Título: Guilty, the sentence
Autora: Kaline Bogard
Fandon: Hannibal
Ship: Lecter + Will
Classificação: +18
Gênero: slash, suspense, policial, terror
Direitos Autorais: Hannibal não me pertence. Se pertencesse o Will não ia ficar alucinando com um cervo preto, se é que me entende... Contem spoilers da série


Guilty, the sentence

Kaline Bogard

Parte 02

Black Rivers, Carolina do Norte

Os técnicos e investigadores voltaram a cena do crime, quando Jack Crawford deu o aval. Então o homem voltou-se para Will, parado num canto, ignorando o quanto ele parecia exausto.

– Will...?

O rapaz levou os dedos ao topo do nariz e apertou com força, como se isso ajudasse a prevenir a dor que ameaça se instalar em sua cabeça.

– Debaixo do sofá, Jack. Ele deixou a barra cair, estava nervoso... foi a primeira vez que fez isso. Mas vai fazer de novo – Graham foi falando rápido, sem olhar na direção do investigador – Maldita dor de cabeça...

– Está aqui – Beverly, que se abaixara para investigar o sofá, ergueu-se com uma barra de ferro nas mãos. Examinou as extremidades cuidadosamente – Tem sangue numa das pontas. Talvez tenhamos impressões digitais...

– Não – Will soou seco sem olhar para ninguém na sala – Ele é metódico e usava luvas. A barra foi um erro que não irá se repetir.

– Ele vai matar de novo... – Jack respirou de forma ruidosa, repetindo algo que Will já tinha dito. Não havia trégua naquele trabalho.

– Esse assassino se vê como... – o rapaz de óculos gesticulou nervosamente tentando encontrar as palavras – É uma espécie de julgamento pra ele.

Mais do que isso até, o moreninho ruminou. Os pensamentos todos convergiam para a idéia de que o criminoso se via como uma espécie de deus, não apenas como um guerreiro.

– Julgamento? – Jack repetiu observando os técnicos que voltavam a analisar a cena do crime – Então ele vê a vítima como um transgressor.

Nesse ponto Brian Zeller aproximou-se de ambos.

– Antigamente ladrões eram punidos com amputações – falou pensativo – Em alguns lugares do Oriente Médio ainda são...

– Não – Will cortou de forma impaciente – É muito mais do que isso... é... Ele não é apenas um juiz. Ele acredita que é o juiz.

Brian e Jimmy se entreolharam, enquanto Jack e Beverly olhavam fixamente para Graham, notando a aparência que revelava algo além do cansaço. Crawford, no entanto, ignorou os indícios de que o rapaz não estava bem.

– Como assim "o" juiz, Will? Você quer dizer que esse cara se vê como se fosse...

– Deus – a voz de Graham traia sua irritação – Sim. O que ele fez aqui foi o julgamento final – terminou a frase tirando os óculos e passando uma mão pela face – Mas... Jack, preciso parar por aqui...

Sabia que estava chegando ao limite. Não vinha dormindo bem desde o caso com Hobbs. Essa noite mesmo fora regada a muitos pesadelos, presenteando Will com um sono alquebrado, pouco reparador. Depois disso havia ministrado aulas durante horas esgotantes.

Quando pensava que seu dia chegava ao fim... Jack o trouxera para o estado vizinho, para trabalhar em um novo assassinato.

Will sentia a exaustão cobrando seu preço.

Jack desviou os olhos para o corpo caído no chão. Sua ânsia em resolver o caso era grande a ponto de sentir a tentação de fazer Graham ficar um pouco mais, para debaterem sobre todos os aspectos possíveis do assassinato. Porém uma nova olhada para o rapaz o fez mudar de idéia.

– Tudo bem. Vou levá-lo a um hotel – então voltou-se ao trio de detetives que mais confiava e lhes lançou um olhar duro – Continuem por aqui. Quero esse lugar vasculhado centímetro por centímetro. E quando a família chegar me avisem. Vou conversar pessoalmente com eles.

– Deixa com a gente – a oriental sorriu suave para Jack. De alguma forma inexplicável tinha um sentimento protetor em relação a Will, como se ele fosse um tipo de irmão caçula, apesar de mal o conhecer. Essa sensação fazia com que Katz desejasse que ele fosse logo descansar e tirar aquela expressão do rosto – Podem ir tranqüilos.

Jack Crawford acenou a cabeça de leve e segurou o rapaz de óculos pelo braço, puxando-o para fora da sala. Os detetives do FBI concentraram-se no trabalho novamente. Will ajudava muito a desvendar os casos, mas precisavam de evidências. Tinham que encontrar qualquer coisa, mesmo uma prova circunstancial, para levar ao julgamento quando Graham fizesse sua mágica e os guiasse ao culpado.

Por que não restava mais duvida: aquele garoto conseguiria prender mais um. Apesar de pagar um preço cada vez mais alto para isso.

H&W

O hotel era como tantos outros. O FBI não esbanjava dinheiro com o conforto de seus agentes durante as investigações. Mas Will não exigia demais. Precisava de uma chuveirada e um travesseiro para encostar a cabeça latejante.

Realmente não podia reclamar do banho, pelo menos. A água quente e abundante caiu sobre seu corpo cansado e a sensação de relaxamento foi imediata. Por longos minutos apenas aproveitou o momento, tentando manter a mente vazia.

Ao terminar de se lavar vestiu um roupão branco e foi fuçar sua mochila, jogada num canto do quarto. Encontrou as aspirinas e jogou três na boca, voltando ao banheiro beber água direto da torneira. Aproveitou para molhar o rosto e a nuca, numa tentativa um tanto pueril de aliviar a pressão que sentia na cabeça.

Como não sentia fome, apesar de não ter comido nada depois do almoço, resolveu ir direto pra cama. Jogou-se no colchão de qualquer jeito, na pressa com que Jack o buscara nem tivera tempo de separar um pijama, coisa que acontecia com freqüência. Tinha que deixar uma mochila pronta para essas viagens surpresa. A única coisa que jamais esquecia eram as preciosas aspirinas. Preciosas e por vezes inúteis.

Revirou-se na cama. A dor não passava e, pra piorar, sua mente foi inundada por pensamentos, milhares deles. Desconexos, confusos, paradoxos.

O caso acontecido àquela tarde era o mais forte. Ele revivia a sensação de ser empático com o assassino. Os pensamentos de se ver como um deus. Como Deus... um pensamento extremamente cristão. Uma direção a se seguir nas investigações.

Ser poderoso. Julgar, condenar e aplicar a sentença.

Não era a primeira vez que a apologia surgia em sua mente. Invariavelmente lembrou-se da conversa que tivera após o termino do caso Hobbs. A conversa com Hannibal.

Hannibal.

Atualmente era o único capaz de fazer Will sentir-se melhor, minimamente livre, como se com ele encontrasse os fragmentos perdidos de sua verdadeira personalidade, perdida aos pouquinhos cada vez que precisava pensar como alguém que não era. Pedacinhos amputados dolorosamente, transformando Will em uma pessoa que mal reconhecia, que o assustava.

Mas quando estava com o psiquiatra e amigo... talvez, numa parábola infantil, Lecter fosse como um imã que atraia e unia suas peças espalhadas. Hannibal não o rotulava ou tentava encaixá-lo num padrão de normalidade impossível de ser alcançado pelo rapaz.

Hannibal apenas aceitava.

E essa aceitação fazia falta no momento delicado.

A dor de cabeça não deu trégua, assim como foi impossível se livrar dos pensamentos confusos. Apesar da babilônia de imagens e frases que mantinham a mente de Will desperta, um desejo se sobressaia a tudo mais, como a tábua de salvação a qual um náufrago desesperado se abraçava. Hannibal podia salvá-lo.

Hannibal era o único que podia salvá-lo.

H&W

No dia seguinte Jack Crawford passou cedo pelo quarto de Will e o encontrou pronto em expectativa. A aparência do moreninho era de quem tinha passado a noite em claro.

– Você está bem, Will?

– Usável, não se preocupe com isso... – ele respondeu meio amargo.

Jack não rebateu.

– O corpo está sendo analisado no IML. Vamos para lá depois que você tomar café.

– Não sinto fome – Will rebateu – Depois eu como alguma coisa.

O agente do FBI pensou em insistir, mas deixou pra lá. O rapaz não parecia no seu melhor humor e Crawford precisava dele focado no caso. Por isso preferiu não contrariar.

A viagem até o IML foi rápida. Jack deixou Will a par das poucas novas informações. A esposa e o filho de Doussett já estavam em um vôo e aterrissariam na Carolina do Norte ainda pela manhã.

Graham ouvia as informações enquanto observava a paisagem do lado de fora do carro. Sua cabeça dera uma trégua por volta das duas horas da manhã. Ele até conseguira tirar um cochilo, porém um pesadelo com Garrett Hobbs o despertara banhado em suor. Pesadelos cada vez mais constantes...

"Veja", a imagem de Bobbs lhe dissera. E Will tentava compreender o que ele tinha que ver? O que seus olhos deixavam passar?

Então uma batida no vidro o despertou com um sobressalto. Percebeu, surpreso, que tinham chegado ao IML e Jack já tinha descido do carro e esperava do lado de fora, com uma expressão estranha na face.

Um tanto sem graça saiu do veículo e seguiu o agente até a sala onde estava sendo realizada a autópsia de Cliff Doussett. Zeller, Katz e Price já estavam lá.

– O corte na garganta foi a causa da morte. O golpe na cabeça fez um estrago e tanto, mas a perda de sangue decidiu o destino desse homem – Brian foi dizendo, enquanto apontava o corte com a mão enluvada e cheia de sangue.

Will afastou-se um pouco e foi encostar-se em um balcão de alumínio. Tirou os óculos e esfregou os olhos de forma cansada. Havia a sombra de um pensamento atormentando sua mente, mas não conseguia decifrar o que era. Como a letra de uma melodia que escapa a memória, apesar de nos esforçarmos para recordar.

Jack pegou o prontuário do caso das mãos de Jimmy e começou a lê-lo, em busca de alguma informação complementar que desse a menor luz ao caso.

– Aposto que ele está envolvido em algum tipo de fraude – Price insistiu – Por isso foi punido. O simbolismo das mãos...

De alguma forma causou um nível de irritação em Will como ele poucas vezes sentira antes. Agitou uma mão nervosamente enquanto cortava a fala do agente federal.

– Não é a punição por roubo. Este não é o meu estilo – bradou um tanto exaltado, mas deu-se conta do que dissera. Acabou afastando-se do balcão e caminhando alguns passos para mais perto da porta. Quando voltou a falar seu tom era mais controlado – Não é o estilo dele. O assassino se vê como o juiz que pode executar a sentença. Num pensamento ortodoxo cristão esse juiz é Deus...

Beverly respirou fundo, preocupada não apenas com a tensão dentro da sala, mas também com a maneira que Will se comportava. Talvez sua mente estivesse passando de algum limite.

– Deus pune os roubos também, não é? – ela perguntou suave.

– Mas não aqui... – Graham balançou a cabeça, fixando os olhos em algum ponto do piso branco – Não se encaixa...

– O que se encaixa então? – Jack interrogou de forma firme, mas tentando não soar agressivo – O que está deixando escapar, Will?

O moreninho rangeu os dentes e passou uma mão pelo cabelo nervosamente. Idéias minúsculas voavam por sua cabeça como grãos de areia numa tempestade desértica. Fragmentos das sensações da noite anterior colidiam, deixando tudo ainda mais confuso. Não conseguir apanhá-las era desesperador, todas escapando por entre seus dedos trêmulos. Exceto por um grãozinho que enroscou-se em sua mente...

O consultor especial do FBI lutou para tentar organizar as idéias, e esse esforço foi visível em sua expressão facial conturbada. Surpreendentemente logo em seguida o rapaz relaxou e sua postura corporal saiu da defensiva. Ele olhou brevemente para Jack antes de voltar os olhos claros para a vítima deitada na mesa de autopsia.

– Raiva – ele disse num tom apático – Doussett não era ladrão. Ele... tinha problema com controlar a raiva. Deve... bater na esposa e no filho. Talvez tenham algo contra ele na delegacia.

Crawford entendeu que aquilo era Will sendo empático com a vítima, não com o assassino. O garoto era capaz de sintonizar-se com o ponto de vista de qualquer pessoa, não apenas com criminosos. Talento útil, mas assustador.

– Katz, verifique isso na Central.

A oriental relutou por breves segundos, hesitante em deixar Will naquele estado, visivelmente abalado. Mas acabou obedecendo a ordem.

– Faz sentido – Price entrou na conversa – Deus um dia vai julgar a humanidade, de acordo com a bíblia. Ira é um dos pecados mortais.

– Foi bem mortal nesse caso – Will voltou a ficar inquieto – Pode esperar mais seis assassinatos, Jack. O propósito dele é julgar pessoas que ele sabe que não vão conseguir mudar. Ele conhece as vitimas intimamente... planejou tudo meticulosamente. Talvez não cometa outro erro como derrubar a barra de ferro.

– Que não tinha impressões digitais – Jimmy informou. Já estava acostumado com o jeito de Graham, por isso não se incomodava tanto com os rompantes do moreninho.

– "Deus" começou com os julgamentos. E ele não vai parar até terminar.

– Ou até que nós o paremos. O que mais tem para nos dizer, Wiil?

O rapaz olhou surpreso para o agente do FBI.

– Nada. Isso foi tudo que me veio.

Jack não pareceu satisfeito. Notara que sob pressão o moreninho era capaz de elaborações e insights fantásticos. Resolveu insistir dessa vez.

– Vamos lá, Will. Olhe para todos os ângulos. O que você não esta vendo?

A pergunta desconcertou o rapaz. Ele recuou um passo. O que ele não estava vendo? O que ele não estava vendo?!

De repente a questão não ecoava mais solta em sua mente. Havia uma voz sussurrante perguntando a mesma coisa. Graham olhou para o fundo da sala. O cadáver de Doussett sentara-se sobre a mesa, mas já não era mais Cliff. Era o corpo de Jacob Hobbs, olhando para ele com seus olhos mortos e inexpressivos, a garganta cortada minava borbotões de sangue quente.

" Veja. Você tem que ver...", sussurrava aquilo sem mover os lábios.

Will sentiu a face ficar lívida e o coração disparar. Tentou dizer alguma coisa, mas tudo o que conseguiu fazer foi escapar da sala; deixando Jack, Jimmy e Brian perplexos para trás.

O rapaz precisava falar com Hannibal. Precisava ouvir a sua voz, ou achava que iria enlouquecer!

Continua...


Nota da autora: OMG

Estou total e completamente apreensiva com o final da série. Baixei o 1x12, mas não tive coragem de ler ainda! Por que essa série é tão perfeita?! Por que?!

Até que o capitulo ficou grandinho! Rsrsrsr