A amizade entre o Sr. Bennet e o Sr. Darcy

Sr. Darcy foi o primeiro a entrar no quarto de Lizzy, naquela manhã. Enquanto se aproximava do leito onde ela estava, sentia uma imensa dor que invadia todo o seu corpo. Antes de sentar-se, permaneceu em pé, observando-a bastante comovido, desejando, até mesmo, estar em seu lugar. Ainda que tivesse tentado fugir do amor que sentia por Lizzy, foi ali, naquele exato momento, que se deu conta que tudo havia sido em vão. Apesar das circunstâncias, sentia-se iluminado por estar próximo a ela e poder olhá-la calmamente, sem medo de ser percebido por ela ou por outra pessoa. Apesar de estar em sono profundo, reparava em cada pedacinho de seu rosto, lembrando de suas feições felizes e, na maioria das vezes, séria e emburrada. Ao sentar-se à cadeira que ficava ao lado da cama, tocou em sua mão, mesmo sabendo que não era permitido, acariciando-a com seu dedo, delicadamente.

- Me desculpe por ter sido tão covarde! – murmurou ele, baixinho. – Nunca devia ter abandonado você, mas confesso que não suportei sua rejeição. Agora, o que mais quero é conquista-la, meu amor! – declarou ele, permanecendo ali, por longos minutos, ao lado dela, em silêncio.

Envolvido em seus sentimentos, Sr. Darcy não se deu conta que faltava pouco tempo para terminar o horário de visita, até ser interrompido pela enfermeira da unidade.

- Não vi o Sr. Bennet por aqui, hoje?

- Ah! Meu Deus! Acabei me distraindo. – disse ele, levantando-se apressadamente. – Ainda dá tempo para ele subir?

- Sim, mas precisa ser rápido. – disse ela, olhando em direção ao relógio.

Sr. Darcy deixou o quarto, apressadamente, sem despedir-se de Lizzy como queria. Quando chegou a recepção, lá estava o Sr. Bennet acompanhado pela família, um tanto nervoso por conta do pouco tempo que restava para ver a filha.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele, preocupado.

- Não, apenas me esqueci do tempo. Me desculpe. – disse Sr. Darcy, entregando-lhe o cartão de visita.

Enquanto Sr. Bennet ia ao encontro da filha, Sr. Darcy cumprimentava a mãe e as irmãs de Lizzy no saguão do hospital, tentando amenizar o sentimento de descontentamento da família por não poder vê-la.

- Me desculpem pelo atraso. – lamentou ele.

Por tratar-se do Sr. Darcy, Sra. Bennet não se importou, passando a bajulá-lo e queixar-se da vida. Entretanto, poucos minutos depois, Jane a interrompe, encaminhando Sr. Darcy para longe da família.

- Queira me desculpar, minha mãe costuma se exceder nas conversas. – disse ela, lamentando-se. – Como Lizzy está?

- Parece apenas dormir tranquilamente.

- Fico feliz por ter vindo e por ter feito companhia ao meu pai durante a noite. Sei que Lizzy também teria ficado muito feliz em vê-lo aqui.

- Não tenho tanta certeza quanto a isso, mas eu gostaria de voltar a visita-la. Prometo não causar problemas com o horário de visitas novamente.

- Não se preocupe com isso, a família é grande e é insano todos quererem visita-la num espaço de tempo tão curto. Meu pai estando com ela já é o suficiente. Quanto a não ter certeza de que Lizzy ficaria feliz em vê-lo, está redondamente enganado.

Sr. Darcy olhou para Jane um tanto surpreso, aguardando que lhe dissesse algo.

- Ela o ama, se é isso que quer saber. – revelou Jane, sem fazer cerimônias, deixando Sr. Darcy com o rosto corado. – Não se preocupe, sei alguns dos segredos de Lizzy e prometo que nem mesmo a ela, irei confessar que contei isso a você.

- Não sei como te agradecer! – disse ele, segurando as mãos de Jane. – Acho que é a melhor notícia que já tive! – revelou ele, extasiado com o que acabara de ouvir.

Ao ver o Sr. Bennet saindo do elevador, foi logo dizendo: - Acho que devo minhas sinceras desculpas ao seu pai, por pouco ele não conseguiria ver Lizzy, hoje.

- Você está perdoado, afinal foi por uma boa causa. – brincou Jane.

Ainda que fosse o final de semana que antecedia o natal, ninguém da família Bennet parecia se lembrar disso, já que a atenção de todos estava voltada para o estado de saúde de Lizzy. Nem mesmo os presentes e as comidas para o preparativo da ceia foram comprados. Até a boa notícia de que Mary havia passado na primeira fase do vestibular da Fuvest parecia sem importância. Sra. Bennet preferia passar os dias na igreja, orando e buscando o conforto dos amigos, que sempre tinham uma palavra de esperança para dar-lhe. Sra. Gardiner preocupava-se com o estado depressivo de Lydia, que passava boa parte do dia chorando e sem se alimentar.

Como era esperado, Sr. Darcy apareceu novamente na madrugada de domingo, no hospital, fazendo companhia ao Sr. Bennet, que passava boa parte de seu tempo o mais próximo de Lizzy. Sem novidades sobre o estado da filha, estava sentado desconfortavelmente numa das poltronas de plástico da recepção do hospital, concentrado no livro que lia, até ser interrompido.

- Boa noite, Sr. Bennet!

- Olá, meu rapaz! Bom vê-lo aqui novamente, mas não precisa se incomodar.

- Acredite, não é incomodo algum. Quero fazer-lhe companhia e, se possível, ver Lizzy, pela manhã. – insistiu ele.

Sr. Bennet olhou para o Sr. Darcy, entendendo a razão de sua presença, porém preferiu manter-se discreto frente à sua suposição de que ele estava interessado em Lizzy e aproveitou a oportunidade para conhece-lo melhor. A conversa entre os dois estendeu-se por toda a madrugada, Sr. Bennet aprofundava as histórias vividas ao lado de sua família, especialmente de Lizzy, assistindo a reação de entusiasmo encher a face do Sr. Darcy. Em meio a tantas recordações, a manhã se anunciara sem ser percebida, apenas o corpo sentia a dor do desconforto. Logo, seria o horário de visitas e ambos já sentiam uma enorme alegria e ansiedade em poder ver e estar perto de Lizzy.

- Bem, hoje é domingo e é provável que a madrinha de Lizzy venha visita-la. – advertiu Sr. Bennet. – Portanto, receio que não possa ficar tanto tempo com minha filha lá em cima. – disse ele.

- Veja bem, não quero causar incomodo. Acho que a família tem a preferência.

- Claro que tem. Mas, nesse caso, vou abrir uma exceção. Faço tudo para o bem de minha filha e sei que ela ficaria feliz em receber a visita de uma pessoa tão especial como você, Sr. Darcy.

Surpreendido com as palavras do Sr. Bennet, ele o abraçou, carinhosamente, como há muito não fazia e agradeceu a oportunidade de poder fazer parte da família. Não demorou muito para que os Bennet e os Gardiner aparecessem. Naquela manhã, Charlotte também esteve no hospital, aflita por saber notícias da amiga, porém estranhando a presença do Sr. Darcy no hospital.

- Bom dia, Sr. Darcy! – disse ela, sem esconder a surpresa em encontra-lo ali.

No entanto, ele não pareceu incomodado com o que Charlotte pudesse pensar. De fato, ele era bastante reservado e dificilmente adentrava na vida das pessoas que trabalhavam em seu escritório, por isso, era natural que sua secretária manifestasse certo espanto.

Assim que o horário de visitas terminou, Sr. Darcy se ofereceu para levar a família Bennet para casa. Bastante entusiasmada com a gentileza do poderoso e rico rapaz, Sra. Bennet recusou a carona da cunhada, enxotando as filhas para o carro dos Gardiner e aguardava, com certa superioridade no rosto, o que viria a ser seu primeiro passeio num Landau. Acompanhada pelo marido, por Jane e por Charlotte, entrou no carro e lá ficou a suspirar, encantada e sem se dar conta de seus excessos, admirando a todo momento, em voz alta, o espaço, o conforto e o luxo do veículo. A convite de Jane, Charlotte iria almoçar com eles, enquanto a Sra. Bennet fazia de tudo para atrair e convencer o Sr. Darcy a almoçar em sua casa. Muito educado, porém, ele recusou ao convite, argumentando que havia tido uma noite muito cansativa e precisava de um banho e um bom descanso.

Apesar da família estar reunida para o almoço de domingo, o clima era desanimador. Sr. Bennet se recolheu para o quarto, enquanto a Sra. Bennet e a Sra. Gardiner se juntaram a Maria na cozinha. Jane e suas irmãs faziam companhia ao Sr. Gardiner e a Charlotte, na sala, onde o assunto não poderia ser outro a não ser o estado de Lizzy.

Quando já era noite, os Gardiner levaram o Sr. Bennet até a porta do hospital. Lá estava ele, preparado, para mais uma noite em claro na desconfortável e fria poltrona de plástico encardido da recepção. Passaram-se algumas horas para que sentisse falta do Sr. Darcy. Havia se acostumado com a sua companhia e as histórias interessantes sobre viagens, trabalho e o imenso afeto e cuidado que tinha com a sua irmã Georgiana. Também gostava de ouvi-lo falar sobre Lizzy. No entanto, naquela madrugada, por conta de uma viagem de negócios inadiável, Sr. Darcy não aparecera. Quando, finalmente, amanhecera, Sr. Bennet foi surpreendido pelo médico, antes mesmo de subir até a UTI. A notícia sobre o estado de saúde da filha parecia animadora, fazendo com que ele, após dias de tensão, pudesse sentir-se mais aliviado. Com a diminuição dos medicamentos que a mantinham em estado de coma, Lizzy acordara, em alguns momentos durante a noite e, ainda que respondesse de maneira favorável aos estímulos aplicados pela equipe médica, não conseguiu se comunicar. Porém, a boa notícia era que não seria mais necessário a utilização do respirador artificial, ela já era capaz de respirar sozinha, sem a ajuda do aparelho.

- Sua filha é uma moça muito forte, acredito que em breve deixará a UTI. Precisamos libertá-la do coma devagar, para que não sinta dor da lesão em sua cabeça e nenhum outro incomodo. Ainda precisamos fazer alguns exames e análises para avaliarmos seu estado real, porém só poderei dar-lhe um diagnóstico preciso, quando ela não estiver mais em coma.

Sr. Bennet agradeceu toda a informação e se dirigiu, cheio de esperança, até o quarto. Ao entrar na unidade e ver a filha respirando normalmente, lhe fez sentir um imenso alívio. Sua vontade era compartilhar a notícia com todos, porém não havia ninguém, além dele e de sua filha Lizzy. Quando desceu até a recepção, Sra. Bennet e Mary estavam na recepção aguardando a vez de visitar Lizzy. Também ficaram muito contentes com a notícia, subindo, cheias de expectativas, até o quarto. Assim que chegou em casa, Sra. Bennet se encarregou em comunicar a todos sobre a melhora do quadro da filha, interfonando para alguns vizinhos e telefonando para a Sra. Gardiner e alguns conhecidos da igreja, mais tarde, foi até lá, rezar e contar a novidade aos padres.

Não demorou muito para que o Sr. Darcy ficasse sabendo sobre a evolução do estado de Lizzy. Ainda que estivesse bastante ocupado no dia que antecedia a véspera de natal, assim que deixou uma importante reunião na mineradora, seguiu diretamente para o hospital, ansioso por saber mais notícias da amada. Já passava das dez, quando entrou na recepção do Pérola Byington a procura do Sr. Bennet. Após procura-lo por todo o saguão da recepção e não encontra-lo, preocupou-se, achando que poderia ter ocorrido algum problema com Lizzy. Ainda que muito aflito, decidiu aguardar, porém foram momentos angustiantes para ele, até que conseguisse obter informações sobre o estado de Lizzy, através de uma enfermeira da UTI que sempre dava as caras na recepção para fumar um cigarro. Apesar de estar sozinho, Sr. Darcy, que sempre demonstrava um ar sério e, para muitos que não o conheciam, isso soava como arrogância, naquele momento, ao ouvir que Lizzy passara o resto da tarde acordada, não conseguia conter sua alegria e euforia, caminhava de um lado para o outro estampando um sorriso parecido com o de uma criança que acabara de ganhar um doce.

Era quase meia noite quando o Sr. Bennet, finalmente, adentrou o hospital, encontrando, surpreso, com o Sr. Darcy cochilando, todo desajeitado, na poltrona de plástico. Tinha conhecimento de que a filha o achava um endinheirado metido a besta, por isso, antes de acordá-lo, pensou que se a situação não fosse tão trágica, Lizzy acharia muito engraçado vê-lo naquela circunstância, trajando um terno importado de II Vanquish feito sob medida, gravata de seda e sapatos italianos feitos à mão. Assim que despertou, contou ao Sr. Bennet sobre o progresso de Lizzy, não conseguindo esconder sua enorme emoção. Enquanto ouvia as palavras animadas que saiam da boca do Sr. Darcy, Sr. Bennet acomodava-se calmamente na poltrona.

- Sabe, essa poltrona já não me parece assim tão ruim. – disse ele, com um brilho nos olhos, assim que o Sr. Darcy havia terminado de falar. – A vida é realmente muito engraçada. Às vezes, é necessário que algo aconteça para que possamos despertar e tomar coragem para decidir o que fazer, qual direção seguir. – filosofou ele, deixando Sr. Darcy um tanto intrigado, pois ia de encontro ao que acreditava estar acontecendo com ele. – Essa tarde estive na universidade e permaneci por lá um longo tempo para pôr à disposição o cargo que ocupava. – revelou ele, com muita tranquilidade. – Durante todo esse tempo de ditadura, vi coisas terríveis acontecendo dentro e fora da universidade, mesmo antes de ter assumido esse cargo na reitoria, o qual ninguém queria. No entanto, fiz de tudo para não apoiar esse sistema político, ao mesmo tempo que me esforçava para não envolver-me em nenhuma ação que colocassem em risco a vida de minha família. E, acredite, permanecer neutro pode ser a pior coisa para uma pessoa como eu. Tanto esforço e veja no que deu. Minha filha está lá em cima.

Sr. Darcy escutava em silêncio ao desabafo do Sr. Bennet e conforme o tempo passava, seu envolvimento com a família Bennet aumentava. Muitas vezes, as opiniões do Sr. Bennet faziam com que ele lembrasse de Lizzy, do seu jeito admirável e mesmo dos momentos em que ela expunha, com todas as forças, o quanto o detestava. Mas para ele, isso não importava mais, pois sabia que ela o amava. Era questão de tempo para que tudo ficasse bem entre eles.