Título: Guilty, the sentence
Autora: Kaline Bogard
Fandon: Hannibal
Ship: Lecter + Will
Classificação: +18
Gênero: slash, suspense, policial, terror
Direitos Autorais: Hannibal não me pertence. Se pertencesse o Will não ia ficar alucinando com um cervo preto, se é que me entende... Contem spoilers da série

Guilty, the sentence

Kaline Bogard


Parte 04

Wolf Trap, Virginia

A sensação de voltar para casa não podia ser descrita. Apenas sentida. E era essa a impressão que acolheu Will assim que ele pôs os pés em casa e foi recebido pelos cães em festa. Seu lar, seu abrigo, seu refúgio.

Correspondeu ao carinho dos animaizinhos, devolvendo o agrado em igual proporção, apesar de estar exausto da viagem.

O primeiro pensamento foi descer do avião e rumar direto para Maryland. Mas a idéia era tão parecida com a imagem mental de uma adolesce apaixonada, que mudou os planos do jovem consultor.

Ao invés disso Will buscou a proteção de seu lar e não se arrependeu.

Pode começar a organizar os pensamentos, sentado no piso de madeira e cercado pelos calorosos cães de rua. Organizar, é claro, apenas a ponta do iceberg que despontava do mar de confusão que era sua mente.

E ele nem se referia ao caso para o qual fora chamado. O foco estava na sua relação com Hannibal, totalmente fora dos padrões. Graham sabia que eles eram muito mais do que paciente e psiquiatra. Assim como sabia que tinham passado do nível de meros amigos há muito tempo.

O passo para fora do limite fora dado, mas ainda não totalmente concretizado. Estavam em um estágio que o rapaz não conseguia identificar. Seria tolo se negasse a dependência que sentia, como se ficasse totalmente perdido sem a presença de Hannibal. Mais do que isso até. Ficava perdido, cego, confuso...

Confuso...

Essa era a palavra chave do relacionamento deles.

Talvez fosse bom não ter ido direto para a casa do psiquiatra. Era a chance de dar uma pausa para a mente tentar raciocinar. Exercício que parecia cada vez mais difícil, pois o que dominava a mente do moreninho era apenas a imagem de Hannibal Lecter...

Irritado consigo mesmo, Will levantou-se e jogou a mochila num canto da sala, fazendo uma nota mental de arrumá-la de acordo depois, ou seja, repor os comprimidos para dor de cabeça e colocar pelo menos um bendito pijama.

Só então foi tomar um banho rápido para poder descansar, e, em seqüência, ir para o consultório de Hannibal.

Todavia seus modestos planos se frustraram. O banho não foi rápido, o banho nunca era rápido quando Will se perdia em pensamentos, quando tentava esvaziar a cabeça desses próprios pensamentos, pelo menos um instante, permitir que apenas o silêncio ficasse dentro e fora de seu corpo. Até que a sensação de estar se desfazendo e se misturando as gotas de água se tornasse insuportável e Graham desligasse o chuveiro, um tanto assustado.

E ele não conseguiu descansar, pois jogou-se na cama e relaxou, para então passar a noite inteira revirando-se sobre o colchão em meio a terríveis pesadelos dos quais acordava banhado em suor frio, com a camisa encharcada, juntamente com os lençóis.

Elementos confusos brincavam com a percepção do moreninho. Hobbs, Dousset, passagens da bíblia, a clinica de Hannibal, partes desconexas de suas experiências rompendo a barreira do reprimido, migalhas de pão deixadas por seu inconsciente que o guiavam através de caminhos tortuosos para o lado mais sombrio da própria mente. Ou da mente dos assassinos que era obrigado a desvendar.

Por que Will sabia que quando entrava na mente de um serial killer, ao voltar sempre trazia algo consigo. Algo que em determinado ponto já não conseguia separar dos conteúdos que eram realmente seus. Depois de certo tempo tudo parecia ser seu...

A noite insone lhe rendeu um estado de espírito terrível. De tal forma que não conseguiu sair de casa para ver Hannibal. O dia raiou e foi de encontro a Will que perambulava pelos cômodos da casa, incapaz de voltar a dormir. Incapaz de determinar se estava realmente acordado.

O que era real? O que era parte de um pesadelo?

O que era sua vida...?

E restava a ira, evidentemente.

Graham sabia que seu gênio era bravio, facilmente descontrolavel e irritadiço. Mas... a que ponto? Até onde eram traços de sua singular personalidade e não do caso de Cliff Dousset?

Will sentia que estava enlouquecendo. A esquizofrenia aparentava grudar em si e arrastá-lo para o fundo, pegajosa como as areias movediças de um fosso, sempre para o fundo. Inevitavelmente para o fundo.

Ele tinha aquela habilidade assustadora de ser empático com qualquer ser humano na face da Terra. Uma habilidade que podia ser linda, mas que se tornara assustadora; pois, toda vez que Will se colocava no lugar de outra pessoa e voltava a si mesmo já não podia se enganar sobre o que vinha absorvido consigo. Algo podre.

E não conseguia mais livrar-se disso.

H&W

Amanhecia o segundo dia após o retorno de Black Rivers e Will não saíra de seu refugio. Tinha a impressão de que se fosse ao encontro de Hannibal, em seu desespero por ser salvo, apenas deixaria evidente que ele estava pior. Que ele podia ficar pior. E como podia.

Graham deixara Hannibal aproximar-se de si como nenhuma outra pessoa antes. Mostrara partes de si que jamais mostrara a mais ninguém. E era consciente de que o psiquiatra podia enxergar qualquer coisa que tentasse esconder. Mesmo as partes sujas, que trouxera consigo daqueles assassinos e das quais não conseguia se libertar.

Hannibal sempre enxergava.

Evitar o confronto era apenas mais uma fuga covarde, por que ali com seus cachorros não havia partes ruins, por que os cães o amavam com devoção e Will fingia que nada acontecia de errado consigo.

Porém uma vez que a ponte fora criada, tornava-se uma via de mão dupla: o moreninho permitira que a ligação com Hannibal se concretizasse. Mesmo que evitasse ir a ele, nada impedia que ele viesse a si.

E foi o que aconteceu.

Sentiu-se idiota ao atender a porta de dar de cara com seu terapeuta-amigo-e-algo-mais com uma sacola plástica nas mãos.

– Olá Will – ele sorriu muito de leve – Vim ver como está.

– Estou bem. Pode ir embora agora – respondeu mal criado.

O sorriso discreto de Lecter sequer modificou-se. Ambos fitaram-se rapidamente, por que Will não agüentava manter o contato visual por muito tempo. Então o dono da casa se pôs de lado e permitiu que Hannibal entrasse em seu lar. Os cães fizeram uma festa, reconhecendo o homem que viera cuidar e trazer comida quando o amado dono estava fora. A festinha dos animais garantia certa tranqüilidade ao professor. Seus amigos aceitavam Lecter. Isso fazia dele amigo por tabela.

– Não precisava vir aqui. Eu estou bem.

– Eu estava preocupado – o mais velho revelou enquanto seguia para a cozinha com a refeição que preparara – Você não parecia bem quando me ligou da Carolina do Norte.

– Eu não parecia nada – o rapaz resmungou incomodado e envergonhado pelo telefonema a cobrar, indo pegar pratos e talheres – Não falei uma palavra sequer.

– Não seja tolo, Will. O silêncio revela mais do que qualquer palavra – Lecter falou num tom suave, distribuindo a comida sobre a mesa. A aparência era ótima. Esperou que o rapaz fosse rebater alguma coisa, mas Graham permaneceu quieto numa postura atípica – O que está acontecendo?

– Nada – respondeu muito rápido.

Lecter não insistiu seguir por esse caminho. Acomodou-se a mesa e serviu o dono da casa que sentava-se a sua frente.

– Coma, Will – esperou que o outro obedecesse para só então continuar a falar – Quer debater sobre a investigação?

– Não.

A negativa não abalou Hannibal. Ele conhecia seu jovem amigo. Já sabia como ele funcionava. Sob pressão direta Will era capaz de coisas impressionantes, mas a forma indireta trazia bons resultados também.

Tanto que o silêncio prolongado incomodou o professor a ponto de ele começar a falar sobre algo que não queria. Mas, ao mesmo tempo, algo impossível de resistir.

– Um assassino muito metódico – foi falando entre uma colherada e outra do delicioso guisado que Lecter trouxera – Ele seguiu um plano elaborado. Cometeu algumas falhas, mas... foi quase uma obra de arte.

– Você parece admirá-lo.

– Não seja ridículo – rebateu irritado – Por que eu admiraria um serial killer?

Hannibal parou de comer e olhou direto para seu jovem amigo que recusava-se a fitá-lo de volta.

– Você diz que é ridículo, Will. E pergunta o porquê, mas não disse que não o admira.

O outro ficou pensativo e passou a brincar com a comida.

– Eu não o admiro. É só que... ele é muito organizado...

Terminou a frase num tom mais baixo. Sim, o assassino agia conforme uma crença esquizofrênica de que era Deus iniciando um julgamento. Mas por baixo dessa loucura toda havia um método elaborado.

Tão contrário a si.

Por que tudo dentro de Will estava uma bagunça completa. Ele se sentia perdido, confuso... exceto por um detalhe em sua vida. Detalhe esse sentado bem na sua frente.

– Eu... eu... – gaguejou ainda sem encarar Hannibal. Queria dizer o quanto confiava no terapeuta. Quanta responsabilidade depositava sobre o homem, acreditando fielmente que ele seria uma tabua de salvação. Um ponto de firmeza em meio a miríade assustadora que se tornara sua mente: um mar de emoções, desejos, medos, anseios, descontrole. Um mar no qual se afogava perdido de si mesmo, por que pouco a pouco sentia como se sua essência se diluísse e se tornasse os grãos de areia em uma ampulheta, vazando pouco a pouco, todavia continuamente, sempre para baixo, sempre para o fundo.

Sempre para o fim...

– Will...? – Hannibal chamou, intrigado pela a maneira com que o rapaz caíra naquele silêncio reflexivo. Ele já vira algo semelhante na postura de outros pacientes. Era quase um rompimento com a realidade. O professor estava cada vez mais longe, mais inalcançável.

Uma pessoa normal já teria enlouquecido, mas não Will Graham. E isso era um dos motivos pelos quais Lecter o transformara em seu novo projeto pessoal. Limites. Ah, como desejava transpassá-los.

– Fale comigo, Will. No que está pensando?

– Em limites – Graham respondeu mostrando um grau surpreendente de sincronia com os pensamentos de Hannibal e foi ainda além – E em como esse assassino se parece com você...

Continua...


Olá, pessoas! Quanto tempo. Devo dizer que sofri um pequeno bloqueio nessa fanfic. Mas creio que já superei. Quando eu crio uma história, ela basicamente já vem pronta, eu só preciso digitar, acrescentar um ou outro detalhe, dar uma arredondada.

Era certo que o Will e o Hannibal tinham que se encontrar nesse quarto capitulo e na concepção original o Will realmente ia a casa do Hannibal. Mas quanto mais eu pensava na cena, menos sentido fazia. E eu empaquei tentando encaixar tudo.

Por fim desisti e consegui ver a cena de outro ângulo. Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai a montanha. E temos o Hannibal na casa do Will.

E essa mudança destruiu a cena toda, por que uma coisa é o Will surtado ir pra casa do Lecter e outra totalmente diferente é o Hanni lindo ir na casa do Will, estando ele surtado ou não. A casa de um homem é sua fortaleza. Por isso, em essência, tudo o que eu queria ter dito no capitulo foi dito, de um jeito diferente, mas foi. Não acho que vá mudar o esquema do que vem e me livrei do bloqueio maldito. Ufa, é um alívio!

Não garanto que não vou atrasar mais, porém agora eu sei que consigo terminar!

Obrigada pela paciência e até a próxima!