Um Ano Novo se Inicia para Todos

Não demorou muito até que Lizzy conseguisse receber alta do hospital, porém, Sr. Darcy não pode visita-la novamente, devido aos compromissos de negócios que lhe tomaram todo o tempo, antes do ano terminar. Já instalada em sua casa, ela contava com a presença constante das irmãs, que levavam-lhe comida e boa companhia. Bem recuperada, ainda seguia à risca as prescrições médicas, principalmente no que se referia a descanso, tendo o pai sempre ao lado para cuidá-la e entretê-la. Ainda que fosse difícil permanecer sozinha, Lizzy aproveitava os poucos momentos para observar sua aparência, ainda abatida e bastante mudada, por conta de parte de seus cabelos terem sido raspados. Não sabia como lhe dar com isso, principalmente porque teria que voltar a levar sua vida normalmente, fora de casa e regressando ao trabalho, assim que seu médico a liberasse. Apesar de não lembrar-se de nada do que havia acontecido naquela tarde fatídica, se esforçava ao máximo, com todas as suas forças, mas terminava por cansar-se, sem sucesso. Às vezes, sentia-se com vontade de encontrar alguém do grupo ou mesmo de ir até onde costumavam encontrar-se as escondidas, para saber notícias ou se alguém, além dela, também teria ficado gravemente ferido, mas sabia que isso magoaria por demais seu pai e, então, acabava desistindo, fazendo força para esquecer definitivamente em participar do movimento. Tentava se convencer, ao ler os jornais, todas as manhãs, de que não demoraria para que o país pudesse viver a tão sonhada democracia, apenas gostaria de ter feito algo de concreto, ao invés de ter dado entrada em um hospital. Estava preocupada demais consigo mesma, não tendo tempo para dar atenção aos elogios incansáveis de seu pai em relação ao bom homem que demonstrou ser o Sr. Darcy. Não que ela não pensasse nele e até gostava de ouvir todos da família o elogiando, porém não se sentia preparada para encará-lo ou a qualquer outro, sentia-se feia e um tanto fraca, após tantos dias internada. Além disso, qualquer barulho a assustava, como se a qualquer momento pudessem atingir sua cabeça novamente. De qualquer modo, ele não voltara a vê-la, após sua alta no hospital, sem saber dos motivos, para Lizzy isso soava como um desinteresse da parte dele, lembrando da bela mulher que o acompanhara naquele evento no kartódromo.

Na véspera do ano novo, seu primo William aparecera para visita-la, acompanhado por Charlotte. Pareciam felizes e um segurava a mão do outro o tempo todo, como se estivessem muito apaixonados. Diferente das outras vezes, William estava hospedado na casa dela, afim de conhecer toda a sua família. Tinham planos e contaram, em primeira mão, para Lizzy, naquela manhã. Enquanto ela ouvia, bastante emocionada, o que os dois tinham a dizer, sentia-se orgulhosa por ter participado, de certa forma, da união do casal. Instantaneamente, passou-lhe pela cabeça se algum dia, isso também aconteceria com ela. Mais tarde, suas irmãs se juntaram a eles e permaneceram até a metade da tarde, em tamanho alvoroço, contando histórias e se divertindo com elas.

Lizzy havia se preparado para passar a noite de ano novo na casa de seus pais, assim como era tradição, vestiu uma roupa branca, bastante confortável, percebendo o quanto havia emagrecido. Enquanto aguardava seu pai, permaneceu em silêncio, na sala, com a TV desligada. Tentava lembrar-se do ano que havia tido. Tantas coisas aconteceram de uma só vez. Recordou-se de como havia ficado feliz em ter conquistado um lugar como estagiária no escritório de advocacia. Pensou nas pessoas que havia convivido, principalmente em Charlotte, que havia se revelado uma ótima amiga e em George Wickham, que preferia nunca tê-lo conhecido, não da maneira que fora. Lembrou-se de tudo que aprendera, das audiências, das conciliações e da aplicação das leis, que aprendera na faculdade. Emocionada, trouxe a memória, o primeiro dia em que viu o Sr. Darcy. Tamanha era a sua raiva por seu jeito estúpido, que mal percebera o quanto era bonito ou talvez tivesse reparado, mas preferiu referir-se a ele como a pessoa mais insuportável que já conhecera. Naquele momento, sabia, com toda a certeza de como estava enganada a seu respeito, muito pelo contrário, ele era adorável. Por trás daquele silêncio e daquele ar de timidez e resguardo, que para muitos, inclusive para ela, soava arrogante e esnobe, havia uma pessoa com o coração generoso e sensível. Lamentava tê-lo dispensado no momento em que havia revelado todo o seu amor por ela. Fechou os olhos, como se sentisse dor, ao lembrar-se desse momento. Não era algo que lhe fizesse bem, mas, em seguida, foi inevitável pensar em como seria sua vida, se não tivesse rejeitado seu amor. Instantes depois, continuou sua trajetória, como uma retrospectiva, até chegar ali, onde estava sentada, sozinha, à espera de seu pai.

Já na casa de seus pais, assim que entrou, Sra. Bennet saiu em sua direção, entusiasmada, para mostrar-lhe o que havia chegado pelo correio, logo no início daquela tarde. Era um telegrama do Sr. Darcy. Assim que possível, após sua mãe fazer todo o discurso de sempre, cheio de elogios e orgulhosa por ser lembrada por um homem tão rico e poderoso, finalmente, Lizzy pegou o envelope para ler o que estava escrito.

"Apesar de estar na Alemanha, resolvendo assuntos inadiáveis de negócios, desejo a toda a família Bennet um feliz ano novo e espero vê-los em breve, com boas notícias. Darcy."

Ainda que não dissesse nada de mais, afinal tratava-se de um telegrama, Lizzy pode perceber algo feliz em suas palavras, como se a fizesse ter esperança, mesmo que fosse por alguns segundos, até levar as mãos em sua cabeça, onde os cabelos haviam sido raspados. Em seguida, ficou a imaginar o que o Sr. Darcy estaria fazendo na Alemanha, sem chegar a nenhuma conclusão.

Aos poucos, foi sentindo-se confortável na companhia de suas irmãs e de seus padrinhos, os Gardiner. Charles também aparecera por lá e ainda, durante aquela noite, Lizzy pensou mais uma vez no Sr. Darcy, exatamente quando o relógio marcava meia-noite e todos levantavam para cima, uma taça de sidra. Mesmo sem poder beber álcool, Lizzy brindou com a família, pensando em silêncio, que o que mais desejava para o ano seguinte, era estar ao lado do Sr. Darcy.

A primeira semana de 1981, passou ligeira, com a cidade aparentando estar mais vazia por conta das férias, provavelmente, muitos deviam estar aproveitando as altas temperaturas do verão, nas praias do litoral. Lizzy continuava com sua rotina de remédios e descanso, enquanto Mary se preparava para a segunda fase do vestibular e Lydia, que avançava para o sétimo mês de gestação, sofria com o intenso calor. Kitty procurava se distrair com as amigas do colégio, perambulando pelas ruas do bairro, cada dia na casa de uma. Jane aproveitou as férias para ir até o Guarujá, acompanhada por Charles. Sua família era dona de uma confortável cobertura na Praia da Enseada e, aproveitando a ausência da mãe e de sua irmã Caroline, puderam desfrutar uma semana por lá, com o consentimento do Sr. Bennet.

Lizzy aproveitava os dias para tentar atualizar-se, além de colocar em dia, algumas informações que achava importantes. Sentia-se ansiosa em retornar ao trabalho, o qual deveria acontecer nos próximos dias, assim que passasse numa nova consulta médica. Estava esperançosa de que o doutor pudesse liberá-la para levar uma vida normal novamente, pondo fim a sua rotina de repouso e remédios.

Antes do fim de semana chegar, quando Jane ainda estava no Guarujá, Georgiana sem querer espera-la, decidiu entrar em contato com Charlotte, no escritório, pedindo-lhe o favor de informar o telefone da casa de Lizzy, para poder visita-la. Quando Lizzy atendeu a ligação, ficou felicíssima com a iniciativa e a gentileza da pequena. Animou-se o suficiente com a visita de Georgiana, o que a motivou a arrumar a casa e até fazer um bolo de chocolate. Quando o sábado chegou, lá estava ela, pontualmente, acompanhada de seu motorista, sorridente e animada em poder visita-la. Ao entrar no apartamento, observou todos os detalhes, parecia estar maravilhada, enquanto ouvia Lizzy dar-lhe as boas-vindas. Ainda que a casa fosse bastante modesta em relação à mansão em que morava, fascinava-lhe a independência e maturidade de Lizzy em ter sua própria casa, com o dinheiro de seu trabalho.

- Não deve ser nenhum segredo para você, pois já lhe disse isso uma vez, que a admiro muito por ter se formado em algo que gosta e, também, por morar aqui, sozinha. – disse ela, espontaneamente. – Eu adorei este lugar, é aconchegante e iluminado, como deve ser a moradia de uma mulher solteira.

Lizzy sorriu com o comentário de Georgiana.

- Bem, essas flores são suas, eu mesma colhi no jardim de casa, hoje, pela manhã. – contou ela, entregando a Lizzy um ramalhete de flores coloridas de diversos tipos.

- Muito obrigada. – agradeceu ela. – Creio que o jardim de sua casa deva ser maravilhoso.

- Sim, é sim. Temos todos os tipos de flores bem organizadas pelo jardim. – contou ela. – Vez ou outra, ajudo o jardineiro a cuidá-las.

- Isso deve ser bom, nunca levei muito jeito para cuidar de plantas, apesar de adora-las. – revelou Lizzy. – Aqui em casa, prefiro não tê-las, pois não tenho tempo nem mesmo de colocar água nelas. O trabalho começa cedo e, por conta da faculdade, chegava muito tarde em casa.

- Mas agora você já está formada, certo?

- Sim, estou. Mas pretendo continuar meus estudos. Quero me especializar e também pretendo seguir a carreira de magistrado e, para isso, preciso continuar estudando.

- Darcy já sabe disso? – perguntou Georgiana, muito curiosa.

- Oh! Não. Ainda não tivemos oportunidade de falarmos. Sr. Darcy esteve entretido com a mineradora durante o resto do ano, então não pudemos conversar nada a respeito.

- Sim, mas sei que voltará a trabalhar no escritório, este ano. – contou ela, deixando Lizzy bastante surpresa com a notícia. – Assim, poderão falar com mais frequência, creio que meu irmão possa orientá-la no que for preciso.

Após uma pausa, Georgiana voltou a falar:

- Darcy sempre admirou pessoas como você, acho que aprendi a ser assim com ele, pois me fascina ver o quanto é batalhadora e esforçada. Muitas vezes, nos deparamos com tipos que apenas querem usufruir, sem o mínimo esforço. – desabafou ela, sem citar nomes, porém fazendo com que Lizzy a compreendesse. Ainda que as primeiras palavras tivessem fixadas em sua cabeça, por um breve momento Lizzy imaginou que Georgiana pudesse estar se referindo a George e, certamente, a outras pessoas que não conhecia.

Depois, como se fizesse uma conclusão clara e objetiva do que falavam, Georgiana comentou:

- Gostaria que quando Darcy decidisse se casar, fosse com alguém, como você.

Suas palavras deixaram Lizzy perplexa, de modo que se esforçou ao máximo para manter a calma. Após uma inspiração longa e devagar, conseguiu reagir ao comentário de maneira simpática, como se estivesse lisonjeada com suas palavras, porém preferiu permanecer em silêncio.

Apesar de querer saber coisas a respeito do Sr. Darcy, Lizzy não achava justo e, nem mesmo, sentia-se à vontade em fazer-lhe perguntas. Além do mais, apesar da pouca idade, Georgiana era bastante esperta, e preferiu deixar sua convidada relaxada, mostrando-lhe o resto do apartamento e convidando-a a comer um pedaço de bolo. Sentadas à mesa, conversaram por horas. Georgiana contou-lhe sobre seus planos, o que pretendia estudar e a sua paixão pela música. No meio de suas histórias, sempre mencionava o apoio e o amor que existia entre ela e o irmão, fazendo com que Lizzy pudesse enxerga-lo de uma maneira mais profunda, muito diferente de como o conhecia, no escritório. A amizade entre as duas parecia desabrochar naturalmente, de modo que sequer perceberam a tarde passar. Quando Georgiana decidiu que era hora de ir, deu um forte abraço em Lizzy, despedindo-se e pedindo que a fosse visitar.

- Se você preferir, podemos aguardar o retorno de Darcy, ele chega a semana que vem. O que acha de ir nos visitar no próximo sábado? – sugeriu ela.

- Acho ótimo!

- Que bom! Ficarei feliz em recebe-la em casa e sei que Darcy, ainda mais.

Enquanto o motorista conduzia o carro para longe de seu prédio, Lizzy memorizava as últimas palavras de Georgiana, tornando ainda maior a esperança de ter o amor do Sr. Darcy. Isso motivou-a ainda mais. Tudo que havia escutado, naquela tarde, parecia animá-la, como há muito não sentia.

A consulta médica de Lizzy aconteceu logo após o fim de semana. Assim que o médico comunicou que toda a medicação estava suspensa e que estava pronta para seguir em frente, Sr. Bennet suspirou aliviado, abraçando a filha, imediatamente. Sabia o quanto milagroso havia sido tudo que acontecera, desde a interferência do Sr. Darcy, que mais parecia um anjo, pela sua companhia e generosidade, como pela própria recuperação de Lizzy, que apesar da gravidade de sua lesão, estava sã e salva, sem nenhuma sequela. Na volta para casa, Sr. Bennet parou numa sorveteria do bairro, era um jeito de comemorar a vitória de sua filha. Sentados à mesa, naquela tarde quente de verão, saboreavam um sorvete de duas bolas, cada um, como se fossem crianças. Quando Lizzy avistou um orelhão, procurou em sua bolsa, algumas fichas para que pudesse telefonar para Charlotte. Estava bastante ansiosa para contar-lhe sobre seu retorno ao trabalho.

No dia seguinte, ao chegar no escritório, todos vieram cumprimenta-la, interessados em saber detalhes sobre o ocorrido. Sem chatear-se, Lizzy passou o dia contando para um e para outro, repetidas vezes a mesma história. Sobre o trabalho, atualizou-se pouco, parecendo que todos preferiam deixa-la mais relaxada. Na verdade, sem que soubesse, Sr. Darcy havia deixado recomendações ao chefe de Lizzy e, ainda que não tivesse nada definido, ela não seria mais a estagiária do escritório, assumindo uma posição de maior responsabilidade. Antes de deixar o local, já no final da tarde, sem conseguir controlar sua curiosidade, Lizzy perguntou à Charlotte sobre o Sr. Darcy:

- Gostaria de ter visto o Sr. Darcy por aqui hoje.

- Bem, eu também esperava vê-lo aqui, porém não apareceu até o momento. – disse ela, olhando para o relógio em seu pulso. – Como já passa das cinco, acredito que não virá. – deduziu ela. – Sabe, muita gente esteve procurando por ele hoje. Uma mulher, disse ser uma psiquiatra, esteve ligando o dia todo atrás dele. Achei muito estranho sua insistência em falar com o Sr. Darcy, sua voz parecia bastante nervosa. – comentou ela, num tom de voz baixo, como se temesse que alguém a escutasse.

Lizzy despediu-se de Charlotte, tentando disfarçar o quanto aquela informação lhe deixara triste. Sabia quem era a tal mulher e, por um momento, imaginou que, de fato, pudesse haver uma forte ligação entre os dois. Assim que adentrou no carro de seu pai, que lhe esperava na porta, o luxuoso Landau apontou apressadamente na entrada do escritório.