Fatalidade
Os primeiros raios da luz do sol adentravam pelas frestas da janela do quarto de Lizzy, chamando a sua atenção de que já havia amanhecido. Na tentativa de fugir da claridade, deitou de bruços, virando sua cabeça em direção a parede. Com os olhos fechados, continuava a relembrar o que havia acontecido nas últimas horas. Para ela, tudo parecia inacreditável, como um sonho. Sr. Darcy era, de fato, a pessoa a qual esteve procurando por muito tempo. Não tão longe dali, compartilhando a mesma sensação que Lizzy, Sr. Darcy havia despertado. Levantou-se de sua cama e abriu a janela da varanda, permitindo que a luz do sol invadisse todo o quarto. Estava empolgado e não conseguia conter a imensa vontade de vê-la novamente. Havia combinado em busca-la na sua casa, para o almoço com Georgiana. Mesmo sabendo o quão cedo era, já planejava contar a sua mãe e irmã sobre seu compromisso com Lizzy, também imaginava como seria a repercussão da notícia no escritório. Porém, antes de mais nada, sabia que deveria envolver o Sr. Bennet o quanto antes nessa história. Ainda que tudo fosse prematuro demais, a certeza sobre seu amor por Lizzy, impulsionava-o a fazer planos e assumir compromissos.
Após um apressado café da manhã, Lizzy aguardava atenta o Sr. Darcy chegar para apanhá-la. Sentada no sofá, conseguia perceber qualquer movimentação em frente ao prédio. Questionava a si mesma, se a roupa que decidira usar estava adequada para ir ao almoço. Havia optado em usar uma calça jeans da marca USTOP e uma camisa clara com ombreiras e mangas bufantes, sem nenhum acessório extravagante, exceto um fino e colorido cinto trançado. Todos de sua família haviam comentado muito a respeito da mansão, o que lhe causava certa insegurança, ainda que conhecesse profundamente Georgiana e ouvira muito a respeito da simplicidade da Sra. Darcy. Era uma pena que Jane não pudesse estar ao seu lado, naquele momento, certamente saberia lhe dizer o que usar; "talvez um vestido fosse a peça mais apropriada", diria a irmã. Mas, conforme os minutos se passavam, a lembrança do rosto amável do Sr. Darcy lhe vinha a cabeça, fazendo sentir-se mais confiante, como sempre fora. Antes de voltar a observar a rua, Lizzy perdeu alguns minutos à frente do espelho, passando as mãos pelos cabelos, tentando ajeitá-los. Em seguida, passou mais uma camada de brilho nos lábios, achando, de fato, que estava com uma boa aparência.
Bastante pontual, lá estava o Sr. Darcy estacionando seu Landau. Assim que Lizzy o avistou, levantou-se do sofá, indo em direção a porta. Em poucos segundos, estava frente a frente com ele, ainda tentando dominar seus sentimentos e desvendar através de seu sorriso e olhar se o sonho que havia vivido na noite passada era de fato real. Logo, Sr. Darcy lhe estendeu a mão e, ao se aproximar dele, percebeu que nada havia sido em vão. As carícias e os beijos, ainda os sentia. As palavras doces e as confissões de amor ainda sussurravam em seus ouvidos. Todo o encantamento que envolvia o amor, de fato, existia e, agora, fazia parte da sua realidade.
- Não via a hora de vê-la novamente. – disse ele, espontaneamente, desabrochando no rosto de Lizzy, um sorriso tímido e instantâneo.
Ao levantar o rosto, parecia ter perdido a timidez, fitando-o com vigor:
- É bom estar aqui, para fazer-me acreditar que tudo aconteceu de fato.
Os dois se abraçaram demoradamente em frente ao prédio, sussurravam juras de amor, sem se importarem com os vizinhos que transitavam os degraus, rumo a rua. Alguns longos segundos se passaram até o Sr. Darcy se manifestar:
- Acho melhor irmos, estou ansioso para que conheça minha mãe e, claro, Georgiana deve estar contando os minutos para recebe-la em nossa casa.
Lizzy sorriu novamente, satisfeita ao imaginar o que dissera. Entrou rapidamente em sua casa para apanhar sua bolsa, fazendo-o esperar por alguns segundos na portaria do prédio.
Enquanto seguiam para a mansão, Lizzy observava, com certa discrição, o quanto Sr. Darcy estava diferente. Na verdade, sentia-o irradiante e feliz, falando mais do que o normal. Não parecia a mesma pessoa que conhecera há um ano atrás. Perguntava-se se o mesmo acontecia com ela e acreditava que sim. Ambos estavam encharcados pela felicidade e pelo amor. Uma sensação inédita, prazerosa, a qual jamais gostariam de abandonar. Quando o carro avançou vagarosamente pelo imenso jardim, Lizzy emocionou-se com sua beleza, a intensa luz do sol refletia um verde vivo nunca visto antes e o colorido das flores compunha uma harmoniosa paisagem. Logo, avistaram Georgiana, próxima a porta de entrada. Havia um sorriso estampado em seu rosto, algo malicioso e, ao mesmo tempo, exaltante. Cumprimentou-a esbanjando intimidade e certo ar de aprovação por vê-la acompanhada pelo irmão. De fato a beleza da casa era algo impactante, fazendo com que Lizzy perdesse a fala ao contemplar a extensa fachada, ornamentada por dúzias de janelas, incluindo uma parte arredondada, a qual assemelhava-se a torre de um castelo, o que tornava o cenário algo nunca visto antes por ela.
- É uma bela casa. – comentou ela.
- Sim, gostamos muito daqui, é o lugar onde crescemos. – explicou Sr. Darcy. – Venha, quero que conheça minha mãe. – disse ele, apressando os passos de Lizzy.
Sra. Darcy descansava numa espreguiçadeira, no jardim dos fundos, quando Lizzy surgiu. Sem querer incomodá-la, seguiu para perto, para cumprimenta-la. No entanto, sua atitude fora em vão, ela se levantou para poder fita-la com atenção, afinal, com toda sua experiência de vida, sabia o quanto seu filho estava apaixonado. Após um momento de silêncio e de muita tensão, principalmente para Lizzy, a Sra. Darcy, carinhosamente, abraçou-a, parecia ter simpatizado com o tipo dela.
- Ouvi falar muito a seu respeito, minha querida. – contou ela.
- Espero que os comentários me favoreçam, de alguma forma. – disse Lizzy, olhando para Georgiana e Sr. Darcy, que estavam abraçados.
- Uma moça jovem e bonita, advogada e recrutada para trabalhar no escritório de meu filho é de causar boa impressão a qualquer pessoa.
Lizzy agradeceu, considerando sua análise um elogio, ainda que estivesse bastante tensa com a situação. Logo, Georgiana pegou o braço de Lizzy, confortando-a.
- Acho que mamãe gostou de você! – sussurrou ela, arrastando Lizzy pelo jardim.
A vista que se tinha dali, do outro lado da cidade era fantástica e fascinava Lizzy que não se cansava em apreciá-la, ainda que existissem as flores no jardim e toda a construção para admirar.
- Está vendo aquela varanda? – perguntou Georgiana, apontando o dedo em direção ao primeiro terraço acima do andar térreo da casa.
- Sim. – respondeu Lizzy.
- É o quarto de Darcy. E logo ao lado, fica o meu. O da minha mãe fica em cima da área da piscina, é a última varanda. Daquele lado do jardim, há um salão de festas, mas faz tempo que não usamos.
Georgiana levou-a até o salão que acabara de mencionar, à beira da piscina, as orquídeas que sua mãe cultivava e toda a estrutura que havia ali, a qual mais parecia a um clube na opinião de Lizzy. Enquanto isso, Sr. Darcy se juntara a mãe, aproveitando para tomar um pouco de sol na face.
- Acho que a senhora deixou-a um tanto preocupada e, saiba, que isso é difícil acontecer.
- Deu para perceber, é uma moça bastante segura, você soube fazer a escolha certa. – disse ela, parabenizando o filho.
- Obrigado, mamãe. É muito importante pra mim. De fato, estou muito apaixonado por ela. É a primeira pessoa que conheço, a qual consigo admirar. Sei o que pode pensar e, também sei o que todos irão pensar a respeito, afinal Lizzy e sua família são pessoas simples e que não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive, mas sinto que ela me ama verdadeiramente e sei também o quanto ela me faz bem.
- Bem, isso tudo que disse é verdade, mas sei o quanto é forte suficiente para viver a vida que escolher. Os tempos são outros, veja, até mesmo o príncipe Charles está noivo de uma moça comum, que trabalha como professora numa escola infantil.
- Descobri a tempo, que o preconceito existia dentro de mim, mas o amor que sinto por ela é muito forte, fez apagar qualquer vestígio disso. Também, pensei muito a respeito, não preciso da aprovação de ninguém, apenas a sua e de Georgiana.
- Então, não se preocupe quanto a isso. – disse ela, olhando em direção ao jardim, onde Georgiana colocava uma linda flor amarela no cabelo de Lizzy.
Sr. Darcy sorriu enquanto observava a amizade entre as duas aflorar. Tudo parecia ter uma perspectiva boa, muito diferente do que havia julgado há meses atrás, quando ainda relutava sobre o amor que sentia por Lizzy.
Logo, juntaram-se todos para o almoço, que fora servido na sala menor, a qual era mais aconchegante e naturalmente iluminada, por estar próxima ao jardim de inverno, onde todo o seu teto era coberto por vidro. Por lá, o brilho do sol penetrava entre as plantas e flores, tornando o ambiente reluzente, quase celestial. A refeição seguiu de forma prazerosa, em meio a conversas e brincadeiras que os tornavam ainda mais próximos, onde era possível, até mesmo, encontrar afinidades entre si, embora a realidade de Lizzy estivesse tão distante daquele mundo.
Após o almoço, Sra. Darcy se recolheu para um cochilo, como era de costume. Georgiana, por algum tempo, fez companhia ao casal, para depois se retirar, de maneira bastante sutil, deixando-os a sós para curtirem a eternidade de uma tarde ensolarada juntos.
Sentados no confortável sofá da sala de televisão, Sr. Darcy acariciava delicadamente os cabelos de Lizzy, enquanto assistiam ao Clube do Bolinha, programa de auditório que além dos anônimos que se apresentavam em busca de oportunidades, trazia os principais sucessos da música brasileira. Lizzy se divertia assistindo a performance dos calouros, até ser interrompida pelo Sr. Darcy:
- Sempre imaginei você aqui do meu lado, sabia?
Lizzy sorriu.
- Parece um sonho! – exclamou ela.
- Compartilho deste sonho. – respondeu ele. – Para ser sincero, acho que nunca me senti tão completo, tão cheio de vida. – confessou.
Lizzy encostou a cabeça em seu ombro, carinhosamente, quando foram surpreendidos por uma notícia estrondosa. A Sra. Wickham invadira a sala gritando de maneira histérica algo que não conseguiam sequer entender. Sr. Darcy levantou-se imediatamente do sofá, dominando-a pelos braços tentando compreender o que dizia, entre choros e gritos de dor. Foi quando puderam ouvir sua voz gritar claramente: - Eles ligaram e disseram que o meu filho está morto!
Rapidamente, Sr. Darcy encaminhou a Sra. Wickham, com a ajuda dos outros empregados, em direção a cozinha. Pediu que preparassem um copo de água com açúcar para tentar acalmá-la. Lizzy permaneceu sozinha na sala e demorou certo tempo até imaginar que poderia se tratar de George. Essa hipótese lhe causou um ligeiro mal estar, até ser abordada por Georgiana.
Sr. Darcy passou um tempo considerável entretido em telefonemas, enquanto Lizzy e Georgiana o aguardavam apreensivas. A essa altura, o que era desconfiança havia se tornado certeza para Lizzy. De fato, se tratava de George, seu ex-colega de escritório e pai do bebê de Lydia. Tentava ser forte, ao conter sua tristeza e consolar Georgiana, ao mesmo tempo que imaginava o quanto seria doloroso para a irmã receber tal notícia. Uma ambulância havia sido chamada para acudir a Sra. Wickham, muito provavelmente seria sedada. Todo o alvoroço, fez com que Sra. Darcy despertasse repentinamente de seu descanso. Ao saber da notícia, pelo próprio filho, sentou-se imediatamente, exibindo em sua face uma expressão pálida e infeliz.
Na companhia de um delegado, amigo da família, Sr. Darcy precisou se ausentar da casa, despedindo-se de Lizzy e pedindo que esperasse até o seu retorno. Juntas, Sra. Darcy, Georgiana e Lizzy sentaram-se para tomar um chá.
- Pobre Darcy, deve estar arrasado. – lamentou Sra. Darcy. - Só Deus sabe o quanto fez por George.
Lizzy prestava atenção em suas palavras sem manifestar-se.
- Até pouco tempo, esteve na delegacia para libertá-lo, depois, fez de tudo para que ele fosse internado para tratar de seu vício pelo álcool. – continuou ela. – E, vejam só, de nada adiantou. – concluiu.
Diferente do que a Sra. Darcy pensava, Lizzy não sabia absolutamente de nada sobre tais atitudes do Sr. Darcy. Tentando manter a discrição, procurou vasculhar mais detalhes a respeito, ficando bastante surpresa com a generosidade e, principalmente, como Sr. Darcy havia perdoado, mais uma vez, George, que até mesmo, lhe roubara dinheiro, quando ainda era seu funcionário. Enquanto conversavam, Lizzy se aprofundava na verdadeira história da família, tudo muito diferente da versão que George lhe contara, quando se conheceram. De fato, Sr. Darcy sempre tivera que conviver com o tipo malandro, ganancioso e mau caráter de George e o fez, da melhor maneira possível, desde muito cedo até, então, no dia de sua morte.
Ainda, enquanto estavam a conversar, receberam a visita da amiga do Sr. Darcy, a psiquiatra que estava tratando de George. A primeira vista, Lizzy lembrou-se dela, era a acompanhante bonita e charmosa que aparecera no kartódromo, a qual a fez perder toda e qualquer esperança com o Sr. Darcy, na ocasião. No entanto, foi naquele momento que soube que tratava-se de uma profissional bastante competente, conhecida da família e que vinha tratando de George desde que fora internado numa clínica de reabilitação. Ainda que reconhecesse Lizzy, preferiu tratar apenas do assunto de George. Contou-lhes, detalhadamente, o que havia ocorrido naquele início de tarde.
- Estávamos progredindo com sua recuperação. Ele apresentava entusiasmo pelo tratamento e por ter uma perspectiva de vida diferente, da qual estava vivendo. No entanto, ele fugiu de forma inesperada da clínica e acabou ocorrendo uma fatalidade. Alguns funcionários puderam presenciar o momento exato do acidente. O caminhão que vinha em alta velocidade não conseguiu parar, infelizmente. – contou ela, bastante abalada.
Com a Sra. Wickham medicada e ninguém mais necessitando de seus cuidados, não demorou para se retirar, já que o Sr. Darcy não estava em casa. Preferiu encontra-lo na delegacia mencionada por sua mãe. Finalmente, Lizzy entendera qual era sua relação com o Sr. Darcy, no entanto, podia perceber em seus olhos, a decepção em vê-la ao lado da família, sabia o que isso significava. Na certa, a psiquiatra ousou pensar que poderia se aproximar do Sr. Darcy, enquanto tratava de George, sem saber que seu coração já pertencia a Lizzy.
A noite surgira rapidamente sem nenhum sinal do Sr. Darcy. Mesmo que a mesa do jantar fora colocada, nenhuma das três sentia-se disposta ou com apetite para comer. Lizzy serviu-se de um pouco de sopa rala, enquanto Georgiana apenas beliscava um pedaço de pão francês. Quando Sr. Darcy, finalmente apareceu, ainda continuavam a mesa, surpreendendo-as.
- Meu filho, que bom que chegou! – disse Sra. Darcy.
Após cumprimenta-las, ele sentou-se à mesa, contando-lhes a mesma versão da história, a qual a psiquiatra já havia comentado, porém sem dar grandes detalhes. Aparentava estar muito cansado e parecia querer poupar as palavras. Assim que terminou decidiu ir até seu quarto, pedindo à Lizzy que o esperasse. Poucos minutos depois, ele surgiu na sala de televisão, onde Georgiana fazia companhia a Lizzy.
- Espero que tenha ficado bem com minha mãe e minha irmã. – disse ele aproximando-se de Lizzy.
- Sim, elas foram ótimas comigo.
- Me desculpe, era para ser um dia perfeito. – disse ele, pegando em sua mão.
Lizzy segurou com força a mão do Sr. Darcy e contou-lhe o que de fato a preocupava:
- Estive pensando, quase que o tempo todo, em como contar o que aconteceu a Lydia. Ela está para ter o bebê e receio que essa notícia não lhe faça bem.
Com o choque da notícia e tantas coisas a resolver, certamente Sr. Darcy não havia lembrado deste detalhe, que de fato era bastante preocupante.
Naquela noite, Sr. Darcy pediu ao motorista que o levassem até a casa de Lizzy. Não sentia-se disposto para dirigir, mas acompanhou-a no banco de trás do carro, ainda muito chocado com a notícia. Despediram-se carinhosamente, combinando de se verem no dia seguinte.
