A decisão de Lizzy

Jane preferiu permanecer no kartódromo, fazendo companhia a George, enquanto Lizzy seguiu para casa junto com seu pai. No caminho de casa, enquanto dirigia, Sr. Bennet, muito entusiasmado, contava a Lizzy sobre tudo que havia conversado durante o evento, contando-lhe, com muito orgulho, principalmente sobre seu encontro com Barão. Apesar de muito distraída, Lizzy se esforçava para dar atenção a seu pai, no entanto, Sr. Bennet, que a conhecia muito bem, logo desconfiou que alguma coisa a incomodava.

- Parece cansada, Lizzy.

- Um pouco, papai.

- Será que é só cansaço mesmo?

- Bem, ainda estou muito preocupada com Lydia.

- Todos nós cuidaremos de sua irmã. Infelizmente ela escolheu este caminho, mas estamos todos juntos para dar-lhe o que for preciso. Não pode e nem deve querer carregar sozinha os problemas de Lydia. Você tem sua carreira e seus estudos e, além disso, o mais importante de tudo tem sua própria vida para se preocupar.

Em silêncio, Lizzy refletia sobre o que seu pai lhe dissera, passava por sua cabeça o amor que o Sr. Darcy havia lhe declarado. Muito dividida em suas opiniões a respeito dele, ora imaginava-se vivendo um romance ao seu lado, para, logo em seguida, ter a certeza de que era impossível uma relação com alguém que lhe fizesse sentir-se tão inferior, por não possuir riqueza e nem pertencer a mesma classe social. Seu orgulho ferido tornava-a cega, incapaz de perceber o sincero e intenso sentimento do Sr. Darcy. Para alguém, que fora educado em meio a tantas convenções e onde o mundo lhe fora apresentado de maneira distorcida e preconceituosa, ele se esforçou muito, até conseguir reunir força capaz de superar todos seus conceitos, se declarando para uma mulher comum como Lizzy. Porém, a interpretação dela era grotesca e deturpada o bastante, a ponto de não perceber e, nem mesmo, aceitar seu amor.

De repente, Sr. Bennet lhe perguntou algo, que soou como uma questão bombástica aos seus ouvidos, libertando Lizzy de seu profundo pensamento:

- O que acha do Sr. Darcy?

- Como assim? O que tem ele?

- Calma, Lizzy! Apenas lhe fiz uma pergunta. Tenho minha opinião sobre ele, porém sua convivência é diária, certamente conhece-o melhor do que eu.

- Bem, ele é o dono do escritório e também é muito ocupado, não há tempo para que possamos conversar muito.

- Eu gosto dele, é um rapaz inteligente e bastante reservado. A atitude de confiança que ele depositou em Charles, ajudando-o a realizar seu sonho, também é muito nobre.

- Concordo com o senhor.

- Ele parece admirá-la, percebi em seus olhos.

Um tanto sem graça com a observação de seu pai, Lizzy tratou logo em apresentar um argumento qualquer, mesmo sendo pouco convincente:

- Talvez porque tenho feito um bom trabalho no escritório.

Sr. Bennet fingiu acreditar na resposta de sua filha, estava certo de que havia algo a mais nos olhares que o Sr. Darcy lançava a Lizzy durante o evento. E, também, sabia que aquilo tudo parecia mexer muito com os sentimentos da filha.

Após o almoço, Lizzy permaneceu boa parte da tarde na casa de seus pais, ao lado de Lydia, embora estivesse compenetrada em sua leitura, até que Jane, chegou, entrando vibrante pela sala, anunciando a todos que a comemoração com Charles continuaria, mais tarde, no The Gallery. Sentou-se ao lado de Lizzy, exigindo sua presença na boate. Contando com as opiniões favoráveis de seu pai e de suas irmãs, Jane não deixou alternativa a Lizzy, sendo esta obrigada a aceitar o convite. Satisfeita com o desfecho do episódio, Jane arrastou Lizzy até o quarto, acompanhada pelas irmãs a fim de montar seu figurino para a noite. Enquanto Lizzy, com pouco entusiasmo, assistia Jane esvaziar seu guarda-roupa em meio à euforia das irmãs, passava por sua cabeça, lembranças de um tempo de inocência, que dentro delas não havia mais, onde todas juntas se deslumbravam com as coisas mais simples, como ir a uma festa no salão do prédio. Há meses atrás, Lizzy pensaria estar vivendo um conto de fadas ao ser convidada a uma festa no The Gallery, porém, agora, era tão diferente, o mundo de gente grande parecia cruel demais, quase insuportável para alguém com a sensibilidade como a dela.

- Deveria estar animada, Lizzy. – disse Mary, ao perceber um desânimo no olhar de Lizzy.

- Estou certa de que o clima fantástico que existe no ambiente do Gallery vai fazer muito bem a Lizzy! – prometeu Jane, tendo certeza de que ela e o Sr. Darcy pudessem se acertar durante a noite. – Precisamos de um vestido pra você, Lizzy! Se quiser pode usar um desses.

- Ainda não pensei qual roupa usar.

- Quero te ver, a mulher mais linda desse lugar! – disse Lydia, sentada ao lado de Lizzy. – Sei que não vai ser fácil, não que a ache horrorosa, mas sei que neste lugar só tem aquelas mulheres maravilhosas, modelos e atrizes lindíssimas! Se você quiser posso cuidar de sua maquiagem, disso eu entendo!

- Obrigada, Lydia. Mas não me preocupo em ser a mais bela da noite, minha presença será apenas para prestigiar Jane e Charles, afinal hoje significou um grande dia a eles.

As irmãs se uniram até convencer Lizzy a usar um belo vestido preto, com paetês brilhando por toda sua frente, o qual Jane usara apenas uma vez. Apesar de morar tão perto, Lizzy, nem mesmo, foi a sua casa, preferindo se divertir ao lado das irmãs, enquanto montavam sua produção. Porém, a decisão em usar o sapato de uma de suas irmãs não parecia muito sensata, visto que Lizzy calçava número 36 enquanto, Mary e Lydia usavam 37 e Jane e Kitty, 35.

Após o jantar, em família, onde o assunto foi exclusivamente sobre o novo negócio de Charles, Sra. Bennet, que desde a notícia da gestação da filha caçula, parecia bastante apática, sentiu-se revigorada, imaginando que finalmente seu sonho seria realizado. Jane, a mais bela de suas filhas, se casaria com um homem bonito e bem sucedido. Ao se retirarem da mesa, Lizzy e Jane foram para o quarto, restava-lhes pouco tempo para se aprontarem até Charles chegar. Sra. Bennet estava muito empolgada com o programa das filhas, deixando para retirar a mesa do jantar, mais tarde. Preferiu acompanha-las até o quarto, se intrometendo em cada detalhe. Relembrava, com entusiasmo, de seu tempo de moça, onde segundo ela, os rapazes ficavam encantados com a sua beleza e simpatia. Enquanto observava Lizzy experimentando os sapatos de Jane, achou importante alertá-la a ser mais amável com os rapazes ou mesmo, com qualquer cavalheiro que a abordasse na boate:

- Agora que Jane já está com um pé no altar, você deveria concentrar-se em arranjar um bom rapaz também, quem sabe se não conhece algum amigo de Charles, pra isso precisa ser bastante simpática e graciosa.

- Mamãe, a senhora sabe minha opinião. O homem que me levar para o altar saberá exatamente como sou e terá que gostar de mim assim, como sou.

- Lizzy, você já é uma mulher, sabe que essa sua teoria não deve funcionar muito bem.

- Pois então, serei uma solteirona feliz, tia de meus queridos futuros sobrinhos! – disse ela, colocando a mão carinhosamente sobre a barriga de Lydia.

Todas as irmãs acharam engraçadas as palavras de Lizzy, exceto a Sra. Bennet, que continuou a resmungar sobre o comportamento rebelde da filha.

Quando estavam prontas, Lizzy agradeceu e despediu-se de cada irmã, ao chegar à vez de Lydia, esta lhe segurou as mãos, pedindo que prestasse atenção em todos os detalhes para que pudesse lhe contar muitas histórias no dia seguinte. Lizzy se emocionou e prometeu a irmã, fazer exatamente o que havia pedido.

Enquanto desciam no elevador, Lizzy sentia o sapato lhe apertando os pés, acreditava que o incomodo seria suportável, não sendo capaz de estragar sua noite. Aproveitando o momento a sós com Lizzy, até que Charles chegasse, Jane lhe agradeceu pela companhia e contou-lhe uma boa notícia:

- Caroline não irá! Não somente nós estaremos mais felizes na festa, mas acredito que o Sr. Darcy também estará.

- Então o Sr. Darcy irá?

- O que a fez pensar que ele não iria? Ele é o melhor amigo e sócio de Charles. Sei de sua implicância com ele, mas começo a achar que o Sr. Darcy não é tão ruim como pensa. E, além do mais, ele gosta muito de você!

- O que sabe sobre isso, Jane?

Jane hesitou em contar-lhe sobre o que havia escutado durante a manhã no kartódromo, achando que isso faria com que Lizzy desistisse em acompanha-la:

- Apenas sinto isso, Lizzy.

Permaneceram em silêncio, até Charles chegar. Sentada no banco de trás, do esportivo Opala SS, Lizzy parecia mais entusiasmada com a noite, ao ver Charles tão excitado com sua comemoração. Quando o carro estacionou em frente ao Gallery, Lizzy observou pela janela, a fachada do lugar, até que pudesse sair do carro. Para sua surpresa, Sr. Darcy os aguardava, ansiosamente, do lado de fora. Muito nervoso, esteve ensaiando um jeito de se aproximar de Lizzy, antes que chegassem. Sentia-se mais confiante, agora que sabia que George não fazia parte de sua vida e Lizzy, de fato, estava sozinha. Seu objetivo era retomar o assunto que não havia concluído em Campos.

- Boa noite!

- Boa noite, Darcy! Não sabia que estaria esperando aqui fora, senão teria saído antes de casa.

- Não tem problema, Charles, prefiro esse ar puro ao invés de ficar lá dentro.

Charles achou graça na estranheza do amigo e passou pela porta de entrada de mãos dadas com Jane. Antes de cumprimentar Lizzy, Sr. Darcy a observou rapidamente, que, aos seus olhos, estava perfeita.

- Olá, Sr. Darcy!

- Olá, Lizzy, posso acompanha-la?

- Claro.

Enquanto caminhava rumo à porta de entrada, tomava coragem para falar com ela, tentando sua primeira aproximação. Com a voz um pouco trêmula, lhe fez um pedido:

- Então, antes de entrarmos, quero que me prometa uma coisa.

Lizzy olhou para ele, surpresa e um tanto assustada. Sr. Darcy percebeu sua expressão e tentou acalmá-la:

- Não me olhe assim, é muito simples o que tenho pra te pedir. Não quero que me chame de senhor, me chame apenas de Darcy.

- Está bem. – concordou ela.

- Me sinto velho demais quando me chamam assim. – explicou ele, permitindo que ela entrasse primeiro pela porta.

- Sei que não é velho, Sr. Darcy, mas é apenas uma questão de respeito, afinal o senhor é meu chefe e quase todos que conheço, o chamam assim.

- Numa só frase você mencionou duas vezes a palavra senhor! – disse ele, bem humorado. – Se quiser continuar com essa formalidade, que seja apenas no escritório, mas fora dele, não é necessário.

Lizzy sorriu, pedindo-lhe desculpas:

- Não estou acostumada a chama-lo de Darcy, vou precisar me policiar o tempo todo!

Seus olhos pareciam iluminados, ao perceber seu comportamento doce e agradável, era o primeiro momento mais íntimo que tivera, até então, ao lado dela.

Quando Lizzy entrou no Gallery, seus olhos cintilavam, parecia tudo perfeito, um mundo encantado, muito sofisticado e sedutor. Nunca vira nada igual. As pessoas circulavam confiantes e felizes, muito bem trajadas. Lembrou-se repentinamente de Lydia, murmurando baixinho: - Ela ia adorar!

- Disse alguma coisa?

- Não, nada. Apenas quis dizer que esse lugar é muito bonito.

- Sim, pra quem gosta de boate, como Charles, aqui é um bom lugar pra vir. Você tem vários ambientes em um só. Se quiser dançar é só ir até a pista de dança, senão pode ficar no bar, que é mais sossegado, mas é muito confortável. Tem também um restaurante com ótimos pratos.

Lizzy estava impressionada com toda a atenção do Sr. Darcy, porém sentia-se pouco a vontade ao seu lado, procurando por Charles e Jane entre as pessoas que circulavam a sua frente.

- Veja! Eles estão ali. – apontou ela.

- Acho que Charles encontrou um de seus convidados. – comentou ele.

- Você não vai cumprimenta-los? – perguntou ela com a intenção de se juntarem ao grupo.

Mesmo contra sua vontade, Sr. Darcy acompanhou Lizzy até onde eles estavam. Seu intento era permanecer ao lado dela de maneira mais reservada, porém tentou acalmar sua ansiedade, se esforçando a acreditar que as coisas estavam fluindo naturalmente.

Sentindo um tanto incomodada com os sapatos, Lizzy olhou em direção ao bar e observou que havia algumas poltronas, achando que não seria má ideia sentar-se um pouco. Interrompeu, por alguns segundos, a conversa de Charles com o casal de amigos, lançando a ideia de irem até lá, beber um drink. Certamente, que todos concordaram e ela seguiu satisfeita em direção ao bar, sentando, sem muita cerimônia, numa poltrona a sua frente, mesmo sendo que os demais preferiram ficar em pé, ao lado da mesa. Lizzy permaneceu sentada, acompanhando a conversa entre eles, até que o Sr. Darcy decidiu se unir a ela, ocupando a poltrona ao lado.

- Quer beber alguma coisa?

- Aceito uma água.

- Nunca vi alguém brindar com água.

Ela sorriu e, em seguida, disse que não se sentia bem para beber naquela noite.

- Não é uma noite comum, é uma noite especial, precisamos brindar, por Charles.

A voz doce e as palavras convincentes do Sr. Darcy as fizeram mudar de ideia, aceitando o seu convite.

- O senhor tem razão.

- Não ouvi direito, você me chamou de que?

Lizzy soltou um espontâneo sorriso.

- Me desculpe! Não vai ser fácil cumprir o nosso acordo, Darcy.

Ao ouvi-la chamando seu nome, sem a formalidade habitual, uma expressão de felicidade surgiu em seu rosto, impressionando Lizzy, que jamais havia visto aquela feição em sua face antes.

Quando o Sr. Darcy retornou do balcão do bar, Lizzy continuava sentada, sozinha, observava atentamente o luxuoso ambiente, enquanto trocava sorrisos com a irmã. Ao fundo, ouvia-se a agradável música Give Me The Night.

- O garçom já irá nos servir. – contou ele, ocupando o lugar ao lado dela novamente. – Parece que esse ambiente te fez bem, esta com uma expressão melhor no rosto.

- Gosto de música.

- Então, você deveria conhecer minha irmã Georgiana, ela adora música! Toca muito bem piano e não só música clássica.

- Gostaria de ter aprendido a tocar um instrumento. Em casa, apenas minha irmã Mary toca.

- O que ela toca?

- Violão.

- Certa vez, comprei uma guitarra, mas não sou muito bom. Na verdade, sou péssimo!

Lizzy deu outra descontraída risada e, em seguida, comentou:

- Me desculpe, mas não consigo imaginar você tocando guitarra.

- Pois é, nem eu!

Os dois riram juntos até o garçom chegar a mesa, trazendo a garrafa de champagne e as taças, também trouxe a água de Lizzy. Quando todos estavam com suas taças cheias do esplendoroso líquido borbulhante, brindaram juntos com uma energia contagiante.

Enquanto os dois conversavam, sentados a mesa, outros convidados chegavam na boate, possibilitando que ficassem de maneira mais reservada a mesa, já que todos tinham interesse em saber sobre o empreendimento de Charles.

- Não estava pensando em beber nada, essa noite. – comentou Lizzy.

- Acredite, uma taça de champagne não faz diferença. Além do mais, uma noite tão especial como essa, não poderia passar sem ao menos um brinde.

- Acho que tem razão. – respondeu ela, impressionada com o jeito carinhoso do Sr. Darcy.

Ao mesmo tempo, que se encantava com seu comportamento, sentia-se mal ao imaginar que poderia ter se enganado a seu respeito e que de fato, ele até poderia ser um bom rapaz, não tão arrogante e nem tão esnobe como pensava, sendo apenas um homem rico e poderoso. Esse suposto engano fazia com que ela não se sentisse tão à vontade ao seu lado. Além disso, tudo levava a crer que havia uma sensação de romance no ar, visto que, ele já havia declarado seu amor antes, deixando-a ainda mais perturbada. Sua inquietação aumentou quando parte do grupo foi para a pista de dança, permanecendo apenas dois casais a sua frente, onde as cenas de beijos e carícias eram constantes. Sr. Darcy, percebendo sua agitação, perguntou-lhe:

- O que houve? Parece incomodada?

Ela jamais diria tudo que estava passando em sua cabeça, preferindo, até mesmo, interromper aquele momento, para ir até o banheiro para fugir de toda aquela pertubação. Enquanto estava no banheiro, tirou os apertados sapatos, a fim de aliviar seus pés. Foi quando teve a ideia de retirar a meia calça, acreditando que assim, diminuiria o volume dentro do sapato. Ao retornar a mesa, Jane e Charles que estavam de volta, faziam companhia ao Sr. Darcy e Lizzy pode notar, certo olhar malicioso no rosto da irmã, deixando-a bastante sem graça. Lizzy decidiu sentar em seu lugar, apenas por causa de seus pés doloridos, acompanhando a conversa entre eles, silenciosamente. Assim que Charles e Jane transferiram sua atenção aos casais que estavam à frente da mesa, oportunamente, Sr. Darcy decidiu encorajar-se e repentinamente, retomou o assunto que tratava de seus sentimentos com ela:

- Sabe, eu estive pensando naquela conversa que tivemos lá em Campos.

Ao mencionar sobre aquela noite, o coração de Lizzy disparou e seu rosto tornou-se quente e ruborizado, preferindo manter a cabeça abaixada, enquanto ouvia. De repente, sem saber da importância que tratavam naquele momento, Charles se aproximou, convidando-os para irem juntos a pista de dança. Lizzy levantou-se da poltrona imediatamente, deixando-o sem escolha.

Muito mais animado do que o ambiente onde estavam, as luzes e a fumaça transformavam o local estimulante, sendo um convite irrecusável para dançar e se divertir. Todos juntos, dançavam o grande sucesso I Don't Want To Fall In Love Again. Entusiasmados, os amigos de Charles, formaram uma roda, lançando-o ao meio. Cada um se revezava para aproximar-se de Charles e fazer o que lhe viesse em mente. O primeiro deles beliscou a sua bunda, Lizzy deu-lhe um carinhoso abraço, outro, insinuou um ardente beijo em sua boca, ficando por conta de Jane, o beijo verdadeiro. Quando foi a vez do Sr. Darcy, Charles tentou, sem hesito, levantar-lhe no colo, porém, todos os amigos ajudaram-no, erguendo-o como se fosse um campeão.

Após muita curtição na pista de dança, resolveram retornar ao bar. Com os pés bastante doloridos, Lizzy foi a primeira a sentar, fazendo com que a grande maioria fizesse o mesmo. Sr. Darcy acabou em pé juntamente com Charles e os outros rapazes. Enquanto todos estavam eufóricos decidindo qual drink beber, ele observava Lizzy e, ainda que, seu comportamento em se levantar da mesa, naquele momento em que conversavam lhe parecesse inaceitável, sentia-se confiante em insistir por seu amor. Quando todos já haviam terminado suas bebidas e recuperado o fôlego, levantaram-se da mesa, seguindo animados para a pista de dança novamente, exceto Lizzy que preferiu permanecer sentada. Ao notar que ela havia ficado na mesa, Sr. Darcy oportunamente, sentou-se ao seu lado.

- Você não vai?

- Desta vez não, mas pode ir se quiser, fico bem aqui sozinha.

- Sabe que não trocaria por nada a sua companhia.

Lizzy olhou para ele e depois abaixou a cabeça.

- Por que não quis falar sobre a gente?

- Sinto muito. Ainda não sei o que pensar sobre isso.

Eles permaneceram em silêncio, até que o Sr. Darcy concluiu o assunto:

- Não quero forçar nada entre a gente, só quero que saiba dos meus sentimentos e das minhas intenções e, claro, gostaria muito de saber sua opinião.

- Não quero brigar, pelo menos essa noite.

- Acredite, eu também não.

Em silêncio, os dois lembravam sobre a discussão que tiveram em Campos. De repente, sem nenhuma explicação, Sr. Darcy fez um comentário, o qual os libertava da dolorosa lembrança:

- Eles costumam tocar algumas músicas lentas, já que você gosta tanto de dançar, posso te acompanhar na primeira lenta da noite.

Surpreendida com o convite, Lizzy sentiu-se lisonjeada, porém temia não conseguir acompanha-lo por conta dos machucados que surgiam em seu calcanhar. Com a pretensão de se tornar agradável, Lizzy iniciou uma conversa qualquer:

- Meu pai adorou ter passado a manhã no kartódromo.

- Que bom, diga a ele, que poderá ir sempre que quiser. A ideia é que haja pequenos campeonatos no início, mas certamente abrigaremos os maiores também, assim que a confederação nos incluir no calendário.

- Apesar de sermos todas filhas mulheres, acredito que meu pai se sinta satisfeito, pois sempre me interessei em fazer-lhe companhia em coisas que, certamente, não agrade a maioria das mulheres.

- Vai ver por isso, você é assim, tão especial!

Lizzy ficou sem graça com o comentário objetivo do Sr. Darcy, fazendo-o perceber.

- Me desculpe, se fui tão direto em minha opinião, mas creio que minha admiração por você não seja mais segredo pra ninguém aqui. A verdade é que. – disse ele, olhando diretamente rvocê já conhece, eles não mudaram.

Apesar de sentir-se atraída pelo Sr. Darcy, Lizzy ainda guardava consigo recordações não tão agradáveis a seu respeito. Para ela, não bastava apenas o amor, precisava de respostas que considerava importantes para que pudesse tomar qualquer decisão. Mesmo George se revelando um verdadeiro crápula, necessitava descobrir sobre a real história entre os dois, lhe perturbava imaginar estar ao lado de uma pessoa cruel e injusta, características estas, inadmissíveis. Além disso, ela sentia-se muito distante, ainda havia muito pudor ao se relacionar com ele, fazendo com que ficasse o tempo todo na defensiva, achando que a qualquer momento ele a insultaria ou coisa parecida, ao falar sobre sua riqueza e a pobreza dela. Ao mesmo tempo, sonhava viver um grande amor, queria vê-lo demonstrar se de fato a amava, respeitando-a e admirando-a como ela realmente era. Tudo parecia simples demais, bastava uma boa conversa entre os dois, no entanto, o orgulho de Lizzy parecia impedi-la em seguir o caminho mais sensato. Após refletir por alguns instantes, ela apenas disse:

- Não me esqueci de suas palavras. Quero que saiba que as guardo comigo e jamais comentarei com alguém, seja qual for minha resposta.

- Ainda não tem uma resposta?

- Nunca poderia imaginar sobre seus sentimentos, me pegou de surpresa. – justificou Lizzy, fazendo uma pausa com a cabeça abaixada. – A verdade é que tinha uma opinião a seu respeito e de repente parece que tudo ficou diferente. Preciso ter certeza de quem é você!

- O meu jeito reservado não me permite ter muitos admiradores e, também, não gosto de me expor. Na verdade, não poderia esperar outra resposta sua, senão a de querer me conhecer. Isso, certamente, é melhor do que imaginava.

Lizzy permaneceu em silêncio, sem coragem para dizer-lhe que não pretendia envolver-se com ele. No entanto, tentava ao máximo, pensar numa saída, mas sentia-se muito confusa em relação aos seus próprios sentimentos. Antes que pudesse lhe falar, ouviram os primeiros acordes da música lenta. Eles se olharam e, logo, o Sr. Darcy tomou a iniciativa em se levantar, estendendo-lhe a mão. Mesmo, muito incomodada com as feridas em seus pés, esforçou-se para levantar, seguindo, os dois de mãos dadas, até a pista de dança. Lizzy levou as mãos delicadamente até os ombros dele, enquanto ele encostava carinhosamente suas mãos nas costas de Lizzy, abrançando seu corpo. O toque de suas mãos experimentava uma sensação química inigualável, a aproximação de seus corpos podia sentir a ofegante respiração e a vibração de seus corações, toda essa composição tornava a emoção daquele momento em algo absolutamente intenso.

- Esperei ansioso por isso. – contou ele, próximo ao ouvido de Lizzy. – Não poderia ser melhor, sei o quanto gosta dessa música. Lembro-me daquela tarde chuvosa, quando lhe dei carona. Você não conversava comigo, então pensei em ligar o rádio. Tocava essa música e você disse que gostava de ouví-la.

Tocava uma das canções favoritas de Lizzy, Do That To Me One More Time, fazendo-a se emocionar com a lembrança do Sr. Darcy.

Sem trocarem outras palavras, a aproximação entre eles era cada vez mais intensa, com os corpos colados, Lizzy encostava seu rosto em seu peito, segurando fortemente seu ombro, enquanto Sr. Darcy acariciava seus cabelos, reclinando seu rosto até a face de Lizzy. De olhos fechados, apreciavam a melodia e se deixavam envolver-se no clima romântico e prazeroso. Apesar da sensação adorável, Lizzy não suportava mais a dor em seus pés, pedindo ao Sr. Darcy que parasse, antes mesmo da música terminar.

- Me desculpe, mas não posso mais continuar.

- O que houve?

Mesmo sabendo que sua atitude poderia magoá-lo, Lizzy insistia em guardar segredo sobre seus machucados, sentindo pudor em contar-lhe sobre estar usando os sapatos da irmã.

- Me desculpe, não tem nada a ver com você, só preciso me sentar um pouco.

- Não está se sentindo bem?

- Não se preocupe, está tudo bem.

Sr. Darcy acompanhou-a até o local mais próximo, onde pudessem sentar. Logo, a música terminou e Charles se aproximou, muito feliz, por vê-los dançar juntos.

- Estou muito feliz por estarem comigo essa noite! A gente podia ficar aqui até o amanhecer, só curtindo. Depois podíamos ir até o Maksoud tomar um maravilhoso café da manhã. O que acham?

- Que ideia ótima, Charles! – elogiou Jane.

Certamente, que Lizzy não aceitaria ficar até o amanhecer naquelas condições, antes que pudesse responder a Charles, Sr. Darcy se adiantou:

- Charles, sabe que eu não compartilho com a sua ideia, ficaria apenas para fazer companhia a Lizzy, se ela preferir ficar.

Jane reparava atentamente em Lizzy e estranhou a expressão de dor em seu rosto:

- Está tudo bem, Lizzy?

- Parece que ela não se sentiu muito bem, enquanto dançávamos.

- Está tudo bem comigo, só preciso ir ao toalete.

- Claro, venha! Eu te acompanho.

Lizzy caminhava lentamente, com muita dificuldade, deixando Jane apavorada com seu estado.

- Lizzy, o que está sentindo? Por que está andando assim?

- Está insuportável calçar esses sapatos. – disse ela, sentando na poltrona do banheiro e mostrando as pequenas feridas a irmã.

- Minha nossa, Lizzy! Está horrível!

- Pois é, ainda fiz a besteira de tirar a meia calça.

- Quer usar a minha?

- Não iria adiantar.

- O que houve meninas, posso ajuda-las? – disse uma senhora simpática, responsável pelo toalete.

Lizzy hesitou em mostrar-lhe as feridas, no entanto, Jane pediu sua ajuda.

- Sim, pode nos ajudar? Minha irmã está com o calcanhar machucado, por acaso a senhora teria band-aid?

- Ora, deixe-me ver. – disse a senhora, observando as feridas. - Vou buscar uma toalhinha morna para colocar em cima, isso relaxa que é uma beleza! Sabe, muitas mulheres acabam a noite com feridas horríveis nos pés, nunca devem usar sapatos novos para dançar. – contou ela, enquanto preparava as toalhinhas.

- Por que não disse nada?

- Não consegui ficar a sós com você e o Sr. Darcy também não se afastou de mim a noite toda.

A senhora retornou com duas toalhinhas mornas e os curativos.

- Sugiro que coloque dois, assim vai proteger bem a ferida.

- Muito obrigada! – agradeceu Jane.

Enquanto, Jane ajudava Lizzy a fazer o curativo, não segurou a curiosidade em perguntar-lhe sobre o Sr. Darcy.

- O que está havendo entre vocês?

Lizzy ficou muito sem graça, revelando pouca coisa a Jane:

- Nada de mais, apenas conversamos, nada em especial.

- Não parecia. Vi enquanto dançavam, vocês pareciam encantados, um pelo outro!

Mesmo em choque, com a dor em seus pés, Lizzy ainda podia sentir a maravilhosa sensação em estar próxima ao Sr. Darcy. Olhou para a irmã e, em seguida, decidiu contar-lhe um pouco do que estava sentindo:

- A companhia dele tem sido perfeita, parece outra pessoa. Ainda não sei o que pensar.

- Acho que deveria dar uma chance a ele. – aconselhou Jane, enquanto colocava o band-aid sobre a ferida de Lizzy. – Sr. Darcy é um homem bom, Charles fala muito sobre ele. E sei o quanto ele gosta de você.

- Pensava que não soubesse.

- Charles comentou.

Por mais entusiasmada que estivesse e recebendo o apoio de sua irmã, muitas coisas passavam pela sua cabeça, causando um grande conflito de ideias e opiniões.

Charles e o Sr. Darcy também aproveitavam o momento a sós, para conversarem. Bastante discreto, ele comentava sobre seu entusiasmo por Lizzy, no entanto, não deixou de dizer o quanto era difícil se aproximar dela, além do mais, sentia constantemente que algo a incomodava, parecendo não sentir-se à vontade ao seu lado.

- Não se esqueça que tem o lance da irmã dela, talvez seja isso que está pegando.

- Sim, eu não me esqueci.

- Elas estão demorando.

- Pois é, também estou achando.

Ao sair do banheiro, Lizzy sentia-se melhor, porém desejava ir embora o mais rápido possível. Ainda distantes, Lizzy pediu a Jane que não comentasse nada com ninguém sobre os machucados de seu pé, admitindo que ficaria muito sem graça em contar tal fato ao Sr. Darcy. Jane apenas concordou, estranhando o comportamento de sua irmã.

- Desculpem a demora. – disse ela. – Estou muito cansada, preciso ir para casa.

- Eu a levo.

- Sr. Dary, não é necessário. Posso tomar um táxi. Por favor, fique e curta a sua noite.

- De jeito nenhum, eu vou com você.

- Obrigada pela gentileza, Sr. Darcy. Lizzy precisa ir, não estava sentindo-se bem.

Muito preocupado, ele despediu-se de Charles e de Jane, conduzindo Lizzy até a saída. Já do lado de fora da boate, eles aguardavam juntos, o manobrista. Quando entraram no carro, poucas palavras foram trocadas até chegarem à casa de Lizzy, embora ele tenha tentado animá-la. Quando ligou o rádio, tocava a música romântica, No Night So Long e ele disse, em tom de brincadeira:

- Já que você não conversa comigo, te ofereço uma música!

Lizzy apenas sorriu, sem lhe dizer nada.

- Eu moro aqui, neste prédio.

Sr. Darcy estacionou o carro em frente ao prédio. Abaixou a cabeça apoiando suas mãos no volante e fez uma pergunta a Lizzy:

- Quero te pedir uma chance.

Lizzy também estava de cabeça baixa, sentada no enorme banco do Landau, longe do Sr. Darcy.

- Tudo parecia bem entre a gente, não entendo. – disse ele, olhando para Lizzy.

- Sinto muito.

- Podemos nos ver amanhã? A gente podia ir ao cinema ou fazer qualquer outra coisa juntos.

- Não sei, acho melhor não.

- Me dê um motivo.

Lizzy sentia-se sufocada por não poder dizer-lhe tudo. Naquele momento, sentia-se exausta e não conseguiria, mesmo que quisesse, explicar-lhe um motivo, se é que ele realmente existia. De fato, estava bastante perturbada e confusa, se revelando uma pessoa que não estávamos acostumados a ver.

- Acho que o problema é comigo e não com você.

- Lizzy, sou orgulhoso demais para ficar aqui implorando pelo seu amor. Quero que saiba que nunca senti o que sinto por você. A nossa noite hoje foi incrível, mas eu estive o tempo todo atrás de você. Acho que está claro que não terei a chance que te pedi e se é assim que você prefere, fique tranquila, nunca mais vou te procurar para falarmos sobre isso.

Lizzy não disse nada, apenas balançou a cabeça como se concordasse com cada palavra que havia escutado. Em seguida, murmurou baixinho: - Vai ficar tudo bem.

- Obrigada por tudo e me desculpe. – disse ela, saindo do carro e entrando no prédio. Sr. Darcy ainda aguardou, por algum tempo, na esperança de que Lizzy surgisse, dizendo o que mais queria ouvir naquela noite.