Onde está George Wickham?

Assim que Lizzy acordou, na manhã de segunda-feira, antes de sair para o trabalho, seu telefone tocou. Era Jane. Estava com a voz aflita, pedindo a Lizzy que viesse imediatamente até à sua casa, pois algo muito grave havia acontecido. Lizzy, logo, preocupou-se com a saúde de seus pais, mas Jane lhe garantiu que nada havia ocorrido com eles, tranquilizando-a. Quando terminou em se arrumar, seguiu para lá, sem tentar desvendar o que teria acontecido de tão grave, atitude que não lhe era, nem um pouco, habitual. Sentia-se bastante cansada da viagem e, ainda, chocada com a declaração do Sr. Darcy, a qual preferiu manter em segredo. Por mais que se sentisse lisonjeada por ter despertado o amor de um homem tão poderoso, achava, ao mesmo tempo, que não deveria aceitar e, mesmo, tolerar os sentimentos de alguém com ideias preconceituosas, o qual teve a ousadia de destacar o quão diferentes eram. Além disso, a antipatia sentida por ele, desde o primeiro momento em que se conheceram, tinha um peso considerável. Não era assim tão fácil esquecer as palavras e atitudes de meses de convivência. Foram poucos os momentos, em que Lizzy havia tido uma boa impressão do Sr. Darcy, momentos esses, que nem mesmo lembrava-se. Tudo que lhe importava agora era defender-se e no lugar do amor, o qual não existia, Lizzy alimentava com vigor seu orgulho. Podia não ser bela como Jane, mas tinha um amor próprio exagerado em relação a mulher que havia se tornado. Inteligente, independente e muito carismática. Era feliz com a família que tinha e com as poucas coisas que havia conquistado. Apesar de ter conhecimento de suas limitações financeiras, tinha, ainda, muito orgulho em ser filha do Sr. Bennet, um intelectual respeitado. De fato, o Sr. Darcy invadiu e agrediu um universo dentro de Lizzy e, agora, pagaria um preço alto.

Enquanto caminhava pela calçada, próxima ao prédio de seus pais, Lizzy notou que Jane a esperava na porta do prédio.

- O que está fazendo aqui, por que não me esperou lá em cima?

- Não posso me atrasar mais do que já estou, os alunos me aguardam. Depois, não queria que ninguém de casa a visse.

- Por quê? O que houve?

- O problema é com Lydia.

- O que aconteceu com ela?

- Fiquei sabendo a pouco, papai me contou, antes de sair. Eu mesma queria lhe contar. Descobriram que Lydia está grávida.

Lizzy colocou as mãos no rosto, fechando os olhos em seguida.

- Meu Deus! Por isso, todos aqueles enjoos que ela vinha sentindo.

- Pois é. Parece que ela está muito abalada, ainda não quis dizer com quem teve relações.

- Sei quem pode ser.

- Sabe?

- É o George! Ele fez isso com ela. Desgraçado!

- Calma, Lizzy! Você tem certeza disso?

- É tudo culpa minha! Eu o trouxe pra perto da nossa família. Como pude ser tão tola, tão idiota! Ele não presta! – gritava Lizzy aos prantos.

Jane assustou-se com a reação de Lizzy, nunca vira a irmã desse jeito antes, abraçando-a e implorando que se acalmasse.

- Tentei contato com ele, na semana passada, queria tirar essa história a limpo, mas ele não mora mais na pensão, foi expulso porque não pagava o aluguel e, também, porque recebia mulher em seu quarto.

Jane levou um susto e, em seguida, criou coragem e perguntou: - Você acha que ele se encontrava lá, com Lydia?

- Pode ser. Ele me confessou uma vez que tinha uma namorada muito jovem. Como eu podia imaginar que era de Lydia que ele estava falando?

- Talvez pudéssemos encontra-lo em seu trabalho, você sabe onde é?

- Ele não trabalha mais lá, foi demitido faz pouco tempo.

- Demitido?

- Sim, parece que ele andou roubando a empresa.

- Meu Deus! Mas que tipo de sujeito é esse?

- Como eu pude ser tão tola?

- Você disse que ele cresceu com o Sr. Darcy, não é?

- Sim.

- Você precisa falar com o Sr. Darcy.

- Com o Sr. Darcy?

- Sim. É o único jeito.

Era difícil para Lizzy aceitar o envolvimento do Sr. Darcy nesta questão, principalmente após o que havia acontecido entre eles, porém teria que concordar com o raciocínio de Jane, sendo, talvez, a única chance em encontrar George.

- Se me lembro bem, a mãe de George continuou trabalhando na casa do Sr. Darcy, mesmo após ele ter sido praticamente expulso de lá.

- Fale com o Sr. Darcy, assim que chegar ao escritório, mas só se realmente tiver certeza de que isso tem a ver com George.

- Lizzy consentiu, balançando a cabeça.

- E Lydia, como está?

- Papai me disse que ela não quer se alimentar e prefere ficar na cama chorando o tempo todo.

- Preciso vê-la, quem sabe consiga arrancar-lhe a verdade e saber onde está George.

- Não a vi ainda, desde que voltamos de Campos do Jordão. Ontem, quando cheguei, todos estavam em seus quartos, vi apenas Mary, que não comentou nada comigo. Precisamos tomar cuidado ao abordá-la, pode ser perigoso para ela e para o bebê.

- Sim. Dessa forma, é melhor irmos atrás de George.

- Preciso ir, agora. Estou atrasadíssima! – disse Jane, despedindo-se de Lizzy. – Nos falamos mais tarde!

Lizzy permaneceu parada em frente ao prédio, refletindo se seria melhor subir e tentar conversar com Lydia. Porém, um medo assustador lhe fez mudar de ideia, fazendo com que ela, em lágrimas, seguisse até o ponto de ônibus. Seu rosto molhado pelo contínuo choro refletia seu imenso sofrimento, ao imaginar a infelicidade de seu pai, que com tanto sacrifício, cuidava de sua família. Sabia o quanto era difícil a ele, manter-se longe das garras da ditadura, tendo que optar por ser uma pessoa sem opinião política, apenas para manter-se vivo e conseguir o sustento de sua esposa e filhas.

Quando chegou ao escritório, nem mesmo percebeu o quanto estava atrasada, carregava em seu semblante uma imensa tristeza, que logo, foi percebida por Charlotte.

- Bom dia, Lizzy! Aconteceu alguma coisa?

- Não, está tudo bem.

- Não parece, está tão abatida. Esteve chorando?

- Eu estou bem. – respondeu Lizzy, não se preocupando em ser convincente. – O Sr. Darcy já chegou? – perguntou ela, olhando para o 2º piso.

- Não. Ele não virá para o escritório hoje. Posso te ajudar em alguma coisa?

- Obrigada, Charlotte.

Seguiu em direção a sua sala, passando no banheiro antes para lavar o rosto. Ao olhar-se no espelho, reparou em sua feição abatida e os olhos inchados de tanto chorar. Preocupou-se em usar um pouco de maquiagem para evitar comentários entre os colegas de trabalho. Passou o longo dia, sem concentrar-se em suas tarefas, nem mesmo, almoçar, apenas refletindo no que poderia ser feito para aliviar a dor de Lydia e de seu pai. No final do dia, quando estava indo embora, Charlotte fez nova tentativa em se aproximar de Lizzy, porém sem sucesso.

No caminho de casa, Lizzy lembrou-se que tinha, em algum lugar de sua casa, o telefone que George havia lhe dado antes do carnaval, quando ainda morava na casa da família Darcy. Ao entrar em sua casa, revirou alguns papeis até achar o que buscava. Imediatamente, discou o número.

- Alô?

- Boa noite! Eu preciso falar com a Sra. Wickham, mãe de George, por favor.

- Sou eu. Do que se trata?

- Bem, meu nome é Lizzy, sou amiga de seu filho, trabalhamos juntos no escritório do Sr. Darcy e preciso falar com George, onde posso encontra-lo?

- George não mora mais aqui.

- Sim, eu sei, mas também não está morando mais na pensão. A senhora saberia dizer onde posso encontra-lo?

- Por acaso, George está lhe devendo dinheiro?

- Não, em absoluto. Sou amiga dele e ainda trabalho para o Sr. Darcy. Apenas gostaria de vê-lo.

- Bem, eu sinto informa-la, mas não tenho notícias de George. Nos vimos há pouco dias atrás, quando ele me pediu dinheiro para comprar uma roupa, acho que era uma festa, um baile, algo assim. Depois disso, soube que saiu da pensão onde morava. Só Deus sabe, fiz de tudo para que ele ficasse morando lá, mas não consegui.

- Mas ele deve estar morando em outro lugar, a senhora não sabe?

- Não, não sei minha filha.

Lizzy agradeceu à senhora e desligou o telefone, completamente arrasada. Não sabia como encontra-lo. Vestiu o casaco e seguiu até a casa de seus pais. Um clima de tristeza parecia ocupar todos os cantos da casa. Lydia negava sair de seu quarto e, mesmo, se alimentar. Sua mãe, inconsolável, também preferia ficar em sua cama. As duas irmãs, Kitty e Mary, receberam Lizzy na sala.

- Onde está o papai?

- Foi para a universidade.

- E Jane?

- Foi até o mercado comprar frutas para a Lydia.

- Mas ela passa o dia sem colocar nada na boca.

- Precisamos agendar um médico para leva-la. É muito importante que ela tenha um acompanhamento. Ela ainda se recusa a falar com quem teve relações?

- Sim.

- Até para você Kitty?

- Eu não sei de nada, Lizzy.

Lizzy esperou até que Jane voltasse do mercado e contou-lhe sobre sua conversa com a . Certamente sabiam que não seria nada fácil encontra-lo.

Na mansão da família Darcy, assim que o jantar foi servido a mesa para Georgiana e o Sr. Darcy, a Sra. Wickham comentou sobre o telefonema que recebera a pouco:

- Recebi uma ligação estranha, era uma moça, de nome Lizzy.

- Lizzy ligou? – interrompeu Sr. Darcy.

- Sim, o senhor a conhece, disse que trabalhava em seu escritório.

- Sim. Ela deixou algum recado?

- Não, senhor. Ela apenas queria saber sobre George. Onde encontra-lo.

Muito desapontado, Sr. Darcy ouviu a Sra. Wickham concluir o que dizia. Achava que Lizzy havia telefonado para falar com ele sobre o assunto que havia ficado pendente entre os dois.

- Bem, certamente, a senhora soube orientá-la.

- Infelizmente, há dias não tenho notícia de George. Com licença. – disse ela se retirando da sala de jantar.

Georgiana percebeu a frustração no rosto de seu irmão, sabia que algo estava acontecendo.

- Darcy, desculpe a intromissão, mas me diga o que está acontecendo? Hoje você nem foi trabalhar, voltou ainda pela manhã de domingo da viagem a Campos do Jordão. Terminou com Caroline. Não estou entendendo seu comportamento.

- Te devo muitas explicações, mas agora não. – disse ele, se retirando da mesa, sem ao menos tocar em seu prato.

Em seu quarto, sentado na varanda, olhava para o vazio, perdido em seus pensamentos. Era difícil aceitar que Lizzy estivesse interessada em George e não por ele. A todo minuto se perguntava por que, sem que pudesse ter uma resposta convincente. Não se dava conta que só ele conhecia quem era George, Lizzy não podia sequer imaginar. Além disso, o modo como ela o enxergava, era algo que não podia se livrar, fazia parte de sua vida morar numa boa casa, ter carros e roupas, muitos empregados, empresas e toda sua riqueza. Tudo isso era natural para ele, porém muito diferente para Lizzy, que o criticava por ser simplesmente rico. Seu jeito reservado e, muitas vezes, tímido, era mal interpretado pela maioria das pessoas, mas nunca alguém tivera coragem de lhe dizer que era arrogante e egoísta.

Já passava das dez, quando Sr. Bennet chegou a casa. Lizzy o esperava, olhando a noite passar pela janela.

- Então você já sabe.

- Sim. E estou aqui para ajuda-lo no que for preciso. Telefonei para o médico da mamãe e agendei uma consulta para Lydia, amanhã. É muito importante para a saúde dela e do bebê.

- Ela comeu alguma coisa.

- Sim, consegui fazer com que ela comesse um pouco.

- Isso é bom.

- Você também precisa se alimentar. Venha, vamos sentar a mesa, ainda preciso falar outro assunto com o senhor.

Lizzy pegou um prato e serviu um pouco de sopa para seu pai.

- Acho que sei quem teve relações com Lydia.

- O que sabe Lizzy? – perguntou Sr. Bennet rasgando com as mãos um pedaço de pão.

- Lembra-se do George?

- Eu imaginava.

- Ainda não consegui localizá-lo, mas vou continuar.

- Como é esse rapaz, Lizzy?

- Quando o conheci parecia ser a melhor pessoa do mundo, mas depois, estava sempre revoltado com a vida e com todos.

Lizzy limitou-se a falar sobre o que mais sabia sobre George, poupando seu pai de mais sofrimento. Ao terminar o jantar, Sr. Bennet levou a filha até sua casa.

- Vai dar tudo certo, papai. Precisamos pensar apenas na saúde de Lydia e do bebê.

Ao entrar em casa, Lizzy sentia-se exausta. Deitou em sua cama, sem ao menos tirar sua roupa. Queria ficar ali, deitada, pensando em como resolver da melhor maneira possível essa situação. Adormeceu. O dia que teve sequer deu chance em pensar na própria vida. Nem mesmo, lembrou-se da declaração do Sr. Darcy.