Título: Guilty, the sentence
Autora: Kaline Bogard
Fandon: Hannibal
Ship: Lecter + Will
Classificação: +18
Gênero: slash, suspense, policial, terror
Direitos Autorais: Hannibal não me pertence. Se pertencesse o Will não ia ficar alucinando com um cervo preto, se é que me entende... Contem spoilers da série
Nota inicial:
FELIZ NATAL! Demorei! Mas tenho uma ótima desculpa #pensa# Okay, não tenho. Foi pura preguiça mesmo! Mas eu sei que os leitores dessa fic são fofos e vão perdoar essa pobre autora. Sou profundamente contra linchamentos u.u que fique claro.
Enfim...
Não foi betado! Qualquer erro é culpa minha e apenas minha. Peguem leve xD
Boa leitura!
Guilty, the sentence
Kaline Bogard
Parte 07
Black Rivers, Carolina do Norte
O quarto estava escuro e silencioso ao abrir os olhos. Ele agradeceu por isso, na certeza de que um mínimo de luz faria sua cabeça explodir com o prelúdio da enxaqueca que se aproximava. A boca estava seca e amarga. Tossiu.
Virou-se sobre o colchão. Gotas de suor deslizaram pelo rosto pálido, nascendo nos cabelos ondulados e úmidos. Sentia como se dormisse a eras e, ainda assim, o corpo dolorido reclamava de exaustão.
Já se percebia mais como si próprio, como Will Graham. E envergonhava-se do comportamento do dia anterior. Melhor dizendo, do que podia lembrar-se de tudo o que passara.
Às vezes a memória falhar era uma benção.
Voltou a deitar-se de costas no colchão. Colocou um braço sobre a testa e esforçou-se para organizar suas lembranças.
Fora até a cena de homicídio. Remontara a cena do assassinato daquela loira, que Jack revelara se chamar Joyce Brannon. Tudo seguira mais ou menos o protocolo usual, até que Will se perdera no caminho de volta.
Então houvera a perturbadora cena com Crawford, quando o jovem professor compreendera seu comportamento anormal. Um de seus grandes temores se realizava aos poucos. Parecia ter, finalmente, passado de algum limite crucial.
Depois disso pouco se lembrava do que acontecera. Provavelmente Crawford providenciara para que voltasse em segurança ao hotel, onde se recordava bem de ter tomado uma dose dupla de remédio para dor de cabeça e algo que o ajudaria a dormir.
A combinação se mostrara eficiente. Dormira a noite inteira, sem um maldito pesadelo para alquebrar-lhe o repouso. E, ainda assim, sentia-se como se tivesse dado uma voltinha em um triturador...
Nesse momento o telefone na mesinha de cabeceira tocou. O som reverberou pela cabeça de Will com uma potencia assustadora. O rapaz chegou a encolher-se um pouco antes de esticar o braço e atender o chamado.
– Alô – a voz saiu estranha e com dificuldade – Sim. Estou bem, Jack. Estou usável, não se preocupe. Sim, eu entendo. Me dê dez minutos.
Respirou fundo e fez menção de colocar o fone no lugar. Hesitou por breves segundos, subitamente tomado por uma quase irresistível tentação de ligar para Hannibal. Mas não o fez.
De modo penoso saiu da cama e abriu as cortinas, permitindo que a luz finalmente invadisse o quarto. Não foi tão ruim quanto achou que seria. Uma breve olhada para fora lhe deu a certeza que era mais tarde do que pensava, e isso podia explicar por que seu corpo estava dolorido. Sentia-se assim quando passava do horário em que costumava levantar-se.
Praguejou e rumou para o banheiro, onde tomou um banho rápido e refrescante. Saiu com a toalha na cintura, pingando água no chão e caminhou até a mochila sobre uma cadeira, de onde tirou uma muda de roupa limpa. Aproveitou para pegar dois comprimidos contra dor de cabeça, apenas por precaução e voltou para o banheiro, onde engoliu as pílulas junto com água tomada direto da torneira.
Secou-se rapidamente e vestiu-se. Usou a toalha para tirar o excesso de água dos cabelos ondulados e nem se preocupou em penteá-los. Não ia adiantar muito, preferia que secassem ao natural e, como dizia Hannibal, ficassem uma bagunça.
Voltou para o quarto e permitiu que os olhos se perdessem através da janela do quarto. Os vidros estavam fechados, mas pouco se podia ver: o quarto ficava no sexto andar do hotel. Nem mesmo o céu era visível. Outros prédios ao redor garantiam que a paisagem fosse sem graça e puro concreto erguendo-se rumo às alturas.
Will respirou fundo.
Por um breve instante desejou desaparecer, poder ser como as gotas que pingaram de seu corpo rumo ao piso e evaporar com a temperatura abafada do quarto. Poder ser algo menos tortuoso e doloroso do que... aquilo que era atualmente.
Algo que se erguia dos fragmentos de outras "coisas". Um pensamento de um serial killer aqui, a sensação de uma vítima ali. Pequenas fagulhas que somadas, mesmo que pouco a pouco, formavam uma chama. A chama que começara a consumi-lo. Pois essas pequeninas centelhas vinham no lugar de pequeninas características que deveriam ser as suas. E já não mais existiam.
Se continuasse dessa forma, um dia, Graham olharia no espelho e encararia um estranho. E um estranho do qual sentiria medo...
O som do telefone o trouxe de volta das reflexões sombrias. Não se preocupou em atendê-lo. Era Crawford dizendo que chegara. Com essa certeza em mente recolheu a carteira de cima da mesinha de cabeceira, respirou fundo tentando recuperar-se um pouco mais e saiu do quarto.
H&W
Jack estacionara o carro em frente ao hotel e aguardava paciente que o jovem consultor viesse ter com ele.
– Bom dia – o moreninho foi cumprimentando assim que entrou no automóvel e sentou-se no lado do carona.
– Bom dia, Will – o agente federal respondeu de volta, sondando-o com olhos de águia, certamente em busca de algum sinal de que algo estava errado.
O exame detalhado deixou Graham desconfortável, porém ele não reclamou. Sabia que seu comportamento questionável no dia anterior permitia que Crawford agisse assim legitimamente.
– Ontem eu... – começou a dizer sem jeito. Foi cortado.
– Não se justifique – o mais velho adivinhou do que se tratava – Eu esperava algo de você. O que fez ontem prova que foi muito além do esperado, Will. Temos que aproveitar isso...
A afirmação otimista e segura pegou o rapaz de surpresa. Resolveu por não insistir. Apenas travou o cinto e esperou que o outro desse a partida, porém antes disso Jack esticou-se para pegar algo no banco de trás, uma embalagem transparente com um grande copo em cima.
– Coma, Will.
O moreninho pegou a oferta sem reclamar. Não sentia fome, mas conhecia Crawford bem o bastante para saber que sua única opção era comer. Por isso engoliu o suspiro de resignação e pegou o sanduiche natural. Assim que começou a comer seu humor melhorou bastante. O lanche era bom e o café, que estava no copo, forte do jeito que gostava.
Jack observou por breves segundos, satisfeito em ser obedecido tão prontamente, algo não muito típico daquele jovem gênio. Então ligou o carro e deu a partida.
Fora sincero: Will estava num momento muito propício daquela investigação. Se ele realmente conseguia pensar um mínimo que fosse como o assassino, mas no futuro; então teriam uma vantagem e tanto.
Por esse trunfo seria capaz de qualquer coisa, inclusive forçar o rapaz ao seu lado a cruzar todo e qualquer limite.
H&W
O percurso até o IML demorou o suficiente para que Graham terminasse seu lanche, pois já se aproximava do meio dia e era um dos horários complicados no trânsito.
– Zeller deve ter começado a autopsia – Jack falou quando saltaram do carro. Durante o percurso deixara Will a par de certas coisas, como o impacto da nova morte sobre a imprensa. Dessa vez o caso gerara a polêmica digna de um grande caso. Duas mortes seguidas eram suficientes para começar a gerar uma onda de especulação.
Assassino em série.
Poucas coisas assustavam e fascinavam tanto a humanidade.
Agora a população estaria a par de que um novo serial killer fazia vitimas para a sua coleção. Pessoas que, aparentemente, não tinham nada de anormal. O próximo alvo poderia ser qualquer um.
Crawford sabia que precisavam pegar aquele criminoso o quanto antes. Ou teriam que lidar com uma onda de pânico que sempre seguia assassinatos em série.
Não tiveram qualquer dificuldade para entrar no prédio do governo e rumar para a sala onde a senhora Brannon seria examinada. Aliás, o corpo da loira assassinada já estava em uma bancada, com o agente Zeller terminando de fazer o corte em formato de Y para dar início à autópsia.
– Senhores... – cumprimentou Brian e Jimmy – O que tem a dizer?
– Beverly está na central terminando de colher o testemunho do marido. Confirmamos o álibi, ele estava trabalhando – o agente falou ao desligar a pequena serra.
Will cruzou os braços e ficou um passo atrás, enquanto Jack aproximava-se da mesa de procedimentos.
– Tem o cartão de ponto e testemunhas que o colocam na fábrica de cimento – Price completou a fala do colega – As crianças estavam na escola. Mas os garotos têm quatro e cinco anos. Não são suspeitos, evidentemente.
– Algo em comum entre as vítimas? – Crawford perguntou.
– Estamos confrontando os dados. Não há nada olhando por cima. Nenhum traço físico ou característica. Idades diferentes, histórico familiar aparentemente diferente. Exceto o modus operanti – Jimmy suspirou – Vamos oficializar, mas a causa da morte é hemorragia causada pelo trauma na jugular. O corte foi decisivo...
– Preciso analisar o conteúdo do estômago, mas arrisco um palpite de que o óbito se deu entre nove horas e meio dia.
– Nem o horário foi similar – Price passou a mão pela nuca tensa.
Jack meneou a cabeça e virou-se para o jovem que viera consigo.
– Will...?
Engoliu em seco ao ouvir seu nome sendo chamado.
– O assassino conhecia a ambos. Não são vitimas aleatórias – afirmou fraco.
– Isso nós sabemos – Jack soou impaciente – É o tipo de crime premeditado que exige muita preparação antes. O criminoso deve ter observado por dias, talvez semanas...
– Não – Will cortou a frase e começou a andar pela sala, observando distraído os aparelhos cirúrgicos sobre o balcão – Você não me entendeu, Jack. O assassino conhecia as vítimas. Não de observações sistemáticas, mas de interação, convívio social.
– O assassino é um ponto em comum entre Brannon e Dousset.
Graham parou de andar em frente uma bandeja com diversos bisturis. Ficou observando uma longa agulha utilizada para dar pontos.
– Ele sabe sobre segredos íntimos. Sabia dos acessos de raiva de Dousset. De alguma forma sabia de atos que Joyce Brannon cometia e que julgava como "invejosos". Por isso destruiu-lhe os olhos...
– O que os olhos não vêem... – Brian recitou. As mãos protegidas por luvas de borracha trabalhavam no interior da mulher, colhendo amostras, sujando-se de sangue morto. Um cheiro leve e nauseabundo se sobrepôs ao odor de produto de limpeza. O aroma da morte.
Will piscou e desviou os olhos para um ponto qualquer da parede branca. Relanceou o que Zeller fazia com o corpo sem vida, com suas mãos manchadas de vermelho desaparecendo dentro da incisão, quase um paralelo com...
– Ele conhece as vitimas – repetiu – E entra nelas conhecendo segredos obscuros, que ninguém mais conheceria...
– Ira, Inveja – Crawford mantinha os olhos fixos em Graham – E luxúria, não é Will?
O moreninho ficou visivelmente desconfortável. Jimmy e Brian se entreolharam diante da nova informação. Luxúria? Ainda não sabiam de uma nova vítima.
– Eu... – o rapaz começou a sentir-se acuado. Tinha noção de como pareceria estranho dizer que podia "prever" uma das ações do assassino. Não era exatamente isso, não como um vidente de quinta categoria. Era apenas... um nível de sintonia tão grande que permitia pensar um pouco além. Ele mergulhara tão profundo que trouxera aquilo consigo, impregnado em si a tal ponto de confundir-se e tratar como algo seu. Por pouco tempo, lógico. Apenas pelo tempo da razão voltar. A questão era que, cada vez mais, tal razão demorava a vir – Jack...
– Como sabia disso, Will?
– Eu não...
– Por que "luxúria"? – Jack aproximou-se, fazendo o rapaz recuar. Os outros dois agentes prestaram atenção na cena – Por que, Will?
O moreninho engoliu em seco. Encostou-se na parede, tanto para escapar da proximidade de Crawford quanto para ter algum apoio. Estava difícil pensar em algo que fizesse sentido. Não queria arriscar um palpite acreditando que ainda podia pensar como o assassino. Não podia pensar que carregava algo de um monstro em si.
– Will... como ele sabia?
– Por que... – os olhos verdes voltaram-se para o corpo de Joyce Brannon. As mãos de Zeller pairavam avermelhadas, parecendo flutuar sobre o corte que dividia o osso esterno, prestes a mergulhar novamente na carne sem vida.
– O assassino sabia... – sussurrou – Por que eles disseram.
Jack manteve o silêncio, sentindo que estavam em um ponto importante. Uma palavra sua poderia destruir o insight que Will estava tendo. Mesmo Zeller e Price, geralmente céticos, acompanhavam com interesse predatório.
Graham engoliu em seco. As idéias pararam de girar em sua mente e se alinharam, apontando em uma única direção.
– As vítimas contaram seus segredos mais íntimos. Eles confiavam no assassino. Eles...
Parou de falar e encolheu-se, parecendo subitamente exausto. Jack não se apiedou. Estavam próximos demais para que deixasse Graham fugir do confronto.
– Eles o quê, Will? – pressionou em um tom de voz de comando. Adiantou-se mais um passo.
O moreninho levou a mão ao peito e segurou a frente da camisa. A outra mão, trêmula, foi até os óculos e os tirou da face. A ameaça de uma dor de cabeças daquelas o fez apertar os olhos com força. Ele tinha consciência do que estava prestes a dizer. E de como aquilo soaria...
– Eu... gostaria de falar com o doutor Lecter... – sussurrou tentando desviar a atenção.
– Will, como o assassino sabia? O que eles fizeram...? – o agente não permitiu que seu jovem consultor escapasse da resposta.
E o rapaz deu-se por vencido. Deixou os ombros caírem e voltou a colocar os óculos, atrevendo-se a fitar Crawford direto nos olhos, implorando silenciosamente para que não traíssem seu estado de espírito deplorável.
– Ele sabia por que... – hesitou breves segundos antes de continuar – Por que as vitimas confiavam nele para contar o segredo mais íntimo. As vitimas... confessaram.
Zeller praguejou. Crawford levou as mãos às têmporas e massageou de leve. Porém quem revelou a surpresa e incredulidade de todos foi Brian.
– Você está dizendo – afirmou em um tom de voz alto e claro, debochando do jovem consultor – que o assassino é um padre?!
Continua...
Nota final:
É... estamos em reta final. Mais um ou dois capítulos e essa fic chega ao fim! Foi um longo percurso, mas foi divertido. Vou tentar postar o próximo rapidamente. Mas não garanto. Ando com uma preguiça desgraçada de digitar fics, rsrsrsrsr, as idéias vem, mas eu ligo a TV e fico brisando deitada na cama. As férias me deixaram preguiçosinha. Agora olhem pelo lado bom: me empolguei e o capitulo ficou enorme!
Mas agradeço de coração a todos que continuam acompanhando, sem desistir do texto. Eu ia enrolar um pouco mais, porém chegou um review lindo e me encheu de vergonha na cara, daí eu vim atualizar xD
É por vocês que eu não enrolo mais ainda!
Abraços e até a próxima!
