Uma triste notícia chega à casa da família Bennet

Alguns dias se passaram após a memorável noite de sábado, surpreendentemente a Sra. Bennet havia reconhecido a importância do que Lizzy conquistara para sua vida e, isso, a fazia rever, ainda que, com certa sutileza, sua opinião sobre o valor dos estudos de suas demais filhas. Passara a enxergar que poderia, de fato, ser um outro caminho que lhes permitissem ser bem sucedidas em suas vidas, porém sabia que era algo mais trabalhoso e demorado a conquistar, muito mais do que arranjar um bom partido para se casar. Ao frequentar a igreja, mencionava a todos que sua filha havia se formado advogada e a repercussão da notícia fazia com que se sentisse importante e, principalmente, superior a outras mães, talvez sentisse, até o mesmo efeito de ter a filha casada com um ricaço. Lizzy, por sua vez, conduzia sua vida, sem grandes transformações aparentes, aguardava com certa ansiedade pela proposta de trabalho que o escritório, prometera lhe dar até o fim do ano, mesmo assim, não descartava a possibilidade de surgir uma boa oportunidade no mercado de trabalho. Muitas coisas haviam ocorrido, o ano de 1980 estava chegando ao fim e uma sequência de mudanças e descobertas invadiram seu mundo, causando uma verdadeira revolução dentro de si. Morar sozinha já não era mais um desafio, havia se acostumado a conviver com o silêncio e, mais ainda, ter seus próprios horários e rotina, além de responsabilidades e tarefas que, até então, desconhecia. Havia vivenciado o choque de ter uma irmã de apenas quinze anos grávida pelo colega de trabalho, o qual esteve interessada e, que no fim das contas, era um sujeito sem escrúpulo e nenhum caráter. Como uma armação da própria vida, deixou escapar um homem que a amava de verdade, só porque resistiu em aceita-lo como realmente era, rico e poderoso. Fora muito tempo alimentando ódio e uma coleção de críticas nada agradáveis, para depois perceber seu verdadeiro valor. Para Lizzy, a ausência do Sr. Darcy no escritório facilitava, não a ponto de esquecê-lo, mas de amenizar seu sofrimento, nem sequer passava-lhe pela cabeça que ele poderia estar usando do mesmo artifício. No entanto, o que mais a incomodava, naquele momento, era o fato de ter se tornado um membro do movimento estudantil, sem compartilhar a notícia com seu pai, já que era tão ligada a ele.

Era noite de domingo, quando Lizzy, acomodada no chão da sala, escutava a canção de John Lennon, Imagine. Entretida na melodia e sem nenhuma vontade de dormir, lembrava, ainda impressionada, a reportagem exibida no Fantástico sobre a trágica morte do músico. Fã dos Beatles, Lizzy costumava, desde pequena ouvir os sucessos da banda, sempre incentivada pelo seu pai e pelo Sr. Gardiner. Por Lennon, nutria a mesma admiração que muitos jovens sentiam por ele e, isso, tinha a ver com seus ideais e atitudes, principalmente, a favor da paz mundial. Muito tocada com a violência de sua morte, justamente ele que se opunha a guerras e demais injustiças, Lizzy chorava, muito comovida, ao lembrar da cena da multidão que se aglomerou em frente à casa do músico para orar e compartilhar dez minutos de silêncio, como havia pedido Yoko Ono, sua esposa. Esse gesto havia repercutido em outros países, refletindo o impacto de sua morte no mundo todo. Quando a música terminou, Lizzy permaneceu sentada, chorando e refletindo sobre o mal-estar que aquilo lhe causava, sentia-se vulnerável e chocada com a maldade que poderia existir dentro do ser humano.

Numa noite quente, após ter passado o dia trabalhando no escritório, Lizzy se reuniu com um grupo de conhecidos que estavam organizando há dias, o que seria o último encontro do ano entre os estudantes. A ideia era reunir o maior número de pessoas para alinhar informações sobre o processo de democratização do país e acordar diretrizes sobre a luta do direito ao voto popular, além da comemoração da reorganização da UNE. Era uma tarefa trabalhosa e bastante arriscada, visto que o papel mais importante da polícia era controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime e, para tanto, monitorava a todos que lhe parecessem suspeitos e, o fato era que a maioria dos estudantes viviam sobre a mira de agentes policiais. Com o fim das aulas, era necessário ir em busca dos jovens, tornando a tarefa de convocação muito mais difícil, ainda assim, alguns líderes insistiam que o encontro fosse realizado.

Muito entusiasmada, Lizzy acompanhou seus colegas durante três dias seguidos, ajudando a divulgar e persuadir jovens a comparecer a manifestação. Muitos deles hesitavam, dizendo que era arriscado demais participar de movimentos próximo a data de natal, temendo ficar presos em plena festividade. Outros, no entanto, eram a favor de que o encontro fosse realizado na PUC, alegando tratar-se de uma instituição de ensino da igreja católica e, que por esse motivo, não haveria interferência da polícia. Ainda assim, o encontro acabou sendo marcado em frente à Universidade de Direito do Largo São Francisco, endereço bastante familiar à Lizzy.

Naquele início de noite, logo após ter deixado o escritório, Lizzy seguiu rumo ao centro da cidade, onde muitos dos manifestantes já se concentravam no local, inclusive a polícia que acompanhava de longe a aglomeração. Era surpreendente a adesão de estudantes ao movimento, vindos de várias cidades, como Campinas e São Carlos, no interior de São Paulo. Enquanto, militantes da Liga Operária e da UNE se dividiam para discursar sobre temas que não estavam previamente na pauta, como o contínuo sucesso das inúmeras greves dos trabalhadores e, até mesmo, a inflação do país, a tropa de choque rapidamente cercava a massa de mais de mil estudantes, pelos dois lados, obrigando parte deles, a entrar na universidade. Lizzy, bastante nervosa, estava sendo praticamente empurrada em direção ao portão pela multidão acuada, no entanto, havia certa resistência de alguns líderes estudantis bastante acostumados a repressão policial, que gritavam exaltados, ordenando que todos reagissem a violência policial. Revoltada com a reação debochada dos estudantes, a polícia então iniciara uma verdadeira cena de guerra, utilizando armas de fogo e, até mesmo, bombas de fósforo. Algumas jovens que estavam próximas a Lizzy foram atingidas e caíram ao chão, gritando desesperadas das queimaduras causadas pelos tais artefatos. A resposta impetuosa dos policiais levou os jovens, sem alternativa, a correr para dentro da faculdade, na tentativa de escaparem da fumaça dos gases lacrimogêneos e da violência dos cassetetes. Alguns deles recorreram a restos de entulho de construção civil, que estavam ao lado do portão lateral, lançando em direção aos policiais. Enquanto Lizzy tentava chegar ao portão, uma pedra que fora arremessada atingiu sua cabeça, provocando um enorme corte por conta do impacto. Na mesma hora, ela caiu ao chão, desmaiada.

Cerca de novecentos policiais renderam quase mil estudantes, que foram levados pelos ônibus da PM para o batalhão Tobias de Aguiar. Após uma seleção rigorosa, apenas oitenta estudantes foram encaminhados ao Dops e indiciados pela Lei de Segurança Nacional. Lizzy não fazia parte de nenhum desses grupos. Assim que havia desmaiado, um colega da faculdade, que assistira toda a cena, conseguiu socorre-la, tirando-a daquela cena de guerra. Alguns policiais haviam decidido deixa-lo passar, enquanto a carregava no colo, pois estava perdendo bastante sangue. Com muita sorte, ele conseguiu um taxi para leva-la até um hospital. Lizzy deu entrada na emergência do hospital Pérola Byington em estado grave.

Já passava das dez horas da noite, quando o telefone tocou na casa dos Bennet. O rosto de Jane esbranquiçou-se ao escutar do outro lado da linha a voz aflita de um rapaz dizendo-lhe que Lizzy estava internada num hospital. Imediatamente, chamou o pai que estava sentado ao sofá, lendo um livro e fazendo companhia a Sra. Bennet, que assistia à TV. Percebendo o estado de pânico da filha, logo perguntou:

- O que foi, Jane? Quem era ao telefone?

- Não sei se entendi direito, mas disseram que Lizzy está no hospital. – respondeu ela, com as mãos na no rosto.

- Mas o que houve com ela? Qual hospital ela está? – perguntou ele, levantando-se do sofá.

- No Pérola Byington, mas não conseguiu entender direito o que houve com ela. O rapaz disse que sofreu um acidente na manifestação da faculdade.

- Como assim? O que ela estava fazendo lá?

- Não sei, pai. – respondeu ela, em lágrimas.

Sr. Bennet saiu de casa acompanhado pela esposa e por Jane, seguindo até onde Lizzy estava internada. Quando chegaram ao hospital, aguardaram longos e angustiantes minutos, até que obtivessem informações sobre o estado de Lizzy. Muito chocada, Jane tentava conter suas lágrimas enquanto o médico de plantão explicava o que havia ocorrido.

- Ela chegou ao hospital com um trauma muito grave na cabeça e também havia perdido uma quantidade significativa de sangue. Fizemos todos os procedimentos e, no momento, a paciente está na UTI, em estado de coma induzido.

- Qual a gravidade do estado dela? – perguntou Sr. Bennet corajosamente, com receio em ouvir o pior dos diagnósticos.

- Ainda não podemos avaliar qual o verdadeiro grau da lesão neurológica. Isso somente será possível, quando cessarmos os sedativos.

- Compreendo. – lamentou ele. – Podemos vê-la?

- Infelizmente o horário de visitas terminou. Mas, vou deixa-lo subir. Apenas o senhor e, somente, por alguns instantes.

Sr. Bennet agradeceu e acompanhou o médico até o quarto onde Lizzy estava. Muito emocionado, observou a filha do lado de fora da unidade, através de um vidro na porta de entrada. Deitada, com a aparência calma, parecia cochilar tranquilamente, se não fosse pela faixa de gaze que cobria toda a sua cabeça, além de estar conectada a um ventilador mecânico e recebendo soro e medicamentos através da veia do braço. Ao mesmo tempo, que vê-la naquela situação causava-lhe uma imensa dor, Sr. Bennet sabia que a filha estava bem e tinha fé de que as coisas voltariam a ser como antes. Sua vontade era passar a noite perto de Lizzy, mesmo que fosse observando-a através daquela pequena janela, no entanto, sabia que não era possível e, além do mais, tinha obrigação de comunicar a esposa e a Jane, sobre o estado da filha. Desceu calmamente até a recepção do hospital e após ter conversado com a Sra. Bennet e com Jane, ainda muito abaladas, decidiu que passaria a noite no hospital. Assim que as duas deixaram o hospital, Sr. Bennet foi cuidar dos trâmites de internação da filha, para, em seguida, aguardar ansiosamente pelo horário de visitação.

O horário de visitas na UTI era bastante reduzido e restrito a apenas uma pessoa por vez. Sr. Bennet que aguardara impaciente por toda a madrugada, sentia-se realizado por poder estar ao lado da filha. Lizzy, ainda em coma, parecia não saber da presença do pai, que segurava-lhe a mão, delicadamente. Muito emocionado, observava detalhadamente a filha, tentando compreender o que havia acontecido com ela e o que estava fazendo numa manifestação estudantil. No entanto, parou de se atormentar, sabendo que não era hora para tal indignação, concentrando-se apenas em fazer-lhe companhia. Após longos minutos, decidiu descer até o saguão do hospital para encontrar-se com a Sra. Bennet, que acompanhada pelas filhas, aguardavam a vez de subir.

- Lizzy está dormindo e os demais pacientes que estão no quarto também, precisam ficar em silêncio enquanto estiverem lá. – advertiu ele.

Para que todos da família pudessem estar um pouco com Lizzy, o horário das visitas foi cuidadosamente dividido e controlado, sendo que cada um dispunha de poucos minutos para ficar no quarto. Exibindo um imenso barrigão, Lydia entrou na unidade acompanhada por uma enfermeira. Temerosa em causar qualquer incomodo aos doentes, chorava silenciosamente, ao ver a irmã, sendo consolada pela funcionária do hospital. Sra. Gardiner chegou a tempo de desfrutar alguns minutos visitando a afilhada, também bastante emocionada e preocupada com o estado de saúde de Lizzy. Ainda que o relatório médico indicasse que seu quadro era estável, isso não aquietava a ansiedade da família em vê-la novamente com vida e disposição.

- Vamos lembrar que o médico explicou que é normal que ela fique em estado de coma, neste momento. – tentava esclarecer Sr. Bennet, embora estivesse bastante aflito.

Antes de deixar o hospital, Jane usou um telefone público para falar com Charles, contando-lhe o que havia ocorrido com Lizzy.

- Nossa! Então é muito grave! – reagiu ele, ao saber à notícia.

- Meu pai diz que estar em coma faz parte da recuperação dela, mas todos estamos com muito medo de que ela não acorde ou quando acordar, não esteja bem.

- Darcy foi avisado?

- Não, ainda não. Bom ter lembrado, vou ligar para o escritório agora mesmo.

Assim que terminou sua conversa com Charles, Jane ligou para o trabalho de Lizzy, explicando a Charlotte o que havia acontecido. Antes mesmo do final da tarde, tanto Charles como Charlotte havia dado a notícia ao Sr. Darcy, que em desespero, deixou sua sala no escritório da mineradora, seguindo para o hospital, mesmo sabendo do horário restrito para as visitas.

Sem encontrar com ninguém da família de Lizzy, Sr. Darcy procurou os médicos para saber notícias dela, inclusive verificando se era necessária sua remoção para outro hospital ou até mesmo se era preciso algum recurso financeiro para obter melhorias em seu estado de saúde. No entanto, naquele momento, nada a libertaria daquele sono profundo. `

À noite, Sr. Bennet estava de volta ao hospital, sentia-se melhor em ficar perto da filha, mesmo que fosse sentado em uma desconfortável cadeira de plástico observando as horas passarem e os pacientes que entravam no centro de emergência. Entretanto, para sua surpresa, Sr. Darcy também estava lá, abatido e com uma sensação que lhe era muito estranha e nada familiar, sentia uma dolorosa impotência por não conseguir livrar Lizzy daquela situação com todos os seus recursos. Acostumado a ter tudo na hora que desejava, estava imensamente angustiado em ter de esperar para vê-la. Passaram-se alguns minutos, até que se encontraram no saguão do hospital em plena madrugada, cada qual tentando consolar sua dor.

- Ora, o que faz aqui, Sr. Darcy?

- Soube o que aconteceu com Lizzy e vim imediatamente assim que pude. Conversei com os médicos e coloquei a disposição deles todos os recursos que necessitarem.

- Bem, agradeço sua generosidade, mas não há nada a fazer, a não ser esperar.

- O senhor vai passar a noite aqui?

- Sei que deve achar desnecessário, mas me sinto melhor aqui do que na minha cama.

- Está enganado, não penso assim, quero lhe fazer companhia, se me permitir. Também quero pedir que me deixe vê-la amanhã.

Sr. Bennet observou-o com certa indignação. Não sabia, até aquele momento, o quanto Lizzy era importante para o Sr. Darcy e, sem lhe fazer perguntas, aceitou sua companhia, consentindo com a cabeça.