Revelações

Uma semana após a apresentação das monografias do curso de direito, Lizzy obteve a segunda colocação, sendo que na opinião da maioria de seus colegas, o resultado havia sido injusto. No entanto, ela não se abateu, sentindo-se muito satisfeita com seu desempenho. Ao saber do ocorrido, muito orgulhoso pela colocação da filha, Sr. Bennet providenciou, num sábado à noite, uma reunião familiar numa pizzaria do bairro. Por coincidência, o primo William, após muitos meses sem vir para São Paulo, estava hospedado na casa dos Bennet, durante o fim de semana, o que lhe dava a oportunidade de parabenizar Lizzy e participar da comemoração. Assim como Jane, que estava acompanhada por Charles, William decidiu convidar Charlotte para ir a pizzaria e, claro, que os Gardiner não ficaram de fora. Foram inúmeros brindes e discursos em homenagem a Lizzy realizados durante todo o jantar, há muito não se via o Sr. Bennet tão feliz. Apesar de sempre ter sido contra a dedicação da filha aos estudos, Sra. Bennet tentava demonstrar satisfação com o resultado alcançado por Lizzy na universidade. Finalmente, parecia convencida de que fora o melhor caminho escolhido por ela, já que seu temperamento e falta de beleza não permitiriam que fosse até o altar com aqueles cobiçados partidões das manchetes sociais.

Apesar de ser um local simples, a pizzaria era bastante tradicional e costumava ter um excelente atendimento. Foi providenciada uma enorme mesa e, sendo o Sr. Bennet um cliente bastante antigo, o vinho ficou por conta da casa. Foi durante o jantar que Charles aproveitou a oportunidade para convidar Lizzy para o evento que estava organizando no kartódromo. Seria uma comemoração bastante especial, já que reuniria as feras do kart e, oficialmente, seria divulgado que o circuito faria parte do calendário de provas do próximo ano, uma conquista muito importante para Charles. Muito feliz pelo sucesso do kartódromo, Lizzy agradeceu ao convite e procurou disfarçar o entusiasmo que sentia, ao lembrar que seria uma boa oportunidade para encontrar com o Sr. Darcy, e não seria um simples encontro, seria a chance de contar-lhe, com detalhes, sobre o sucesso de sua apresentação. Enquanto Charles dava mais informações sobre o evento, o primo William, amante de esportes de velocidade, se lamentava em não poder comparecer. Para tanto, teria de estar, novamente em São Paulo, no próximo fim de semana ou então mudar-se de vez, como acabou sugerindo Charlotte espontaneamente.

Ainda que Lizzy aparentasse estar feliz naquela noite, ao ver as pessoas que mais amava, ao seu lado, prestigiando-a, sabia que lá no fundo estava faltando alguma coisa em sua vida. Poucas foram as vezes em que sentira um profundo vazio dentro de si e ao presenciar Jane e sua amiga Charlotte felizes, na companhia de seus parceiros, teve a certeza de que era aquilo que lhe faltava. Observava-os com muita atenção e desejava, mais do que tudo, ter seus olhos brilhando daquela maneira para alguém, acompanhado por um sorriso irradiante em meio as brincadeiras e carinhos. Era gostoso presenciar a felicidade entre eles, fazia seu coração bater mais forte. Tudo isso, remetia ao sentimento que Sr. Darcy havia lhe declarado e era com ele que se inspirava a viver um momento como aquele. Admitir a si mesma que estava apaixonada por ele era demais para Lizzy. Internamente vivia uma luta sofrível entre aceitar o seu sentimento, para, em seguida, recusá-lo completamente. No entanto, longe do convívio diário com Sr. Darcy, seu orgulho passou a dar mais espaço a percepção de que a presença dele, mesmo que considerada insuportável, fazia falta em sua vida. Decidida a guardar essa dor, sem, ao menos, revelar seus sentimentos à sua irmã Jane, tentava amenizá-la, direcionando toda a sua atenção em seus planos de carreira e no ambiente familiar.

A comemoração prosseguiu no almoço de domingo, na casa dos Bennet, porém sem a presença de Charles e de Charlotte. O clima da casa era de festa, com uma mesa bastante farta, boa música e conversas animadas, como se, naquele momento, não houvesse quaisquer problemas. Deitada na cama de Jane, Lizzy conversava com William sobre os próximos passos que pretendia dar a sua vida profissional, enquanto a irmã falava com Charles ao telefone.

- Para o ano que vem pretendo fazer uma especialização, mas ainda não sei como fazer, pois custa caro, vou tentar conseguir uma bolsa primeiro.

- Pode ver se o escritório onde você trabalha financia o curso pra você. O banco financiou boa parte da minha pós.

- Já pensei nisso, mas não sei se pretendo continuar trabalhando lá. De qualquer maneira, preciso trabalhar para pagar minhas contas. Quero dar prosseguimento a minha carreira, para poder ingressar na magistratura, preciso ter experiência de no mínimo três anos na área. Durante esse tempo, posso concluir minha pós e me dedicar bastante aos estudos, sei que é um caminho muito difícil.

- Difícil é, mas sei que vai conseguir! Acho que desde que cheguei, o tio Bennet contou-me mais de dez vezes como foi a sua apresentação. Ele está muito orgulhoso de você!

- Fico feliz por isso. Ele merece toda essa felicidade!

- Você também, prima, merece ser muito feliz. – disse ele, segurando a mão de Lizzy. – Ontem, durante o jantar na pizzaria, você parecia triste e distante. Está com algum problema, aqui nesse coraçãozinho ou é alguma coisa no escritório? Há pouco, disse que não sabe se vai continuar trabalhando lá.

- Não. Está enganado. – disse Lizzy, tentando convencê-lo, pois temia que comentasse algo com Charlotte. – Acho que estou um pouco cansada. Estes últimos dias foram bastante cansativos para mim.

William certificou-se de que estava a sós com Lizzy, antes de começar a falar.

- Preciso confessar uma coisa para você. – disse ele, mudando seu tom de voz e retirando do rosto a feição alegre. – Agora que soube o que aconteceu com Lydia, me sinto ainda pior.

Lizzy olhou assustada para o primo sem compreender como ele poderia estar envolvido nesse assunto.

- Me sinto culpado pelas coisas terem acontecido dessa maneira. Lydia ainda é uma menina. Sabia que ela estava envolvida com George, desde a última vez em que estive aqui. Vi os dois juntos, aqui na frente do prédio, mas o pilantra saiu de perto antes que eu pudesse me aproximar. Ela ainda tentou me enrolar, se desculpando e dizendo que não estava rolando nada entre eles. Mesmo assim, decidi que contaria tudo, mas depois resolvi deixar as coisas como estavam e não me meter. Mas, estava errado! Ela é só uma menina! – disse ele, com certo desespero. - Achava que você estivesse interessada nele. – explicou.

- Oh, William, não deve se sentir culpado por isso. – disse Lizzy, lamentando-se pelo nervosismo do primo. - Pense que ela já podia estar grávida quando a encontrou com George. Por várias vezes, questionei as saídas e horários de Lydia, mas minha mãe parecia fazer vistas grossas.

- Pode ser, mas isso pesa demais aqui dentro de mim. – disse ele, batendo a mão em seu peito. - Deixei passar uma situação que não estava certa. Nenhum de vocês sabia que ela estava saindo com esse cara.

- Ela não contou sobre George, nem mesmo para Kitty. Eu sei o que sente, também me sinto culpada de certa forma. Mas a verdade é que muitos são os fatores que levaram Lydia a fazer o que fez. A começar pelas atitudes aqui dentro de casa. A educação que minha mãe sempre deu a ela e a Kitty, a ausência do meu pai, minha e de Jane também. Precisou acontecer isso para que as coisas mudassem. O lado bom foi que Lydia mudou e amadureceu bastante com tudo que aconteceu.

- Você está certa quando diz que Lydia mudou. Está outra pessoa, nem parece mais com aquela menina desmiolada, que só pensava em curtição. – comentou ele, dando risada junto com Lizzy. - Isso é muito bom.

- Também estou feliz com a transformação dela, mas sinto certa tristeza quando percebo que ela espera que George entre por aquela porta e faça acontecer tudo como deveria ser. Casamento, casinha, bebê e um felizes para sempre. Mas isso nunca irá acontecer. De qualquer maneira, quero que tire esse peso de dentro de você, agora que me contou o que sabia. Também, quero aproveitar para me desculpar pela atitude de minha mãe. Ela tentou esconder Lydia de todos. Até mesmo dos tios Gardiner que não podiam frequentar nossa casa, ela não convidava-os pra nada.

- Mas que absurdo! – disse ele indignado. - A tia não está certa.

- E alguma vez minha mãe esteve certa? O importante é que Lydia está bem, a madrinha deu-lhe todo o apoio que precisava. Talvez, ela fique uma temporada aos seus cuidados, assim que o bebê nascer. Acredito que será melhor para todos.

Logo em seguida, William seguiu para a rodoviária, iria encontrar Charlotte lá, para se despedirem. Prometeu a Lizzy que viria para sua formatura, no início de dezembro. Aos poucos, enquanto o céu escurecia, a casa da família Bennet parecia retornar ao normal. Sr. Bennet cochilava em seu quarto após um final de semana agitado. Lydia descansava no quarto, enquanto ouvia as histórias engraçadas de Kitty sobre os garotos do colegial, sem se importar por não fazer mais parte da brincadeira. Sra. Bennet assistia, vibrante, ao programa de calouros do Silvio Santos e tentava, insistentemente, chamar a atenção de Mary que estudava, muito concentrada, na mesa de jantar. Com a ausência de Charles, que estava envolvido com a organização de seu evento, Lizzy e Jane puderam ficar a sós, como nos velhos tempos e aproveitaram para colocar a conversa em dia. Muito preocupada com os planos da irmã, Jane decidiu ir direto ao assunto:

- Não pude deixar de ouvir você dizendo a William que pensa em deixar o escritório, é verdade?

- Não é nada certo. Só quero estar atenta a novas oportunidades que possam surgir, não sei se no escritório haverá uma boa proposta para mim.

- Claro que sim! – interrompeu Jane, com bastante convicção, o suficiente para surpreender Lizzy. – Bem, o que eu quis dizer é que o escritório me parece um bom lugar para se trabalhar. Certamente, irá ter uma boa proposta para ficar assim que seu estágio terminar. – disse ela, tentando explicar-se. – Por isso, acho que não deve se precipitar.

Lizzy observava certo nervosismo nas palavras e gestos de Jane, causando-lhe um pouco de estranheza.

- Jane, não se preocupe, não posso deixar de trabalhar. – explicou ela. – Estou bastante envolvida com a rotina e com os processos do escritório. De fato, é um ambiente bastante promissor, estou certa disso, mas estou interessada em descobrir onde mais posso atuar. Pretendo continuar meus estudos e, para isso, vou precisar conseguir uma bolsa, talvez pela universidade ou através do escritório.

- Sei que conseguirá através do escritório, o Sr. Darcy é muito generoso e acredito que tenha interesse em ajuda-la no que precisar, basta contar-lhe sobre seus planos.

Mais uma vez, Lizzy estranhava a opinião tão confiante da irmã, que dessa vez, mencionava, até mesmo, as atitudes do Sr. Darcy.

- Se está dizendo isso só porque o Sr. Darcy ajudou Charles com o kartódromo, lembre-se de que eles se conhecem e são amigos há muito tempo. Eu sou apenas uma funcionária do escritório, além do mais, ele não fica mais lá e, sim, em seu outro negócio.

- Sim, eu sei, mas telefona para ele. Acredito que irá gostar de conversar com você sobre isso.

- Jane, onde quer chegar? – perguntou Lizzy, certa de que a irmã estava tentando aproximá-la do Sr. Darcy.

- Ele gosta de você, Lizzy. – entregou Jane.

- Como sabe disso? Foi Charles?

- Charles já havia comentado alguma coisa a respeito, mas foi o Sr. Darcy quem contou e não fazia ideia do tamanho do sentimento dele por você. Um amor assim não achamos fácil por aí.

- Por que Sr. Darcy contou-lhe isso? Quando foi?

- Bem, apenas nos encontramos há umas semanas atrás. – contou Jane, sem revelar a Lizzy que havia procurado o Sr. Darcy para localizar George.

Lizzy olhou para a irmã e pensou ser uma boa oportunidade para lhe contar sobre seus sentimentos. Guardar dentro de si tudo o que sentia era doloroso demais e descobrir que Jane sabia, ao menos, uma parte da história já era um grande alívio.

- Acho que estou gostando dele. – confessou Lizzy, num tom de voz baixo. - Não faz muito tempo que descobri, mas não tenho certeza de que os sentimentos dele ainda são os mesmos.

- Garanto que ele continua apaixonado por você. Seu afastamento do escritório foi proposital, não conseguia vê-la todos os dias, ele mesmo admitiu que foi uma tentativa tola em esquecê-la.

- No começo, sentia raiva dele. Aquele jeito arrogante e esnobe, ainda namorando com a Caroline, não podia ser pior. Depois, com a história de George, minha aversão a ele só aumentou. A primeira vez que ele contou-me sobre seus sentimentos, estávamos em Campos de Jordão e parecia mais estar debochando de mim, da minha inferioridade. Isso me fez ter ainda mais raiva dele. – narrava Lizzy, pausadamente. - Foi horrível! Entendi tudo errado. – lamentava ela, demonstrando muito arrependimento. - Aconteceram tantas coisas. Acho que meu sentimento mudou e nem percebi ou não queria perceber.

- Sr. Darcy aparenta ser muitas coisas que não é. Por ser um homem muito rico prefere viver de maneira mais reservada e isso é uma virtude. É apenas o modo que encontrou de se resguardar de pessoas interesseiras e que querem tirar proveito de sua posição. Posso detalhar muitas coisas que ele fez pensando no seu bem. O amor que ele sente por você, causou-lhe uma grande transformação, ele mesmo reconheceu isso e Charles já havia percebido.

- Do que está falando, Jane?

A pergunta de Lizzy fez com que Jane contasse tudo que sabia. A primeira coisa que ela revelou a irmã foi o modo como ele tratou seu estágio no escritório, indo contra a opinião de todos os advogados seniors, envolvendo-a nos principais casos e dando-lhe cada vez mais espaço para participar dos processos. Ele foi muito criticado e pressionado à princípio, mas à medida que ganhava o respeito de seus colegas, ao demonstrar competência e caráter, todos passaram a apoiá-lo e, definitivamente, estava livre das tarefas banais, muito características ao cargo de estagiário. Contou-lhe, ainda, que foi um risco muito grande para ele, mesmo sendo o dono do escritório, afinal tratava-se da reputação de muitos dos funcionários, conquistada durante anos de trabalho. Ele optou em acreditar em seus próprios sentimentos e, principalmente em você. Sem ser interrompida, Jane também falou sobre o relacionamento entre o Sr. Darcy e George, algo que comoveu por demais Lizzy. Aos poucos foi sentindo-se à vontade em dizer-lhe, até mesmo, sobre a ajuda que havia pedido ao Sr. Darcy para descobrir o paradeiro de George e, isso incluía, ainda, detalhes de seu estado atual e a iniciativa em ajudar financeiramente Lydia.

- Ainda posso lhe afirmar que o kartódromo, apesar de ser um negócio muito bem avaliado tanto por Charles como pelo Sr. Darcy, foi inaugurado com a intenção de me unir a Charles. Porém, acredito que se não houvesse você, isso jamais teria sido concretizado. Foi pensando no seu bem-estar que o Sr. Darcy decidiu ajudar Charles. Pode parecer um delírio de minha parte, mas tenho absoluta certeza disso. Apesar da amizade entre eles, Sr. Darcy sabia o que pensava a respeito da relação instável que tínhamos e também sobre a vida que Charles escolhera levar, na época. Ele sabia que isso, de certa forma, a deixava infeliz, já que somos muito próximas.

- Não sei o que pensar, não tenho certeza disso. – comentou Lizzy sobre a opinião da irmã a respeito do kartódromo. Após uma longa pausa, deixando Jane bastante apreensiva, Lizzy finalmente disse, num tom conclusivo: – Estive enganada o tempo todo.

Jane abraçou a irmã, satisfeita em fazê-la enxergar o que era preciso.

- Sempre achei que ele mal soubesse o meu nome e muitas vezes, me sentia tão triste e ofendida por achar que não havia ninguém observando meu trabalho. No entanto, ele estava envolvido em tudo. Não posso acreditar o quanto fui rude e injusta com ele.

- Não adianta se martirizar por coisas que já passaram. – aconselhou Jane. – O importante é que agora, você possa escolher o seu caminho.

A vontade de Lizzy era encontrar com Sr. Darcy na primeira esquina, a caminho de casa, para finalmente abraça-lo e dizer-lhe que também o amava. Sentia-se muito feliz, ao lembrar a cada instante, tudo que ele havia feito para o seu bem. Estava absolutamente convencida de que ele era uma boa pessoa e que o homem que procurava, há muito tempo, esteve ali, a sua frente o tempo todo.