa certa. – lamentou Lizzy, olhando novamente em direção ao carro.
- Acho que Lydia está namorando alguém. – contou Mary.
- É alguém da escola?
- Acho que não. Ela não quer saber de nenhum colega de escola, acha todos uns pivetes! Outro dia, as escutei cochichando, você sabe, elas nunca me contam nada e vivem de segredinhos. Mas, desta vez, acabei ouvindo um comentário, onde Kitty dizia que o namoro de Lydia estava durando.
- Nossa! Então parece ser sério, mas ela nem nos apresentou o rapaz.
- Não. Acho que nem mesmo a mamãe sabe sobre isso. Afirmou Mary. - Também sei que eles estavam se falando muito por telefone, só que o rapaz ligava para ela a cobrar. Quando o papai recebeu a conta de telefone, parece que ficou furioso, mas mesmo assim, Lydia não contou nada pra mamãe.
- Essa história é muito estranha. Lydia sabe que tem liberdade para namorar, nossos pais nunca proibiram nada. Não entendo todo esse mistério, a não ser que haja algum problema com o rapaz.
- Desconfio que ela tenha conhecido esse rapaz durante o baile de carnaval.
- No baile de carnaval?
- Sim, naquele baile que vocês foram. Quando voltaram, Lydia trouxe um papelzinho com um número de telefone, mas manteve segredo até mesmo com Kitty. Depois disso, todas as tardes, sempre quando a mamãe não estava em casa, ela ficava horas no telefone.
Lizzy lembrou-se daquele baile conturbado, com tantos infortúnios que ocorreram, não era possível prestar atenção em sua irmã Lydia. Nem sequer lembrava o rosto dos rapazes que as acompanharam no camarote.
- Sabe, sempre me preocupei muito com Lydia e Kitty, porém mais com Lydia. Ela ainda é muito jovem e não é nada responsável. Também acho que a mamãe permite coisas demais a ela. – opinou Lizzy. – Imagina que na idade dela, nem eu, nem Jane saíamos assim. Não íamos a bailinhos e nem ficávamos até tarde na casa de amiguinhas. – contou ela.
Lizzy abraçou Mary, sentindo sua irmã gelada e agradecendo a confiança, por contar-lhe sobre Lydia:
- Venha, vamos sair daqui, está muito frio. – disse ela, fechando a janela.
Quando sentaram no sofá novamente, ouviram um barulho na porta de entrada. Era Jane. Estava com um brilho de felicidade no olhar. Radiante. Parecia ainda mais bonita.
- Me desculpe, Lizzy! Mas precisava terminar um assunto com Charles. – contou ela. – Estou tão tensa em ir a sua casa amanhã, conhecer sua família. Também fiquei tão feliz que ele a convidou.
- Jane, estou muito feliz pelo convite, mas acho que não devo ir.
- Ah! Lizzy! Eu ia adorar ter a sua companhia. Estou com tanto medo e tão insegura, perto de você tudo parece ser mais fácil.
- Você estará bem, ao lado de Charles.
- Você diz como se já tivesse decidido não ir. É por causa do Sr. Darcy e de Caroline? Sei que não gosta deles, mas podemos evita-los a festa toda, eu prometo!
- Charles foi muito gentil em me convidar, mas realmente não sei se devo ir. Além do mais, não estou me sentindo muito bem, tive dor de cabeça a tarde toda e também estou com uma dor horrível no corpo todo.
- Nossa! Você já tomou um remédio?
- Sim, acabei de tomar uma aspirina, mas ainda não estou me sentindo bem.
Jane abraçou a irmã e percebeu que Lizzy estava quente.
- É melhor ver sua temperatura, acho que está com febre. – disse Jane, colocando a mão no rosto de Lizzy.
Mary foi até o quarto de sua mãe e pegou o termômetro. Lizzy colocou-o na axila, esperando, enquanto admirava o vestido de Jane.
- É simplesmente lindo!
- Gostaram? – perguntou Jane, ao mostrar, orgulhosa, o vestido que acabara de comprar, especialmente para o aniversário da Sra. Bingley. – Vou vesti-lo, já volto!
Quando Jane retornou a sala, suas irmãs ficaram admiradas ao vê-la vestida com aquele tecido tom de pêssego brilhante, misturado a delicadas rendas e volumosos babados no final da saia. Sua pele clara e seus cabelos dourados se harmonizavam a cor do vestido, proporcionando-lhe beleza e elegância.
- Acho que Charles irá se apaixonar ainda mais por você! – disse Lizzy.
- Você está parecendo uma princesa, daquela de contos de fadas! – comentou Mary.
- Nossa! Estou com 38,5 graus. – disse Lizzy, ao retirar o termômetro.
- Precisa se medicar e descansar, Lizzy.
- Você não acha melhor, passar esta noite aqui em casa?
- Não, Jane, não será necessário. Vou para casa.
Mary e Jane acompanharam Lizzy até em casa, a noite estava extremamente fria e úmida. Em casa, Lizzy fez um chá bem quente e se deitou no sofá, enrolada ao cobertor.
Durante a madrugada fria, Lizzy acordou algumas vezes, a febre fazia com que sentisse muita sede e sua garganta dava os primeiros sinais de dor. O telefone tocou antes das oito, fazendo com que Lizzy despertasse assustada. Era a Sra. Bennet. Preocupada com o estado de saúde da filha, comprometeu-se a visita-la e levar um canja para o almoço. Lizzy voltou a dormir e só acordou com o barulho do interfone, quando sua mãe chegou.
A Sra. Bennet chegou à casa de Lizzy, acompanhada de Jane e Mary, trazendo com ela, uma sacola cheia de comidas e remédios.
- Oh! Minha filha, o que houve? Passei na farmácia e te comprei uns remedinhos para gripe, também trouxe canja, mel e aqueles biscoitinhos que você adora.
- Obrigada, mãe. Acho que peguei uma gripe, minha garganta doí muito.
- Isso é porque você não deve estar se alimentando direito, minha filha. Só pensa no trabalho e nos estudos e esquece em se cuidar. Lá em casa, pelo menos você comia direitinho, mas aqui, não tem ninguém pra cuidar de você.
- Mãe, agora não é hora pra sermão, vamos ver se Lizzy está com febre. – disse Jane, pegando o termômetro.
Com exceção de Jane, que tinha hora marcada no salão de beleza, a Sra. Bennet permaneceu no apartamento de Lizzy durante o dia todo. Mais tarde, Mary saiu, se encontrando com Jane no salão. Havia decidido cortar seu cabelo bem curtinho, assim como, a personagem de Gloria Pires, na novela Água Viva.
Ao iniciar a noite, Jane começou a se arrumar para a festa, antes que Charles chegasse para pegá-la, telefonou para Lizzy. Seus pais estavam com ela, naquele momento, a febre havia baixado, porém estava bastante debilitada. Desejou a irmã, toda a sorte do mundo, reforçando sua confiança e coragem.
Às noves horas da noite, quando seus pais retornaram a casa, Lizzy deitou em sua cama e olhou para o relógio. Imaginou a bela Jane entrando no carro de Charles e seguindo para a festa. A casa dos Bingley era daquelas iguais aos filmes de cinema. Na entrada da mansão havia muita agitação por conta dos luxuosos carros que chegavam e da correria dos manobristas que se encarregavam em estaciona-los. A fachada cinematográfica anunciava uma mansão suntuosa, com seu fabuloso jardim todo iluminado. Ao entrar na primeira grande sala, percebia-se a decoração requintada e, ao mesmo tempo, exageradamente ostentosa. Nada parecia ser igual ao que Jane imaginava. A emoção aliada ao medo tomava conta da sua face, dos seus sentidos, do seu corpo todo. Era muita informação para assimilar em todo o ambiente, as obras de arte, a decoração, os convidados com seus trajes glamorosos, os garçons que circulavam feito bailarinos com suas bandejas em mãos, o som da grande orquestra. Tudo isso e muito mais compunha um cenário majestoso e extraordinário. Jane caminhava pela sala, de mãos dadas com Charles, chamando a atenção de boa parte dos convidados e tornando a experiência de namora-lo, aterrorizante para alguém tão simples como ela. Tudo era tão exuberante que Jane distraiu-se, do que mais temia, conhecer os Srs. Bingley.
A Sra. Bingley estava rodeada por casais de amigos e segurava uma taça de champagne quando foi surpreendida pela presença de Jane ao lado do filho. Ela sabia sobre Jane, pois Charles havia dito que levaria sua namorada e, claro que, Caroline havia se encarregado de dizer-lhe tudo sobre ela, exceto o detalhe de que já haviam namorado anteriormente, pelo simples fato de ter prometido sigilo, desta história, ao Sr. Darcy. Sem querer discutir com o filho, às vésperas de sua festa, Sra. Bingley autorizou a presença de Jane, porém isso não significava que era a favor do relacionamento ou mesmo que não usaria sua força para acabar com a união do casal.
Antes mesmo que Jane pudesse avista-la, Sra. Bingley examinou-a minunciosamente, cada detalhe de seu traje, sua postura e sua beleza. Sua atenção à Jane era cuidadosamente sutil a ponto de continuar focada nos assuntos supérfluos que envolviam seus convidados. Jane, por sua vez, também tivera oportunidade em vê-la antes da apresentação formal. Sua impressão era de uma mulher poderosa, autoritária e extremamente sofisticada, seus cabelos loiros traziam um penteado, que a tornavam mais imponente do que era. Trajava um impecável vestido azul de pedraria e estava ornamentada por joias de causar inveja a realeza. Em seu olhar havia arrogância e prepotência aliado a um sorriso cínico e fantasioso, porém convincente a seus amigos. Estava ao lado de Caroline, cuja semelhança era evidente. Quando, finalmente se aproximaram, Charles, muito orgulhoso, porém receoso, apresentou-lhe Jane a mãe. Sem apoio de Caroline, que era mais uma na plateia de curiosos que se formara ao lado da Sra. Bingley, Jane e Charles aguardavam ansiosos pela reação da anfitriã.
- Minha cara, é com imenso prazer que a recebo em minha casa.
Charles sorriu, olhando para Jane.
- O prazer é todo meu. Sua casa é muito bonita, Sra. Bingley.
- Disso, estou certa e não seja tão modesta. – disse ela, ironizando o elogio de Jane. - Estou certa de que meu filho, Charles, fará com que fique a vontade durante a minha festa. – completou ela, dando como concluída a saudação, dando as costas à Jane.
- Quero desejar-lhe felicidades pelo seu aniversário.
- Obrigada, querida. – respondeu ela, sem dar-se ao trabalho de se virar, continuando a dar atenção aos seus convidados.
Sem demonstrar a Jane, Charles que estava bastante apreensível sobre a receptividade de sua mãe em relação à Jane, parecia relaxar após a apresentação.
- Venha, vamos beber alguma coisa! Acho que merecemos!
Ainda faltava apresentar Jane ao Sr. Bingley, no entanto, Charles sabia que seu pai devia estar ocupado, tratando de negócios com algum convidado. Enquanto saboreavam o champagne e admiravam o som da orquestra, Charles viu seu pai na companhia da Sra. Catherine de Bourgh, a importante banqueira e tia de seu amigo Sr. Darcy, porém hesitou em interromper a conversa entre os dois, sabendo que a receptividade de seu pai não seria boa. Novamente, sem revelar à Jane, seus sentimentos, preferiu conter a vergonha que sentia pelo comportamento de sua família.
Enquanto saboreavam o champagne e admiravam a orquestra, Charles preferiu não dividir seus pensamentos com Jane. Estava um tanto envergonhado pelo comportamento de sua família. Sabia que estava sozinho, até mesmo Darcy, seu melhor amigo, não apoiava seu namoro. Nem sempre o dinheiro facilitavam as coisas, na verdade, Charles sentia-se aprisionado.
Após duas ou três taças de champagne e de ter experimentado caviar, Jane sentia-se mais relaxada para desfrutar a festa, deslumbrada com a riqueza ao seu redor, ao passo que Charles, sentia-se mais determinado a livrar-se das imposições de sua família, queria, mais do que nunca, ter seu próprio dinheiro e poder viver a vida a sua maneira. Quando, finalmente, o Sr. Darcy chegou, preferiu a companhia do amigo e de Jane, que estavam num ambiente mais reservado, longe dos olhos de boa parte dos convidados, incluindo Caroline.
- Boa noite, Sr Darcy! É um prazer vê-lo. – disse Jane, segurando mais um taça de champagne.
- Boa noite! – respondeu ele, olhando ao redor. – Esperava encontrar sua irmã.
- Lizzy está doente, desde ontem está com febre e dor no corpo todo. Acredito que seja gripe.
- Ela foi ao médico?
- Não, mas minha mãe passou o dia em sua casa, cuidando dela.
- Diga a ela, que não será necessário ir para o escritório, na segunda-feira, caso ainda esteja doente.
- Sim, claro, lhe darei o recado.
Não demorou muito para que Caroline encontrasse seu namorado, que contra a sua vontade, foi carregado até a sala principal. A sós, Jane e Charles, bailavam ao som da orquestra e transformavam o momento divertido em algo muito especial. Enquanto Jane rodopiava erguendo a cabeça para cima, pode avistar o magnífico lustre de cristais que parecia girar junto com ela, emitindo um brilho extraordinário.
- Isso tudo, parece um sonho! – exclamou ela.
Ao olhar em volta, Jane pode ver alguns casais que, assim como eles, também se divertiam bailando, até que viu o Sr. Darcy em pé ao lado de Caroline.
- Sr. Darcy não dança?
- Só quando minha irmã pega no pé dele. Pelo visto, hoje, ela está ocupada com outras coisas. – respondeu Charles rindo. – Darcy é muito reservado, tem esse jeitão, mas é um bom e fiel amigo. Ele amadureceu muito depois que seu pai morreu. Teve que cuidar de tudo sozinho, pois sua mãe entrou numa grande depressão, chegou a ser tratada fora do Brasil e sua irmã ainda é muito jovem. – contou ele.
Jane não respondeu, apenas fez uma expressão de lamentação.
- Darcy está muito satisfeito com Lizzy no escritório, a todo o momento, ele a elogia.
- Ela deveria saber disso.
- Por que diz isso, ela reclama muito de Darcy? – brincou ele.
- Oh! Não. – respondeu Jane, tentando não revelar a Charles o real sentimento de Lizzy em relação ao Sr. Darcy. – Na verdade, ela está muito animada com o trabalho, tem aprendido muitas coisas novas e parece satisfeita com a profissão que escolheu, ela adora o trabalho!
- É difícil Darcy admirar alguém. Lizzy parece ter despertado isso nele. Sabe, apesar de Darcy namorar minha irmã, acho que eles não combinam. – revelou Charles, causando um ar de surpresa em Jane.
- Mas, eles estão noivos.
- Que nada! Isso é invenção de minha irmã. Eles namoram faz pouco tempo, apesar de conhecermos Darcy desde pequenos. E tudo aconteceu por insistência dela, se dependesse dele, ainda estaria solteiro. Darcy é muito exigente.
Charles olhou em direção a Darcy e observou seu pai cumprimentando-o, ainda acompanhado de Catherine e de sua jovem filha, Anne, sem revelar nada a Jane. Charles sabia o quanto seu pai admirava o Sr. Darcy, não só pelo fato de ele ter uma profissão respeitável e administrar os negócios da família, mas também, por ter duplicado a fortuna da família em pouco tempo. A conversa durava entre eles, mas Charles preferiu continuar dançando com Jane, evitando se aproximar. De repente, a música foi interrompida, a pedido da Sra. Bingley, que anunciava que o jantar iria ser servido num grande espaço, à beira da piscina. Apesar do frio, os convidados foram caminhando pelo jardim, através de uma trilha iluminada por pequenas luzes pisca-pisca, iguais as usadas nas festas natalinas. Ao longo do percurso, era possível notar o quão esplendoroso eram os fundos da casa. As piscinas iluminadas davam um ar mais ostentoso ao ambiente naturalmente luxuoso com seu extenso deck de madeira. As imensas tendas brancas foram montadas num amplo espaço, onde foram dispostas as mesas minunciosamente decoradas com arranjos naturais e toalhas de seda. Aos poucos, os convidados foram ocupando as mesas. Jane sentou-se à mesa ao lado de Charles e, assim que, o Sr. Darcy percebeu, segurou a mão de Caroline, dizendo-lhe que se sentariam com eles, para seu completo desgosto. Ainda, convidou sua prima Anne para unir-se a eles.
Havia muitos fotógrafos na festa, porém Jane reparou que o Sr. Darcy se esquivava da maioria das fotos, ao contrário de Caroline, que estava sempre sorrindo e fazendo poses. Irritada com a atitude do namorado, Caroline pediu-lhe que fosse mais sociável com a imprensa, afinal as fotos não serviriam apenas para ilustrar o álbum da família, mas também para estampar capas e matérias das principais revistas.
- É exatamente por isso que não quero aparecer. Acho ridículo postarem uma foto minha, jantando, por exemplo.
- Ora, Darcy, lembre-se que você é um dos empresários mais importantes do país, um formador de opinião, todos querem saber notícias suas.
- Que me entrevistem em meu escritório, então.
Caroline preferiu não prosseguir com a discussão, porém sua expressão discordava com a opinião dura do namorado.
Os pratos começaram a ser servidos e Jane pode notar que nada lhe parecia familiar, a começar pelas dezenas de talheres e taças diferentes colocados em sua frente. Além disso, deveria ter cuidado aos olhos críticos de Caroline que aguardava ansiosa por algum deslize. Apesar de faminta, Jane limitava-se a experimentar delicadamente os pratos que lhe eram servidos e com a discreta ajuda de Charles, conseguia superar a dificuldade em usar os talheres adequados. Ao terminarem toda a cerimônia do jantar, Jane estava exausta, com tamanho esforço para não cometer nenhuma gafe e, ainda, tentando agradar a Caroline. Apesar de tantos pratos servidos ainda sentia fome e uma ligeira tontura por conta do excesso de champagne.
Após retornarem a sala principal, os convidados foram surpreendidos com a decoração da mesa de doces. Era inacreditável a perfeição na apresentação dos mini doces franceses. De repente, as luzes se apagaram e um garçom conduzia um carrinho com o bolo de aniversário em quatro níveis, todo decorado com glace em forma de flores, até a Sra. Bingley. Todos homenageavam, eufóricos, a grande anfitriã, cantando Parabéns a Você.
De fato, a noite transformara Jane, provocando novos sentidos e ampliando sua mente para um mundo nunca antes vivenciado por ela. A riqueza, de fato, era algo tentador, que transformava atitudes e desafiava valores. As emoções experimentadas durante a festa castigavam o seu corpo, levando-a a uma sensação exaustiva. Logo após a Sra. Bingley soprar suas velas, pediu a Charles que a levasse para casa. A despedida entre Jane e a Sra. Bingley fora mais fria e menos cordial. Naquele momento, ambas sabiam para qual rumo direcionar suas forças, certamente a mãe de Charles forçaria o filho a desistir do romance tolo, enquanto que para Jane, o que importava era ter o amor de Charles.
Na semana seguinte, Caroline retornou a casa com revistas e jornais, sentou-se ao lado de sua mãe e juntas folheavam as páginas à procura da cobertura da festa. A revista Manchete chegou a publicar cinco páginas inteiras, com muitas fotos e um texto onde só havia elogios à família Bingley.
- Ouça isso, Caroline! "Uma das mais importantes banqueiras do Brasil, Catherine de Bourgh compareceu a festa para homenagear a Sra. Bingley." – disse ela, lendo orgulhosa, um trecho da reportagem. – Veja a foto, não ficou de mais? Se bem que Cath deveria procurar rapidamente um cirurgião plástico!
Na foto posavam o Sr. Bingley ao lado da esposa e de Catherine, ainda estavam Sr. Darcy, Caroline e Anne.
- Darcy não tem jeito pra fotos! – reclamou Caroline, ao ver o rosto do namorado abaixado.
- Escuta esse elogio! "A Sra. Bingley é a melhor anfitriã de todos os tempos!" – lia Caroline orgulhosa de sua mãe. – Essa festa vai ficar pra história, mamãe. Todas suas amigas irão tentar imitá-la, mas não conseguirão!
- Veja, aqui tem a foto do casal mais lindo da festa! – disse Sra. Bingley apontando para uma imagem de meia página de Caroline e Sr. Darcy.
- Ora, mamãe! Darcy não leva jeito pra essas coisas. Veja sua cara, nem esta sorrindo e também não parece nem um pouco romântico ao meu lado. – observou Caroline. – Com certeza, nenhuma de minhas amigas sentirá inveja de mim!
- Não diga besteiras! Ao lado de Darcy você sempre terá o respeito e a inveja de todos. Ele sem dúvida é o melhor partido da cidade e, talvez do nosso país. Muitas adorariam estar no seu lugar, mesmo com essa cara murcha que ele está na foto.
- Mas, às vezes ele é tão distante.
- Todo homem quando tem muitas responsabilidades é assim. Seu pai, por exemplo, sempre foi assim. Com o tempo, a gente até gosta dessa distancia, podemos sair com as amigas, fazer compras e, ainda, falar mal deles.
- É que sinto falta de ter alguém do meu lado, ligando pra me dizer bom dia ou pedindo minha opinião pra qualquer coisa. Darcy nunca age assim, sempre sou eu quem liga, sou eu quem o procura. Até mesmo este anel, que eu digo pra todo mundo que é de noivado, fui eu quem comprou. Ele jamais tocou no assunto de ficarmos noivos.
- Sou uma mulher muito experiente, vou pensar em algo para estimular a sua relação com Darcy. Enquanto isso, não ouse desanimar em estar ao lado dele. Lembre-se que ele é o melhor partido para você!
Após o desabafo de Caroline, continuaram folheando as revistas. Reparavam nos vestidos e nas joias das convidadas. Sabiam até que o vestido que certa socialite usara, era repetido. De repente, Caroline percebeu uma pequena foto, onde aparecia Charles ao lado de Jane, uma pequena nota dizia: "O herdeiro Bingley ao lado de sua bela namorada.".
- Não posso acreditar que eles publicaram isso! – gritou ela, revoltada, mostrando a foto para sua mãe.
- Minha nossa! Esses jornalistas são uns canalhas! Como publicaram isso sem minha autorização?
- Ela e sua família são uns oportunistas! Tive o desprazer de conhecer essa gente no carnaval, sei do que estou falando! Sua mãe não conseguia nem disfarçar o quanto adora dinheiro, se comportaram feito animais!
- Irei falar com seu pai sobre isso. Veremos se ele continuará como herdeiro. – disse Sra. Bingley olhando para a foto.
- Essa gente invadiu o nosso meio, a irmã dela trabalha no escritório do Darcy. – contou Caroline.
- Que coincidência! Me responda, Caroline, a irmã dela é bonita como ela?
- Não. Ela não é bonita e seus modos são grosseiros.
Sem revelar a filha, Sra. Bingley desconfiou, por um momento, que a irmã de Jane pudesse ser tão bela como ela, a ponto de poder seduzir o Sr. Darcy. Isso então justificaria o comportamento frio, com o qual ele vinha tratando sua filha Caroline. No entanto, ao saber que a beleza não lhe era característica, respirou aliviada.
