Fim de Semana em Campos do Jordão

Dentro do ônibus, Lizzy observava seu rosto num pequeno espelho, que pertencia a um estojo de maquiagem. Estava com enormes olheiras abaixo dos olhos, resultado de tamanha preocupação com sua irmã Lydia e das noites mal dormidas durante o fim de semana. Antes de descer do ônibus, uma lembrança repentina lhe veio à cabeça, fazendo-a recordar do que George lhe dissera, há tempos atrás, na pizzaria: "Acho que estou namorando." Lizzy se esforçava ao máximo para lembrar-se do diálogo: "Ele descrevera ela como mandona e geniosa". Foi quando um frio lhe subiu ao peito, ao lembrar, com exatidão, as palavras de George: "Muito mandona, com um gênio terrível, mas é linda e também muito jovem." Era a descrição precisa de Lydia.

Desceu do ônibus, aflita, quase chorando. Não se conformava por ter sido tão tola. Entrou no escritório, tentando esconder sua feição de agonia e tristeza do porteiro que lhe abrira a porta.

- Tão cedo, senhorita Lizzy?

O sorriso forçado demorou a aparecer em seu rosto.

De fato, estava bastante adiantada quando chegou ao escritório, passando pela recepção, ainda vazia. Nem mesmo seus colegas de sala haviam chegado. Sentou em sua mesa apoiando a cabeça em seus braços e permaneceu assim por alguns minutos, até ouvir barulho de passos no andar térreo. Retirou da bolsa, o papel onde George escrevera seus telefones, deixando-o sobre a mesa. Depois, levantou-se indo até o banheiro retocar a maquiagem, antes que alguém pudesse vê-la.

Enquanto isso, Sr. Darcy subia as escadas, indo direto à sala de Lizzy, pois já havia sido informado sobre sua presença. Curioso e disposto a encontra-la, sozinha, na sala, ficou um tanto decepcionado ao ver que o local estava vazio. Sem sinal algum de Lizzy, decidiu entrar, se aproximando de sua mesa. Foi quando viu o pedaço de papel, próximo ao telefone. Era a letra de George. Fechou os olhos, tentando minimizar a decepção que sentia. Em seguida, decidiu verificar atentamente o que havia no papel. Para logo depois, deixar o local com a mesma sutileza que entrara. Naquela manhã, Sr. Darcy não saiu de sua sala e, nem mesmo, atendeu a suas ligações.

Lizzy esperou até que todos de sua sala saíssem para almoçar. Pegou o telefone e discou o número do trabalho de George.

- Alô?

- Alô, por favor, preciso falar com George Wickham.

- Quem está falando?

- É uma amiga dele, meu nome é Lizzy.

- Bem, acontece que George não trabalha mais aqui.

Lizzy fez uma pausa e arriscou perguntar:

- Você era o chefe dele?

- Oh! Não. Éramos apenas colegas de trabalho.

- Aconteceu alguma coisa errada?

- Bem, eu não deveria dar esse tipo de informação, mas George acabou sendo demitido.

- Por favor, é muito importante para mim, preciso saber qual foi o motivo?

O homem que falava com Lizzy ao telefone ficou em silêncio por alguns segundos, deixando-a muito apreensiva.

- Parece que George estava roubando a empresa e foi descoberto pelo dono. Me desculpe, mas não tenho autorização para falar mais sobre isso.

- Eu entendo.

Lizzy ficou chocada com a notícia, agradeceu a informação e colocou o telefone no gancho, arrasada. Em seguida, Charlotte ligou em seu ramal, chamando-a para almoçar, mas Lizzy estava completamente sem apetite e preferiu permanecer em sua mesa, até que seus colegas retornassem. Começou a ler seus processos e, aos poucos, envolveu-se no trabalho sem notar que já estava no meio da tarde. Foi quando resolveu descer até o refeitório.

- Lizzy, você almoçou? – perguntou Charlotte ao vê-la.

- Não me sinto muito bem, estou sem fome.

- O que houve? Está doente?

- Agora já me sinto melhor. Vou me servir de chá. Obrigada, Charlotte. – respondeu Lizzy se dirigindo ao refeitório.

Do 2º piso, Sr. Darcy que, por coincidência, estava no corredor, em frente a sua sala, acompanhava atentamente os passos de Lizzy. Ao ver que ela se dirigia ao refeitório, decidiu descer as escadas a fim de encontra-la. Quando passou pela recepção, Charlotte estranhou sua presença, perguntando-lhe:

- Precisa de alguma coisa, senhor?

- Não, Charlotte, obrigado. – respondeu ele, seguindo para o refeitório.

- Tem certeza? Deseja que levem um café?

- Pode deixar, obrigado.

Quando a porta do refeitório se abriu, lá estava Lizzy sentada no balcão, tomando um chá quente que a copeira acabara de lhe servir.

- Sr. Darcy? – disse ela, surpresa com sua presença.

A copeira, assim como Charlotte, também estranhou a presença do patrão no refeitório, perguntando:

- Deseja alguma coisa, senhor?

- Sim, por favor, uma xícara de café.

Ele olhava para Lizzy sem que conseguisse dizer uma sequer palavra. No entanto, eram tantas coisas que gostaria de dizer e compartilhar com ela, que imaginava, calado, as palavras e sorrisos fluindo da maneira como desejava que fosse.

- Não quer se sentar, Sr. Darcy?

- Não, obrigado, vim tomar apenas um café.

Lizzy continuou a tomar seu chá, achando mais uma vez, a atitude do Sr. Darcy bastante esquisita. Mesmo depois que a copeira lhe entregou a xícara de café, ele continuou em pé, ao lado de Lizzy.

- Devo entregar-lhe até amanhã o relatório que me pediu. – disse Lizzy, tentando estimular um diálogo entre eles.

- Claro, não se preocupe, leve o tempo que for necessário.

Lizzy olhou para ele, estranhando sua reação. Normalmente, era rude e pouco flexível com os prazos estabelecidos.

- Foi tudo bem, no baile de sua irmã, no sábado?

- Sim, foi tudo certo. – respondeu ela, respirando profundamente, ao lembrar-se daquela terrível noite.

- Que bom! – murmurou ele, lamentando-se por achar que ela estivesse na companhia de George.

- Preciso subir, Sr. Darcy e voltar ao trabalho.

- Claro. Fique à vontade.

Lizzy deixou o refeitório, enquanto ele terminava sua xícara de café, aborrecido e frustrado por não ter entusiasmado Lizzy. De fato, Sr. Darcy não estava acostumado a viver esse tipo de sentimento. Normalmente, as pessoas, de modo geral, o assediavam o tempo todo sem que ele precisasse se esforçar. O descaso de Lizzy parecia incomodá-lo profundamente, a ponto de fazê-lo desejar, cada vez mais, estar próximo da mulher que mais admirava.

Durante a semana, Lizzy percebeu que seu mal-estar, em relação a sua irmã e George, havia diminuído, já que seu tempo era preenchido com muito trabalho e estudo. No entanto, todas as noites, quando se deitava, surgiam as lembranças desagradáveis que lhe causavam tanta dor. Sem poder contatar George e evitando abordar, mais uma vez, Lydia, sua decisão seria alertar seu pai, para que ficasse mais atento à sua filha caçula, assim, planejava ter uma conversa amena com seu pai, durante o fim de semana.

Quando a sexta-feira chegou, Lizzy recebeu a ligação de Jane, logo pela manhã, no escritório. A irmã reforçava o convite feito, anteriormente, para passar o fim de semana em Campos de Jordão na casa dos Bingley.

- Jane, me desculpe, com a semana agitada que tive não me lembrei da viagem.

- Lizzy, gostaria muito de sua companhia. Vamos, se anime! Vamos curtir aquele paraíso juntas! Sei que está precisando descansar. Não estaremos a sós, Charles convidou outras pessoas.

- Suas palavras parecem inspiradoras, mas não sei se devo ir.

- Nem eu nem Charles iremos aceitar uma resposta negativa sua, portanto, quero que você saia do escritório hoje e vá direto para casa, arrumar sua mala.

E foi exatamente isso que Lizzy fez. Nem mesmo foi a faculdade. Apesar de saber que deveria tratar o assunto de Lydia com certa urgência com seu pai, decidiu adiar e aceitar o convite tão tentador de sua irmã. A viagem estava marcada para a primeira hora de sábado. Charles e Jane apanharam Lizzy em sua casa e seguiram rumo a Campos de Jordão, pela Rodovia Presidente Dutra, numa manhã ensolarada ao som de The Police.

A mansão dos Bingley ficava numa excelente localização, no luxuoso bairro de Capivari. Após cruzar os enormes portões, rodeados por muros altos, o caminho que se percorria era emoldurado por enormes pinheiros até chegar à frente da casa principal. Com terreno amplo e cercado de verde, a casa principal mais parecia um pequeno castelo normando com direito a um pequeno lago em sua lateral, circundado por enormes plátanos. As sacadas das suítes localizadas no segundo andar e eram evidenciadas por terem seus próprios telhados pontiagudos. Logo acima, harmoniosamente, sobre a casa, ficava o enorme telhado de linhas pontiagudas do mesmo tom avermelhado. Pela janela do carro, Lizzy observava maravilhada, a beleza do lugar. Assim que saíram do carro, um casal de empregados os recebeu na majestosa entrada da casa.

- Sejam bem vindos!

- Olá! Bom dia! – disseram eles.

- Na sala de refeição, próxima ao jardim de inverno, há uma mesa posta, caso estejam com fome.

- Ah! Sim, estamos famintos! – disse Charles.

- Preparei as seis suítes, conforme o senhor pediu. – disse a senhora, para estranheza de Lizzy que achava haver apenas mais um casal entre eles. – Posso acompanha-las até seus quartos. – disse ela, à Lizzy e Jane.

- Ah! Sim, por favor. – respondeu Jane.

Enquanto seguiam para as suítes, alguns cômodos lhes eram apresentados. A sala principal era ampla, com uma belíssima decoração rústica e confortáveis sofás em torno da suntuosa lareira de pedra. Lizzy e Jane chegavam a sorrir uma pra outra, tamanha era sua admiração e encantamento pelo lugar. Havia uma mesa de madeira maciça, ao lado da sala principal, onde segundo a senhora, era servido o jantar. Havia também uma grande adega, que ficava um nível abaixo da sala. Quando subiram ao andar de cima, havia uma aconchegante sala frente a uma pequena lareira, que dava acesso a corredores em ambos os lados, onde estavam localizadas as suítes. A suíte principal lhes foi apresentada e Lizzy ficou extasiada já que nunca vira nada igual antes. "Parece um apartamento!" – disse ela deslumbrada. Havia uma lareira para aquecer o quarto, que tinha uma ampla sala de estar, com closet e uma banheira de hidromassagem que mais parecia uma piscina.

- As outras suítes não possuem lareiras, mas todas têm uma pequena sala de estar com televisor e banheira de hidromassagem nos banheiros. – disse a senhora, fechando a porta da suíte principal e encaminhando-as para seus quartos. – Ah! E é claro, todas possuem belíssima vista!

Certamente, Jane ficaria no mesmo cômodo que Charles, assim a senhora apresentou a acomodação:

- Este é o quarto que Charles costuma ficar. Tentei ao máximo adaptá-lo para receber a senhorita e para que se sinta confortável.

- É lindo! Muito obrigada pela atenção!

A senhora estranhava tantos agradecimentos e elogios já que não estava habituada a recebê-los pelo seu trabalho. Tanto o deslumbramento das irmãs quanto sua simplicidade impressionava lhe.

- Vou hospedá-la na suíte que mais gosto. – disse a senhora à Lizzy, enquanto caminhavam para o outro lado do corredor.

Lizzy tentava conter a emoção e a curiosidade em ver sua acomodação.

- Meu Deus! Que lindo! – exclamou ela, indo direto a sacada para admirar melhor a fantástica paisagem que se tinha dali.

- Gostou? – perguntou a senhora.

- É adorável! – respondeu ela, quase sem palavras, olhando o belo lago com suas águas calmas brilhando sobre a luz do sol.

Do quarto de Lizzy se tinha a visão de toda a extensão do lago, rodeado por plátanos e belíssimas flores. Também se ouvia os patos e outras aves que ali se banhavam.

- Há muito que se admirar por aqui, senhorita. – disse a senhora. – Se tiver oportunidade use sua banheira num final de tarde, a paisagem costuma ser relaxante. Agora preciso ir, tenho muito a fazer.

- Muito obrigada!

Assim que a senhora deixou o quarto, Lizzy continuou a contemplar a paisagem. Dali podia-se ver, ao longe, o Morro do Elefante, aonde se chegava ao topo através do teleférico.

Jane bateu na porta e depois entrou:

- Lizzy, não quero ir embora daqui nunca mais!

As irmãs riram e se abraçaram contemplando juntas a bela vista.

- Parece um sonho! Imagine o papai vendo tudo isso.

- A vista do seu quarto parece ainda mais bela do que a minha.

- Preciso ir ao banheiro.

- Vá, precisamos descer, Charles nos espera lá embaixo para comermos.

Com a porta aberta do banheiro, Lizzy questionou a irmã sobre as seis suítes que a senhora mencionou ter arrumado:

- Quem mais Charles pretende receber na casa?

- Não sei ao certo, sei que convidou um casal de amigos.

- Espero que Caroline não apareça.

- Acredito que não, alias é pouco provável que nem saia de casa.

- O que houve com ela?

- Acabei esquecendo em comentar com você, parece que o Sr. Darcy terminou o namoro entre eles.

Lizzy arregalou os olhos, surpresa, com a notícia, porém não fez nenhum comentário a respeito.

- Pronta? Então vamos descer, estou morrendo de fome!

As irmãs desceram as escadas até a sala principal, onde puderam ver que Charles recepcionava o casal de amigos que acabara de chegar. Após as devidas apresentações, todos se sentaram à mesa farta de pães, queijos, frios, tortas, bolos e doces e diversas frutas.

- Acho que não irei almoçar hoje. – disse Jane.

- Não se preocupe, o almoço será servido mais tarde, ainda não sei se meus amigos virão. – disse Charles, beijando a mão de Jane.

- Quem está esperando, Charles? – perguntou seu amigo.

- Darcy e Fitzwilliam. Mas ficaram de confirmar, só que até agora não telefonaram.

Jane olhou discretamente para Lizzy, pois sabia que a irmã não simpatizava com o Sr. Darcy. No entanto, Lizzy parecia não se importar, apesar da notícia não ter lhe agradado, era melhor ter a presença dele do que a de Caroline. Além do mais, a casa era imensa o bastante para livrar-se dele, caso fosse preciso.

Após a refeição, todos foram para fora da casa, o casal pediu ao senhor, que trabalhava na casa, que selassem os cavalos, para que ele e sua noiva pudessem cavalgar. Enquanto isso, Charles, Jane e Lizzy caminharam até o lago, envolvidos por uma conversa agradável e divertida.

- Não imaginava que havia cavalos aqui. – disse Lizzy, surpreendida.

- Bem, meu pai adora cavalos. Ele tem um haras e um centro hípico no interior de São Paulo. Agora, que ele adquiriu as terras ao lado, pretende trazer mais alguns cavalos para cá, a contra gosto de minha mãe.

De repente, o casal se aproximou deles, a cavalo:

- Charles, este e um belíssimo Puro Sangue Árabe, seu pai está de parabéns! – comentou o amigo de Charles, acariciando o pelo do animal.

- Eles são o xodó de meu pai.

Em seguida, o casal acenou e se dirigiu cavalgando para fora da propriedade.

- Esse meu amigo pratica pólo equestre, na Hípica em São Paulo. Apesar de não curtir o esporte, sempre acompanhava meu pai para assistir aos jogos.

- Nunca assisti a um jogo assim, só pela televisão, nas Olímpiadas de Moscou. – contou Lizzy.

- Se quiser, podemos combinar um dia para irmos até a Hípica e assistir a um jogo.

- Acho que seria interessante!

- Mas, como não estamos em São Paulo e sim em Campos do Jordão, mais tarde, podemos ir até o Morro do Elefante, o pôr do sol costuma ser lindo visto por lá. – sugeriu Charles.

- Acho que terei medo em subir no teleférico. – comentou Jane, ganhando um longo abraço carinhoso de Charles.

Enquanto Jane e Charles curtiam um momento mais íntimo, Lizzy afastou-se, sem que fosse percebida. Caminhou pela propriedade respirando o ar puro e sentindo o calor do sol em sua pele. Chegou até o terreno que George havia falado. Era um espaço imenso, todo gramado e com algumas construções em madeira, que mais lembravam os celeiros dos filmes de faroeste que passavam na TV.

Lizzy estava encantada com o mundo que havia fora do seu dia-a-dia. Tudo aquilo que estava presenciando e desfrutando pertenciam a uma realidade bastante distante da sua, alcançada apenas através dos livros e revistas que lia ou aos filmes que assistia. Com tantas novidades preenchendo sua mente, Lizzy mal conseguia lembrar-se dos problemas que a atormentavam em seu cotidiano, pareciam pequenos demais e sem importância. Ao dar a volta pela imensa mansão, encontrou dois cães imensos isolados numa área cercada, como se fosse as instalações de um canil. Ficou parada em frente ao portão e pode observar suas casas e, até mesmo, alguns brinquedos, como bolas e bichinhos de borracha.

- Eles são mansos. – disse um garoto que se aproximava do portão. – São dogues alemães. Este cinza se chama Barão e este malhado é o Duque.

- Estou impressionada com o tamanho deles!

- Mas eles só querem brincar. Quando não estou na escola, passo um tempão brincando com eles, enquanto meus pais cuidam da propriedade.

- Eles sempre ficam presos?

- Não, só quando tem gente na casa. Quando estamos a sós, eles ficam soltos.

Lizzy se despediu do garoto e prosseguiu seu passeio até chegar à entrada principal da casa. Estava com muita sede e decidiu entrar para beber um copo de água. Ao acessar a sala principal deu de encontro com o Sr. Darcy e seu amigo Fitzwilliam, que haviam acabado de chegar.

- Sr. Darcy.

- Olá, Lizzy! Este é Fitzwilliam, um amigo.

- Prazer.

- O prazer é meu, Lizzy. Já ouvi muito sobre você.

Lizzy ficou em silêncio após a revelação do rapaz, tentava imaginar o que o Sr. Darcy falava a seu respeito.

- Bem, espero, ao menos, que haja alguns elogios.

- Sim e não são poucos! – revelou ele, deixando Lizzy um tanto sem graça.

- Charles e Jane estão lá fora, próximos ao lago. – contou ela. – Estou indo até a cozinha, tomar um copo de água.

- Parece que você se torna tímido ao lado dela. – brincou Fitzwilliam.

- Impressão sua. – respondeu Sr. Darcy, tentando negar a impressão do amigo.

Antes que Lizzy retornasse da cozinha, Charles e Jane surgiram na sala. Todos se saudaram e Charles sentou-se em frente ao som, colocando uma fita K7 do Rolling Stones.

- Essa é quente, Darcy! Um amigo trouxe para mim da Inglaterra, no mês passado. – contou Charles, segurando a caixinha da fita Emotional Rescue.

- Stones é sempre muito bem vindo! – disse Fitzwilliam.

Quando Lizzy retornou a sala, sentou-se próxima ao Sr. Darcy, enquanto escutavam a canção She's So Cold.

- Fez uma boa viagem? - perguntou Sr. Darcy a Lizzy.

- Sim. Não sabia que viria.

- Na verdade, decidi na última hora. Precisava descansar um pouco e aqui é o melhor lugar.

- Darcy, já convenci Fitzwilliam a nos acompanhar num passeio ao Morro do Elefante, você vem? – perguntou Charles, empolgado.

- Você me conhece, suficientemente bem, para saber a resposta.

- Ora, Darcy! Vai ser divertido. – insistiu Charles.

- O que há de errado em fazer tal passeio? – questionou Lizzy, curiosa.

- Não me sinto bem fazendo passeios, digamos, populares demais, como esse. Sem contar que sempre há filas!

Jane ficou apreensiva, achando que a irmã fosse responder, expondo sua opinião de maneira indelicada. Mas Lizzy ficou em silêncio, guardando para si, sua opinião de que o Sr. Darcy era o homem mais arrogante que conhecera.

- A letra dessa música é a uma declaração de amor! – revelou Fitzwilliam. – Vejam só! "I'm so hot for her and she's so cold. She's so cold but she's beautiful though." Genial! O cara estava louco por ela e ela não estava nem aí!Essa outra parte é ainda melhor, o cara diz que ela vai envelhecere ninguém saberá o quanto foi bela…"When you're old, Nobody will know that you was a beauty, A sweet sweet beauty A sweet sweet beauty, but stone stone cold."

- Ainda bem que eu não sofro desse mal. – disse Charles referindo-se ao amor correspondido por Jane.

- A letra me parece um tanto machista. Acho que ele não está interessado em viver um romance, dessa forma, ela só pode trata-lo assim, friamente. – disse Lizzy, atraindo para si a atenção de todos.

Sr. Darcy olhou para Lizzy admirando suas palavras, reservadamente.

Os amigos de Charles logo retornaram a casa e o almoço foi servido, assim que saíram do banho. O almoço foi bastante descontraído e com assuntos bastante diversificados. Falavam sobre viagens, karts, cavalos e carros. Apesar das conversas girarem em torno de temas não muito familiares a realidade das irmãs, Lizzy parecia não se intimidar em participar, dando suas opiniões e mostrando seus conhecimentos, mesmo que esses, na maioria das vezes, fossem apenas teóricos. Já Jane, buscava consolo nos abraços do amado.

Quando o fim da tarde se aproximava, Charles convocou a todos, irem ao Morro do Elefante, observar o pôr do sol. O casal de amigos preferiu ficar e descansar e Sr. Darcy se recusou a acompanha-los. Para se chegar ao topo do morro, era necessário subir através do teleférico, localizado no centro de Capivari. Ao contrário do que o Sr. Darcy havia comentado, não havia filas, já que era apenas um final de semana comum e não estavam na alta temporada.

- Acho que a desculpa que o Sr. Darcy arranjou não funcionou desta vez, não há fila alguma aqui. – disse Lizzy.

- Esquece o Darcy, acho que ele tem medo de altura. – brincou Fitzwilliam.

A cadeira do teleférico era unitária, não sendo possível passear as alturas em duplas, para desespero de Jane. À medida que a cadeirinha subia morro acima, podia-se ouvir os gritos de pavor de Jane. Lizzy, que havia sido a primeira a embarcar, desfrutava como ninguém da aventura, sentido a brisa gelada em seu rosto, enquanto contemplava o céu ainda iluminado pelo sol. Mesmo antes de chegar ao topo, lá do alto, podia se ter uma visão fantástica da cidade, que mais parecia um cenário de filme europeu.

Quando todos desceram de suas cadeirinhas, permaneceram algum tempo admirando a paisagem, Charles tentou mostrar-lhes a sua casa lá do alto. Era impressionante o tamanho de sua propriedade vista daquele ângulo. Enquanto Jane e Charles faziam juras de amor ao pôr do sol, Lizzy e Fitzwilliam conversavam:

- Nossa! É uma das paisagens mais bonitas que vi. – declarou Lizzy, ao olhar o sol escondendo-se por trás da cidade.

- Tem razão! – concordou Fitzwilliam. – Como vão as coisas lá no escritório?

- Vão bem! Estou envolvida em dois processos muito distintos, mas muito interessantes. Isso faz com que eu consiga adquirir muita experiência, para quem sabe, um dia, ter meu próprio escritório.

Ele sorriu e disse: - Acho que Darcy não iria permitir.

- Por que não?

- Conheço muito bem Darcy, é o melhor amigo que tenho, de um coração sem igual e ele, a admira, acredite!

Lizzy não conseguia enxergar o Sr. Darcy como melhor amigo de ninguém, apenas dele mesmo, quanto mais um sujeito com o coração sem igual.

- É engraçado imaginá-lo como um admirador, pelo simples fato de que não conversamos muito.

- Darcy é muito reservado, tem aquele jeitão dele, mas tem suas qualidades também e uma delas é ser bastante seletivo na escolha das pessoas que gosta. Sabe, vou te confessar uma coisa, quando o conheci, foi ódio à primeira vista.

Os dois riram e, depois, Lizzy decidiu contar-lhe sua versão:

- Engraçado, ele também despertou esse tipo de sentimento em mim. A primeira vez que o vi, foi no meu primeiro dia de trabalho, ia subir a escada, quando ele, repentinamente, saiu de dentro de um elevador que nunca havia percebido que existia. Aí, ele foi extremamente desagradável, e gritou algo do tipo: "Não use o elevador, suba as escadas!".

Os dois mais uma vez riram.

- Isso é a cara do Darcy!

- O que há com aquele elevador?

- Seu pai, antes de morrer, não conseguia mais caminhar, estava fraco demais, porém muito lúcido. Darcy, então, fez aquele elevador para que ele pudesse continuar indo ao escritório, já que era desejo dele continuar trabalhando até o fim de sua vida. É um direito dele, temos que apenas respeitar.

- Entendo.

- Darcy amava demais o pai, sua perda significou muito a ele.

- Ei, vamos descer, está ficando muito frio! – gritou Charles.

Quando retornaram a casa, a sala principal estava vazia, até que a senhora apareceu, após ouvir o barulho deles.

- Charles, irei providenciar que acendam a lareira, as noites tem sido bastante frias por aqui.

- Ah! Sim, obrigado.

Os preparativos para o jantar estão prontos na cozinha, você vai querer minha presença para servi-los durante o jantar?

- Não será necessário. Pode deixar que a gente se vira por aqui. Mais uma vez, obrigado.

- Muito bem, vou deixar a mesa do jantar pronta para vocês.

Todos subiram para seus quartos. Fitzwilliam acompanhou Lizzy até a porta de seu quarto, já que estava hospedado ao lado. Lizzy acendeu os abajures e entrou no banheiro. Aproximou-se do balcão da pia e viu um vidro de sais de banho, ao abrir a embalagem, sentiu um perfume irresistível que mais parecia ser um convite para um banho de banheira. Lizzy preparou a banheira, de maneira um pouco atrapalhada, mas ao final, estar ali deitada em meio a macia e perfumada espuma, lhe fazia sentir-se bela e feliz.

Enquanto Lizzy descia as escadas, pode observar o Sr. Darcy na sala principal em companhia do casal de amigos de Charles. A moça estava deitada ao chão, sobre o peludo tapete de cor clara, com a cabeça encostada numa almofada, a beira da lareira, que já estava acesa, tornando o ambiente ainda mais especial. Escutavam a bela canção, adorada por Lizzy, Do That To Me One More Time. Quando Sr. Darcy percebeu sua presença, seu olhar radiante acompanhava seus passos na escada. Já na sala, a amiga de Charles, disse em tom de brincadeira:

- Finalmente uma mulher para desfrutar comigo o LP da novela Água Viva.

- Oh! Vejo que está enfrentando certa resistência. – provocou Lizzy.

- Total resistência! – confirmou ela.

- Por que todas as mulheres sempre gostam dessas porcarias românticas? – perguntou seu namorado.

- Vai ver porque sabemos apreciar além de rock, mpb e até mesmo samba, as coisas que nos fazem bem, bem ao nosso coração! – respondeu Lizzy.

- Ah! Chegou a minha preferida! – gritou Fitzwilliam, vindo de dentro com uma garrafa de vinho nas mãos. – Agora, só faltam as taças!

Quando Fitzwilliam retornou com as taças, insistiu para que Lizzy se sentasse mais próxima a eles. E lá, estava ela, novamente, ao lado do Sr. Darcy.

- O que achou do passeio?

- Maravilhoso!

- Imagino que deva ter gostado.

- Devo levar seu comentário como um elogio? Se me lembro bem, você não foi ao passeio por acha-lo popular demais.

Fitzwilliam, que pode escutar a fala de Lizzy, achou engraçado seu comentário, porém preferiu ficar calado e saborear seu vinho, fingindo não ter ouvido nada.

- Não me referia a isso, apenas acho que gosta das coisas simples da vida. – explicou Sr. Darcy. – A propósito, eu também aprecio muito as coisas simples.

- Devo admitir que sua afirmação me causa certa desconfiança.

- Acredito que você se deixa levar muito pelas aparências, mas as pessoas são muito mais do que isso.

As palavras do Sr. Darcy tocaram profundamente em Lizzy, que reconhecia em si, o grave defeito de julgar as pessoas pela aparência.

Logo, Charles e Jane se juntaram a eles na sala. Charles teve a ideia de servir o fondue de queijo na sala, em cima da mesa baixa que ficava ao centro dos sofás e em frente à lareira, assim todos sentaram-se, descontraidamente, ao chão. Enquanto se deliciavam com o creme de queijo, Fitzwilliam os divertiam com suas histórias engraçadas. Mais tarde, quando todos já haviam terminado de comer e sentiam-se mais a vontade por conta das taças de vinhos, Charles convidou-os a brincar de jogo da verdade. Em princípio, Sr. Darcy hesitou em participar da brincadeira, mas com a insistência de Charles e Fitzwilliam, acabou cedendo ao passatempo. Usando uma garrafa de vinho, Fitzwilliam iniciou a rodada, girando a garrafa ao centro dos participantes, rolando perguntas, em sua maioria, muito indiscretas.

- De Fitz para Jane!

- Você sente atração por mim?

- Claro que não!

- Que pena!

- De Charles para Darcy!

- É verdade que já usou seu Landau como motel?

- Não, desconheço essa história!

Quando foi a vez do amigo de Charles fazer uma pergunta ao Sr. Darcy, este, sem saber que Lizzy era sua estagiária, lhe fez uma pergunta:

- Você seria capaz de sair com uma estagiária mocréia, só para que ela realizasse seus desejos mais sacanas?

- Não. – respondeu ele, secamente, olhando diretamente para Lizzy.

- Bem, já nos divertimos demais por hoje! – disse Fitzwilliam, pondo fim a brincadeira.

Lizzy levantou-se do chão e foi até a mesa de jantar se servir de água. Sr. Darcy levantou-se, em seguida, indo atrás dela.

- Sinto muito, essas brincadeiras nunca me agradaram.

- Não se preocupe, não me senti ofendida.

- Nem deveria.

Lizzy bebia água, enquanto olhava para ele.

- O senhor também não deveria sentir-se abalado com isso, afinal é apenas uma brincadeira.

- Mas, o que eu sinto por você não é uma brincadeira.

A revelação dele deixou Lizzy um tanto chocada.

- Não compreendi o que acabou de dizer?

Antes que pudesse explicar a Lizzy seus sentimentos, olhou em direção a sala para ter certeza de que todos continuavam lá.

- Amo você, isso está escrito na minha testa quando te olho. Está assim tão na cara que, mesmo eu não querendo aceitar isso, meus amigos mais íntimos vieram me questionar. Precisei por fim ao meu relacionamento com Caroline, pois minha própria consciência já não suportava mais. Talvez você consiga imaginar ou talvez não, o quanto foi difícil descobrir isso, uma vez que você trabalha para mim, e sinceramente, não é o que todos esperam de mim. Está sendo muito duro viver assim, todos esses meses, ao seu lado, observando, admirando e tentando me aproximar de você. Tentando imaginar-me ao seu lado, tentando conter minhas fantasias, mesmo sendo você uma pessoa tão diferente de mim.

- Não sei o que dizer, realmente não esperava por isso. De qualquer modo, nunca quis lhe causar nenhum mal, mesmo quando o criticava dentro de mim.

Sem perceber que os dois conversavam na sala ao lado, Charles levantou-se se dirigindo para onde estavam, quando foi impedido por Fitzwilliam:

- Agora não. Parece que finalmente Darcy está falando com ela.

- Minha nossa!

Charles, discretamente, sugeriu a Jane, que subissem para o quarto. O outro casal decidiu fazer o mesmo, despedindo-se de Fitzwilliam. O fiel e bom amigo do Sr. Darcy decidiu encontrar um lugar mais reservado, onde pudesse terminar sua garrafa de vinho em paz.

Sem perceber que estavam sozinhos, eles continuavam a dura conversa, tentando manter a calma para não chamar a atenção dos demais:

- Como assim, me criticava?

- Pelo modo como sempre age.

- Não entendo.

- Bem, você normalmente age de maneira arrogante, na maioria das vezes.

- Você me acha arrogante?

- Sim e muito. Pensa que nunca reparei em suas atitudes e nas coisas que costuma dizer, agora mesmo você afirmou que somos diferentes e que todos esperam que nunca se apaixone por alguém como eu. O que quis dizer com isso? Que você tem dinheiro e eu não?

- Não é tão simples assim.

- Então me explique.

- Não era esse o rumo que previa para a nossa conversa, mas já que você insiste vou tentar explicar. Na verdade, não sou de tolerar os relacionamentos entre os mais afortunados e menos afortunados, pois acho que nunca há um amor verdadeiro. O mais pobre sempre será influenciado pela riqueza do mais rico. As pessoas sempre reforçarão a dúvida, que sempre existirá, se aquela pessoa está ao seu lado pelo que você possui ou se a ama de verdade.

- Neste caso, você está querendo dizer que eu jamais me interessaria pelo senhor, ao menos que tivesse uma boa fortuna? Pois fique sabendo que não estou interessada nem no senhor e muito menos em sua riqueza. Gosto de pessoas com caráter e costumo amá-las pelo que são. Bem que George Wickham falou que você era um egoísta, incapaz de acreditar em qualquer pessoa, até mesmo nele, que agora está tão transformado, por causa de atitudes como as suas.

- Você não sabe nada a respeito dele, também não quero perder meu tempo explicando, vá corra pra perto dele, mas saiba que vai se arrepender!

- O que está dizendo? Nunca tive nada com George, você enlouqueceu?

- Sempre pensei que havia alguma coisa entre vocês. Todas as vezes que nos encontrávamos, fora do escritório, vocês estavam juntos.

Lizzy respirou fundo, colocando as mãos sobre o rosto.

- Preciso me deitar.

- Por favor, me diga alguma coisa, sobre o que te falei. – disse ele, segurando-a pelo braço.

- Não consigo. Agora, não. – disse ela fitando-o nos olhos, completamente atordoada.

Lizzy deixou a sala de jantar e se recolheu em seu quarto, deixando Sr. Darcy sem resposta a seus sentimentos.