Um segredo entre Jane e Sr. Darcy
A Sra. Bennet iniciou o dia virando a folha do calendário, pendurado na parede de sua cozinha. O mês de novembro iniciava-se e isso significava que o ano de 1980 estava chegando ao fim. O tempo avançava rapidamente, sem dar trégua aos acontecimentos na casa dos Bennet. Lydia, agora com seis meses de gestação, exibia o início de uma barriga, que se tornaria ainda mais exuberante nos próximos meses de verão. Com apoio integral de sua tia, a Sra. Gardiner, havia iniciado suas visitas ao psicólogo, o que estava sendo bastante proveitoso. Além de perceber o quanto era comum o seu caso, passava a compreender e aceitar as responsabilidades da maternidade e a lhe dar melhor com seus sentimentos e isso abrangia o cuidado com o bebê, a ausência do parceiro e o amor próprio. Finalmente, havia revelado à família, o que Lizzy e o Sr. Bennet suspeitaram desde o início, de que George era o pai de seu filho. Mary comemoraria seu 19º aniversário e estava firme em seus estudos para o tão concorrido vestibular. Com a ajuda de Charles, Jane pensava na possibilidade de abrir seu próprio negócio, uma escola de educação infantil. A ideia a deixara tão fascinada, que pensava em dar prosseguimento aos estudos. Faltando apenas dez dias da apresentação de sua monografia na universidade, Lizzy dava início a revisão de seus textos, contando com a ajuda de seu pai. Apesar do pedido de cautela feito pelo Sr. Bennet, ao abordar temas que envolvessem o regime militar, o assunto que Lizzy havia escolhido ia de encontro ao cenário sócio-político do país. Tratava do direito das famílias, vítimas do desaparecimento político dos responsáveis durante o início e a metade da ditadura militar. Era um tema bastante ousado para a época, muito difícil de desenvolver, já que as fontes e referências sobre o assunto eram praticamente nulas. O panorama de 1980, apesar de menos repressivo do que as décadas anteriores, ainda trazia indícios em coibir qualquer atitude que se rebelasse contra a ditadura. Havia rumores, até mesmo, que a própria universidade de direito da USP, onde Lizzy estudava, havia auxiliado, o tempo todo, o regime militar de diversas formas. Sr. Bennet, desde o momento em que tomou conhecimento do tema que a filha abordaria, ficou bastante preocupado, tentando convence-la, sem hesito, a escolher um assunto menos comprometedor.
A postura do Sr. Bennet parecia um tanto vergonhosa e até mesmo acobardada, mas havia motivos para tal. Muitos de seus colegas, professores universitários, haviam sido demitidos e perseguidos pelo regime, torturados e até mortos. Seus amigos intelectuais, que eram explicitamente, contra a ditadura tiveram até mesmo a família presa e torturada. Poucos conseguiam exílio nos países europeus. A violência do sistema obrigou o Sr. Bennet migrar sua sabedoria e conhecimentos para outras frentes da história, mantendo-se neutro em relação aos interesses políticos, zelando, desta maneira, pelo bem-estar e segurança de sua família.
No escritório, Lizzy obteve a permissão de sair ao menos uma hora mais cedo todos os dias. Com isso, ela conseguia dedicar-se, com mais vigor, a pequenas pesquisas e detalhes que ainda restavam fazer do trabalho, utilizando a biblioteca da universidade. Sem que soubesse, a ideia partira do Sr. Darcy, que discretamente acompanhava suas atividades e isso incluía seu interesse pelo desempenho e desenvolvimento de Lizzy e, principalmente, em dar-lhe assistência no momento de suma importância, a conclusão de seu curso. Sr. Darcy a conhecia suficientemente bem para saber o quanto significava a ela apresentar uma monografia destacável e, para isso, seria necessário ter mais tempo para dedicar-se.
Sem que Lizzy soubesse também, Jane procurou o Sr. Darcy, pedindo-lhe ajuda para localizar George. Com a Sra. Wickham trabalhando em sua casa, não foi tão difícil localizá-lo. Em poucos dias, Sr. Darcy chegou ao seu novo endereço, uma pensão muito pior do que a primeira onde morou. Ficava na região central, na baixa Augusta. Dividia o quarto com mais três e o banheiro, o único no corredor, com mais onze rapazes. Sua mãe costumava visita-lo aos fins de semana, quando era sua folga e aproveitava para levar alguns mantimentos, para que não lhe faltasse o que comer, durante a semana. No entanto, George comercializava as frutas, os enlatados e as guloseimas com os demais rapazes que moravam na pensão. Quando ganhava novas roupas ou sapatos, o destino era certo. Eram usados para pagar dívidas na pensão ou no bar que costumava frequentar. Dava para perceber que no guarda-roupa de George havia no máximo, duas peças de roupa de aspecto bastante surrado e encardido. Não parecia nada com aquele rapaz charmoso e galanteador que Lizzy havia conhecido no escritório há menos de um ano. Fora isso, havia se aliado a uma casa que realizava jogos de azar, incluindo o jogo do bicho. Vagava pelas ruas do centro, buscando pessoas que se arriscassem a fazer uma fezinha, baseadas em seus sonhos ou mesmo na própria intuição. Sr. Darcy ainda descobriu que os trocados que George recebia eram gastos com bebida. Não havia uma noite sequer que ele não parasse no bar para beber. Apesar de nunca ter tido admiração pelas atitudes de George, uma profunda sensação de tristeza lhe abateu ao ver no que havia se tornado o menino que crescera junto a ele e sua família. Se perguntava, inconsolavelmente, por que George havia se transformado num individuo tão desprezível, imaginando o enorme desgosto que sentiria seu falecido pai ao ver a vida do menino que ele considerava como seu próprio filho.
Alguns dias depois, quando já havia se recuperado da decepção em saber sobre a vida de George, Sr. Darcy procurou Jane, deixando-a a par de toda a história.
- Espero que tenha se preparado para essa conversa, as notícias que trago não são muito boas. – disse ele, em tom sério e objetivo, deixando Jane bastante apreensiva. - As condições em que George está vivendo são precárias. Por isso quero que pense muito bem antes de envolver sua irmã nesse assunto. Por ainda ser muito jovem, não tem maturidade suficiente para decidir e fazer escolhas que sejam sensatas a ela e ao bebê. – expos ele, fazendo uma longa pausa até continuar. - Quero lhe dizer que o George, quando mais jovem, teve acesso a praticamente tudo que tive. Meu pai o tratava como um filho e não havia discriminação por ele ser o filho da empregada, todos em casa o respeitavam. É muito chocante ver como sua índole e sua própria natureza afetaram tão drasticamente sua trajetória de vida. George se transformou num bêbado, sem escrúpulos.
- Sinto muito em envolve-lo nessa história. Sei o quanto isso deve ter sido desagradável ao senhor. Mas, assim como Lizzy, acredito que seja importante para Lydia ter o pai da criança o mais perto possível. Não sei o quanto isso desagradaria aos meus pais, mas devemos pensar apenas no bem-estar dela e da criança.
- No fundo, eu já imaginava que George estaria vivendo nessas condições. Mas, de fato, foi duro encontra-lo. George está muito diferente de como o conheceram. Acredite, é uma outra pessoa. Não digo isso somente por sua aparência, mas sim por seu comportamento. Não quero ir contra o que você e Lizzy defendem, até porque concordo com este ideal, mas creio que seja necessário bastante cuidado, considerando o estado atual de George. – lamentou ele, encarando o olhar aterrorizado de Jane. – Em parte, me sinto culpado por não ter alertado Lizzy sobre George. Achei que ela não acreditaria em mim.
- De forma alguma deve se sentir culpado. Mas, o senhor tem razão, talvez ela não tivesse escutado o que teria a lhe dizer sobre George. Por algum tempo, Lizzy esteve bastante envolvida por ele. Mas, na medida em que foi conhecendo-o melhor, o encanto parece ter se acabado. Lembro-me dela incomodada com as atitudes estranhas e uma constante revolta em suas palavras. – contou ela, refletindo se deveria mencionar sobre as acusações que George havia feito contra ele. Após uma longa pausa, continuou: - Sabe, não sei se devo envolver-me, mas George contou muitas coisas desagradáveis sobre você à Lizzy, principalmente o modo como passou a trata-lo, após a morte de seu pai.
Mantendo a feição séria, Sr. Darcy respirou fundo balançando sua cabeça negativamente, lamentando a atitude de George. Olhou para Jane, percebendo-a bastante encabulada em mencionar tal assunto, enquanto associava as palavras de George ao descaso de Lizzy por ele.
- Gostaria de lhe dizer que, assim como meu pai, procurei dar todo o apoio a George. Mas, a verdade é que ele não se interessava por nada. Nunca se interessou em estudar e nem trabalhar honestamente. Queria apenas dinheiro, do modo mais fácil. – contou ele.
- Eu entendo e acredito nas boas intenções de sua parte e de sua família.
- Me entristece saber que Lizzy tenha acreditado em tudo que George lhe dissera.
- É verdade que ela acreditou, mas conforme foi se afastando dele, todo aquele discurso contra o senhor, parecia ter perdido força. Após Lizzy ter desvendado o recente histórico de George, desde a sua expulsão da pensão onde morava, até seu envolvimento com roubo de dinheiro e falsificação de cheques, passou a desconfiar de que todas as coisas, que havia lhe contado, poderiam ser inverdades. Assim como o senhor, ela também se acha culpada por ter aproximado George de nossa família. Não se conforma por ter sido tão tola e ter se enganado, dessa maneira, a respeito dele.
- George sempre foi dono de um carisma, capaz de conquistar e seduzir a todos. Lembro-me do modo como se comunicava com as pessoas, eu nunca consegui ser assim. – confessou ele, causando certa comoção em Jane.
As palavras de Jane despertaram a curiosidade do Sr. Darcy, fazendo com que ele insistisse em lhe fazer mais perguntas.
- Quando mencionou que George fora demitido por roubar estava se referindo ao escritório?
- Também. Quer dizer, Lizzy descobriu há pouco tempo o motivo que levou o senhor a demiti-lo. Antes, ela achava que fora, simplesmente, por sentir ciúmes dele e querer prejudica-lo. – contou ela, fazendo Sr. Darcy se desesperar com as mentiras que George havia inventado. – Bem, assim que saiu de seu escritório, parece que conseguiu um emprego e, tempos depois, foi demitido. Lizzy descobriu que ele foi mandado embora, pois estava roubando dinheiro.
- Minha nossa! George é incorrigível! – exclamou Sr. Darcy, impressionado pela atitude vergonhosa de George e imaginando as tantas histórias absurdas que teria contado a Lizzy. – Talvez, por isso, ela sempre tenha me tratado com tanta indiferença. – murmurou ele, alto o suficiente para que Jane entendesse o que estava lhe angustiando.
- O que disse, Sr. Darcy? – perguntou ela, educadamente, dando a entender que não fazia ideia do que estava se passando com ele.
- Não. Nada, Jane. Apenas estou lamentando o comportamento de George.
Depois de longos segundos em silêncio, a preocupação do Sr. Darcy continuava inteiramente voltada para Lizzy. Não podia permitir que ela se sentisse culpada pelos atos levianos cometidos por George. Surgiam ideias em sua mente na tentativa de amenizar todo o mal causado à família Bennet, enquanto buscava conter a intensa emoção dentro de si, que lhe causava sensações bastante distintas, entre boas descobertas e outras, nem tanto assim. O fato é que o diálogo entre ele e Jane havia se transformado numa grande oportunidade em conhecer profundamente os pensamentos e opiniões de Lizzy, incluindo seus sentimentos.
- Estou aqui, pensando numa maneira de ajuda-la.
- Não quero que se incomode, o senhor já gastou muito de seu tempo me ajudando com isso. Irei pensar se de fato é a melhor alternativa trazer George para perto de Lydia, considerando tudo que disse.
- George era como se fosse um irmão, um membro da família, preciso, ao menos, arcar com certas responsabilidades que seriam dele. Permita-me ajudar Lydia, sei que me sentirei melhor fazendo isso.
- Creio que não seja uma boa ideia. Nada tem faltado a Lydia, a não ser ter o pai da criança que está esperando ao seu lado. Mas, se isso é algo impossível, não a nada que possamos fazer, apenas dar-lhe amor e carinho e, isso, Lizzy tem feito brilhantemente.
Neste momento, Jane pode perceber os olhos do Sr. Darcy irradiando um intenso brilho.
- Não precisa me dizer o quanto é importante termos afeto e amizade e, principalmente, quem amamos, ao nosso lado. Sei bem que o dinheiro não supre certas coisas, mas quero dar a Lydia, ao menos, a tranquilidade e o conforto que necessita. Por favor, me ajude, não me impeça de fazer o que é certo.
- Sei que tem boas intenções, mas meu pai não permitirá isso. Nem mesmo, Lizzy.
- Fique tranquila, conversarei com o Sr. Bennet e estou certo de que ele apoiará minha decisão, pois sempre me pareceu ser um homem digno e de caráter. Quanto a Lizzy.
Jane interrompeu sua fala, de forma inesperada, dizendo-lhe que Lizzy não tinha conhecimento de que ela havia lhe procurado.
- Lizzy jamais permitiria envolve-lo nessa situação.
- Não entendo.
- O quê?
- A reação de Lizzy. – disse Sr. Darcy espontaneamente, contendo-se ao máximo para não transformar Jane em sua confidente, mas era tarde demais. – Devo lhe confessar uma coisa. – disse ele, seriamente, porém com uma voz suave e doce. - Amo Lizzy, como nunca amei alguém em toda minha vida.
A súbita revelação fez com que Jane ficasse sem fôlego, muda e paralisada. Seus olhos arregalados fitavam Sr. Darcy assustadoramente, mesmo sendo que não lhe era novidade alguma, o amor dele por Lizzy.
Aos poucos, a sensação acolhedora que Jane transmitia, encorajava Sr. Darcy a falar detalhadamente sobre o assunto, transformando o homem intocável e poderoso, numa pessoa frágil, tímida e intensa. Pela primeira vez, ele sentia-se aliviado por liberar seus sentimentos a outra pessoa. Havia Charles e Georgiana, com quem costumava conversar intimamente, mas foi na companhia de Jane que seus segredos mais profundos foram expostos. Ela, por sua vez, estava fascinada com a descoberta de quem era, de fato, Sr. Darcy e, mais ainda, pelos sentimentos revelados de maneira tão sublime e envolvente. Ao menos, George, mesmo sem saber, fizera um grande bem, unindo-os a uma amizade verdadeira. Naquele exato momento, Jane tinha certeza de que, ali na sua frente, estava o que Lizzy procurava desde sempre, o amor.
