Título: Guilty, the sentence
Autora: Kaline Bogard
Fandon: Hannibal
Ship: Lecter + Will
Classificação: +18
Gênero: slash, suspense, policial, terror
Direitos Autorais: Hannibal não me pertence. Se pertencesse o Will não ia ficar alucinando com um cervo preto, se é que me entende... Contem spoilers da série


Guilty, the sentence

Kaline Bogard

Parte 03

Black Rivers, Carolina do Norte

Will Graham caminhou as cegas pelo corredor do necrotério até o saguão de entrada, onde havia um telefone público. O atendente parou de ler a revista de fofocas, mas logo retomou a leitura. Não era a primeira vez que via um oficial passando mal depois de alguns minutos dentro da sala de autópsia. Imaginou que aquele era o caso do jovem rapaz de óculos.

Ignorando os pensamentos do funcionário do local, Will tateou os bolsos atrás de algumas moedas. Não achou nenhum trocado, por isso tirou o fone do gancho e pediu uma ligação a cobrar para o consultório de Hannibal em Baltimore, Maryland.

A ligação foi aceita. No entanto ouvir a voz do psiquiatra soando através de todos os quilômetros que separavam os dois estados pareceu devolver a razão a Will e ele percebeu a loucura que cometia.

Nem bem o Dr. Lecter disse "Alô" e o rapaz de óculos bateu o telefone no gancho e encerrou a chamada. Passou a mão no rosto e observou ao redor até perceber um jogo de bancos de espera e se dirigiu para lá.

Assim que se sentou e ergueu a cabeça respirando fundo ouviu a voz do funcionário chamando-o de volta a realidade ao seu redor.

– Quer um pouco de água? Ajuda com o mal estar...

– Não – Will respondeu seco, passando a mão pela testa. Voltou a erguer a cabeça até encostá-la na parede e tentou retomar o controle sobre si próprio.

Aquelas alucinações com Jacob Hobbs estavam cada vez mais reais. Surgiam em momentos diversos e inapropriados. Não podia continuar enganando-se por mais tempo. Aquele era um sintoma. E não era o único, ou o mais grave. Além de alucinar Will sabia que estava dissociando a realidade. Lecter já percebera isso e tentava sutilmente abordar o assunto, mas o rapaz não estava pronto para encarar sua situação e recusara-se a dar prosseguimento.

Antes que pudesse continuar com a reflexão sentiu o banco ao seu lado afundar-se, quando alguém se sentou. Sabia quem era antes mesmo de ouvir-lhe a voz.

– Will...?

Respirou fundo enchendo-se de falsa coragem e abriu os olhos. Observou Jack Crawford brevemente antes de desviar as íris novamente e focá-las na parede do outro lado da sala.

– Está tudo sob controle.

– Sob controle, Will? Não foi bem o que me pareceu.

– Eu só...

– Tem algo que eu precise saber? – perguntou cortando as explicações do rapaz – Algo que pode afetar nossas investigações?

O moreninho balançou a cabeça dizendo que não. Foi incapaz de pronunciar qualquer coisa, temendo que sua voz traísse sua insegurança. Ele não estava no controle e sabia disso.

– Muito bem. Vou levá-lo para comer alguma coisa.

– Não sinto fome – Will relutou. Queria continuar logo com as investigações, para então voltar para casa e para o único lugar em que se sentia seguro...

– Não perguntei se sente fome ou não. Você está num péssimo estado. Não pode alimentar-se apenas de aspirinas.

Graham desistiu de protestar. Talvez um gole de café não fosse assim tão ruim.

Jack percebeu sentimentos conflituosos passando pela mente do jovem sentado ao seu lado, que fazia questão de evitar contato visual. Pensou que ele parecia alguém a beira de um colapso, mas tal idéia logo foi afastada de sua mente. Presumir isso era similar a assumir que parte da culpa era sua. Ou a culpa por completo, afinal fora Jack quem o tirara da sala de aula. Assim como tirara Mirian Lass e o trágico desfecho da história era conhecido por todos...

Percebendo o fluxo perigoso dos próprios pensamentos Crawford meneou a cabeça e tratou de espantá-los. Forçou-se a focar na situação mais imediata.

Levaria Will para comer alguma coisa e o jovem se alimentaria, nem que tivesse que obrigá-lo. Depois disso poderiam continuar com as investigações.

H&W

Crawford aproximou-se do carro onde o jovem colaborador do FBI aguardava e observou a figura solitária sem poder evitar a familiar sensação de responsabilidade. A única diferença entre a situação atual e o passado era que, no caso de Lass tal sensação viera após tudo acontecer e terminar de forma tão trágica. Com Will sentia desde já.

Talvez isso trouxesse um desfecho diferente. Não. Com certeza o desfecho seria diferente.

E, além de tais preocupações, o agente especial do FBI tinha um assunto adverso a tratar com o rapaz sentado no banco do carona do automóvel, aguardando calmamente.

Com esse pensamento derradeiro Jack alcançou o próprio carro e entrou, sentando-se atrás do volante.

– Aqui está, Will – estendeu um copo grande de café com leite, que Will aceitou em silêncio, e uma caixa de donuts – Coma.

O rapaz pegou um dos grandes doces de sabor aleatório e mordeu. O recheio caprichado era de framboesa e o excesso de açúcar imediatamente trouxe um pouco de animo.

– Bom – ele falou simplista.

Jack sorriu de leve, como raramente fazia, e aguardou que o outro comesse pelo menos um dos donuts, antes de limpar a garganta para voltar a um assunto delicado.

– Está tudo bem mesmo, Will?

– Tudo sob controle – ele afirmou com mais certeza dessa vez.

– Então posso saber por que o doutor Lecter ligou preocupado para o meu celular?

Ao ouvir aquilo Will paralisou-se no ato de levar o copo de café com leite aos lábios. Crawford, experiente em ler emoções humanas, notou a face de Graham ficar lívida pela surpresa, depois ruborizar-se.

– O quê? – indagou surpreso, olhando brevemente na direção do mais velho.

– Lecter me ligou. Disse que recebeu uma ligação deste estado, e ficou preocupado quando não conseguiu resposta de volta. Como ele sabe que você está aqui, ligou para saber notícias.

Graham não respondeu. Ao invés disso pegou um novo donuts da caixa sobre suas pernas e deu uma mordida generosa no confeito. Era recheio de chocolate. Um dos seus preferidos.

– Will...?

– Estou comendo, Jack – o rapaz respondeu irritadiço e com a boca cheia– Não era isso que você queria?

– Ah, muito conveniente, espertinho. Estamos no meio de uma investigação, preciso que esteja por inteiro nessa.

– Eu estou por inteiro. Foi um momento de... instabilidade. Apenas isso. Sabe como isso é complicado, Jack – o discurso de Graham diminuiu de intensidade quando percebeu que tinha, de certa forma, confessado uma verdade de sua condição.

– Não quero que passe do limite.

Nesse momento Will voltou os olhos para o agente especial do FBI e o encarou por um breve e intenso momento. Crawford viu uma gama indescritível de sentimentos refletidos naquelas íris claras. O instante fugaz se dissipou quando Will fugiu ao contato, desviando os olhos para a caixa de donuts que tinha sobre as pernas.

– Fazer o que eu faço é passar dos limites. Sempre.

Contra essa afirmação Crawford não tinha argumentos. Somente o rapaz ao seu lado teria condições de dizer como era ser tão empático e conseguir pensar exatamente como os piores assassinos imagináveis. Pensar como um monstro.

– Posso pedir para o doutor Hannibal vir para cá e dar assistência nas investigações, para assegurar sua segurança mental, Will.

– Nada pode assegurar isso – o consultor especial respondeu muito rápido. Estava prestes a continuar a frase, dizendo que apesar disso a presença de Lecter poderia ajudar e muito, porém o celular de Jack tocou, interrompendo a conversa.

– Alô...

Assim que o homem atendeu Will voltou a atenção para seu lanche. Deu um longo gole no café com leite, que estava morno àquela altura, enquanto terminava o donuts de chocolate. Captou fragmentos da conversa que ocorria em paralelo, sem realmente prestar atenção ou compreender.

Só quando Jack desligou o celular e respirou fundo, Will compreendeu que algo tinha acontecido. Crawford voltou-se para ele e revelou sem surpresa alguma:

– Você estava certo. Doussett foi acusado de agressão contra a esposa e o filho três vezes. Mas nas três ocasiões a senhora Doussett retirou a acusação. Os vizinhos ligaram para a Central em algumas ocasiões por causa das discussões violentas.

– Ele não era apenas violento. Era irado, mal podia se conter. Tinha uma... fúria dentro de si – Graham afirmou com certeza – Por isso foi escolhido.

– Katz e Price vão investigar a vizinhança e colher mais informações.

– O assassino não deixou nenhum rastro. A barra de ferro foi um descuido. Ela é velha e está oxidando, não foi comprada recentemente e não é rastreável. O único sangue na extremidade é de Dousset. Esse erro não irá se repetir, por que ele se sentirá mais confiante.

– Você quer dizer que estamos com as mãos amarradas?

– Não – o moreninho respondeu – Pode colocar seus agentes em campo. Mas temo que não conseguirão algo útil até...

– Até o próximo crime – Jack completou a frase.

Wil balançou a cabeça confirmando.

O agente especial puxou ar com um ruído, enquanto afundava-se no acento estofado do carro. Se fosse sincero consigo mesmo admitiria que não estava surpreendido.

Sua esperança era que se não se tratasse de um crime em série. Ao trazer Will ali, talvez, o jovem dissesse se tratar de um assassinato passional, quem sabe a esposa estivesse envolvida.

Mas não.

Não seria um caso isolado.

– Esse é o tipo de coisa que não se pode dizer a imprensa – Crawford afirmou num tom cansado. As vezes seu trabalho cobrava um preço muito alto.

– Sinto muito, Jack...

A voz de Will espantou o pessimismo de Jack. O homem era prático e tinha pensamentos ágeis. Ter Graham ao seu lado lhe conferia vantagens que nenhum outro agente do FBI, em cargo de comando ou não, possuía. Nem mesmo os que recorriam a consultoria com Bloom ou Heimlich. Graham o deixava um passo a frente, precisava admitir isso. Graças a Will podia se preparar para dar uma coletiva à Imprensa, sabia o que precisava tornar público e o que seria mantido em segredo. É. Will Graham trazia uma segurança da qual Jack não desejava abrir mão tão cedo.

Fato que não significava que iria expô-lo a nada mais do que o estritamente necessário.

– Não sinta. Não é culpa sua, Will. Termine de comer, vou te levar ao hotel para que arrume suas coisas. Estou te dispensando, volte para a Virginia e trabalhe no perfil desse assassino. Se acontecer de novo...

– Vai acontecer de novo – o moreninho cortou o discurso de Crawford.

O homem meneou a cabeça.

– Quando acontecer de novo você será convocado. Enquanto isso meus detetives continuam com a caça às evidencias. Qualquer nova informação será transmitida a você.

Will balançou a cabeça concordando. Normalmente não gostaria de ser deixado de lado em uma investigação. Mas, no caso atual, aquilo significava poder voltar para casa.

Significava voltar para Hannibal e para a segurança que apenas o psiquiatra podia lhe oferecer.

Continua...


Nota da autora: YUHUUL

Demorei, mas cheguei. Eu estou em duvida sobre essa fanfic, por isso enrolei um pouco pra digitar. O próximo talvez demore também, nem comecei a digitar.

Até lá se o tempo e a imaginação permitirem irei postando oneshots para alimentar a fome de... Hannigram! Rsrsrsrsrs

Obrigada por chegar até aqui. Caso tenha gostado do meu estilo convido-te a visitar meu perfil e acessar minhas outras fanfics do seriado. Eles são lindos juntos e merecem muitos fãs!