Dois Meses Sem o Sr. Darcy

Sr. Darcy parecia convencido de que Lizzy não estava interessada em seu amor, após o insucesso de todas as suas tentativas de aproximação e, também, em mostrar-lhe, ainda que sem hesito, o quanto a admirava. Estava decidido em não mais incomodá-la, a noite anterior havia sido conclusiva e tomar a decisão de não vê-la mais, por um tempo, não fora assim tão fácil, mas o fato é que Lizzy não compartilhava do mesmo sentimento e, seu orgulho renascia agora, acompanhado por uma manifestação de defesa, tentando amenizar a frustrante sensação de não ter conseguido conquista-la. Para ele, seria doloroso demais estar próximo a ela o dia todo, necessitava de um tempo para esquecê-la. Embora Lizzy parecesse indiferente a seu sentimento franco e terno, repensava, a cada instante, incansavelmente, na sua decisão. As lembranças agradáveis e a sensação prazerosa da companhia do Sr. Darcy despertavam nela uma estranha e inesperada vontade de revê-lo e de estar próxima, novamente, aos seus desejos. No entanto, seus sentimentos eram confusos e suas desculpas se tornavam pesadas demais ao abdicar de um amor que parecia sincero e profundo.

A noite parecia sem fim para ambos. Enquanto Lizzy, deitada na cama, ainda com dor nos pés, buscava acalmar sua agonia, tentando se convencer de que havia tomado a atitude mais correta, Sr. Darcy caminhava de um lado para o outro, inconsolável, observava, pela sacada de seu quarto, as luzes do outro lado do rio. Tudo parecia sem sentido. Segurava um copo de whisky na mão, desapontado e determinado a esquecer seus sentimentos.

Ainda pela manhã, após poucas horas de sono, Lizzy caminhava pela rua, num dia calmo e ensolarado, calçando chinelos de dedo, seguindo para casa de seus pais. Ao entrar pela sala, Sr. Bennet estranhou a presença da filha, tão cedo, em sua casa. Também reparou sua feição abatida e cansada. Suas irmãs ainda dormiam e sua mãe estava na missa, fazendo com que ela aproveitasse a calmaria da casa para relaxar no sofá. Intrigado com o comportamento da filha, Sr. Bennet aguçou seu interesse, dizendo-lhe que havia sido publicado um artigo seu no jornal, no entanto, muito diferente do que era habitual, Lizzy sequer perguntou sobre o tema da matéria, deixando o pai com a certeza de que algo havia ocorrido. Ainda, aproveitando que Lizzy mantinha seus olhos abertos, Sr. Bennet partiu para a segunda tentativa em fazer com que ela reagisse normalmente, contando-lhe que Jane teria uma agradável novidade para todos da família. Porém, para surpresa de seu pai, Lizzy continuou deitada no sofá, com a cabeça encostada na almofada e o olhar perdido, parecendo vagar janela afora.

Quando Sra. Bennet retornou a casa, barulhenta como de costume, entrou dando ordens a Maria sobre o almoço de domingo, sem perceber que a filha cochilava no sofá. Porém, sua voz se tornou ainda mais barulhenta e estridente, ao Maria mencionar sobre a Sra. Gardiner ter telefonado, despertando Lizzy de seu sono leve e intranquilo, fazendo com que descobrisse algo terrível, o comportamento cruel e egoísta de sua mãe. Há muito, Lizzy estava desconfiada de que sua mãe, envergonhada por conta da gravidez de Lydia, não recebia mais visitas em casa, inclusive dos familiares e, isso, incluíam os tios Gardiner e o primo William. Ao mesmo tempo, não a incentivava sair de casa, apenas para comparecer nas consultas médicas, que eram obrigatórias. Para Lizzy, isso não era certo. Lydia precisava, neste momento, do apoio da família. Ao levantar do sofá e ir em direção a cozinha, Sra. Bennet percebeu a presença da filha, se surpreendendo e disfarçando imediatamente o assunto que tratava com Maria. Após um cumprimento ríspido, Lizzy caminhou até o quarto, a procura da irmã, deixando Sra. Bennet bastante receosa, sobre o que a filha poderia ter escutado.

Ao entrar no quarto, Lydia, que já havia acordado, chamou-a até sua cama:

- Venha aqui, Lizzy!

- Kitty ainda está dormindo!

- Podemos conversar bem baixinho aqui, assim não vamos acordá-la. – disse Lydia, liberando espaço em sua cama para que Lizzy pudesse se acomodar.

Era sublime a transformação da relação entre as irmãs. A gestação de Lydia, ao menos servira para aproximá-las e, o mais importante, era o respeito e a admiração que Lydia sentia pela irmã. Antes disso, a opinião dela era de que Lizzy não sabia aproveitar a vida. Não namorava e nem frequentava os lugares da moda para se divertir. Também não era popular entre seus amigos e mal sabia se vestir. A única coisa que pensava era em estudar. A nova condição de Lydia, a fez uma garota mais madura, além de aproxima-la de Lizzy, que se preocupava muito com sua saúde e bem-estar, tornando-se sua referência, um modelo a ser seguido.

- Me conte tudo sobre o Gallery! – pediu Lydia, muito entusiasmada.

- Ah! Sim. – exclamou Lizzy, relembrando rapidamente sua noite. - Bem, é um lugar incrível! Você iria adorar! Quem sabe, um dia, após ter seu bebê, possamos nos reunir lá, assim poderá conhecer a boate com seus próprios olhos.

- Você viu alguém famoso?

Lizzy não se lembrava de quase nada, além das feridas nos calcanhares e da companhia sedutora do Sr. Darcy. No entanto, não queria decepcionar a irmã.

- Havia muita gente bonita, por lá, mas não me recordo em ter visto nem o Fábio Jr e nem mesmo o Kadu Moliterno. – respondeu ela, fazendo Lydia sorrir. – Mas acredite, havia pessoas muito bonitas, talvez até mais do que eles dois juntos. Como tem se sentido?

- Não muito bem. Sinto-me muito sozinha, às vezes, passo o dia todo sem conversar com ninguém.

- Mas não deveria sentir-se assim, tem a mamãe, a Kitty e a Mary para lhe fazer companhia.

- Sim, mas a mamãe anda muito ocupada. A Kitty não tem ficado em casa, acho que prefere a companhia de suas amigas do colégio e a Mary passa horas, no quarto, estudando para o vestibular. Às vezes, surgem muitas dúvidas, mas não tenho ninguém, isso me dá muito medo, Lizzy.

Lizzy abraçou a irmã, lamentando dentro de si, o comportamento arredio de sua mãe em relação a filha, em seguida, perguntou:

- Você não anda saindo muito, não é mesmo?

- Não. Na verdade, apenas para ir ao médico. A mamãe prefere que eu fique dentro de casa e acabo ficando. Ela sempre diz que as pessoas irão comentar, se me virem com essa barriga. Então, eu sinto muito medo e não suporto, nem pensar, o que as elas possam comentar a meu respeito.

- Isso não tem importância alguma. Não tem que se preocupar com besteiras desse tipo. Você tem certeza de que não quer voltar ao colégio? Ainda dá tempo de recuperar a matéria perdida, posso ajuda-la, se quiser.

- Não suportaria voltar e ver todos meus colegas me encarando e comentando. Querendo saber detalhes. Acho melhor não, Lizzy.

- Você não será a primeira e nem a última adolescente grávida. Acredite, existem muitas. Também acho, que não deveria parar com os estudos. Vai precisar dele mais tarde, pra ter sua vida e cuidar de seu filho.

- Estive pensando sobre isso, quero terminar meus estudos, mas o ano que vem e em outro colégio.

- Fico feliz em ouvir isso! – disse Lizzy, empolgada com a decisão da irmã, finalmente Lydia estava sendo influenciada por suas ideias. Também estava convencida de que era apenas questão de tempo, para que Lydia contasse quem era o pai de seu filho, apesar de ter a certeza de que era George. - Não deveria se envergonhar ou ter medo de nada, Lydia. Pense que você tem a mim e ao papai e, claro, o resto da família. Estamos todos do seu lado.

- Seu discurso é muito bonito, Lizzy. Mas, a verdade é outra. Como posso pensar assim, se até mesmo a mamãe sente vergonha de mim. Sei que posso contar com você e com o papai também, mas de vez em quando, bate um desespero, acho que é arrependimento de ter feito o que fiz. Eu estraguei tudo, Lizzy! Eu estraguei a minha vida! – desabafou Lydia, chorando baixinho no ombro da irmã.

Lizzy, muito preocupada com o estado da irmã, pedia a ela que se acalmasse e que tudo seria superado, aos poucos.

- Precisa ter paciência, sei que isso é difícil até mesmo pra mim, mas acredite, vai dar tudo certo no final.

- Você acha que ele vai voltar pra mim? É isso?

Não era bem isso o que ela estava tentando dizer à irmã, no entanto, a interpretação de Lydia serviu para que Lizzy pudesse perceber o quanto era importante que George estivesse ao lado dela.

- Enquanto isso não acontece, você deve me prometer que irá se cuidar e de seu bebê também. Você precisa sair mais. Tomar sol. Caminhar. Ser uma grávida saudável e feliz. – disse Lizzy, olhando para a feição de Lydia, abatida, triste e com o rosto molhado pelas lágrimas. – Não podemos deixar que a mamãe se oponha a você sair de casa ou mesmo receber visitas. Isso não está certo!

- Bem, outro dia, escutei mamãe falando com William pelo telefone. Disse que a casa estava em reforma. Tudo mentira, inventou isso para não hospedá-lo, aqui em casa. Tenho certeza de que era por minha causa.

Ao ouvir o que Lydia havia lhe contado, Lizzy fechou os olhos se envergonhando com o comportamento da mãe.

Assim como os Gardiner que há tempos não visitavam a casa dos Bennet, William, certamente, estava impedido em visita-los, também. Era lamentável o comportamento insano da Sra. Bennet e, claro, que Lizzy não deixaria que isso se prolongasse por mais tempo. Enquanto estavam deitadas na cama, em silêncio, puderam escutar risadas vindo do quarto de Jane e Mary. As duas tiveram a mesma ideia, em se juntar as irmãs para ver o que estava acontecendo. Lizzy ajudou Lydia a se levantar, evitando que fizesse muito esforço. Ao chegarem à porta, puderam perceber Jane exibindo sua mão para Mary. Nela havia um lindo anel de brilhantes. Assim que Jane viu Lizzy, na porta do quarto, levantou-se da cama, indo em sua direção.

- Você não vai acreditar! Estou noiva! Não é maravilhoso, Lizzy? Veja o anel que Charles me deu. – disse ela, estendendo a mão para que a irmã pudesse admirar o anel.

Lizzy estava fascinada com a notícia da irmã. Ainda que não conseguisse compreender em que momento da noite isso havia acontecido. Jane, logo, pode perceber a dúvida no olhar de Lizzy, e se adiantou em explicar-lhe:

- Lembra que combinamos em ir ao Maksoud, tomar o café da manhã?

- Sim.

- Então, Charles sumiu por alguns minutos e de repente apareceu com esse anel, me pedindo pra ser sua noiva! Sei que parece loucura, mas nós nos amamos! De verdade! Acho que foi a coisa mais linda que me aconteceu!

Estavam todas maravilhadas com a história de Jane, que mais parecia um conto de fadas. Emocionada, as lágrimas escorriam no rosto de Jane, tornando o momento ainda mais intenso.

- Você merece ser feliz! – disse Lizzy, abraçando a irmã, lembrando dos momentos dolorosos que Jane havia enfrentado pelo amor que sentia por Charles. - A mamãe já sabe? – perguntou.

- Ainda não. – respondeu Jane. – Apenas o papai, que era o único que estava acordado quando cheguei.

Foi quando Lizzy lembrou-se que seu pai havia comentado algo sobre Jane ter uma notícia agradável para contar, no entanto, naquele momento, não havia dado atenção ao pai. Por um instante, vendo de perto a felicidade da irmã, passou por sua cabeça, que sua noite também poderia ter terminado, assim, como a de Jane, com um final feliz. A dolorosa sensação de arrependimento aumentava dentro de Lizzy, fazendo com que ela sentisse uma profunda tristeza.

Ninguém imaginava que a reação da Sra. Bennet, ao saber sobre o noivado da filha, seria diferente. Abraçava e beijava Jane incansavelmente, delirando, ao imaginá-la como uma dessas mulheres belíssimas da alta sociedade, frequentando estilistas, com um chofer exclusivo e viajando para fora do Brasil. No entanto, apesar dos devaneios de sua mãe, que serviam apenas para que todos se divertissem, acima de tudo estava a felicidade de Jane, que era algo legítimo e merecedor, por ela ser uma pessoa boa e generosa e por ter acreditado, até mesmo nos momentos mais difíceis, em seu amor por Charles.

Aproveitando o momento tão especial, incluindo a empolgação de sua mãe, Lizzy deixou a tristeza de lado e teve a ousadia de sugerir a presença de seus padrinhos em casa para uma grande comemoração. A ideia pareceu natural a todos, já que os Gardiner faziam parte da família, no entanto, Sra. Bennet, que num primeiro momento, havia se manifestado a favor, já que teria a oportunidade de se gabar pelo noivado de Jane com um homem bem sucedido, em outro instante, se recordou da gestação de Lydia, fazendo-a voltar atrás.

- Até que o noivado de sua irmã seja, de fato, concretizado, não devemos expô-la dessa maneira, mesmo para os nossos familiares. O correto, agora, é que Charles providencie uma cerimônia, a altura, para oficializar seu compromisso, portanto devemos aguardar.

- Mamãe, isso não se usa mais. – argumentou Jane, querendo dizer gentilmente que não haveria formalização alguma. Lembrou-se, ainda, de que a família Bingley possivelmente não estaria a favor dessa união.

- Ora, minha filha, não diga besteira! Tai uma coisa que nunca sairá de moda. – retrucou Sra. Bennet. – Além do mais, precisamos conhecer e interagir mais com os Bingley, afinal seremos todos, uma única família!

Jane preferiu não se manifestar, mas sabia que a interação com a família de Charles seria algo um tanto impossível.

Definitivamente, Lizzy estava convencida de que seria melhor não insistir na presença dos tios Gardiner e que, certamente, precisaria ficar mais atenta ao bem estar de Lydia e as insanidades de sua mãe. Jane não merecia que seu dia fosse marcado com qualquer tipo de discussão, por isso preferiu não insistir com o assunto.

Mais tarde, logo após o almoço, Jane e Lizzy finalmente ficaram a sós no quarto e puderam conversar como nos velhos tempos. No início, apesar de sua discrição, Lizzy necessitava mais do que tudo, desabafar seus conflitos com alguém e Jane era a pessoa mais indicada para ouvi-la. Ao mesmo tempo, Jane tentava conter a tamanha curiosidade dentro de si, em saber detalhes sobre a noite ao lado do Sr. Darcy.

- Não vai me contar como foi a sua noite ontem?

- Não aconteceu nada de mais, a não ser essas feridas nos meus calcanhares. – respondeu Lizzy, mostrando a irmã seus pés machucados.

- Nossa! Isso está feio! – comentou Jane, fazendo uma careta. – Não posso acreditar que sua noite tenha se resumido a isso.

- Bem, mesmo com os pés arrebentados, eu pude aproveitar um pouco a noite. Aquele lugar, de fato, é tudo que você falava.

- E o Sr. Darcy? Como se comportou?

Demorou alguns segundos até que Lizzy conseguisse responder.

- Ele foi muito gentil em fazer-me companhia quase que a noite toda e, depois, em ter me levado para casa. – respondeu ela, de cabeça baixa.

Insatisfeita com a resposta da irmã, Jane decidiu revelar tudo que sabia.

- Lizzy, por que não quer me contar sobre o Sr. Darcy? Eu soube de tudo durante a festa de inauguração do kartódromo. Ouvi Charles e ele conversando sobre você. Depois, Charles contou-me tudo. O Sr. Darcy está gostando de você, Charles disse nunca tê-lo visto desta maneira. Pôs fim ao seu namoro com Caroline, para poder estar livre para você. – revelou Jane, surpreendendo-a com suas declarações.

Enquanto Lizzy, olhava para Jane, silenciosamente, as lágrimas escorriam de seu rosto. Jane levantou-se de sua cama, indo ao lado da irmã, consolá-la.

- Sei sobre sua opinião em relação ao Sr. Darcy, mas acho que ele é uma boa pessoa e está, de fato, gostando de você.

- Sim, eu sei.

- E o que você fez?

- Ele não deve me procurar mais.

- Você o rejeitou?

- Sim.

- Com todas essas lágrimas escorrendo em seu rosto, não tente me convencer de que não está arrependida e que tomou a decisão certa.

Apesar de tudo ser muito confuso, suas opiniões e sentimentos, Lizzy estava certa sobre a decisão que havia tomado, ainda que alguma coisa lhe dissesse que fora precipitada demais, além de levar em consideração seu excessivo orgulho. Para ela, era difícil aceitar alguém como o Sr. Darcy, homem poderoso e rico, inteligente e dono de um conhecimento invejável. Lhe era perturbador demais imaginar-se ao seu lado, para não dizer amedrontador. Temia, só de imaginar, a convivência ao seu lado, esnobando e valorizando, além da conta, as coisas que possuía ou que havia vivenciado. O que restaria para ela? Ser apenas sua sombra deslumbrada com a riqueza e todo seu poderio. Ainda que fosse a pessoa boa que Jane afirmava ser, Sr. Darcy era muito preconceituoso. Em sua primeira e decepcionante aproximação, deixou claro de que era contra o relacionamento entre pessoas de classes sociais diferentes, aumentando, ainda mais, a aversão de Lizzy por sua pessoa. Para alguém que buscava sua independência financeira através de seus estudos e capacidades intelectuais, era ofensivo demais imaginar-se sendo acusada de estar ao lado de alguém simplesmente por dinheiro, o sonho de Lizzy transcendia convenções e protocolos que há muito existiam nas sociedades, mesmo que com menos força. Apesar, do comportamento menos arrogante do Sr. Darcy, na noite anterior, o que despertava em Lizzy certo desconforto por sua decisão, o que a mantinha mais equilibrada era a sensação de que as características identificadas nele, desde o primeiro dia em que o conheceu, permaneciam intactas, seu orgulho e seu preconceito.

- Na verdade, ainda não tenho certeza sobre a decisão que tomei, mas o fato é que está feito e não tem mais volta. - disse ela, enxugando seu rosto.

- Oh! Lizzy. Você precisa aprender a ser menos orgulhosa. Vai sofrer muito, desta maneira.

- Eu sei.

- Acredite, se vocês se amam de verdade, terão uma segunda chance.

Para Lizzy, aquela já era sua segunda chance, não haveria outra.

- Acho que não. Quer dizer, não sei dizer.

Tantas coisas passavam pela cabeça de Lizzy, naquele momento, que não conseguia sequer ordenar seus pensamentos. Sem que ela soubesse, até por conta da sua inexperiência, apenas o tempo seria capaz de mostrar-lhe o caminho, mesmo que fosse doloroso demais caminhar nele.

Lizzy deixou a casa de seus pais, quando já era noite. Caminhava sozinha, até sua casa, carregando consigo seus conflitos e os problemas familiares que tanto lhe causavam incomodo e sofrimento. Sentada a mesa da sala, tentava concentrar-se em seu trabalho da faculdade, amenizando, dentro de si, as doces lembranças de sábado a noite. Não podia imaginar as mudanças que estariam por vir.

As providencias tomadas pelo Sr. Darcy foram executadas logo pela manhã, no escritório. Assim que Lizzy chegou percebeu certa agitação já na mesa de Charlotte, que mal pode cumprimentar a amiga, por estar ao telefone, numa ligação muito importante. Em sua sala, nos corredores e até mesmo, no refeitório, os colegas de trabalho especulavam sobre o que estaria ocorrendo, uma vez que todos os seus chefes se encontravam em reunião na sala do Sr. Darcy, desde a primeira hora. Finalmente, próximo a hora do almoço, todos os funcionários foram comunicados de que a partir daquela data, a atuação do Sr. Darcy, no escritório, seria bastante restrita e que um senhor, amigo de seu pai, advogado bastante experiente que exercia um cargo de confiança há anos no escritório, estaria responsável por todas as atividades. Aquela notícia parecia um estrondo aos ouvidos de Lizzy. Por um momento, lhe ocorreu que poderia ser uma decisão do Sr. Darcy por conta de ela tê-lo rejeitado. Mas, logo em seguida, soube que passava de uma simples coincidência, a mudança era necessária, na opinião de todos os grandes advogados do escritório, já que o Sr. Darcy havia adquirido, há dias atrás, uma participação maior na empresa de mineração, necessitando, desta forma, sua presença, mais assídua, frente aos negócios.

Naquele dia, Lizzy saiu do escritório sem ao menos ver o Sr. Darcy. Uma perturbadora sensação de vazio tomava conta de si, ao saber que ele não estaria mais lá. Parecia loucura, mas por mais que, todo aquele tempo, desde que entrara no escritório, a presença do Sr. Darcy e seu ar arrogante a incomodassem por excesso, agora, tudo ali, parecia estranhamente sem sentido. Foram dias até que conseguisse aceitar melhor a perda, sentia-se tola ao imaginar que um homem tão poderoso como ele, acostumado a ter tudo, se importaria com a estagiária que havia recusado o seu amor. Parecia-lhe que sua vida era muito maior que isso, que dentro dela não havia mais lembranças e que a página havia virado. Sua rotina, aos poucos foi se redesenhando, se ajustando novamente aos seus objetivos anteriores, onde os estudos ocupavam praticamente o seu tempo todo. Faltando menos de dois meses para a apresentação de seu trabalho de conclusão de curso, Lizzy estudava a possibilidade de se aventurar em outros trabalhos, assim que se tornasse uma advogada. Seus planos a libertavam de suas recordações, que tanto a faziam sofrer, dando-lhe a esperança que tanto precisava.

Com a ausência do Sr. Darcy no escritório, ouvia-se com mais frequência, muitas histórias, algumas saudosas e deliciosas de serem ouvidas, do tempo em que seu falecido pai ainda trabalhava no escritório. A opinião de todos parecia unanime ao descreverem a generosidade e o caráter da família Darcy. Foi numa dessas ocasiões que Lizzy pode perceber indícios de que esteve equivocada este tempo todo sobre o Sr. Darcy. Estava, cada vez mais claro, que ele não era exatamente como aparentava ser. Foi, ainda, numa dessas conversas, que pode ouvir claramente a verdadeira história sobre George. Muitos, do escritório, aconselharam o Sr. Darcy a envolver a polícia no caso do desvio de dinheiro e na falsificação da assinatura de vários cheques. Havia provas suficientes para incriminá-lo, no entanto, a decisão do Sr. Darcy foi apenas afastá-lo do trabalho e expulsa-lo, dias mais tarde, de sua casa, por respeito a Sra. Wickham. Estava evidente para ela que toda a história contada por George não passava de uma grande mentira. Essa descoberta era algo doloroso e atormentador para ela, parecendo segui-la para qualquer lugar que fosse.

Apesar de todo o sofrimento, Lizzy manteve-se discreta, sem envolver ninguém em suas histórias. Sua irmã Jane, ainda mantinha certo contato com o Sr. Darcy, através de Charles, fato este, que a tornava cautelosa em envolve-la em seus assuntos mais íntimos. Muito orgulhosa e temendo ser esnobada pelo Sr. Darcy, em hipótese alguma, poderia admitir que ele soubesse o que se passava com ela. Todas as vezes em que Jane contava tê-lo encontrado, Lizzy dava um jeito de mudar de assunto o mais rápido possível, apesar da curiosidade em saber notícias sobre ele. Até mesmo, os insistentes convites de festas e outros programas que Jane fazia a Lizzy eram cuidadosamente recusados, com desculpas bem convincentes, para que a irmã não percebesse o quanto ela temia em reencontrar o Sr. Darcy.

Após, dois domingos consecutivos sem aparecer na casa dos pais, Lizzy havia chegado para o almoço, como se estivesse fora há anos. A receptividade entre as irmãs era calorosa, fazendo Lizzy se emocionar com tanta atenção e carinho. Finalmente, estavam presentes seus padrinhos, para aborrecimento de sua mãe. A Sra. Gardiner, ainda muito sensibilizada com a notícia da gravidez de Lydia, se propôs a ajuda-la com o enxoval e em todas as demais necessidades, trazendo para si, muitas das responsabilidades que seriam da Sra. Bennet, tornando a vida da jovem Lydia menos árdua.

- Não me conformo que seus pais deixaram ela largar os estudos. – disse Sra. Gardiner, inconformada, a Lizzy, enquanto estavam no quarto de Jane.

- Eles não tiveram escolha, madrinha. Apesar dela não ter idade para decidir sobre sua própria vida, foi melhor assim. Ela prometeu-me que no ano que vem, voltará a estudar. – garantiu Lizzy.

- E o pai da criança, não há notícias deste sujeito? – perguntou ela indignada.

- Meu pai nunca fez questão que ele aparecesse. – contou Lizzy. – Lydia, por sua vez, nunca nos contou quem é o pai da criança. É um direito dela. – disse ela, ainda que não concordasse com a atitude da irmã.

Sra. Gardiner, muito diferente da postura da Sra. Bennet, não envergonhava-se da gravidez da sobrinha, sugerindo que ela tivesse um acompanhamento psicológico, por conta da gestação precoce e do abandono de responsabilidade por parte de seu parceiro. As irmãs Jane e Lizzy apoiaram a sugestão da Sra. Gardiner, fazendo com que Lydia se convencesse de que seria melhor para ela.

A sós com Lizzy, Jane aproveitou a oportunidade para falar sobre George:

- Você desistiu em encontra-lo?

- Às vezes, penso se ela não está melhor sem ele. Soube coisas muito desagradáveis a seu respeito. Estava completamente enganada e não imagina o quanto me sinto culpada em ter aproximado ele de nossa família.

- Entendo. Mas digo isso por causa de Lydia.

- Pode ser duro para ela agora, mas quando estiver mais madura, verá que foi melhor assim. George é um canalha, Jane. Ele poderia estar preso agora, sabia?

- Nossa! – exclamou Jane, assustada com a declaração de Lizzy.

- Ele é um ladrão, roubava dinheiro e, também, falsificava cheques. Foi por isso que demitiram ele do escritório. Talvez, estivesse fazendo o mesmo no outro lugar onde estava trabalhando. Tem a sorte de aplicar esses golpes em cima de pessoas boas, caso contrário, a essa altura, poderia estar preso. – disse Lizzy, se referindo, principalmente ao Sr. Darcy, porém sem cita-lo a irmã.

- Talvez, devêssemos saber por onde ele anda. – sugeriu Jane. – Logo, Lydia terá o bebê e acho que ele tem o direito de saber.

- Você tem razão. – refletiu Lizzy. – Mas, não sei como encontra-lo.

Jane estava certa de que o único caminho seria pedir ajuda ao Sr. Darcy, porém sabia que Lizzy se negaria a fazer. Teria que aborda-lo sozinha e, preferencialmente, sem que a irmã soubesse

- Mudando um pouco de assunto, como tem se sentido?

- Bem, não tenho tido muito tempo ultimamente, estou bastante preocupada com meu trabalho da faculdade.

- Precisa se cuidar, tenho sentido muito a sua falta.

- Sinto muito, mas tenho apenas duas semanas para entrega-lo.

- Que loucura! Logo estará formada, tenho muito orgulho de você, Lizzy.

- Tem visto o Sr. Darcy?

- Não, nunca mais apareceu no escritório, até onde eu sei. E você e Charles, como estão?

- Estamos muito bem! Ele é ótimo! Pena que não possa dizer o mesmo de sua família. Eles não me aceitaram. Charles contou-lhes que ficaríamos noivos e sua mãe chegou a ameaça-lo, caso isso acontecesse, ele teria que sair de casa. Você acredita?

- Posso imaginar. O importante é que vocês estejam bem.

- Charles está procurando um lugar para morar, algo temporário, até que possa definitivamente comprar um imóvel. Sua ideia é sair o quanto antes da casa de seus pais, segundo ele, está insuportável ficar lá.

- Nossa! Pobre Charles. E o kartódromo, como está indo?

- É um negócio muito promissor. Charles está realizado, fazendo algo que realmente gosta. Ele está organizando uma corrida para os próximos dias, assim que conseguir fechar a agenda de todos seus convidados. Apesar de não ser nenhuma corrida oficial, com pilotos de verdade, acredito que será divertido. Podíamos ir juntas e levar o papai, o que acha?

- Realmente preciso ver se dará para ir, estou muito apertada com os prazos da faculdade.

- Bem, dependendo de quando for, pode ser que já esteja formada! – brincou Jane. - Assim que Charles confirmar a data, te aviso.

É claro que passou pela cabeça de Lizzy que essa seria uma ótima oportunidade para reencontrar o Sr. Darcy. Mas, antes mesmo que continuassem a conversar, Sra. Gardiner apareceu no quarto, chamando-as para tomar um lanche. Empolgada em ver a casa, novamente, com a presença de seus tios, Lizzy permaneceu até mais tarde, enquanto comia seu segundo pedaço de pão doce com café.

Passados quase dois meses, desde a saída do Sr. Darcy do escritório, numa dessas conversas no corredor entre as salas jurídicas, Lizzy pode ouvir seu chefe comentando de que receberiam a visita do Sr. Darcy no dia seguinte. Naquele mesmo instante, numa reação assustadora, ela seguiu diretamente para o banheiro, se trancando por alguns minutos, emocionada e quase sem fôlego, sentindo seu coração disparar. Finalmente, a oportunidade que tanto queria, aconteceria, mais cedo do que imaginava.

Naquela noite, preferiu ir direto para sua casa. Sentia-se feliz e motivada em saber que reencontraria o Sr. Darcy. Após algumas horas em frente a máquina de escrever, foi até seu guarda-roupas, escolher uma roupa especial para o dia seguinte. Parecia que nada lhe agradava. Experimentava algumas camisas, mas achava que nada chamaria a atenção dele.

- Que tolice! Achar que ele se impressionaria com isso. – disse ela, em voz alta, se olhando no espelho na porta de seu armário.

Após desistir em providenciar um visual mais caprichado, Lizzy deitou em sua cama e fez a leitura de todas as páginas que havia datilografado aquela noite. Estava ansiosa demais para relaxar e dormir.

Após poucas horas de sono, acordou cedo e demorou mais do que o normal para se arrumar. Estava com pressa em chegar ao escritório, pois não sabia exatamente a que horas aconteceria a visita do Sr. Darcy. Quando chegou ao trabalho, Charlotte foi a primeira a reparar que a amiga estava com um visual diferente.

- Uau! Há tempos não te vejo assim, tão bonita! – disse ela, se referindo a maquiagem de Lizzy.

- Pois é, acordei inspirada.

- Você já sabe?

- Sobre o que?

- Hoje teremos a visita do Sr. Darcy. Ele chegará daqui a pouco. - contou Charlotte, observando as horas em seu relógio de pulso. – Sei que já ouviu milhões de vezes isso, mas sinto muito a falta dele.

Lizzy manteve-se séria, disfarçando a alegria que sentia ao saber da confirmação de sua visita.

- Eu não estava sabendo. Será bom revê-lo. – disse ela, sem expor nenhuma emoção. – Preciso subir, mais tarde nos falamos.

- Sim, precisamos mesmo. Você precisa me contar sobre a vinda de William!

Lizzy pode perceber o clima festivo que envolviam a todos no escritório, por conta da visita do Sr. Darcy. Quando o Landau, finalmente, estacionou em frente o casarão, os funcionários reagiram como se tivessem prestes a encontrar um ídolo, todos pareciam ansiosos para reencontra-lo, saindo das salas para saudá-lo. Lizzy, apesar de compartilhar o mesmo sentimento com todos, manteve-se dentro de sua sala, esperando que ele sentisse sua falta e fosse procura-la. Estava enganada. Assim que cumprimentou a todos, ainda no saguão do andar térreo, subiu até sua antiga sala na companhia de seus advogados e lá passaram algumas horas em reunião.

Seus colegas de trabalho já haviam descido ao refeitório para almoçar, enquanto Lizzy fazia hora em sua sala, prevendo que o Sr. Darcy sairia, a qualquer momento, da reunião. Ao tocar o ramal de sua mesa, levou um tremendo susto, atendendo imediatamente ao telefone, imaginando que poderia ser da sala do Sr. Darcy. No entanto, era Charlotte pedindo a amiga que descesse para almoçar:

- Estou indo para o refeitório agora, quer me acompanhar no almoço?

- Não acha melhor esperar a reunião entre eles terminar?

- Não será preciso, o Sr. Darcy acabou de descer e ir embora.

- Como assim?

- Os demais continuam na sala, mas ele acabou de partir.

Lizzy fechou os olhos se lamentando. Estava completamente errada em achar que o Sr. Darcy perceberia sua ausência. Todos haviam saudado a chegada dele no escritório, exceto ela. Nem mesmo Charlotte havia notado sua ausência.