O Presente de Natal
Já não era novidade para ninguém sobre o sentimento do Sr. Darcy em relação à Lizzy, embora todos preferissem não se manifestar. No entanto, naquela manhã ensolarada de natal, enquanto Lydia e Kitty arrancavam com as pontas dos dedos as uvas passas do panetone que estava ainda inteiro sobre a mesa, comentavam, aos risos, sobre a possibilidade do Sr. Darcy estar apaixonado pela irmã, fazendo com que a Sra. Bennet passasse a crer, de forma fervorosa, nessa hipótese.
- Vocês também acham isso? – perguntou ela. – Eu disse para o pai de vocês que havia alguma coisa. Não é normal, alguém como o Sr. Darcy, se interessar em passar noites no hospital e pagar todas as despesas e, ainda, nos convidar para jantar em sua casa, em plena noite de natal. – raciocinou ela. – Se, de fato, isso for verdade, ganhamos na loteria!
- Mamãe, isso não nos diz respeito. – advertiu Lydia.
- Ora, Lydia! Se Lizzy se casasse com ele, certamente não iria nos deixar morando neste apartamento tão apertado e desconfortável. Afinal, seria constrangedor ter a família passando necessidades, enquanto ela, naquela vida cheia de luxo e mordomias, morando numa mansão que mais parece um castelo.
- Que exagero, mamãe! – reprimiu Lydia.
- Quem diria, a Lizzy, fisgando o melhor partido que há! Imaginei que fosse ficar uma solteirona ou então se casar com um desses homens inteligentes porém sem um tostão no bolso. – disse ela, num tom de zombaria. - Jane, com toda a beleza que tem, já era de se esperar, casar-se com um tipo como Charles, afinal, caso contrário, seria um desperdício. Agora, a Lizzy! – continuou ela, admirada, em pensar em todas as vantagens que poderia ter.
- Mamãe, às vezes, você me decepciona com seus comentários. – disse Lydia, levantando-se da mesa.
- Deixe-a, Kitty! – ordenou Sra. Bennet. – A gravidez costuma deixar as mulheres bobas e sensíveis demais. Vamos nos imaginar, donas de uma mansão como aquela que fomos ontem. – disse ela, compartilhando com a filha seus mais esdrúxulos desvaneios.
O maior presente que Sr. Bennet havia ganhado era poder acordar, naquela manhã de natal, ao lado de sua filha Lizzy, ainda que a cama do acompanhante de quarto fosse extremamente desconfortável. Antes da hora do almoço, todos da família Bennet, incluindo os Gardiner puderam estar durante algumas horas com Lizzy, que se recuperava rapidamente. Mais falante e muito mais disposta, ainda tinha uma parte da cabeça coberta por gaze. De acordo com os exames realizados pelos médicos, até então, não apresentava nenhuma sequela de seu acidente, o que era, de certa forma, surpreendente, considerando a gravidade de sua lesão. Sem conseguir se controlar, Sra. Bennet passou o tempo todo fazendo insinuações a respeito do Sr. Darcy e aparentava estar excessivamente feliz, fazendo com que Lizzy pudesse imaginar coisas terríveis a respeito. Mais tarde, quando todos foram para casa, inclusive o Sr. Bennet, permaneceram no quarto, Jane e Charles fazendo companhia à ela, que em meio as histórias que contavam para distraí-la e animá-la, lhe incomodava o fato de não lembrar-se do que havia acontecido no dia de seu acidente, muito menos, como havia chegado até o hospital. Ansiava por respostas e explicações, porém não deixava de demonstrar entusiasmo pela companhia de sua irmã e de seu adorável noivo. Embora, desejasse ter um momento a sós com Jane, para falar-lhe sobre as atitudes estapafúrdias de sua mãe e, tomar ciência do que, de fato, ela poderia saber sobre seu sentimento para com o Sr. Darcy, a enfermeira abriu a porta do quarto, anunciando a chegada dele, causando-lhe um repentino susto e uma agradável surpresa, ao mesmo tempo. Ainda que lhe agradasse a vinda dele num dia tão especial como o natal, sabia que sua aparência não devia estar das melhores e, o fato de sua mãe comentar coisas a respeito dele, um pouco mais cedo, levava-lhe a temer o que poderia ter sido dito, considerando a língua solta da Sra. Bennet. Acompanhado pela irmã Georgiana, Sr. Darcy entrou, após poucos segundos, se deparando com Lizzy sentada na cama.
- É bom ver que está se recuperando. – disse ele, feliz em constatar que ela estava muito mais animada do que a última vez em que a viu.
- Sim, aos pouquinhos ela estará bem e linda como sempre foi. – respondeu Jane.
- Olá, sou a irmã de Darcy e insisti muito para que ele me deixasse vir. – contou ela, espontaneamente.
Antes que Lizzy pudesse cumprimenta-la, Sr. Darcy tratou de se explicar:
- Bem, eu só não queria, de forma alguma, incomodar ou causar qualquer problema na recuperação de Lizzy.
- Você nunca atrapalha ou incomoda, Sr. Darcy. Nem você e nem sua querida irmã. – disse Jane, pegando na mão de Georgiana.
- Obrigada pela visita. É bom receber amigos no dia de natal. – disse Lizzy, num tom de voz delicado e calmo.
Georgiana ocupou um pequeno espaço em sua cama, sentando-se sem cerimônias, tirando rapidamente, de dentro da bolsa, um porta joia, o qual colocou nas mãos de Lizzy:
- É meu presente para você! Espero que goste.
Ao abrir a pequena caixinha, Lizzy se encantou com a corrente fina e brilhante que carregava um pequeno e delicado pingente de Santa Rita de Cassia. Sem esconder o entusiasmo em seus olhos, logo agradeceu à Georgiana, emocionando o Sr. Darcy, que acompanhava a cena de perto, causando-lhe a impressão de que poderiam ser boas amigas.
- Darcy disse que seu acidente foi muito grave e que se recuperou muito bem, por isso achei que Santa Rita, a padroeira das causas impossíveis e dos doentes, seria perfeito para presenteá-la. – contou ela. – A ideia foi apenas minha, Darcy não teve participação alguma. – revelou, com a intensão de ter para si, o mérito do presente.
- Muito obrigada! – respondeu Lizzy, emocionada com as palavras de Georgiana.
Logo, Sr. Darcy se aproximou da cama de Lizzy e, discretamente, Jane chamou a atenção de Georgiana, fazendo com que os dois pudessem conversar tranquilamente.
- Me desculpe, não providenciei nenhum presente para você. – disse ele. – Embora eu quisesse e, muito, presenteá-la.
- Obrigada por tudo que tem feito por mim, isso pode ser considerado um belo presente. – disse Lizzy. – Desde que acordei, meu pai tem me atualizado sobre algumas coisas.
- O importante é que fique bem. – disse ele, olhando profundamente para ela. – Acredite, esse gesto não deve ser considerado como um presente de natal. Vou tentar superar a minha irmã, prometo. – brincou ele.
- Soube que minha família passou a noite de natal em sua casa. – comentou ela. – Espero que tenha ocorrido tudo bem e que minha mãe e minhas irmãs tenham se comportado de maneira adequada.
- Não se preocupe. Foi muito agradável, só não foi mais, porque você estava aqui.
Lizzy sorriu, enquanto seu rosto se corava, permanecendo com os olhos abaixados.
Assim que Jane contou a Georgiana que iria assistir ao filme de estreia no cinema, Superman II, ela se virou, na mesma hora, pedindo ao irmão que permitisse acompanha-los na sessão da tarde do cine Bristol.
- Me desculpem! – disse Sr. Darcy, olhando para os dois.
- Imagine, vai ser ótimo irmos ao cinema juntas! – respondeu Jane, muito animada.
Georgiana sorria feliz em poder fazer o programa que tanto queria no dia de natal, já que o irmão tinha pressa em concluir alguns relatórios, ainda, naquela tarde.
- Bem, havíamos combinado em assistir ao filme, outro dia, mas estou vendo que será difícil convencê-la a esperar dois ou três dias. – contou Sr. Darcy à Lizzy. – Lamento que acabei de perder minha acompanhante de cinema preferida! – brincou ele.
- Se gostar do filme, posso assistir novamente com você. – disse Georgiana.
- Nem pensar! – exclamou ele. – Você ficaria narrando o filme todo no meu ouvido.
Todos riram, até que espontaneamente, Georgiana disse:
- Pois então, resta a você convidar Lizzy para acompanha-lo.
- Seria ótima ideia, não concorda, Lizzy? – questionou Jane. – Digo isso, porque havíamos combinado em assistir ao filme, na sua estreia, porém não será possível. – explicou.
Muito sem jeito com toda a situação, Lizzy encorajou-se para dar uma resposta ao Sr. Darcy, que ansiosamente aguardava.
- Se não for incomodo demais aguardar minha liberação do hospital, podemos assistir juntos. – sugeriu ela.
- Sim, claro. – respondeu ele, imediatamente. - Não há incomodo nenhum em espera-la. – disse ele, muito entusiasmado, enchendo seu coração, novamente, de esperança.
Assim que a enfermeira chegou ao quarto, trazendo a medicação de Lizzy, todos se propuseram a deixa-la sozinha, afinal, naquele dia, as visitas iniciaram-se logo pela manhã, impedindo-a de descansar. Ainda que o Sr. Darcy soubesse da importância do repouso para a recuperação de Lizzy, sua vontade maior era permanecer ali, fazendo-lhe companhia, mesmo que ela adormecesse, estaria ali, para contempla-la, como a um presente de natal.
