À Procura de Respostas

Lizzy sequer imaginava o sofrimento e a angústia sentida pelo Sr. Darcy após o baile, apesar da semelhança entre seus sentimentos, ela não sofria por amor e sim, pela decepção de ter acreditado em George. Estava decidida a ir, como de costume, à casa de seus pais e arrancar de Lydia tudo que existia entre ela e George, entretanto não gostaria do envolvimento de seus pais na história, até que soubesse de toda a verdade.

Acordara tarde como todos de sua família, afinal o baile havia varado a madrugada. Muito indisposta com toda a situação, Lizzy preferiu aproveitar a carona de Charles para ir embora. Seus pais e irmãs, acompanhadas por George, continuaram na festa, sendo uma das últimas famílias a saírem do clube.

Ao chegar à casa de seus pais, percebeu que todos estavam ainda muito cansados, principalmente sua mãe e seu pai, que continuavam deitados em seu quarto, Mary e Kitty ainda dormiam e Jane aprontava o almoço junto com Maria, na cozinha. Logo, Lizzy perguntou sobre Lydia e quando soube que já havia saído de casa, ficou desconsertada. Com as mãos na cabeça, pensava em fazer algo, imediatamente, pois desconfiava que sua irmã pudesse estar na companhia de George. Jane percebeu certo ar de preocupação em Lizzy, levando-a para sala, para conversarem longe dos ouvidos de Maria.

- O que está havendo, Lizzy?

- Lydia, só pode estar com ele.

- Ela disse que ia à casa de umas amigas, contar sobre sua festa. Acredito que não esteja mentindo, afinal sabemos como Lydia é exibida.

- Lydia omitiu o tempo todo sobre George, não posso acreditar que esteja na casa de alguma amiga, é mais provável que estejam juntos, nesse momento. Não podemos ser ingênuas, nem com Lydia e muito menos para lidar com George.

- Não é possível Lizzy! Por que Lydia mentiria para nós? A escolha de George como príncipe de gala nos pegou de surpresa, mas talvez essa fosse à intenção dela, por isso não nos falou nada. Além do mais, ela sabia que você estava interessada em George, acho que ficou com medo de contar. Não entendo porque você e Charles se incomodaram tanto com a presença de George. Lembro-me que você não poupava elogios a ele.

Lizzy olhou expressivamente à Jane. De fato, era bondosa demais para enxergar o quanto as pessoas, às vezes, agiam de maneira perversa. Cabia a ela contar à irmã o que sabia sobre George, incluindo o modo sarcástico que a tratou no baile. Quanto a reação de reprovação esboçada por Charles, era, certamente, para apoiar o amigo, Sr. Darcy.

- Não vou negar que existiu um grande interesse de minha parte, mas isso já passou, não tínhamos mais nada a ver um com o outro, George havia me confidenciado coisas de sua vida, sentia muita pena dele, mas após ter deixado o escritório, deixou também de ser aquele rapaz carismático, generoso, divertido e inteligente pelo qual admirava. Ele estava amargo e cheio de ressentimentos, suas conversas eram pesadas e, quase sempre, bebia demais. Meu apreço por ele foi se acabando ao perceber que era fraco o suficiente para se entregar as injustiças do Sr. Darcy. Ele deveria ter lutado pelos seus sonhos, ter dado a volta por cima, mas não foi isso que aconteceu.

Lizzy deu uma pausa, mas sem encarar Jane, continuou a falar:

- Agora, o fato que me preocupa é saber o que existe entre eles. Lydia é nossa irmã caçula, acabou de completar 15 anos, não sabe nada sobre a vida e sabemos que sempre agiu como uma tola, sem responsabilidades e sempre bancando a mulher fatal pra cima de seus amiguinhos. Acontece que George não é um de seus amiguinhos imaturos do colégio, George é um homem suficientemente maduro, pra não dizer um cafajeste!

- Como assim Lizzy? O que sabe sobre ele?

- Ele é homem. E acredite, um homem muito diferente do que eu imaginei que fosse. Como pude ser tão tola? – disse Lizzy, lamentando-se. – Ontem, durante a única vez em que estivemos juntos, questionei ele sobre Lydia. Ele foi grosseiro, me tratou com certo sarcasmo e, ainda, menosprezou nossa amizade. Jogou na minha cara que nunca o procurei, apenas quando precisei naquele lance da pizzaria. Quem armou em chama-lo na pizzaria foi Charlotte, eu nem sabia de nada. Sentia seu ódio por mim, assim como sentia seu ódio ao falar sobre o Sr. Darcy. Era o mesmo olhar repugnante. Na verdade, já nem sei se tudo o que me contou sobre o Sr. Darcy é, de fato, real. Estou muito confusa e muito preocupada com Lydia.

- Isso é terrível!

A determinação em esclarecer toda essa história, fez com que Lizzy lembrasse de que tinha os telefones de George, da pensão em que morava e do escritório de contabilidade em que trabalhava. Pegou o cartão de dentro de sua carteira e decidiu telefonar imediatamente para a pensão. Jane, ao lado, tentava acompanhar a conversa de Lizzy ao telefone.

- Alô? – atendeu uma voz masculina.

- Bom dia, eu sou tia de George e preciso falar com ele. – disse Lizzy, imitando a voz de uma senhora.

- George?

- Sim. George Wickham, ele mora na pensão.

- Morava. Não mora mais. E, nunca mais deve aparecer por aqui. Eu mesmo expulsei esse desgraçado daqui. Além da dívida que acumulou aqui com os aluguéis vencidos, trazia mulher pra se deitar com ele.

Chocada com as palavras rudes ditas pelo homem, Lizzy desligou o telefone.

- O que houve, Lizzy? Você está pálida! – perguntou Jane, muito preocupada.

Antes de responder, decidiu contar a Jane apenas o suficiente para que não se assustasse:

- George não mora mais lá.

Seus pais haviam se levantado e apesar do almoço estar pronto, Maria lhes serviu café. A Sra. Bennet estava maravilhada com o baile da filha, afinal tudo havia acontecido dentro dos conformes. Lydia estava perfeita em seu traje e seu príncipe de gala era um mulato elegante, bem vestido e falava muito bem. Inclusive, o fato de ter debutado sua filha no mesmo baile onde Catherine de Bourgh também debutava sua única filha, seria assunto obrigatório, para se gabar, frente às amigas e conhecidas. Porém, nem Sr. Bennet nem Jane e, muito menos, Lizzy estavam dispostos a ouví-la comentar suas opiniões sobre o baile. Logo, Mary e Kitty acordaram e foram para sala, ainda vestindo os pijamas.

- Lydia ainda está dormindo? – perguntou Sr. Bennet.

- Não, papai. Ela se levantou e saiu. Disse que iria visitar algumas amigas para contar-lhes sobre o baile. – contou Jane.

- Deve estar tão emocionada, que mal conseguiu dormir, pobrezinha! – concluiu a Sra. Bennet. – Certamente, estará de volta antes do almoço.

Lizzy escutava a conversa sem se manifestar, não lhe saia da cabeça as palavras chocantes que o dono da pensão havia dito. Preferiu se refugiar no quarto de Jane, onde as duas pudessem ficar mais à vontade.

- Sei que não é a hora, mas eu e Charles estamos combinando em viajar no próximo fim de semana.

- Que legal! Pra onde irão?

- Para Campos de Jordão. A família de Charles tem uma casa lá e ele pensou que seria legal irmos, ainda está fazendo um friozinho. Você gostaria em nos acompanhar?

- Nem pensar. Não gostaria de ficar segurando vela, ainda mais num lugar tão romântico.

- Charles pediu para que eu convidasse quem quisesse, pois a casa é muito grande. Talvez a gente nem se encontre por lá.

- Não seria má ideia. Iria descansar o fim de semana inteiro!

- Então pense com carinho no meu convite.

- Me alegra ver que a família de Charles não se opôs ao namoro de vocês.

- De fato, eles não proibiriam Charles de nada, no entanto, me ignoram como se não existisse.

- Isso a chateia?

- Não muito, prefiro viver longe daquele mundo. Não me sentiria bem em acompanha-los em todos os eventos que costumam frequentar, nem mesmo teria como bancar as roupas, os sapatos, o salão de beleza, etc., etc., etc.

- E Charles? O que anda fazendo?

- Ele está muito animado com seu novo negócio! Parece que tudo está caminhando bem, em breve, ele terá seu sonho sendo realizado, graças ao Sr. Darcy! Charles poderia ter se juntado a ele em qualquer um de seus negócios, no entanto, foi o Sr. Darcy quem o incentivou a fazer algo que de fato lhe desse prazer. Charles sempre gostou de pilotar, mas sua família nunca o apoiou. Agora, terá sua própria escola de pilotagem de kart!

Lizzy encarou Jane, percebendo em sua feição, que tinha uma grande admiração pelo gesto do Sr. Darcy. Lizzy, por sua vez, reconhecia que a atitude dele era nobre o bastante para que Charles pudesse realizar seu sonho profissional, pessoal e afetivo. Para ela, o mais importante disso tudo, era a postura favorável do Sr. Darcy em relação ao romance do casal, diferente dos Bingley e, mesmo, da opinião de sua própria namorada. Mais uma vez, parecia que Lizzy havia se enganado em relação ao Sr. Darcy, percebendo certo descaso ao ver Charles, em sua festa de aniversário, junto com Jane. Porém, ainda era cedo demais para que Lizzy pudesse enxergar de maneira clara, os sinais que estavam surgindo à sua frente.

Lydia chegou a casa, apenas após o almoço quando seus pais, ainda cansados por conta do baile, descansavam no quarto. Suas irmãs também estavam em seus quartos, dormindo após terem feito seus comentários, quase que intermináveis, sobre a festa. Lizzy preferiu permanecer na sala, sentada na poltrona de seu pai, aguardando a irmã. Sabia que seria o momento oportuno para conversarem, pois todos estavam dormindo. De repente, ouviu a porta de entrada se abrir, finalmente era ela, Lydia.

- Lizzy?

- Olá, Lydia! Acho que precisamos conversar.

- Agora? Estou faminta e muito cansada também, quase não dormi.

- Eu sei, esteve até agora com suas amigas, imagino.

- Sim.

- Nossa conversa não deve ser longa, são só algumas perguntas.

- É sobre George?

- Sim, é sobre George. Quero que seja sincera comigo e responda o que há entre vocês dois.

- Somos apenas amigos. Queria que meu príncipe de gala fosse um homem, bonito e charmoso, assim como ele. Não queria que fosse um garotinho fedendo a leite!

- Você está me dizendo que não há nada entre vocês?

- Por que quer saber? Ainda gosta dele?

- Não! Não é isso! Quero que tome cuidado com ele, George não me parece ser uma boa companhia para você.

- Ora, Lizzy! Para você, ele era uma boa companhia, por que para mim não serve?

- Você tem apenas 15 anos!

- Não me venha com esse papo, acredite, conheço mais sobre homens do que você!

Lizzy estava assustada com a atitude grosseira e com a revelação de sua irmã. Há tempos, não conversava com Lydia, não fazia ideia do quanto havia mudado. Apesar de tola, ela sempre foi carinhosa e, mesmo que não seguisse os conselhos das irmãs mais velhas, sempre soube escutá-los com certa educação. Mas, agora, parecia estar fora de controle.

- Sei onde esteve hoje de manhã. Foi com ele, não foi? Sei também que George não mora mais na pensão, parece que foi expulso de lá, pois não pagava o aluguel e porque recebia visita íntima em seu quarto.

A declaração de Lizzy causou em Lydia um mal estar aparente, um suor repentino parecia brotar de seu rosto cândido. Logo, Jane, que era a única que estava acordada, ao escutar o tom de voz alto de Lizzy se dirigiu até a sala.

- O que está havendo?

Jane presenciou a irmã ajoelhada no chão, choramingando baixo, até que começou a sentir-se mal.

- Preciso ir até o banheiro, me ajude, Jane! – disse Lydia, colocando a mão na boca.

Lizzy acompanhava tudo de perto, acreditando que Lydia estivesse fazendo manha com a intenção de fugir da conversa. Porém, Jane ajudou, prontamente, a irmã, que chegando ao banheiro, não permitiu que entrasse, trancando a porta por dentro. Aflita, Jane batia levemente na porta, pedindo-lhe, em voz baixa, que a deixasse entrar. Mesmo com toda a insistência, ainda que discreta, de Jane, Lydia continuou trancada no banheiro, até Jane se cansar, decidindo retornar a sala, onde estava Lizzy.

- O que aconteceu?

- É pior do que imaginava! – respondeu Lizzy, inconsolável.

O pequeno tumulto fez com que seus pais acordassem, interrompendo a chance de Lizzy prosseguir sua conversa com Lydia. Essa, por sua vez, aproveitou a oportunidade para sair do banheiro e se trancafiar em seu quarto, junto a Kitty.

- Por que tanto barulho? – questionou Sr. Bennet.

- É apenas Lydia, papai. – justificou Jane.

Lizzy ainda preferia não envolver seu pai no assunto, iria tentar contato com George, amanhã, no telefone do escritório onde trabalhava.