Um dia importante para Lizzy

Era um dia caloroso de primavera, quando Lizzy saiu do escritório logo após o horário do almoço, despedindo-se carinhosamente de Charlotte, que torcia muito para que tudo desse certo, naquele dia tão especial. Caminhou até o ponto de ônibus, carregando na mochila, as páginas datilografadas de seu trabalho, precisando apenas fazer a encadernação para ser entregue, mais tarde, na universidade. A caminho do centro da cidade, Lizzy aproveitava para ler mais uma vez, o texto que seria apresentado aos professores, fazendo rapidamente algumas anotações nas folhas em seu colo, quando achava necessário. Muito concentrada, mal apreciava, pela janela do ônibus, a ensolarada tarde daquele dia de novembro. Algumas vezes, sentia uma enorme pressão ao lembrar-se que todos esperavam que se saísse bem em sua apresentação. Sua família, os colegas do escritório e da universidade e, lá no fundo, mais do que tudo e sem admitir a si mesma, queria provar ao Sr. Darcy o quanto era capaz, mesmo estando tão distante dele. Ao descer do ônibus, seguiu diretamente à papelaria, que ficava próxima a universidade e que fazia encadernações específicas para os trabalhos de conclusão de curso. Enquanto aguardava, Lizzy dirigiu-se até a praça em frente a papelaria e decidiu sentar-se num dos bancos, levando consigo, suas anotações. Ali ficou por longos minutos, lendo e relendo seu texto, sem dar a mínima atenção as coisas ao seu redor. Quando finalmente resolveu fazer uma pausa, pode observar a agitação do centro da cidade, as pessoas caminhando apressadamente, espantando os pombos que se alimentavam de migalhas do chão. Tentava distrair-se um pouco e conter a enorme ansiedade que sentia. Ao longe, era possível avistar a fachada imponente da universidade, iluminada pelo brilho do sol, o que a fez lembrar de seu primeiro dia de aula. Os colegas e os professores, tudo parecia tão grandioso e amedrontador à ela, uma menina ingênua, porém muito orgulhosa por fazer parte daquele mundo.

Quando Lizzy olhou para o relógio, viu que já estava na hora de buscar seu trabalho e, ainda, planejava comer alguma coisa na lanchonete da universidade, antes de ir para a biblioteca, se preparar para sua apresentação. Enquanto aguardava o sinal fechar para atravessar a rua, escutou alguém chama-la. Ao olhar para o lado, Lizzy se surpreendeu ao ver Sr. Darcy, se aproximando.

- Olá, Sr. Darcy! – disse ela, maravilhada por reencontrá-lo ali, após tanto tempo.

- Lizzy! – exclamou ele, sem preocupar-se em conter a emoção em vê-la. - O que faz aqui?

- Estava apenas fazendo hora, aqui na praça, esperando um trabalho ser encadernado na papelaria. – respondeu ela, apontando em direção a papelaria.

- Sua monografia?

- Sim.

- Também usei este lugar quando precisei encadernar a minha. – explicou ele. - É hoje sua apresentação?

- Sim.

- Bem, não quero atrapalhar, só estava passando por aqui. Fui almoçar com uma amiga, aqui perto. – explicou ele.

Estranhamente, Lizzy sentiu uma imensa dor no peito, quando ele mencionou "uma amiga", mas tentava acalmar-se, preocupando-se em transparecer que tudo estava bem com ela. Apesar de demonstrar preocupação com as horas, ao olhar, insistentemente, no relógio, gostaria de tê-lo como companhia, naquela tarde, mas não foi capaz de dizer para que ficasse, muito menos, o quanto sentia sua falta no escritório. Por outro lado, ele sentia como se estivesse atrapalhando Lizzy, desejando, mais do que tudo, que ela o convidasse para ficar. Desejava segurar sua mão, naquele momento tão difícil, que precedia sua apresentação. Adoraria, ainda mais, assisti-la, defendendo com seu jeito doce, porém perspicaz o que, de fato, acreditava. No entanto, não houve qualquer manifestação de ambas as partes.

- Preciso ir.

- Claro, eu sei. Espero que corra tudo bem e te desejo boa sorte!

- Obrigada, acho que vou precisar.

Com o sinal vermelho, Lizzy atravessou a rua, sem olhar para trás, carregando consigo a imensa dor, de quem tinha a certeza de que os sentimentos do Sr. Darcy não eram mais os mesmos. Da mesma forma, ele caminhava pela calçada, certo de que Lizzy estava bem, sem, ao menos, sentir sua falta ou a necessidade de tê-lo por perto. Os dois estavam enganados a respeito de seus sentimentos, mas o orgulho e o medo de se expor mantinham-nos distantes um do outro.

Tudo corria como Lizzy planejara. Lanchonete, depois biblioteca, se não fossem por seus pensamentos atormentados, pelo encontro repentino com o Sr. Darcy. As palavras não ditas, os sentimentos não revelados e a possibilidade dele estar apaixonado por outra pessoa, tudo isso junto, a torturava de tal forma, comprometendo sua concentração no que era mais importante, naquele momento. Sua inquietação só foi acalmar-se, mais tarde, quando Lizzy avistou seu pai se aproximando. Era início da noite e, logo, começaria a apresentação dos trabalhos.

Nos corredores da universidade, os alunos se amontoavam para conversarem sobre os trabalhos, faltando apenas alguns minutos para iniciar as apresentações no grande auditório. Sr. Bennet, muito conhecido entre o grupo docente da universidade, terminava sua conversa cordial com alguns colegas, antes de se acomodar em uma das poltronas do auditório. Assim como ele, muitos outros pais participavam da apresentação de seus filhos, ocupando os assentos que estavam disponíveis ao seu lado.

Após quarenta e cinco minutos de apresentação do primeiro aluno, agora seria a vez de Lizzy. A expectativa era muito grande em torno de seu trabalho, tanto da parte de seus professores, como de seus colegas, pois ela era uma excelente aluna e, além de estagiar num dos mais importantes escritórios do país, era filha do Sr. Bennet, o vice-reitor da USP e professor renomado no meio acadêmico. Enquanto todos aguardavam ansiosos pela apresentação, passava pela portaria da universidade, alguém muito interessado em assisti-la. A passos largos, atravessava apressadamente o saguão de entrada, seguindo, com certa familiaridade, pelos corredores da universidade, até chegar ao auditório. Com a preocupação de não ser visto ou reconhecido por alguém, preferiu dar a volta e usar uma das portas que davam acesso aos fundos da sala. Quando entrou, Lizzy já havia iniciado sua apresentação a banca, sentou-se isoladamente num canto ao fundo do auditório, o lugar mais alto da sala, que apesar da distância do palco, dava-lhe uma excelente visão. De lá, admirava a oratória e a capacidade de Lizzy em expor e defender o tema de seu trabalho. Tratava-se de um tema inovador e, ao mesmo tempo, chocante, chegando em alguns momentos a impressionar e emocionar a banca e o público. A defesa de Lizzy parecia dar força a questão, fazendo com que muitos sentissem motivados a lutar pelos direitos das famílias dos desaparecidos políticos.

Com a apresentação concluída, Lizzy rapidamente pediu permissão para agradecer as famílias que lhe serviram de inspiração e que prestaram depoimentos para a base de seu trabalho, porém, antes mesmo que todos aplaudissem a apresentação, já não havia mais ninguém sentado no fundo do auditório. Assim que deixou a universidade, pela porta principal, foi possível ouvir a vibrante salva de palmas da plateia.

Sr. Bennet e Lizzy permaneceram até a última apresentação, antes de seguirem para a casa. No caminho, foram muitos os elogios dirigidos, merecidamente, a filha. Quando parou o carro em frente ao prédio de Lizzy, Sr. Bennet aproveitou o momento a sós para lhe dizer algumas palavras:

- Sabe, hoje foi uma noite muito especial para mim. Se eu morresse agora.

- Não diga isso nem de brincadeira, papai. – interrompeu ela, indo contra a suposição feita pelo pai.

- Me deixa dizer! – insistiu ele. - Quero que saiba que você me faz acreditar que estou no caminho certo, que a decisão que tomei lá atrás foi certa. – disse ele, emocionado. - Hoje, quando a vi naquele palco, tive a maior recompensa de toda a minha vida!

Muito emocionada, Lizzy transbordou suas lágrimas contidas durante toda a noite ao abraçar o pai, comovida com suas palavras. Compreendia suas palavras e, mesmo que seu pai não fosse um desses ativistas que lutavam contra a política no país, tinha muito orgulho e admiração pelo seu trabalho. Quando Sr. Bennet assumiu a cátedra de história do Brasil na USP, já era um autor consagrado e conceituado historiador, o cenário universitário antes da ditadura militar era propício e muito atento ao desenvolvimento intelectual, além das possibilidades serem mais tangíveis a todos. Possuía um jeito peculiar de lecionar, transmitindo seu vasto conhecimento através de incursões surpreendentes utilizando-se de arquivos de outros países, orientando e respeitando a individualidade de cada um, sem posicionar-se como uma autoridade eminente. Participava ativamente de importantes comitês e palestras, além de seu envolvimento na preparação dos primeiros cursos de pós-graduação e na orientação das primeiras teses de mestrado da universidade. Muitos de seus livros foram escritos durante o prospero período inicial de sua carreira universitária, motivado pelo convívio com alunos e outros intelectuais, na aquisição de novos acervos e, principalmente, seu trabalho de incentivo à pesquisa. No entanto, após a decretação do AI-5, Sr. Bennet testemunhou a transformação do cenário acadêmico, além do clima de terror, a qualidade de ensino havia despencado com a saída obrigatória de muitos de seus colegas. Fora muito criticado e, por várias vezes, acusado de fazer parte do regime, por continuar atuando na universidade, mas para ele, era a única maneira de garantir que seus ideais fossem mantidos, mesmo que discretamente. Lizzy sabia das intenções de seu pai, assim como as pessoas mais próximas a ele.

- O senhor sempre me inspirou a ser o que sou. Hoje, sou eu quem precisa lhe agradecer, pois não seria nada disso se não tivesse o senhor ao meu lado.

Com o carro estacionado na rua, próximo à meia noite, pai e filha se abraçavam, muito emocionados e felizes com o desfecho daquele dia. Ao entrar em casa, apesar de exausta, Lizzy ainda estava sob efeito de sua adrenalina. Por horas, tentou acalmar sua excitação, mas não conseguia. Sua apresentação no palco, as palavras de seu pai e, até mesmo, o encontro com o Sr. Darcy passavam por sua cabeça. Já eram quatro da manhã, quando finalmente conseguiu deitar-se em sua cama.

Logo no início da manhã, o telefone de sua casa tocava insistentemente, porém sem fazê-la despertar. Somente após várias tentativas, ela acordou, levantando-se de sua cama, ainda muito sonolenta e seguindo em direção a sala para atendê-lo. Era Charlotte. Estava incumbida de dizer-lhe que teria o dia de folga. Bastante satisfeita com a notícia, decidiu retornar à cama e descansar por mais algumas horas, já que mal conseguira dormir na noite anterior.

Próximo a hora do almoço, o interfone tocou. Era um garoto que dizia ter uma encomenda para Lizzy. Ao ir até a portaria, avistou ele, do lado de fora, segurando um enorme ramalhete de rosas vermelhas. Era um tipo de rosa nunca visto antes por ela, eram imensos botões de um intenso vermelho. Imediatamente, procurou por um cartão, mas não encontrou nada. Quando foi perguntar ao garoto, este já havia desaparecido. Por alguns instantes, achou que poderia ser seu pai, mas não estava totalmente certa. Também pensou na possibilidade de ser o pessoal do escritório, mas não via motivo das flores estarem sem um cartão. Com o dia de folga, Lizzy decidiu fazer companhia a Lydia, que por sorte estava em casa. Passaram a tarde juntas, conversando sobre os novos planos pretendidos pela irmã. Foi preciso uma imprudência para mudar o rumo da vida de Lydia. Agora, ela tinha planos e estava entusiasmada, mesmo que ainda, lá no fundo, tivesse a esperança de ter ao seu lado, o George que conhecera. Seu novo comportamento fazia com que Lizzy se surpreendesse, vendo o quanto havia sido importante a participação e o apoio de sua madrinha nesta história e, por outro lado, era triste admitir a ausência de amparo generalizado por parte de sua mãe.

Lizzy despediu-se de Lydia, sem ter a oportunidade de encontrar com seu pai ou com Jane, seguiu para a universidade, bastante ansiosa em assistir à apresentação de seus colegas de classe.