As duas notícias
Logo pela manhã, Lizzy decidiu ir até a casa de seus pais. Não havia tempo a perder, pois o enterro de George seria pela manhã e, para ela, Lydia tinha o direito de poder despedir-se. O relógio ainda não marcava oito horas e o Sr. Bennet estava, como de costume, sentado em sua poltrona, lendo o jornal, quando Lizzy entrou, com uma expressão triste e preocupada. Interrompendo a leitura de seu pai, quis aproveitar que todo o resto da família ainda dormia, principalmente sua mãe, encorajando-se a falar, sem hesitar:
- A notícia que trago não é das melhores, mas preciso compartilhar com o senhor o mais rápido possível, pois apesar de saber o que devo fazer, não sei como fazer.
- Sim, claro. O que houve? – disse ele, tirando do colo as folhas de jornal que lia.
Lizzy respirou fundo e fechou os olhos ao dizer: - George faleceu num acidente. Foi atropelado.
Sr. Bennet levou as mãos até o rosto, chocado com a notícia e permaneceu assim por alguns longos segundos, enquanto Lizzy contava resumidamente o que acontecera.
- Precisamos encontrar um jeito de contar à Lydia.
Ele concordou, acenando com a cabeça.
- Ainda ontem, enquanto arrumava sua mala com as coisas que levará para a maternidade, ela comentou que, apesar de tudo, gostaria que ele estivesse ao seu lado, que conhecesse o bebê. – contou ele, deixando Lizzy muito emocionada. – Sabemos o quanto será difícil para ela aceitar essa fatalidade, afinal sua cabecinha de criança deve imaginar que terminariam juntos após o nascimento do bebê.
- Me preocupo muito como ela vai receber a notícia. – confessou ela.
- Talvez fosse melhor ter a presença de seu médico, caso não se sinta muito bem. – sugeriu Sr. Bennet, deixando Lizzy um tanto mais tranquila. - Vou ligar agora mesmo para ele, logo Lydia estará em pé, é importante que ela tome seu café da manhã normalmente, assim teremos tempo para contar-lhe, com o doutor ao seu lado. O que acha?
Lizzy consentiu, balançando a cabeça positivamente. Compartilhar a notícia com seu pai e encontrar uma maneira apropriada e segura para contar a Lydia, a fez sentir-se muito melhor, após uma noite toda de aflição e sofrimento. Seu pai pode perceber o quanto Lizzy parecia estar mais relaxada e, isso, lhe agradava demasiadamente.
- Onde você esteve ontem? Fui até a sua casa e te liguei algumas vezes.
Enquanto Lizzy tentava formular uma resposta para seu pai, perguntando-se se era a hora certa de contar-lhe sobre o Sr. Darcy, era bastante perceptível a emoção que seu rosto transmitia. Até mesmo o Sr. Bennet, que era um homem muito desligado, incapaz de perceber coisas do tipo, logo observou o brilho irradiante nos olhos da filha e o sorriso sapeca que lhe rasgava o rosto. No entanto, preferiu esperar até que ouvisse sua explicação.
- Bem, estive fora o dia todo. – explicou ela. – Na verdade, fui convidada para um almoço na casa dos Darcy. Georgiana, lembra-se dela, certamente. Ela havia me convidado, há mais de uma semana, quando visitou-me, então passei a tarde por lá.
Sr. Bennet sorriu vendo o quanto a filha havia se enrolado para explicar algo tão simples. Sua pele estava corada, parecendo arder, como se estivesse com uma febre alta, repentinamente. Fitou-a de maneira intimidadora, deixando-a encurralada.
- O que foi papai?
- O que?
- Por que está sorrindo desta maneira?
- Como assim? De que maneira estou sorrindo?
- Ora, papai! Não tente me enganar! Conheço muito bem essa expressão em seu rosto!
Sr. Bennet aumentou ainda mais o sorriso malicioso, provocando cada vez mais a filha.
- Quem estava nesse almoço?
- Apenas a família de Georgiana, sua mãe e o Sr. Darcy.
- E como foi sua conversa e seu jantar com o Sr. Darcy na sexta-feira?
- Sei o que está querendo insinuar, papai.
- Será que nessa história toda, há motivo para que eu possa continuar com esse sorriso? – perguntou Sr. Bennet, esbanjando uma expressão ainda mais provocativa. – Lizzy, minha querida, acredito que eu seja a pessoa que mais te conheço e que mais quer vê-la feliz. Desde a primeira vez em que estive em companhia do Sr. Darcy, no hospital, percebi o quanto ele a amava.
Lizzy arregalou os olhos ao ouvir o comentário tão direto de seu pai, porém preferiu permanecer em silencio.
- Ainda que houvesse todo o sofrimento em vê-la naquele estado, aquele tempo serviu para que eu o conhecesse suficientemente bem para saber o quanto é um homem bom. Do tipo merecedor de ter alguém, tão especial, como você. No entanto, lamentava em saber que, por conta de todos os seus comentários a respeito dele, desde o seu primeiro dia de trabalho no escritório, era impossível que você o amasse.
Muito emocionada, algumas lágrimas escorreram ligeiramente no rosto de Lizzy. Sr. Bennet fez uma pausa, aproximando-se e usando as pontas dos dedos para enxugar o rosto da filha, delicadamente. Antes que voltasse a falar, Lizzy o surpreendeu:
- Está enganado, papai, eu amo o Sr. Darcy. – contou ela, causando-lhe uma reação de espanto, ainda que fizesse muito gosto. - Acho que o amei desde o primeiro dia, mas era orgulhosa demais para aceitar. Sei que o acidente que ocorreu comigo foi bastante grave, mas precisou acontecer isso para nos aproximarmos novamente e para que eu tivesse uma segunda chance de ter o seu amor. – confessou ela, emocionada.
Alguns segundos depois, emendou: - Não era para ser assim, eu queria que ele estivesse junto comigo para contar-lhe a novidade, mas nós estamos juntos, estamos namorando!
Antes que o Sr. Bennet pudesse abraçar a filha e celebrar a boa notícia, parabenizando-a, Sra. Bennet, que escutara parte da conversa, escondida no corredor que dava acesso aos quartos, os surpreendeu de maneira aterrorizante.
- Minha filha! É isso mesmo que pude ouvir, assim sem querer, é claro. Você está noiva do Sr. Darcy? – questionou ela, sem dar chance a Lizzy de dizer algo. – Eu sempre soube o quanto você se daria bem na vida. Sua estrela é iluminada! Não vai demorar para que você esteja casada com este homem riquíssimo, morando naquele palacete no Morumbi! – delirava ela, num tom de voz histérico. – Meu Deus, precisamos nos posicionar, não podemos aceitar que ninguém nos veja como pobres ou miseráveis. Talvez arrumar essa casa e comprar roupas novas, muitas roupas novas e, quem sabe trocar de carro.
Ela continuou com seus comentários delirantes, deixando Lizzy desesperada, enquanto Sr. Bennet se retirava da sala, para algo mais importante a fazer. Em poucos minutos, tamanho era o escândalo, que todas acordaram e sentaram-se no sofá, ao lado de Lizzy, surpresas e entusiasmadas com o romance da irmã, exceto Jane, que já tinha conhecimento do sentimento de ambos.
Enquanto todas as irmãs estavam interessadas em ter conhecimento sobre o recém namoro de Lizzy, Sra. Bennet continuava descontrolada e esbanjando entusiasmo, repetindo inúmeras vezes que haviam ganho na sorte grande e que, finalmente, dariam fim a vida medíocre que levaram até então. Tão alto discursava, enquanto a mesa arrumava, que mal conseguiam ouvir Lizzy, que estava mais entretida em lamentar-se sobre o que sua mãe dizia do que empolgada com a história que tentava contar as irmãs. Assim que o Sr. Bennet retornou à sala, de maneira bastante ríspida, ordenou que sua mulher se aquietasse, no entanto, seu pedido mal fora notado por ela, tamanha era sua excitação.
Em pouco tempo, o café da manhã foi colocado na mesa, causando certo espanto a todos, por conta do capricho e, até mesmo, pela Sra. Bennet servir, generosamente, a lata dos biscoitos franceses que havia sido presenteada no natal. Enquanto Lydia e Kitty se deliciavam com os biscoitinhos, questionavam Lizzy sobre o seu namoro, bastante surpresas, sempre acreditaram que a irmã detestasse o Sr. Darcy. Tal comentário fez com que Sra. Bennet esbravejasse da cabeceira da mesa:
- Não sejam tolas, as duas! Jane e Lizzy aprenderam tudo que eu as ensinei. Conquistaram o coração de homens afortunados e de famílias com sobrenomes importantes, tratem de seguirem o exemplo!
- Não se trata de dinheiro, mamãe. – advertiu Lizzy.
- Ora, minha querida, qual mulher não se encantaria por tudo que o Sr. Darcy tem? Ah! Aquela casa maravilhosa! Os carros! E não é só isso, teremos todos uma vida de realeza. Aliás, vamos começar isso já! Precisamos renovar e melhorar o aspecto de tudo por aqui.
Lizzy preferiu, pela primeira vez, agir como seu pai, permanecendo em silêncio, como se ignorasse todo aquele discurso desvairado de sua mãe, aguardava ansiosa que Lydia terminasse o café da manhã e, ainda mais, a chegada de seu médico. Além disso, preocupava-se com a rapidez com que o tempo passava, restava pouco para contar a notícia a irmã.
Assim que Lydia deixou a mesa, Lizzy a acompanhou até o sofá, interessada em saber sobre os últimos acontecimentos, desde a arrumação da mala da maternidade até mesmo, suas expectativas. Não tardou para que a campainha tocasse. Assim que o ginecologista e obstetra adentrou pela sala, todos estranharam sua presença. Sra. Bennet foi logo questionando sobre sua visita, advertindo-o que estava tudo bem com sua filha. No entanto, Lizzy levantou-se rapidamente do sofá, tomando frente da situação.
- Bem, quero esclarecer a todos que o doutor está aqui a pedido de papai. Infelizmente, hoje, não trago somente boas notícias, como foi o caso de meu namoro com o Sr. Darcy, que vocês acabaram de tomar conhecimento. Lamento muito o que tenho a dizer. – completou ela, fazendo uma breve pausa. – Por conta do estado delicado de Lydia, achamos importante a presença do doutor. – explicou ela, mantendo-se séria, o que causava um clima tenso e ansioso na casa. – Sinto muito em lhe dar essa notícia, só lhe peço que seja forte para cuidar desse bebê que está por vir e de você, minha irmã querida. – disse Lizzy, ajoelhando-se diante de Lydia.
De mãos dadas, Lydia arriscou dizer algo, antes que a irmã continuasse:
- Foi algo com George, não foi?
Sem coragem de prosseguir, Lizzy apenas balançou a cabeça, fazendo com que a irmã começasse a chorar.
- Sinto muito. Sinto muito. Sinto muito. – disse Lizzy, inúmeras vezes, abraçando a irmã o mais forte possível.
Com o rosto molhado pelas lágrimas, bastante agitada, Lydia soluçava ao perguntar se George ficaria bem. Lizzy apenas acenou com a cabeça, respondendo à sua pergunta.
- Meu Deus, George morreu? – perguntou Sra. Bennet que acompanhava tudo de perto.
Ao ouvir isso, Lydia desabou, chorando e gritando histericamente, sendo consolada por Lizzy e acudida pelo médico. Todos na sala pareciam estar em estado de choque e, ainda que não tivessem convivido com George o suficiente para criar um vínculo, estavam inconformados com o ocorrido e aflitos com o estado de Lydia.
Quando tudo parecia estar mais calmo, Lydia, finalmente, decidira ir ao enterro de George. Lizzy, prontamente, ajudou-a a arrumar-se, enquanto Sr. Bennet aguardava na sala, esperando para leva-las. O enterro, programado para o meio dia, seria realizado no Cemitério do Morumbi. George seria enterrado no jazigo dos Darcy, ocupando o lugar que sempre fora seu, um membro da família.
O funeral fora assistido por poucas pessoas, além de sua mãe, os Darcy, a psiquiatra que o tratou na clínica e Lydia, acompanhada por Lizzy e pelo Sr. Bennet. Muito mais do que se despedir de George, Lydia aproximou-se da Sra. Wickham pela primeira vez. Apesar da dor que sentia, parecia estar acolhida, algo que sentira apenas quando sua tia Gardiner se prontificou a ajudá-la, durante sua gestação. Isso a fez sentir-se bem, como se ali, naquele momento, nascesse naturalmente uma forte ligação entre elas, verdadeira e fundamental para conseguir suportar o sentimento de perda, semelhante para ambas, fosse para preencher o espaço de uma grande paixão ou do amor de mãe.
Lizzy sentia-se exausta com os acontecimentos do fim de semana, pouco esteve ao lado do Sr. Darcy, que soube respeitar sua dedicação e cuidado para com a irmã. Despediu-se carinhosamente, dizendo que iria ligar mais tarde em sua casa. Retornou à casa de seus pais, fazendo companhia a Lydia. As irmãs, às sós, conversaram por um longo tempo. Foi quando Lizzy pode perceber que não havia destino melhor para George do que a própria morte. Somente assim, Lydia poderia ressaltar as boas e poucas lembranças que viveram juntos. A ausência de responsabilidade e o desvio de caráter de George nem sequer seriam citados. Era muito provável que seu filho conheceria, através de Lydia e da Sra. Wickham, um pai que jamais existira, alguém que a morte fora capaz de imortalizar apenas suas qualidades.
