A Festa de Formatura

Ter Caroline como rival parecia menos ameaçador do que a bela psiquiatra que acompanhou o Sr. Darcy ao kartódromo. Pelo menos, era o que pensava Lizzy. Para ela, a irmã de Charles, apesar de bela, era uma mulher fútil e pouco interessante, já que nunca se preocupou em ampliar seu intelecto, tendo sua atenção voltada apenas para a moda e em frequentar as festas da sociedade. Orientada pela Sra. Bingley, Caroline decidiu sair de cena, temendo ficar marcada publicamente como a noiva rejeitada. Ela e a mãe resolveram passar uma temporada em Paris, tempo suficiente para esquecer o passado com o Sr. Darcy e planejar uma volta triunfante, que lhe permitisse escolher outro bom partido da sociedade para casar-se. No entanto, essa situação, sem muita importância a Lizzy, era fundamental para a felicidade de Jane. Longe da mãe, da irmã e com seu pai vivendo exclusivamente para os negócios, Charles ganhava o tempo que tanto precisava para se organizar financeiramente e profissionalmente, adiando, inclusive, a sua necessidade de mudar de residência.

Desacreditada em ter de volta o amor do Sr. Darcy, Lizzy preferia passar o resto de seus dias trancafiada em sua casa. Não sentia-se animada em sair, indo apenas para o escritório, trabalhar. As noites solitárias serviram-lhe como um tempo de reflexão de suas ações, quanto mais remoía suas lembranças sentia a dolorosa sensação de arrependimento aumentar. Era difícil à Lizzy, reconhecer que seu orgulho e sua terrível mania de julgar as pessoas sem, ao menos, conhece-las, haviam sido responsáveis por perder o amor de sua vida. Ter rejeitado o Sr. Darcy, simplesmente por não reconhecer seus próprios sentimentos e não ter dado o braço a torcer pois o considerava rico, arrogante e esnobe, foi uma falha muito grave e que, agora, pagava um preço alto por isso. Além do mais, havia tomado as dores de George, acreditando em suas mentiras e calúnias e, isso, causava em Lizzy uma sensação devastadora, que a fazia sentir-se extremamente infeliz e sem esperanças para reconquistá-lo. Passados alguns dias encharcada em profunda tristeza e solidão, Lizzy reagiu, determinada a encontrar algo que pudesse libertá-la de seu sofrimento. Preferiu manter as pessoas que lhe eram próximas longe de suas angustias e, numa dessas noites, sem nada a fazer, decidiu participar de uma reunião secreta, a convite de amigos da universidade, que sempre insistiam em tê-la como membro do grupo, cujo principal objetivo era organizar movimentos contra o regime militar. Hora mais do que apropriada para que Lizzy se engajasse de cabeça na luta a favor da democracia. Bastou apenas um encontro para que ela se encantasse, tornando-se presença constante nas reuniões e passando a envolver-se cada vez mais pela causa. Sem que ninguém de sua família soubesse, nem mesmo, seus colegas de trabalho, Lizzy passou a canalizar seu tempo, sabedoria e boa vontade em prol da luta por uma sociedade que acreditava ser melhor para viver. Conhecia a democracia apenas através dos livros e, principalmente pelos discursos e escritos de seu pai. Tinha cinco anos quando os militares haviam tomado o poder e, desde então, convivia com o cenário temeroso dentro e fora de casa. Não demorou muito para que estivesse completamente envolvida, ora organizando passeatas, ora estruturando discursos de protesto, o fato é que Lizzy passava a tomar gosto em participar e contribuir, sentindo-se útil não só dentro de si, mas para a sociedade. Aos poucos, com sua agenda bastante comprometida, quase não se lembrava do Sr. Darcy, nem mesmo ao deitar-se, ele já não era a principal questão em sua vida.

Faltando apenas uma semana para sua formatura, parecia não dar importância a cerimônia. Dizia que o mais importante era seu diploma e o que faria dali em diante. Decidida a engajar-se cada vez mais na luta, estava, até mesmo, disposta a colocar de lado alguns objetivos que havia definido para sua carreira, deixando Sr. Bennet bastante desconfiado em relação ao comportamento recente da filha. Ainda que o regime militar estivesse em vigor, a característica rígida de seu mandato estava bastante esmorecida e o processo gradativo de redemocratização estava se esboçando dentro da política de governo do presidente Figueiredo e, até mesmo, antes disso. Com o fim do AI-5 e com a lei de anistia, muitos enxergavam uma grande oportunidade para acelerar e mudar definitivamente a situação do país e vislumbravam, até mesmo, as eleições diretas para presidente. Após dezesseis anos de ditadura, marcado pela censura, perseguições políticas e repressão aos que eram contra o governo, lá estava Lizzy fazendo parte da história, fascinada e motivada, mesmo sabendo o quanto seu pai iria se desagradar com a notícia.

O primeiro sábado do mês de dezembro, dia de sua formatura, havia chegado, sem grande entusiasmo por parte de Lizzy. Logo pela manhã, Jane apareceu em sua casa, preocupada com a indiferença da irmã, desconfiava que poderia ter relação com a decepção de ter visto o Sr. Darcy acompanhado no evento.

- O primo William chegou ontem. – contou Jane. – Como havia prometido a você, veio para sua formatura. – continuou ela, tentando despertar algum entusiasmo na irmã.

- Que bom que veio. Ao menos terei alguém para bailar comigo, fora o papai.

- Não seja boba, Lizzy. – disse Jane, chamando a atenção da irmã. - Quero que me mostre o que pretende usar hoje.

- Ainda não decidi. – respondeu ela. – Andei muito ocupada os últimos dias.

- Muito trabalho no escritório?

- Não. Mas estou me envolvendo em outros projetos. – explicou Lizzy, sem dar muitos detalhes a irmã.

Jane fitou Lizzy demoradamente, até decidir falar novamente, enquanto ela permanecia com a cabeça baixa.

- Seria bom conversarmos. Desde o evento no kartódromo não tivemos oportunidade de falar. – iniciou Jane. – Tentei ver com Charles quem era a psiquiatra que acompanhou o Sr. Darcy, mas ele não a conhece, não soube me dizer nada a respeito.

- Fui uma tola em achar que poderia dar certo. – disse Lizzy, num tom de voz triste e inconsolado, se referindo a seu romance com Sr. Darcy. Depois de um longo minuto em silêncio, continuou: - A página está virada. Quero esquecer tudo isso e ficar bem. Eu já estou bem! – garantiu ela, sem convencer Jane.

Conhecendo Lizzy como ela conhecia, preferiu não insistir com o assunto, porém não desejava abandonar a história, convencida de que ambos ainda se gostavam.

Jane retornou a casa, no final da tarde, somente após ter persuadido a irmã a animar-se com a preparação para a cerimônia. Tudo estava como deveria estar. Vestido escolhido, um belo penteado e maquiagem, além de um belo sorriso estampado no rosto de Lizzy. Não tardou para que os Gardiner passassem em sua casa para acompanha-la à festa de formatura. Para surpresa de Lizzy, seu primo William e Lydia estavam no carro e a conversa entre eles era bastante animada. Vindo de Belo Horizonte, especialmente para a cerimônia da prima, William não conseguia esconder a expectativa em vê-la se formando, assim como todos da família. Além dele, ela seria a primeira das irmãs a ter um diploma de ensino superior. Jane, apesar de mais velha, havia feito apenas o magistério. Enquanto o carro avançava rumo ao Largo São Francisco, em meio as gargalhadas de Lydia e as histórias engraçadas contadas por William, passavam pela cabeça de Lizzy muitas coisas, como seu recente envolvimento com o movimento estudantil e, até mesmo, imaginava, sonhadora, o Sr. Darcy surgindo no Pátio das Arcadas e indo ao seu encontro.

Ao longe, se notava o majestoso prédio da universidade, com suas colunas iluminadas, dando um ar esplendoroso a imponente fachada, chamando a atenção de quem passava ao local. Ao entrarem no grande saguão da universidade, os convidados eram conduzidos ao auditório principal, onde seria realizada a cerimônia de colação de grau. Lizzy despediu-se da família para ocupar uma das cadeiras à frente, reservadas aos formandos, recebendo antes de sentar-se uma beca, que deveria ser colocada sobre a roupa. Algumas de suas amigas, tiveram dificuldade em ajeitá-la sobre o vestido volumoso e cheio de babados nos ombros, porém, em pouco tempo, todos os estudantes estavam sentados e trajados adequadamente para a cerimônia. Como membro da reitoria da Universidade de São Paulo, Sr. Bennet, ocupava uma cadeira a mesa, juntamente com o diretor da instituição, os coordenadores e os professores.

Quando deu início à cerimônia, as luzes do auditório se apagaram, permanecendo iluminada apenas a ala das cadeiras da frente e o palco. A emoção parecia tocar a todos, assim que os primeiros discursos foram iniciados. Uma colega da turma de Lizzy foi a escolhida para representar os formandos, fazendo um discurso comovente que envolvia uma realidade tocante a todos os estudantes, inclusive o grupo docente. Numa excelente oratória, dizia o quanto fora difícil concluir o curso considerando o cenário político e econômico do país, abordando, ainda, as dificuldades em manter pensamentos e valores, fato este, que envolvia profundamente o universo de seus colegas de classe, professores e de toda a sociedade. Mencionava, também, o preconceito que existia entre os alunos que participavam ativamente dos movimentos estudantis e os que não participavam, dando um recado sucinto e bastante satisfatório, de que todos estavam juntos e unidos e sonhavam em viver num país livre e digno. Neste momento, muito atenta as palavras da colega, Lizzy sabia o quanto isso era verdade. Para finalizar, ainda discursou sobre a questão do mercado de trabalho para as mulheres, fazendo um breve relato das dificuldades, terminando, muito emocionada, com um recado para todas as formandas, incentivando-as a nunca desistirem de seus sonhos profissionais. Muito ovacionada por todos presentes no auditório, a colega de Lizzy, fez com que muitos se emocionassem verdadeiramente, arrancando não só lágrimas, mas fazendo-os enxergar suas próprias vidas escritas naquele pedaço de papel.

Terminada a sessão dos discursos, os alunos eram chamados um a um para subirem ao palco. Durante esse vai e vem, o momento mais emocionante da noite foi quando Lizzy se deparou com seu pai, que ocupava a principal cadeira a mesa. Ambos estavam muito tocados e sensibilizados e, antes mesmo que pudessem se cumprimentar formalmente, se abraçaram e deixaram escorrer lágrimas em seus rostos. Lizzy soluçava com a cabeça encostada no peito de seu pai, enquanto todos, em pé, aplaudiam, com reverência, aquele momento tão especial. Aos prantos, Lizzy abandonou o palco, sendo acolhida pelos amigos, sem perceber que, logo em seguida, a cerimônia havia chegado ao fim. A turma de direito, que iniciou o curso em 76, estava orgulhosa e muito animada e urrava rimas que celebravam a tão honrosa conquista.

As luzes se acenderam no auditório, permitindo que as famílias se aproximassem dos mais novos advogados. O reencontro com os Bennet foi muito emocionante para Lizzy, pela primeira vez, desde que decidira estudar, pode ouvir sua mãe dizendo o quanto estava orgulhosa. Parecia, que finalmente, a Sra. Bennet havia se rendido e, principalmente, compreendido a importância do que Lizzy acabara de adquirir. Ainda muito emocionada, tentava segurar as lágrimas enquanto recebia o carinho de todos da família, incluindo Charles. A Sra. Gardiner, muito tocada com toda a emoção da afilhada, tentava registrar com sua câmera Kodak, algumas fotos de Lizzy, vestida ainda com a beca, ao lado de sua família. Logo em seguida, bastante agitada, entregou a câmera a Mary, posando ao lado de Lizzy e de seu marido, o Sr. Gardiner.

Não tardou para que o mestre de cerimônia anunciasse ao microfone que o Pátio das Arcadas estava liberado para receber todos os convidados. Rapidamente, Lizzy quis se livrar da beca, assim como seus colegas, que se organizavam para deixar o auditório e curtir o resto da noite. Antes de seguir em direção ao pátio, Lizzy entrou em um dos toaletes, próximos ao auditório, ao olhar-se no espelho, viu seus olhos borrados de maquiagem, abrindo a pequena bolsa que levava nos ombros, pegou um lenço e começou a se ajeitar, com as mãos ainda trêmulas de tanta emoção. Naquele momento, enquanto se olhava no espelho, sabia que tinha algo a fazer, por mais doloroso que seria. Precisava contar ao pai sobre sua participação nos movimentos.

A transformação glamorosa no Pátio das Arcadas deixara o espaço com um ar sofisticado, porém sem torna-lo irreconhecível, mantendo sua originalidade e características, ainda que mais charmoso e aconchegante. As famílias e os recém advogados iam se aglomerando no pátio, passando por debaixo dos arcos e contemplando a decoração e a boa música, que suavemente, ecoava por entre a construção que rodeava o pátio. Havia mesas de comes e bebes embutidas nas passagens sob as arcadas que contornavam toda a extensão do recinto. Ainda que todo aquele visual encantasse a todos, tratava-se de uma festa de formatura bastante simples, por escolha dos próprios estudantes, que abriram mão em realizar algo mais próximo a um baile convencional. Assim que Lizzy chegou ao pátio, admirou-se, encantada, com o visual do local, que, por tantas vezes, sua beleza passara desapercebida. Aproximou-se de sua família, feliz por estar ali, ao lado de todos e muito orgulhosa por ter conquistado seu diploma.

Aos poucos, a festa foi tomando seu próprio direcionamento, as famílias sentadas e os recém formados aproveitando a bebida e a música com a energia e entusiasmo excessivo, o qual parecia ser a última festa antes do fim do mundo. Lizzy tentava acompanhar o ritmo de seus colegas com certa dificuldade, já que beber não lhe era algo assim tão prazeroso, mas sabia o quanto era merecedor para todos, estar ali, comemorando.

Mesmo considerando o ar alternativo da cerimônia, estava previsto o momento da valsa, a qual Lizzy dançou com seu pai. Parecia ser um daqueles momentos semelhantes a uma cena de filme estrangeiro, algo que sabemos que será eterno em nossas lembranças, tendo, ainda, como característica, a mesma intensidade de emoção e sentimento. Sem querer perder a chance de bailar com a prima, William interrompeu os dois, pedindo permissão ao Sr. Bennet para que lhe concedesse a vez. Lizzy o abraçou carinhosamente, e, enquanto bailava, observava atenta suas amigas valsando com seus noivos e namorados. Por mais realizada que estivesse, não pode deixar de pensar, naquele momento, o quanto desejava estar vivendo tudo aquilo ao lado do Sr. Darcy.