Título: Guilty, the sentence
Autora: Kaline Bogard
Fandon: Hannibal
Ship: Lecter + Will
Classificação: +18
Gênero: slash, suspense, policial, terror
Direitos Autorais: Hannibal não me pertence. Se pertencesse o Will não ia ficar alucinando com um cervo preto, se é que me entende... Contem spoilers da série

Guilty, the sentence

Kaline Bogard


Parte 05

Wolf Trap, Virginia

– Fale comigo, Will. No que está pensando?

– Em limites – Graham respondeu mostrando um grau surpreendente de sincronia com os pensamentos de Hannibal e foi ainda além – E em como esse assassino se parece com você...

Lecter continuou em silêncio, esperando que seu jovem amigo explicasse a afirmação misteriosa. O rosto anguloso ainda dominado por uma máscara de indiferença encobrindo a curiosidade de entender as palavras hesitantes de Will.

– Isso está muito bom – o moreninho parara de brincar com a comida e terminava a última colherada – Você cozinha bem.

– Obrigado. Coma mais.

– Não – ele recostou-se na cadeira ficando de modo confortável, menos tenso. Os olhos continuavam dançando sobre os utensílios na mesa, sem nunca se fixar em nenhum por mais que meros segundos – Não se ofenda com o que eu disse.

– E o que você disse, Will?

– Que... que esse assassino se parece com você.

Hannibal depositou o talher em seu prato e pegou um guardanapo para limpar os lábios.

– O que em minha atitude lhe deixou com a impressão de que me ofendeu?

– Na verdade nada – o rapaz franziu as sobrancelhas – Mas você é um maldito terapeuta. É mais fácil falar com cães do que perceber o que você está pensando!

– Garanto que não me ofendeu. Mas eu gostaria de saber por que acha que ele é parecido comigo.

Pela primeira vez em algum tempo Graham se permitiu olhar o visitante nos olhos. Buscava alguma coisa nas íris profundas. Profundas demais, na verdade. Profundas a ponto de envolver Will de tal modo que ele sentia perder-se na imensidão daquele olhar. De querer se perder na premissa, caso permitisse se deixar levar sem medo.

Desviou o rosto sufocado pela sensação.

– Por tudo isso – fez um gesto rápido mostrando o jantar consumido – Ele é metódico, organizado, objetivo. Não há bagunça na vida dele.

– E você acha que eu sou assim? – um sorriso quase invisível contornou os lábios finos de Lecter.

– Olhe para você! – o rapaz exclamou – Você é quase obsessivo! Seus livros são organizados em ordem alfabética e suas canetas por tamanho! Não há espaço para bagunça em sua vida.

– Tudo o que você não é.

A afirmação fez Will balançar a cabeça com um aceno nervoso.

– Eu... eu não o admiro – o rapaz falou devagar – Talvez eu tenha... um pouco de inveja...

– Inveja? – Hannibal devolveu a pergunta em um tom de voz calculadamente surpreendido – Não combina com você.

– Eu sei... – o dono da casa levantou-se e começou a recolher os pratos sujos. Quando viu que o psiquiatra ia ajudá-lo, apressou-se em impedi-lo – Eu cuido disso, pode deixar.

Lecter apenas assentiu, seguindo o rapaz para a cozinha e sentando-se em uma das cadeiras para assistir enquanto Graham lavava as louças.

– Ultimamente muito do que eu faço não combina comigo. Não consigo explicar de um jeito que você entenda.

– Tente.

William virou a cabeça e olhou irritado para seu visitante.

– Já teve a sensação de se desmanchar? De perder partes importantes de você, como se fossem objetos esquecidos em um cômodo escuro? Já se sentiu como um cego tateando atrás dessas partes, por que precisa delas pra voltar a ser você mesmo, mas tudo o que encontra são peças do tamanho errado, por que não são partes verdadeiras da sua personalidade? E você prefere encaixá-las assim mesmo, por que o vazio de se perder é mais assustador e por que você sabe que se não encaixar alguma coisa "ali" logo não haverá mais nada para salvar... já teve essa sensação, doutor?

Hannibal olhou do rosto ofegante pelo discurso para a mão que segurava na borda da pia e pingava água e espuma no chão. Depois mirou as gotas de suor frio que faziam a fronte de Will brilhar umedecendo o cabelo encaracolado e, junto com toda a postura corporal, denunciavam a tensão que o rapaz sentia. Um disfarce pouco eficiente para o que havia por trás: o puro medo. Medo de passar de limites desconhecidos pelo limiar humano e voltar dessa fronteira com cada vez menos de si. Com tão pouco de si que um dia, simplesmente, não restaria nada com o que voltar...

– Não – respondeu sincero – Nunca tive essa sensação, Will.

O rapaz respirou fundo e ficou de costas, continuando a tarefa de lavar os pratos.

– Quando eu penso como um serial killer, eu tenho que parar de pensar como "eu". E então... fragmento o que sou, para levar pequenas partes minhas e saber como voltar depois. Eu... tenho medo de deixar tudo o que sou para trás e esquecer de quem eu sou.

– Mas quando você volta e tenta remontar quem você é, acaba ligando partes desses serial killers, misturando um pouco de cada vez.

– É – respondeu simplista, mais calmo – É o que está acontecendo.

– Por isso me ligou da Carolina do Norte. Por que estava tão confuso que começou a perder o principio da realidade. Ligar para mim foi a forma que encontrou de conectar-se novamente ao real.

– Eu liguei para você... – Will falou baixo, mas num tom de voz que denotava puro sofrimento por ter que encarar aquelas coisas. Por que Hannibal Lecter conseguia lê-lo, compreendê-lo, aceitá-lo – Pra você...

Hannibal ficou em silêncio. Os olhos cravados nas costas tensas de seu jovem amigo, esperando que ele levasse o tempo necessário para continuar com suas dolorosas reflexões. Ser terapeuta significava ser forte o bastante para agüentar até mesmo a angustia sufocante imposta pelo silêncio. Nesses momentos as elaborações mais importantes tomavam proporções suficientes para serem encaradas e expostas em voz alta. Uma palavra fora de hora podia colocar tudo a perder.

Por isso Lecter continuou quieto e expectante.

– O que nós somos, Hannibal?

O psiquiatra respirou fundo e bem lentamente, antes de responder.

– O que você precisar que nós sejamos. Eu sou o que você precisa que eu seja, Will...

Fechando a torneira, Graham voltou-se para o visitante. Por um instante esqueceu de manter a máscara que o protegia, e mostrou-se verdadeiramente para Lecter. E o psiquiatra entendeu por que ele relutava tanto em olhar nos olhos de alguém: pelo receio de que as pessoas enxergassem a verdade dentro de si, de perceber que, no fundo, Will era apenas uma criança tentando ser forte. A fragilidade de cristal ficava evidente nos olhos claros torturados, e Lecter conseguia ver as fissuras maculando a superfície. Aquela criatura a sua frente já não era mais uma peça inteira e logo, muito em breve, desmoronaria.

– Eu preciso...

– Diga, Will.

– Eu preciso de uma certeza.

– Eu posso ser essa certeza. Sempre que passar dos limites basta olhar para trás. Você irá me ver e então saberá como voltar. Mas para isso tem que confiar em mim. Você confia em mim, Will?

A resposta veio sem hesitação.

– Confio.

A palavra dita com firmeza fez Lecter sorrir. Um sorriso pela vitória antecipada. Por que em sua complexidade e singularidade Will era um verdadeiro gênio e isso deixava o desafio mais perigoso, mais difícil. Uma mente tão brilhante se curvava ao seu desejo que capricho. Tolo e cego. Mas, ainda assim, impressionante. Por que o rapaz em sua sagacidade pegara de forma inconsciente uma pista fundamental.

"E em como esse assassino se parece com você..."

Se ele tivesse dito o contrário, ou seja, como Hannibal se parecia com o serial killer, não seria significativo. Mas não... Graham dissera a frase na ordem certa. Comparava um assassino secundário ao seu antecessor. Sem querer, com sua incrível capacidade empática, Will pegava fragmentos da verdade no ar. E, de forma inocente, juntava os fatos bem diante de si. Todavia estava próximo demais para que pudesse enxergar com clareza o que acontecia.

Por isso Hannibal teria que ser ainda mais cuidadoso. O que era um paradoxo, pois como ser mais cuidadoso quando tudo naquele rapaz o atraia, encantava e o deliciava? Nunca encontrara um "desafio" tão fascinante antes. O pensamento trouxe uma conexão que fez o terapeuta aumentar um pouco o sorriso.

– Engana-se sobre uma coisa, Will. Eu permito uma bagunça em minha vida – falou um tanto misterioso, notando que tinha toda a atenção do rapaz em si, para só então continuar – O seu cabelo.

O moreninho ergueu as sobrancelhas surpreso com o que escutara e com todas as implicações carregadas naquela declaração simplória. Amaldiçoou-se por sentir o rosto esquentar e tratou de dar as costas para voltar a lavar as ultimas vasilhas.

– Meu cabelo não é uma bagunça – reclamou – Ele só... só tem personalidade forte.

– Claro, Will. Eu não gostaria mais dele se fosse diferente.

Graham não respondeu, mas a sensação que o dominou foi tão boa que ele sabia poder continuar ouvindo palavras como aquelas eternamente. Lecter lhe mostrava a importância que tinha para si, logo ele um homem sempre tão organizado em vida.

H&W

A mídia não fez grande estardalhaço do caso na Carolina do Norte. Mas isso com certeza mudaria com o segundo assassinato. Conversara bastante com Hannibal, durante aqueles dias, deixando-o a par de todo o caso, de suas percepções e conclusões. O terapeuta tinha uma escuta fantástica e acolhedora. Ouviu a tudo com atenção. Ajudava a elaboração do rapaz.

Will estava em casa, afastado das aulas por uma semana para descansar, sentado na varanda enquanto assistia os cães brincarem na área da frente, quando poeira erguendo-se no horizonte chamou sua atenção. Não ficou curioso por seu novo visitante.

Poucas pessoas iriam até ali sem convite. Podia contá-las nos dedos de uma mão, e ainda sobraria.

Logo reconheceu o automóvel de Jack Crawford. Isso significava apenas uma coisa...

Assim que estacionou, Jack desceu sem desligar o carro e caminhou até o jovem professor.

– Olá, Will.

– Olá, Jack.

– Temos um problema...

O professor balançou a cabeça concordando. Já intuía o que o agente do FBI iria dizer.

– O Juiz da Carolina do Norte? – usou o termo pelo qual os policiais se referiam ao assassino, que ainda não vazara para os meios de comunicação.

– Sim. Uma mulher dessa vez. O corpo foi encontrado pelos filhos. Pegue suas coisas, darei mais detalhes durante a viagem.

Will apenas balançou a cabeça e obedeceu. Pegou a mochila que ficara jogada no canto da sala desde que voltara de viagem, mais de uma semana antes, e seguiu para o carro de Crawford. Depois ligaria para Hannibal e pediria que ele desse uma olhada nos cães e na casa.

No momento a prioridade era saber mais detalhes do novo crime. O moreninho estava mais confiante e seguro. Se lembrava das palavras de seu terapeuta-amigo-e-algo-mais. Agora ele tinha um ponto forte. Um ponto para o qual podia olhar e usar como referência para voltar, sempre que cruzasse os limites e sentisse a realidade esvaindo-se por seus dedos.

Hannibal Lecter.

O único em quem verdadeiramente confiava.

Continua...


Elogios, sugestões, críticas, pedidos de casamento... ops... isso não, né?

Qualquer coisa é só deixar um review!