Uma Noite Muito Especial

Era véspera de natal, uma manhã onde o sol brilhava radiante lá fora e a feição das pessoas que circulavam no saguão do hospital parecia mais amável do que nos outros dias. Enquanto Sr. Bennet e Sr. Darcy aguardavam ansiosos pelo horário de visitas, escutavam as enfermeiras comentando sobre os preparativos para a noite de natal.

- Esse ano tudo será diferente. – lembrou Sr. Bennet. – Sempre passamos o natal em casa com a mesa farta. Com um belo pedaço de pernil e um grande peru assado recheado com farofa, nada muito sofisticado, arroz e saladas, mas adoro as comidas do natal. Minha esposa sempre incrementou a mesa com uma bela torta de palmito, que Lizzy aprecia muito, desde criança. Ficávamos acordados até tarde, brindando com champagne barata quando o relógio marcava meia-noite e, aí, todos nós abríamos os presentes. – revelou ele, emocionado. - Não sei bem como iremos comemorar o natal em casa, mas uma coisa é certa, estarei aqui perto de Lizzy.

Após escutar as palavras do Sr. Bennet, Sr. Darcy ficou por um momento pensativo, até ser interrompido:

- Vamos lá, meu rapaz, você será o primeiro a visita-la! – anunciou ele, assim que o relógio marcou nove horas, fazendo com que se levantasse rapidamente.

Desejoso por encontrar Lizzy, em segundos chegou até o andar da UTI. Sem perder tempo em espiar pelo vidro da porta de entrada, avistou, assim que entrou, a enfermeira acomodando Lizzy em seu leito. Vê-la acordada era como ter o seu presente de natal antecipado, era tudo que mais queria. Apesar de um pouco magra e abatida, ela estava viva e se recuperando, o que era muito mais importante. Ainda que os dois se olhassem, sem dizer sequer uma palavra, a expressão de felicidade que irradiava dos olhos do Sr. Darcy chamou a atenção da enfermeira, que achando que ele fosse o noivo de Lizzy, adiantou-se em explicar-lhe a situação dela, mesmo antes que pudessem falar alguma coisa.

- Essa moça é muito forte e veja só quando resolveu despertar, na véspera de natal, pra alegrar a vida de toda a família! – brincou ela. - Ela ainda está um pouco confusa. Não se lembra do que aconteceu. Senti muito enjoo e ainda está se alimentado através das sondas, mas tentaremos introduzir a alimentação, aos poucos, daremos início, ainda hoje. A medicação que causa sonolência será mantida, porém em doses menores, apenas para que possa descansar e relaxar, o que é muito importante para sua recuperação. Conforme for a avaliação do médico, Lizzy poderá deixar a UTI e ser liberada para um quarto do hospital. Se tudo correr bem, poderá vê-la mais tarde, assim não ficará sozinha em plena noite de natal.

Enquanto escutava o que a enfermeira dizia, Sr. Darcy não tirava os olhos de Lizzy, que ainda permanecia em silêncio. Assim que a enfermeira ajeitou a cama e introduziu os medicamentos via cateter, os deixou as sós, com uma expressão maliciosa no rosto.

- É muito bom vê-la assim, novamente. – disse ele, sem ter resposta alguma. – Seu pai está lá embaixo e está muito ansioso para vê-la, por isso não devo me demorar aqui.

Depois de alguns poucos minutos em silêncio, Lizzy disse, num tom de voz baixo:

- Será bom vê-lo. – disse ela com os olhos fechados.

- Você se lembra de mim? Sabe quem eu sou? – perguntou ele, com dúvida se, de fato, ela estava o reconhecendo.

Delicadamente, Lizzy balançou a cabeça dizendo que sim.

Um pouco desconfortável com o silêncio que havia entre os dois, Sr. Darcy sentia uma certa decepção com a falta de entusiasmo de Lizzy, comportamento este, que era bastante distante do que havia imaginado. Ao mesmo tempo que gostaria de ficar e insistir numa reação mais calorosa, sabia que era preciso dar tempo e ter muita calma, até receber de Lizzy a atenção que tanto queria. Com o coração partido deixou a unidade, despedindo-se, permitindo que o Sr. Bennet pudesse desfrutar um tempo maior ao lado da filha.

Assim que o Sr. Darcy deixou o quarto, Lizzy, bastante debilitada, pediu à enfermeira que deitasse sua cama. Sentia-se fraca e bastante enjoada, por conta da medicação. Não demorou muito para que o Sr. Bennet, sua mãe e Jane a vissem, ainda acordada. Mesmo sem dizer muitas palavras, Lizzy sentiu-se segura ao vê-los e adormeceu assim que ficou sozinha.

Antes de despedir-se da família Bennet, Sr. Darcy insistiu para que Lizzy fosse transferida para o melhor quarto do hospital, tudo por conta dele, alegando que era sua responsabilidade, já que ela era funcionária de sua empresa. Imediatamente, Sra. Bennet concordou com a ideia, pensando inclusive em seu próprio conforto, porém Sr. Bennet expôs claramente que não queria explorar a boa vontade dele.

- É algo que me deixará mais tranquilo, por favor Sr. Bennet, deixe-me ajudar. – pediu ele, tendo em troca um olhar afirmativo do Sr. Bennet, que sabia não tratar-se de dinheiro e, sim, de sentimentos.

- Estive pensando enquanto falávamos sobre a festa de natal, hoje, pela manhã. – comentou ele, receoso de que pudesse haver uma resposta negativa da parte do Sr. Bennet. - Gostaria muito que fossem jantar em minha casa, esta noite. – disse ele, surpreendendo aos três. - Não haverá nada de mais, apenas um jantar com minha mãe e minha irmã e acho que seria muito bom tê-los conosco.

Sra. Bennet sentia-se deslumbrada com o convite e com a oportunidade de poder estar na mansão da poderosa família Darcy. Uma ocasião única, que seria assunto de destaque entre seus conhecidos durante meses ou toda vez que quisesse sentir-se superior a eles. No entanto, Sr. Bennet, ainda que estivesse lisonjeado com o convite, pensou em agradecer a gentileza, pois não queria incomodá-lo e muito menos invadir sua festa em família. Porém, Jane se adiantou e tinha com ela a decisão:

- Sr. Darcy, agradecemos muito o convite, digo isso, em nome de toda a minha família. Apesar de ser assim, em cima da hora, acho que podemos nos organizar para jantarmos juntos esta noite, não é papai? – disse ela. – Afinal, não ficaria bem recusar, já que o Sr. Darcy tem feito companhia ao senhor, todos os dias, desde que Lizzy foi internada. – completou ela. - Estaremos lá e levarei Charles! – disse Jane, despedindo-se.

Com um argumento desses, Sr. Bennet sequer ousou manifestar-se ao contrário, agradando muito a filha e, principalmente, a esposa. De fato, sentiu-se honrado com o convite, havia, em poucos dias, se tornado muito próximo ao Sr. Darcy e, ainda que mantivesse total discrição, torcia para que tudo desse certo entre ele e a filha. Todos deixaram o hospital, extasiados. Para a família Bennet, que até então, não havia planejado nem mesmo a ceia de natal, haveria uma festa mais do que especial para ir. Por uma tarde inteira, com exceção do Sr. Bennet que havia retornado ao hospital para cuidar dos tramites da transferência de quarto da filha, a Sra. Bennet e suas filhas permaneceram eufóricas, tentando encontrar a roupa mais adequada para um jantar natalino na mansão dos Darcy.

Enquanto isso, já em sua casa, Sr. Darcy passou mais de uma hora, sentado no confortável sofá da principal sala de estar, sentindo-se imensamente nervoso por receber a família Bennet para a noite de natal. Preocupava-se em tornar tudo o mais próximo do que eles estavam acostumados, embora soubesse que jamais conseguiria tornar aquele lugar em algo comum. A mansão dos Darcy era um lugar que excedia as expectativas até mesmo das pessoas acostumadas ao convívio com as casas e lugares da alta sociedade. Ao anunciar ao mordomo os pratos que pretendia oferecer no jantar aos seus convidados, este não disfarçou sua cara de horror e desapontamento, indo imediatamente reclamar à Sra. Darcy. Lembrando da descrição da noite de natal que o Sr. Bennet havia feito pela manhã, queria oferecer-lhe a mesa farta, nada muito sofisticado, algo que o fizesse sentir-se em casa. Ansiava por receber bem a família da mulher que amava e, principalmente, queria fazer parte dela, mesmo que simples, barulhenta e com todos os comentários tolos da Sra. Bennet, eram unidos, carismáticos e amáveis. Tamanho medo tinha de desapontá-los ou de causar-lhes certo constrangimento devido a sua posição social, por isso, pela primeira vez, incomodava-se com o fato de morar numa casa tão esplendida e luxuosa, achando que isso, poderia ofendê-los, principalmente ao Sr. Bennet, com quem tanto simpatizara. Passou um tempo observando a calmaria no jardim e tentando encontrar uma maneira de mostrar que também havia simplicidade em sua vida, ainda que tudo em sua volta parecesse o contrário.

- O que te preocupa? – perguntou Georgiana, que surgira repentinamente ao lado do irmão.

Sr. Darcy sorriu antes de responder-lhe.

- Só você pra me conhecer tão bem.

- Algo que eu possa ajudar? – perguntou ela, abraçando-o carinhosamente pelas costas. – Soube que convidou algumas pessoas para jantar conosco à noite. Escutei alguns empregados se lamentando com a mamãe sobre a mudança do cardápio.

Enquanto Georgiana falava, Sra. Darcy se aproximou dos filhos.

- Vou aproveitar que estamos todos aqui para dizer que teremos convidados para o jantar de hoje à noite. Desculpe por não ter contado a vocês antes, mas, na verdade, tudo se deu hoje pela manhã. – explicou ele. – A família Bennet não é tão afortunada como nós, mas são boas pessoas e estão acostumadas a menos requinte, por isso solicitei a mudança no cardápio.

- Entendo. Por que os convidou? – perguntou sua mãe, bastante curiosa.

- A filha deles, que trabalha no escritório, sofreu um acidente e ainda está internada, por conta disso, não providenciaram nada para o natal, por isso os convidei. – explicou ele. - Após dias de grande preocupação com o estado de saúde da filha, quero poder oferecer-lhes, ao menos, um pouco de alegria na noite de natal.

Tanto a Sra. Darcy como Georgiana se surpreenderam com sua preocupação e compaixão, sem se importarem com o convite de última hora, nem mesmo com as alterações no cardápio, mas sabiam que havia mais do que esse simples gesto no coração do Sr. Darcy. O apoio e a compreensão de sua família, naquele momento, era tudo que ele precisava para sentir-se melhor. Sabia que conseguiria dar aos Bennet, uma agradável noite de natal ao lado de sua família. Bem mais relaxado, subiu, finalmente, ao seu quarto para descansar, após uma noite inteira às claras.

Apenas quando Lizzy foi transferida para o quarto no 6º andar do Pérola Byington, Sr. Bennet deixou o hospital. Já passava das sete horas quando chegou à sua casa. Sua esposa e filhas estavam prontas e o aguardavam bastante ansiosas. Apesar de muito cansado, sabia que deveria ir ao jantar, por consideração ao Sr. Darcy, que lhe fora uma boa companhia e que, muito gentilmente, assumira as despesas da internação da filha. Charles já havia chegado, para acompanha-los e quis saber notícias de Lizzy. Muito satisfeito em tê-la fora da UTI, logo respondeu:

- Ela já está acomodada no quarto e estou feliz pois poderei vê-la mais tarde.

Não demorou muito para que todos, finalmente, estivessem prontos rumo à mansão dos Darcy, com a ansiedade aflorando até mesmo em Mary, a mais tranquila entre as irmãs. Sr. Bennet que seguia o carro de Charles, se surpreendeu quando este adentrou uma propriedade com um imenso jardim iluminado à frente da casa. Sem calar-se durante todo o trajeto, Sra. Bennet suspirava alto, sem conseguir conter-se por mais que o marido lhe chamasse a atenção. Apesar da escuridão da noite ocultar boa parte dos detalhes e da imensidão da fachada da mansão, as luzes do jardim e algumas pequeninas lâmpadas que enfeitavam as árvores triangulares próximas da onde os carros foram estacionados, davam um toque de charme e sofisticação ao lugar, tornando-o mágico aos olhos da família Bennet.

O mordomo se apresentou na porta de entrada, dizendo que conduziria todos a sala principal da casa, onde a família Darcy os aguardavam. Muito impressionado com as obras de arte e o luxo dos ambientes por onde passava, Sr. Bennet seguia sua filha acompanhada por Charles, esforçando-se para manter a discrição, enquanto sua esposa, de braços dados com sua filha Kitty, trocavam risadinhas a cada passo que davam, tamanha era a excitação por estarem num ambiente tão requintado como aquele.

- Acho que seria melhor colocar uma mordaça em minha mãe. – brincou Jane, dirigindo o comentário a Charles.

- Relaxa! A casa do Darcy sempre causou certo furor. Sabia que alguns visitantes faziam tour pela casa para poderem apreciar as obras de arte? – contou ele. – Como se fosse um museu.

Quando finalmente o mordomo abriu a imensa porta, que dava acesso a sala de estar, foi quase impossível ver alguém com a boca fechada, maravilhados com o cenário esplendoroso do ambiente. Mais do que depressa, Sr. Darcy deixou a poltrona onde estava sentado para recebe-los. Extasiados por admirar cada detalhe que havia dentro da sala, ninguém foi capaz de perceber o quanto Sr. Darcy estava preocupado em agradá-los. Sua mãe e sua irmã Georgiana permaneceram ao seu lado, dando as boas-vindas aos convidados, porém não tardou para que a Sra. Bennet iniciasse seus comentários desmedidos, para desespero de seu marido.

Enquanto Kitty e sua mãe, juntas, cochichavam e davam risadinhas nada discretas, Jane e Charles faziam companhia ao Sr. Darcy, onde o assunto não poderia ser outro, a não ser sobre Lizzy. Muito entusiasmada com as histórias e o jeito humilde, porém excessivamente inteligente do Sr. Bennet, Sra. Darcy que, assim como o filho, era reservada e preferia manter sua vida familiar longe do alcance dos outros, parecia decidida a ceder-lhe a honra de conhecer algumas histórias de sua vida particular, onde incluía a convivência com seu falecido e admirável marido. Mary e Kitty, ainda muito intimidadas com o cenário suntuoso, foram convidadas por Georgiana a conhecerem o jardim. Ao avistarem ele todo iluminado, tendo ao fundo, a iluminação turquesa da piscina, ficaram fascinadas, não conseguindo sequer tecer um comentário.

Quando, finalmente, o mordomo anunciou que o jantar estava à mesa, Sr. Darcy conduziu todos à sala de jantar, que apesar da ceia simples, que incluía aves recheadas e um enorme pedaço de pernil assado, a extensa mesa estava posta divinamente perfeita, como se estivessem vivenciando aqueles filmes de época. Percebendo que a quantidade de talheres e taças intimidaram a Sra. Bennet e suas filhas, Sr. Darcy preferiu dar-lhes uma dica, a qual usava quando criança, usando o humor para evitar qualquer mal-estar entre os convidados. Charles, percebendo a aflição do amigo, comentou algo bastante engraçado, fazendo com que todos ficassem ainda mais relaxados. Sr. Bennet, logo, notou que os pratos a serem servidos lembravam a ceia de seus natais em família, ficando muito emocionado com a consideração do Sr. Darcy.

- Ainda que todo este cenário faça com que me sinta distante de minha realidade, posso dizer que estou em casa. Há muito não percebo tanta consideração, respeito e generosidade. Hoje é um dia muito especial para mim. Não pelo fato de ser natal, mas por estar ao lado de minha família e de pessoas tão especiais compartilhando esses pratos tão apreciados por mim. Também, não posso deixar de mencionar que Lizzy está bem, sem risco de vida, acomodada num quarto de hospital, o qual poderei passar o final desta noite ao seu lado. Obrigado, Sr. Darcy, por me proporcionar um momento como esse.

As palavras do Sr. Bennet tocou a todos, principalmente ao Sr. Darcy, que percebeu ali, que havia conseguido o que tanto queria, fazê-lo sentir-se bem, como em sua casa e, o mais importante, com a ajuda de sua mãe e sua irmã Georgiana.