Um dia nada fácil para Lizzy
Apenas duas semanas após a conclusão do curso de direito e, mesmo antes de sua formatura, Lizzy já recebia algumas propostas de trabalho, no entanto, mesmo considerando sua boa formação, sem falar na experiência adquirida durante os noves meses de estágio em que trabalhou num dos mais importantes escritórios do Brasil, o mercado de trabalho para as mulheres, de modo geral, era um ambiente desanimador. Mesmo que seu espírito aventureiro, a estimulasse buscar novos desafios, nenhuma das ofertas era boa o bastante para que deixasse o escritório, considerando que, até aquele momento, não havia obtido nenhuma diretriz sobre o rumo de sua carreira. Porém, lembrava-se de Jane dizendo sobre a oportunidade que o Sr. Darcy havia lhe concedido este tempo todo e isso, causava-lhe um sentimento de gratidão e quietude.
Faltando menos de quinze dias para sua cerimônia de formatura, Lizzy parecia despreocupada com os preparativos, sem ao menos, ter providenciado um vestido para a festa. Estava muito mais animada em participar do evento no kartódromo, pois esperava, muito ansiosa, em encontrar com o Sr. Darcy, já que estava fora de cogitação procura-lo. Para ela, um encontro casual entre eles seria perfeito para a reaproximação que pretendia.
Após uma semana de muito trabalho no escritório, apesar de estar livre das aulas da faculdade, Lizzy respirava confiança e estava decidida a não perder a oportunidade de se aproximar do Sr. Darcy, durante o evento. Perdeu horas para escolher sua roupa e, mais horas ainda, ensaiando, na frente do espelho, a conversa que teria com ele. Estava decidida a ser, como nunca antes, amável e atenciosa com ele. Toda essa preparação a deixava ansiosa por demais atrapalhando até mesmo sua noite de sono.
Quando o sábado chegou, logo pela manhã, o Sr. Bennet e Jane passaram para pegar Lizzy, que estava pronta, esperando por eles, há mais de uma hora. Quando ela apareceu na porta de seu prédio, puderam perceber como havia caprichado em seu visual. Mesmo vestindo uma calça jeans, Lizzy estava com os cabelos impecavelmente penteados e com uma feição alegre e saudável, apesar da noite mal dormida.
- Você está ótima, Lizzy! – comentou Jane, assim que ela entrou no carro.
- Há tempos não te vejo assim. – disse Sr. Bennet.
Os elogios a encorajavam sobre a decisão que havia tomado. A caminho do kartódromo, não pensava em outra coisa que não fosse o encontro com o Sr. Darcy, enquanto admirava, pela janela do carro, o brilho irradiante do sol daquela manhã. Sr. Bennet, também muito animado em comparecer novamente a um evento automobilístico, colocou uma fita k7 do Elvis Presley e cantarolava feliz da vida o grande sucesso do rei, Blue Suede Shoes. Quando a música terminou, Sr. Bennet abaixou o volume do rádio e contou para as filhas que esta canção tinha uma história muito interessante.
- Jane ainda não havia nascido quando escutei esta música pela primeira vez, mas já estava na barriga de sua mãe. Éramos praticamente recém casados e dançávamos juntos na pequena sala de casa.
- Nossa! Não imagino mamãe romântica dessa maneira. – debochou Jane.
- Bem, mas não é dessa história que estava me referindo e sim, da história dessa música. – disse ele, sem dar espaço para mais comentários.
Lizzy abandonou seus pensamentos, curiosa e muito interessada no que seu pai iria contar.
- Foi um músico chamado Carl Perkins quem compôs essa canção. Ele estava sem grana e por acaso ouviu um garoto comentando que iria num baile e ninguém podia pisar nos seus sapatos de camurça azul. Quando chegou em casa, imediatamente começou a escrever a música num pedaço de saco de batata e, o resto você já sabem, foi o maior sucesso. Primeiro, cantada por ele e, depois, por Elvis. Na verdade, o Elvis só entrou nessa por acaso. O tal do Perkins havia sofrido um acidente de carro e ficou à beira da morte.
- Sempre imaginei que essa música fosse do Elvis. – comentou Jane.
- Pois é, na época, Elvis era apenas um músico em ascensão. Uma oportunidade e tanto pra quem estava começando, não acham?
- A vida é mesmo muito engraçada, acredito que as oportunidades surgem para todos, mas muitos não percebem, ou então, só irão perceber quando já é tarde demais. – filosofou Jane, sem imaginar o quanto seu comentário havia mexido com a irmã.
Lizzy permaneceu concentrada nas palavras de Jane, imaginando se não seria tarde demais para correr atrás de seu amor, enquanto as músicas de Elvis continuavam rolando no toca fitas do carro.
Assim que chegaram ao kartódromo, Jane conduziu o pai e a irmã até a área dos boxes, onde Charles estaria cuidando dos últimos detalhes de seu kart, o qual iria disputar, logo mais, a corrida amistosa com os outros corredores. Bastante assediado pela imprensa, o evento reunia as principais personalidades do kart e do meio automobilístico, além de outros esportistas, grandes empresários e figuras públicas. Ainda contava com o público pagante, que ocupava as arquibancadas do circuito e que, por iniciativa de Charles, toda a renda arrecadada com a venda dos ingressos seria destinada a uma instituição de caridade. Enquanto caminhavam por entre a multidão, Lizzy tentava procurar pelo Sr. Darcy, porém sem sucesso. Ao se aproximarem de Charles, Jane aguardava até que a equipe do Globo Esporte terminasse de entrevista-lo, enquanto isso, assim como Lizzy, procurou pelo Sr. Darcy, mas não o encontrou.
Para satisfação do Sr. Bennet, apesar de amistosa e envolver não somente pilotos, a corrida parecia aguçar a sua curiosidade e a do público em geral. Seria disputada por doze corredores, entre os quais estava o atual campeão brasileiro de kart, Ayrton Senna, que acumulava ainda os títulos de campeão sul-americano e vice-campeão mundial de kart. O prestigiado apresentador do Globo Esporte, Fernando Vanucci, também era um dos corredores e havia aceitado o desafio com muita disposição, sendo praticamente a primeira vez que iria pilotar um kart. O mesmo acontecia com o cantor Erasmo Carlos, que nos anos 70, havia participado das gravações do filme Roberto Carlos a 300 Quilômetros Por Hora, ocasião esta, que lhe permitiu estar próximo do meio da velocidade. Bastante assediado pela imprensa, pelo recente lançamento de seu álbum Erasmo Convida, onde fazia duetos com artistas consagrados da mpb, procurava manter o bom humor, enquanto recebia dicas importantes do notável e respeitável piloto Chico Landi. Diante de tantas personalidades públicas, os jovens pilotos de kart acabavam sendo os menos importunados pela imprensa, ainda que despertassem tamanha curiosidade e surpresa pela precoce maturidade e talento nas pistas. Era o caso do piloto de kart Guga Ribas, com apenas 16 anos, que vinha acumulando vitórias em competições regionais desde 77.
Quando finalmente Charles havia sido liberado, Jane, Lizzy e Sr. Bennet puderam cumprimenta-lo e parabeniza-lo pelo evento. Charles, aproveitou a oportunidade para contar-lhes, muito entusiasmado, quem eram os doze pilotos a disputar a corrida, no entanto, estava muito preocupado com o atraso de um deles.
- Meu pessoal convenceu-me a convidar um garoto de apenas oito anos de idade para participar da corrida. Porém, o moleque é admirável, pelo segundo ano consecutivo foi campeão brasileiro pilotando uma mobylette. – contou ele muito entusiasmado. - Lógico que temos o consentimento de seus pais, mas eles ainda não chegaram. Espero que não fure, já pedi que entrassem em contato com eles, mas o telefone não está atendendo. Pra piorar a situação, nem Darcy e nem Fritzwilliam chegaram ainda, penso em pedir que um deles o substitua.
- Não se preocupe, Charles, tudo acabará bem. Qualquer coisa, eu mesmo posso substituí-lo. – brincou Sr. Bennet.
- Ora, papai, não fale isso, Charles pode leva-lo a sério. – disse Jane, segurando o braço de seu pai.
Enquanto Jane acompanhava o noivo para dentro do boxe, Sr. Bennet e Lizzy permaneceram do lado de fora apreciando toda a agitação e fazendo caretas quando o motor de algum kart era acionado. Mais relaxada em saber que o Sr. Darcy apareceria ao evento, Lizzy conseguia desfrutar melhor o momento ao lado de seu pai, embora sua atenção estivesse toda em direção ao portão de acesso aos boxes e sua imaginação lhe permitisse sonhar. Poucos minutos antes dos organizadores conduzirem os visitantes para o lado de fora dos boxes, para alívio de Charles, o garoto, que há pouco havia mencionado, aparece, cercado pela imprensa, causando certa confusão no ambiente que já parecia bem mais calmo. Seu nome era Alex Barros.
Os Bennet seguiram para o imenso terraço, onde se podia ter uma boa visão do circuito, apesar de grande parte já estar tomado pelos convidados. Em princípio, eles se acomodaram próximo ao bar, até conseguirem um lugar que lhes permitissem assistir à corrida. Assim que iniciou a volta de apresentação, Jane e Sr. Bennet estavam concentradíssimos, enquanto Lizzy tentava avistar o Sr. Darcy, sem sucesso. Após a largada, todos pareciam bastante envolvidos com o espetáculo e com a expectativa de quem seria o vencedor da corrida. Para a surpresa de todos, mesmo as celebridades que não pertenciam ao universo automobilístico pilotavam com coragem, tornando a disputa bastante equilibrada e muito acirrada. De repente, sem que Lizzy percebesse, Sr. Darcy entra, finalmente, no grande terraço, indo em direção ao bar. Coincidentemente, era o mesmo lado em que ela e sua família estavam. Ao encostar no balcão, o garçom que estava de olho na corrida veio atende-lo.
- Pode me dizer quem está na frente? – perguntou Sr. Darcy.
- Ah! Sim. O pessoal estava comentando que é um piloto de kart, o atual campeão, mas não sei o nome dele.
- Bem, certamente, não é o Charles. – disse ele, olhando em direção da bela mulher que o acompanhava no evento. – O que você quer beber?
Enquanto a charmosa amiga do Sr. Darcy decidia qual drink pedir, Lizzy, assim como a outras vezes, olhava em volta do terraço, até avistar quem tanto procurava. Observava, muito atenta, Sr. Darcy conversando com a tal moça, sem ter conhecimento de que haviam ido juntos ao evento. No entanto, conforme o tempo foi passando, Lizzy pode constatar a intimidade que havia entre eles, ao ver o quanto conversavam e se divertiam enquanto assistiam à corrida e saboreavam seus drinks. Uma sensação de profunda tristeza parecia esmagar o peito de Lizzy, ao imaginar que poderiam ser um pouco mais do que simples conhecidos. Conforme sua desconfiança aumentava, sua atenção na corrida diminuía, a ponto de nem mesmo perceber quando fora dada a bandeirada de chegada.
Alguns festejavam entusiasmados a surpreendente vitória do jovem Guga Ribas, já que Ayrton havia liderado boa parte da competição. Assim que Charles cruzou a linha de chegada, apressadamente, Jane decidiu descer para a área dos boxes, queria estar ao lado do noivo, convencendo Lizzy e o Sr. Bennet a acompanharem. Charles sentia-se vitorioso por ter completado a corrida e, merecidamente, ter conquistado a quinta colocação. Porém, era ideia também do Sr. Darcy estar ao lado do amigo nos boxes, não demorando muito a aparecer, acompanhado por sua convidada. E foi exatamente nos boxes que Lizzy, finalmente, ficou frente a frente com ele, da maneira como tanto queria, porém ele não estava só. Antes mesmo de se cumprimentarem, Jane percebeu a aflição da irmã, permanecendo ao seu lado, como se a protegesse daquela situação constrangedora.
- Olá, Sr. Darcy! Espero que tenha chegado a tempo de ver o desempenho de Charles na pista. – disse Jane, tentando tornar o momento menos tenso.
- Sim, claro. Chegamos na hora certa! – respondeu ele, dando espaço para que sua amiga permanecesse ao seu lado. Em seguida, apresentou-a como sendo uma boa amiga. – Ela tem me ajudado muito. – concluiu ele, com um sorriso no rosto.
Feita a apresentação, Sr. Darcy cumprimentou Sr. Bennet e Lizzy de maneira bastante formal. Ainda que a frieza de seu cumprimento havia lhe causado certa estranheza, Lizzy também pode sentir na pele uma sensação devastadora de desprezo, no entanto, manteve-se firme e bastante séria, conservando em seu rosto uma aparência inabalável. Quando Sr. Darcy se aproximou de Charles, abraçou o amigo, sem receio em demonstrar o carinho e a amizade que sentia por ele às pessoas ao seu redor. Quando isso aconteceu, Lizzy teve certeza de que não havia mais o mesmo sentimento dentro do coração do Sr. Darcy.
- É lindo ver a amizade que existe entre eles. – comentou Jane.
- Concordo com você. – respondeu a amiga do Sr. Darcy. – Darcy fala muito a seu respeito. – confessou ela, de maneira direta, olhando para Lizzy.
Antes que Lizzy pudesse responder, Jane se adiantou:
- Lizzy é estagiária no escritório do Sr. Darcy e até onde sei, ele gosta muito de seu trabalho.
- Sim, tem toda a razão. – respondeu ela, fitando Lizzy, como se quisesse descobrir mais coisas a seu respeito.
- E você? De onde conhece o Sr. Darcy? – perguntou Jane.
- Bem, eu já conhecia Darcy e nos reencontramos há dias atrás. – explicou ela.
- Então é advogada também? – perguntou Jane.
- Oh, não! Sou psiquiatra. Tenho um consultório no centro da cidade.
Foi quando Lizzy lembrou-se que havia encontrado com o Sr. Darcy no dia de sua apresentação, no centro da cidade. Provavelmente, foi com ela que havia almoçado, naquela tarde.
- Vejo que estão se conhecendo. – disse Sr. Darcy, ao se aproximar.
- Ah! Sim. Elas são adoráveis! – comentou ela.
- Soube do resultado de sua monografia, meus parabéns! – disse ele, dirigindo a palavra a Lizzy.
- Muito obrigada. – agradeceu ela, guardando para si a frustração por compartilhar tão pouco o assunto que tanto queria falar com ele.
Após a comemoração no podium, os convidados foram conduzidos para a área térrea, onde foi servido um requintado coquetel e muitas taças de champagne. Sem clima para comemorações, Lizzy permaneceu apagada, mesmo após o Sr. Darcy deixar o evento acompanhado pela psiquiatra. Jane, bastante solidária a irmã, sabia de sua dor e permaneceu boa parte do tempo ao seu lado, lhe dando a força de que tanto precisava.
