Título: Guilty, the sentence
Autora: Kaline Bogard
Fandon: Hannibal
Ship: Lecter + Will
Classificação: +18
Gênero: slash, suspense, policial, terror
Direitos Autorais: Hannibal não me pertence. Se pertencesse o Will não ia ficar alucinando com um cervo preto, se é que me entende... Contem spoilers da série
Guilty, the sentence
Kaline Bogard
Parte 06
Black Rivers, Carolina do Norte
Will piscou com força uma, duas vezes. Na terceira, ao abrir os olhos o cenário estava diferente. Analisou a sala: um cômodo amplo e arejado, iluminado pela luz do sol que atravessava as cortinas de tecido branco transparente.
– Eu já estive nessa casa antes.
Os olhos claros foram de um ponto a outro procurando um lugar para se esconder. Mas logo ele desistiu.
– Não preciso me esconder. Sei que dessa vez a vítima não oferece perigo algum para os meus planos. Eu apenas espero.
Então a porta se abre e uma mulher entra. É loira, mais baixa que a média feminina norte americana, tem olhos claros e cabelos loiros ondulados. Ela estaca na sala, parecendo um pouco surpresa por ver Will ali, mas logo sorri indicando o sofá.
– Não é a primeira vez que faço isso. Entrar em sua casa sem convite. Me recuso a sentar. Não tenho pressa, por que sei que seus filhos estão na escola e seu marido está trabalhando. Tenho todo o tempo do mundo para fazer isso.
A loira movia os lábios falando e falando, mas nenhuma palavra era ouvida. Por que elas não eram destinadas aos ouvidos do jovem professor. E isso sua habilidade não o permitia descobrir. Não dessa forma.
– Escuto tudo o que tem a dizer, mas sei que é como veneno cuspido da boca de uma cobra. Você é como os outros: nunca irá mudar. O pecado corrói sua alma e só existe uma forma de salvá-la.
Uma barra de ferro aparece na mão do rapaz. Era menor do que a usada no primeiro caso e mais leve. Porém tão mortal quando a outra, se usada adequadamente.
– "Vai ficar tudo bem", é o que eu digo e você acredita – Will viu a mulher sorrir aliviada e os olhos umedecerem com lágrimas leves – Esses olhos... esses malditos olhos. Eles são a culpa por você ser o que é. Só existe um jeito de lhe ensinar essa lição.
Will ergue a barra de ferro. Só então a mulher percebe que a levava nas mãos, tão absorta estava em falar e falar. Ou, mais provavelmente, por que isso é o tipo de coisa que nunca se espera que um homem como o assassino vá carregar.
Por breves segundos eles se encaram. O pânico expresso pelos olhos azuis extremamente claros de sua vítima fazem Will sorrir.
– Finalmente você entende o que vai acontecer. Mas não aceita seu destino – a mulher ergueu os braços para tentar se defender inutilmente. Graham move a mão com toda a força que é capaz de usar e acerta o cano de ferro na lateral da cabeça da loira fazendo-a virar o rosto e cair de barriga no chão.
A queda desajeitada faz com que a mulher esbarre na mesinha de telefone e derrube o móvel, com um barulho alto. Will olha a bagunça calmamente. Então se abaixa pondo-se de joelhos no chão e ajeita a mulher sem sentidos na posição correta, depois de colocar a barra de ferro aos seus pés, no tapete cor de areia.
– Não vou esquecer dessa vez – sussurra – Eu a ajeito para continuar o meu trabalho.
O jovem professor passa a mão, já vestida com uma luva cirúrgica pela face sem sentidos. Escorre sangue do local onde a barra de ferro acertou e abriu um pequeno corte. O líquido denso desliza pela fronte pálida e pinga lento no tapete.
– É uma visão que me deixa satisfeito. Minha missão está sendo cumprida. O julgamento começou. E os seus olhos... esses olhos...
Will coloca a mão no bolso da camisa e quando a tira traz consigo um afiado picador de gelo. Usa a mão esquerda para cobrir os lábios da mulher, para segurá-la caso acorde, apesar de ser uma possibilidade remota. A pancada na cabeça foi violenta, quase mortal.
– Esses malditos olhos são os responsáveis por você pecar – Ele ergue a mão direita e abaixa rapidamente, golpeando um dos olhos de sua vítima. Levanta a arma e a lâmina fina vem coberta de sangue, fluidos e algo mais que não importa o que é. Não realmente – Nunca vai se libertar. Eu sei.
E com essa certeza a cena se repete. Graham perfura ambos os globos oculares da mulher loira; não apenas uma, duas, várias vezes. Até que tudo o que reste seja dois buracos vazados fitando sinistramente o nada. O rosto pálido está coberto de sangue e líquido ocular, como uma maquiagem borrada de Halloween.
– Mas isso não é o bastante. O pecado está em você. Em sua essência. E é minha missão salvá-la por completo e enviá-la para o lugar em que merece estar. Para purgar seus crimes.
Agora em sua mão está a afiada faca. A mesma que usou com Dousset. A arma preparada para a salvação dessas pessoas. Sem qualquer hesitação Will encostou a faca no pescoço da loira, afinal aquela era a única maneira de fazê-la receber a redenção final. Colocou tanta pressão ao deslizá-la pela carne do pescoço que; como no primeiro assassinato, quase decapitou a vitima.
Sangue pulsou em grandes quantidades minando direto para o tapete cor de areia. O jovem professor respirou fundo e de forma lenta. Saiu da posição de joelhos e sentou-se a moda oriental vencido pelo peso e grandiosidade de sua nova missão cumprida. Há um propósito sublime e sagrado em todo aquele ritual.
Por enquanto só você sabe a verdade. Só você sabe quem realmente é.
– Eu sou Deus iniciando o julgamento – o rapaz disse num tom baixo, pegando uma das mãos da loira e colocando com cuidado sobre o tórax dela, imitando a pose de Dousset. Faz o mesmo com a outra mão – E esse é...
Então, para sua surpresa a mulher moveu o braço que tinha acabado de ajeitar e fechou os dedos no pulso de Will, prendendo-o num aperto de garras de ferro.
– Veja – ela disse. E seus dentes estavam sujos de sangue.
O rapaz sentiu o coração disparar, a boca ficou subitamente seca. Tentou puxar o braço e libertar-se em vão.
Num impulso a mulher sentou-se e virou o rosto para encarar Graham.
– Veja – repetiu.
O moreninho encarou aqueles olhos vazados, encarando o nada aterrorizador e escuro de algo absoluto. Tão absoluto e sem controle que o fez sentir minúsculo e desprotegido. Foi pego por aquela sensação de ser tragado para algo que não podia controlar. Desesperou-se.
Puxou o braço com força extra e conseguiu soltar-se dessa vez. Caiu sentado para trás e na luta de colocar-se numa melhor posição acabou esbarrando o pé na poça de sangue e sujando ainda mais o carpete.
Livre, levantou-se e correu para o canto da sala, perto da cortina. Fechou os olhos com força. Por um segundo não estava naquela sala. Mas onde estava? Não soube. Por um momento não era quem achava que era. E então... quem era? Também não soube.
Veja...
Colocou a mão, que em algum momento sujara de sangue e nem percebera, sobre a face, manchando não apenas o rosto, mas uma das lentes dos óculos. Não se importou.
Veja...
Ele não via. Não conseguia ver uma saída daquele lugar em que estava.
"Basta olhar para trás. Você irá me ver e então saberá como voltar."
Hannibal.
Então ele sabia onde estava. E sabia quem era. O caminho de volta brilhou a sua frente, alquebrado e tortuoso, todavia perfeitamente perceptível.
E Will soube como regressar.
Abriu os olhos e deu de cara com Crawford parado muito próximo, fitando-o com preocupação acima de qualquer outra coisa.
– Você está bem, Will? O que aconteceu? Está nessa sala há quase uma hora. Tive que entrar...
O rapaz engoliu em seco sem acreditar. Parecia que estivera perdido por meros segundos, menos tempo do que levaria uma simples piscadela. Mas não. Ali estava Jack, declarando que quase uma hora se passara. Uma hora...
Graham até tentou responder, abriu a boca. Nenhum som escapou pelos lábios ressecados. Os olhos arderam, mas teve medo de fechá-los e ao abrir não estar mais ali e sim naquele lugar escuro e solitário, uma prisão em sua própria mente.
Com a experiência adquirida pelos casos investigados Crawford soube que não era o ponto para pressionar seu jovem consultor. Precisava dar-lhe uma pausa.
– Respire, Will. Tire um tempo. Vou enviar o corpo para o IML, e ver como está a cena do crime. Fotografamos tudo o que foi possível antes. Não se preocupe.
Referia-se às pegadas que o moreninho deixara ao esbarrar um pé no sangue da vítima. Tudo o que o rapaz fez foi balançar a cabeça, incerto de ser capaz de encontrar a própria voz para rebater as preocupações de Jack. E, na verdade, nem o queria. Sabia que precisava de um tempo a mais para se reestruturar.
– Limpe o rosto – o agente ainda falou, referindo-se ao sangue e ao suor que se misturavam na face cansada de Graham – Vou deixar orientações com Katz, Zeller e Price e te levo para o hotel. Conversaremos lá.
Mais uma vez Will apenas balançou a cabeça silencioso. Os olhos verdes revelavam o cansaço e confusão que sentia, algo que beirava a exaustão. Mas não fez menção de sair do lugar.
Diante disso Jack fez questão de segurá-lo pelo braço e puxá-lo para fora em busca de algum local mais arejado para esperar que o agente do FBI colocasse tudo em ordem antes de partirem. Porém ao sentir o toque de Crawford, mesmo sobre a jaqueta marrom, Will arregalou os olhos e saltou, afastando-se até colar as costas na parede.
– Will? – o negro agiu com surpresa pela reação inesperada. Não era a primeira vez que fazia aquilo com o rapaz. Então por que ele agira assim?
Acuado, o professor mirou Jack sem se preocupar em evitar o contato visual. Os olhos claros arregalados revelavam choque, medo e; incrivelmente, asco.
– Não me toque – ele falou ofegante. Encarava para o homem do FBI, confuso com o que sentira. O toque parecia mais do que errado. Parecia sujo. Pecaminoso! – Oh!
Num arroubo Will entendeu tudo e a compreensão foi poderosa, roubando-lhe toda a firmeza das pernas. Como em câmera lenta deixou-se escorregar pela parede até sentar-se no chão, diante de um aterrado Jack Crawford.
– Will...?
– Eu entendo agora, Jack. Não sou eu... acho que... passei de qualquer limite e... eu... eu...
Fazia todo sentido do mundo. Aquela raiva que sentira durante a autopsia de Dousset, uma ira quase incontrolável. Então, na conversa com Hannibal percebera a inveja amarga que sentia pelo novo serial killer, por ele ser tão organizado e metódico...
Agora Crawford o tocara e Will sentira nojo, repúdio. O toque soara quase sexy, repleto de sensualidade e segundas intenções.
Ira. Inveja. Luxuria.
Graham tirou os óculos e passou as costas de uma mão pelos olhos, tentando expulsar as lágrimas que teimaram em acumular-se sem permissão. Will soube que não voltara por completo desse mergulho. Trouxera uma parte do assassino, que conseguia fazê-lo empático não apenas ao que acontecera, mas a certo nível de intenções futuras.
Algo que nunca acontecera antes.
– Will... – Crawford tentou chamar a atenção daquele jovem rapaz caído a sua frente, quebrado e tão desprotegido que o fazia se arrepender de tê-lo arrastado para o mundo que provavelmente não o devolveria inteiro – Fale comigo, garoto.
– Eu... estou perdido, Jack.
E nunca tinha sido tão sincero em sua vida antes.
Continua...
