Momentos Íntimos do Sr. Darcy

No meio da madrugada, a porta da mansão se abriu e a claridade da luz invadiu a sala escura. Após uma exclamação de susto, Georgiana, sem compreender o que se passava, aproximou-se do irmão, que estava relaxadamente sentando no sofá:

- Darcy, o que foi? O que está fazendo aqui, no escuro?

- Apenas pensando.

Estranhando o comportamento do irmão, Georgiana decidiu puxar assunto:

- O motorista da tia Catherine acabou de me deixar na porta. O baile estava muito animado, nos juntamos a Charles e sua namorada. Ah! E a sua irmã Lizzy, a estagiária de seu escritório.

- Que bom que chegou. – disse ele, pretendendo encerrar o assunto assim que escutou o nome de Lizzy.

- Posso me sentar? – perguntou ela, olhando para o copo de bebida em sua mão.

- Sabe que é sempre uma boa companhia.

- Digo o mesmo de você, meu querido irmão. Preciso te contar uma coisa, acho que sei o motivo que o levou a ir embora do baile daquela maneira.

Sr. Darcy permaneceu em silêncio, aguardando ansioso pela revelação de sua irmã.

- Você viu George Wickham, não viu? Eu também o vi.

Parecia aliviado ao ouvir a justificativa de Georgiana, no entanto, sabia que precisaria contar-lhe sobre seu interesse por Lizzy. Refletiu, por algum tempo, se este seria o melhor momento de confidenciar um sentimento tão prematuro e reservado.

- Não sei por onde começar, nem mesmo sei se deveria contar isso para alguém.

- Fiquei preocupada com você.

- Eu sei.

- Tudo parecia bem, você estava se divertindo tanto na festa, de repente, do nada, se transformou. Penso que só pode ser por causa de George.

- Não nos falamos durante a festa.

Georgiana ficou em silêncio, apesar de sua pouca idade, sabia manter a calma e esperar que seu irmão lhe contasse sobre sua angustia. Após minutos sem ouvir absolutamente nada entre os dois irmãos, eis que surge, um tom de voz frouxo:

- Acho que gosto de outra pessoa.

A revelação, objetiva e direta, deixou-a um tanto chocada, porém tentou manter a naturalidade, para que ele se sentisse à vontade em revelar sua história.

- Preciso terminar com Caroline, o mais depressa possível, eu não a amo e acho que nunca a amei. Não posso permitir que continue ao lado de um homem que não sente amor por ela. Nem eu quero viver ao lado de uma mulher que não amo.

- Claro, seria injusto demais, com vocês dois. E o que pretende fazer em relação a outra pessoa, a que você descobriu amar?

Sr. Darcy não respondeu a pergunta de imediato, respirou fundo e lançou a cabeça para cima, observando o teto, quase escuro. Lembrou-se de Lizzy e de como era diferente de Caroline. Era vivaz, correta e tantos outros bons adjetivos poderiam compor sua conduta e seu comportamento. Porém, o que mais lhe chamava a atenção era tê-la como inspiração. Ela fazia com que ele pudesse crer que o trabalho no escritório fosse o melhor de todos os trabalhos. Era ela, também, que insinuava, através de suas ideias e opiniões, incluindo suas atitudes, que o dinheiro e o poder não eram as coisas mais importantes na vida.

Georgiana respeitou a pausa feita pelo irmão, permanecendo em silêncio e se aproximando para que pudesse tocar carinhosamente em seus cabelos.

Sr. Darcy fechou os olhos, apreciando as mãos da irmã acariciando seus cabelos, retornando quase que, instantaneamente, aos seus pensamentos. Sentia um profundo tormento, ao pensar sobre os aspectos negativos em amar Lizzy. A começar pelo fato de serem de níveis sociais diferentes, ainda que estivessem em pleno ano de 1980, com avanços significativos na cultura e costumes do país, sabia que isso não repercutiria de modo favorável a sua vida, uma vez que todos esperavam e que, de fato, seria o ideal se unir-se a filha de uma tradicional e honrada família. Os Bennets eram uma família comum, com a reputação assegurada pelo estudioso e respeitável Sr. Bennet, porém ao Sr. Darcy, incomodava sua atitude passiva em relação ao indecente e intolerável comportamento de sua ambiciosa esposa, incluindo de suas duas irmãs mais novas. Ainda que Lizzy destoasse das características mais críticas de sua família, seu mundinho era sua casa, o máximo o bairro onde morava. Nunca havia viajado, convivido com pessoas de culturas diferentes ou frequentado grandes festas ou espetáculos. Desse ponto de vista parecia ser uma mulher qualquer que usava ônibus para trabalhar e estudar e que se molhava quando chovia ao chegar ou sair do trabalho. No entanto, era essa simplicidade que ao mesmo tempo incomodava e fascinava Sr. Darcy. Diferente de muitas outras mulheres que conhecera da alta sociedade, Lizzy era irresistivelmente dona de um conhecimento extraordinário sobre tudo, se comunicava confiante com seus discursos e ideias, que pareciam não condizer com as das mulheres de sua idade. Seus interesses iam além de se casar com um homem rico, como lhe fora ensinado desde pequena, eram eles inovadores e desafiadores, causando admiração às pessoas em sua volta. Ao imaginar-se ao lado dela, as críticas e todos os detalhes constrangedores pareciam pequenos e sem importância. Aquela noite havia sido um desastre, completamente ao contrário do que imaginou, acreditando que ela jamais o aceitaria, já que em nenhum momento esboçara qualquer tipo de interesse ou emoção ao vê-lo.

- Ela só tinha olhos para o George. – murmurou ele, sem querer, ao concluir seu pensamento.

- O que você disse, Darcy?

- A pessoa que acredito amar, acho que não serei correspondido pelo mesmo sentimento.

- Então, é porque ela não te conhece ainda. Veja, o dia está nascendo! – disse Georgiana, apontando a claridade se anunciando através da imensa porta de vidro que separava a sala da parte externa da casa.

- Melhor irmos descansar. – sugeriu ele, levantando-se e estendendo a mão para que a irmã pudesse acompanha-lo.

Seguiu para o seu quarto, refletindo sobre a última frase dita pela sua jovem irmã. "Ainda há esperança.", concluiu ele.

-Descanse Darcy! – desejou Georgiana, ao deixa-lo na porta de seu quarto.

Ele seguiu até a sacada de seu quarto, admirando a bela imagem do nascer do sol. O terreno de sua casa ficava no alto, permitindo-lhe uma visão extraordinária da cidade do outro lado do Rio Pinheiros. Seus olhos percorreram a extensa área da mansão, revelando a quietude daquela manhã fria, através das folhas e flores do exuberante jardim e da água das piscinas, que não se moviam pela falta de vento. Estranhamente, os pássaros não apareceram em seu jardim, como era de costume. Apesar da paisagem harmônica e contemplativa, Sr. Darcy preferiu se acolher em seu quarto. Ainda com a roupa do baile, se deitou na cama, fechou os olhos e recordou do dia em que viu Lizzy pela primeira vez. Estava numa das salas do escritório, quando a viu passar. Nada nela lhe chamara atenção, mas havia uma sensação quase irresistível e inexplicável em observá-la novamente. Enquanto, estava sentada na mesa da sala de RH, preenchendo um complexo formulário para inscrever-se a vaga de estagiária, Sr. Darcy caminhou discretamente até um canto do local onde estava, para que pudesse contempla-la. Lá estava a moça de cabelos longos e escuros, completamente concentrada no que estava fazendo. Mais tarde, solicitou ao gerente de RH, que lhe apresentasse todos os formulários preenchidos pelos candidatos a vaga de estagiário. Além de Lizzy, havia outras duas candidatas mulheres e o restante eram rapazes, num total de oitenta inscritos. Um a um dos formulários foram lidos por ele, naquele dia. O último foi o de Elizabeth Bennet. Facinava-lhe percorrer seus olhos num texto que parecia ter voz, que soava delicada aos seus ouvidos, porém com vigor e forte, o bastante, para expor suas opiniões tão marcantes, dignas e sinceras. Uma escrita quase poética baseada num conhecimento admirável. Daquele momento em diante, sabia que seria ela, a escolhida. No entanto, o que mais lhe causava espanto, é que muitas das opiniões de Lizzy não eram compatíveis com seus pensamentos e conceitos, principalmente sobre as questões sociais. Aos poucos, a memória de Lizzy foi ficando desbotada em sua mente, até adormecer profundamente, ainda com a roupa do baile no corpo.